O Mundo sem Anéis – Mariana Carpanezzi

Li o livro de Mariana Carpanezzi em duas longas sessões. Comecei em uma tarde e terminei no outro dia de manhã. É um livro que prende a atenção do leitor. Gostei das dúvidas iniciais de Mariana sobre o trabalho, sobre a Europa, sobre os compromissos. Gostei da forma como, quase sem preparação, ela caiu na estrada, de bicicleta, e de como a viagem deu a ela algumas respostas.

Gostei da descrição das dificuldades do ciclista viajante, o calor, a monotonia, as longas subidas, a chuva, a sede, que são as agruras de todos nós que nos lançamos nesse tipo de aventura.

Senti falta de mapas, de algumas fotos e de uma descrição mais detalhada e sequenciada dos acontecimentos. Nesse último aspecto, foi uma decisão da autora narrar os fatos de forma mais fluida, menos descritiva e mais perceptiva. Entretanto, penso que o leitor sente falta de mais detalhes do cotidiano e da sequência da viagem.

Condomínio

Ele alugava um pequeno apartamento de um quarto no centro da cidade, perto da grande praça onde ficava a catedral. A praça da catedral, como chamavam, era agradável, com árvores grandes e muita sombra. Aos sábados, acontecia ali uma feira de livros usados. Na direção do rio, havia outra praça, quase sem árvores, uma esplanada. Uma avenida movimentada separava a praça vazia do rio. Aquele rio desembocava no mar, alguns quilômetros ao sul do centro da cidade.

         Certo dia, a síndica do prédio deixou recado, pois precisava falar com ele a respeito de problemas de infiltração do apartamento alugado. Contrariado por desperdiçar uma parte de sua noite, ele subiu ao apartamento da síndica. O apartamento era completamente organizado, quase cheio demais de pequenos objetos de decoração. Toalhinhas, florezinhas, bichinhos. Apartamento de velha, ele pensou. A síndica, que ele não conhecia, lhe pareceu uma velha comum. Não era encarquilhada, entretanto, e devia ter mais de sessenta anos, uma velha na qual ninguém prestaria atenção. Trataram dos assuntos de infiltração, havia um serviço para ser feito na circulação do andar dele, na parede que era a da sua cozinha.

         Por causa do andamento dos serviços, ele teve que voltar duas ou três vezes ao apartamento da síndica. Em uma das vezes, notou que a mulher estava vestida de forma diferente das anteriores, usava uma blusa decotada, um pouco folgada, e dava para ver os peitos dela, não usava sutiã. Ele desviava o olhar, não queria ver os peitos da velha. Em outra noite, a mulher passou por trás da cadeira onde ele estava sentado e roçou o corpo no braço e nas costas dele. Ela usava um vestido estampado e colado ao corpo. Não era um corpo belo, era desarrumado, mas tinha suas curvas, exageradas, às vezes, quebradas. Quando a reunião terminou, ao se levantar para sair, a senhora o encostou contra a parede. Contra a vontade dele, seu pau ficou duro no contato com o corpo da velha. Ele sentia nojo e tesão, ao mesmo tempo. Trepou com a velha ali mesmo na sala arrumadinha. Mamou seus peitos fartos e moles de velha, meteu os dedos na buceta, mordeu o pescoço dela, beijou sua boca e suas rugas. A velha trepava com ânsia, tesão, resfolegava, gemia, quase gritava.

         Depois da trepada, ele quase correu de volta ao seu apartamento, fugia da velha, tomou banho, esfregou sabonete, queria se livrar do contato e do tesão.

         Tornou-se viciado em foder com a senhora. Ela deixava recados para que ele subisse, ele evitava o máximo que conseguia. Saía do apartamento para caminhar na calçada da margem do rio, ia ao cinema, ia de bicicleta até a praia. Mas sempre haveria uma noite em que ele não resistiria e subiria. Passava dias relembrando cada foda. A velha sabia foder, conhecia novidades, fetiches, perversões, gozava e fazia gozar. Ele sentia vergonha, medo que descobrissem que ele comia a velha, sentia desejo, tesão, simpatia.

         Cancelou o aluguel do apartamento, pagou uma multa, alugou um apartamento perto do mar, longe do centro e do seu trabalho, que também se situava ali perto da catedral e do rio. Evitava passar pela praça da catedral. Agora, só passeava pela praia. Conheceu, no calçadão da praia, uma mocinha magrinha e tímida que usava um biquíni azul bem-comportado. Namoraram, casaram, tiveram filhos, ele ficou velho, triste e solitário como todos os velhos, e nunca esqueceu a velha senhora.

Rio abaixo

Seu nome era Rosane. Ela não gostava desse nome que terminava na letra e. Rosane havia trabalhado por muitos anos naquele país que não era o seu de origem. Conseguira a cidadania. Era separada e não tinha namorado. Decidiu fazer uma viagem de alguns meses, a pé, na maior parte do tempo. Uma peregrinação, sem a porção religiosa. Conseguiu uma licença do trabalho e partiu. Uma espécie de ano sabático reduzido. Caminhou, pegou ônibus e trem, nunca ficava muito tempo parada em um só lugar. Acampava e cozinhava.

Muitos meses depois, sem um motivo que lhe fosse evidente, escolheu ficar mais tempo em uma pequena cidade. Havia perdido o antigo emprego, pois não voltara ao fim da licença. Suas economias estavam acabando. Passava algumas horas por dia na biblioteca da vila. Conseguiu um emprego temporário na biblioteca, o salário era bem pequeno e ela morava no camping da cidade, em sua tenda de dois lugares. Trabalhou em cafés e restaurantes. Conseguiu trabalho fixo no camping, durante os meses quentes. Nos meses frios, trabalhava no serviço de limpeza da pequena universidade local.

Esquecera toda a sua formação superior e gostava de fazer trabalhos braçais e humildes. A dona do camping permitiu que ela ocupasse um antigo motor-home que fora abandonado lá havia muitos anos. Rosane restaurou o equipamento. Falava pouco, nunca falava de sua vida anterior, trabalhava bastante, caminhava quando estava de folga e lia muito.

Teve um caso breve com um homem casado. Ele vendia tortas e doces caseiros em uma van, deslocando-se pela região, e parando no camping vez em quando. O caso acabou abruptamente quando a mulher dele descobriu e a ameaçou com um machado. O homem da van deixou de aparecer no camping. Aparentemente, esse fora seu único relacionamento íntimo desde que chegara àquela cidade.

Tornou-se uma mulher madura e, depois, uma mulher velha. Ainda trabalhava e fazia longas caminhadas. Não viajava e nunca saiu daquela região desde o dia em chegara. Gostava da repetição dos dias, dos meses, das estações. Em seu último passeio pela região, no inverno, escorregou, caiu no rio e morreu, hipotermia, disseram. Tudo isso foi dedução da polícia local, pois o corpo foi encontrado rio abaixo, bem longe dos lugares por onde ela costumava passear. Havia poucos objetos em seu motor-home e absolutamente nada de valor. Não havia endereços nem cartas. Não havia a quem avisar. Foi enterrada no cemitério da cidade. Compareceram a dona do camping, alguns funcionários do serviço de limpeza da universidade e o professor de literatura inglesa.