Carta ao irmão

Paris, 26 de dezembro de 2008

Olá Mano:

Hoje, eu e Mateus saímos para um passeio no Marais. É bairro que concentra as galerias de arte. Embora, a gente não possa julgar a arte atual daqui pelo Marais. O Marais não se arrisca muito. Não há quase nada daquilo que chamamos de contemporâneo – mas você sabe que não concordo com essa palavra. Apenas para você saber que o Marais, com alta concentração de galerias, não aborda o contemporâneo. Talvez o Marais seja apenas para turistas. Mas andando por Paris toda, por todos os lugares por onde já andei, nunca se encontra nada muito bizarro em termos de arte.

Andando pelo Marais, vimos algumas coisas que já estavam por lá no outono de 2007, e algumas coisas novas. As coisas mais experimentais, mais contemporâneas portanto, encontramos em um lugar chamado, se não me engano, Des Blancs Manteaux, algo parecido com um mercado desativado e reutilizado. Lá havia uma exposição de vários artistas, em boxes meio improvisados, separados com panos pretos. Havia coisa boa e coisa ruim. Havia idéias boas, mas pouco trabalhadas. Alguns bons, eu peguei o cartão com o site, depois te digo. Nas galerias tradicionais, entramos sempre, olhando os trabalhos. O figurativo e a paisagem imperam. Os bronzes são frequentes, mas muito parecidos entre diferentes artistas.

Passamos por uma entradinha e entramos, de relance. Havia uma galeria só de fotografias, boas fotografias. A galeria se chamava The Yellow Korner, nome esquisito aqui em Paris. Muitas fotos boas à venda. A gente se assustou com as fotos de um japa, nem decorei o nome, mas as fotos custavam simplesmente três mil euros. As outras fotos expostas, e à venda, estavam entre 150 e 500 euros.

As galerias do Marais são sempre pequeninhas, um pequeno salão, às vezes com uma parte em baixo, a cave. Geralmente, uma musiquinha tocando em um computador, uma pessoa para atender, o catálogo da exposição atual para vender a 15 euros e o pôster da exposição a 10 euros. O convite ou o folder é de graça e, quando eu gostava da exposição, pegava um. Em geral, novamente, os atendentes são simpáticos ou te ignoram. Sempre damos um bonjour na entrada, um au revoir na saída. O au revoir com a pronúncia típíca, que a gente vai pegando, assim “ôr-voar”, meio emendado. Alguns galeristas se oferecem para qualquer informação, em inglês quando percebem que a gente não entende o francês. A galeria que mais gosto, e que visitei de novo, é a de Pierre e Marie Vitoux. Ela, Marie, me disse, da vez anterior, que enviasse algo do meu trabalho para ela ver. Claro que não enviei. Dessa vez, deixei o cartão de Nino, e ela nos mostrou os trabalhos que estavam expostos, de três artistas. Um fazia desenhos, bons desenhos bem rabiscados em papel branco, e uma mulher da Austrália fazia pinturas meio aborígines, meio ingênuas de propósito. Marie tem uma preferência explícita por figurativos. Acho que o marido dela já morreu, tem uma foto dele por lá. E a galeria está fazendo 20 anos, e tem uma foto de Marie bem mais jovem, e era uma mulher bem bonita. Quero passar lá de novo e tentar conversar mais com ela, ela não fala bem inglês, nem eu, então é um pouco difícil.

Em outras galerias, encontramos pinturas e também fotos trabalhadas em computador. Eu não gostei, Mateus gostou. Para mim, ficou parecendo aquilo que qualquer adolescente faz com as fotos da namorada, colocar uns efeitos por cima, uns rabiscos por cima, estourar a foto. Muita coisa parece idéia velha, coisa repetida. Algumas poucas são muito boas.

Depois da caminhada, fomos ao Museu Picasso. Toda vez que venho vou lá, e vale a pena pois a exposição sempre muda e muitos quadros viajam e voltam, então sempre vejo coisas novas. Dessa vez, vi alguns quadros famosos de Picasso que nunca tinha visto ao vivo, Paul vestido de arlequim, Celestina, um auto-retrato dele com barba, muito bonito, alguns estudos para Demoiselles d’Avignon, uma Dora Maar muito bom e por aí vai. Estava aqui também dessa vez, a escultura da cabra de gesso e palha de coqueiro, e a escultura do macaco em que a cabeça é um carrinho de brinquedo.

Alguns cadernos de anotações dele estavam expostos também. Algumas coisas curiosas: uma série de pequenos “arranjos” de objetos e recortes de papelão arrumados nas costas de telas, onde a madeira servia de moldura para a composição, e tudo coberto com uma areia cor de chumbo; também duas telas grandes onde ele usou pregos e fios; e uma tela enorme feita com colagens de papel e colagem de pequenos mapas-mundi repetidos – essa eu também nunca tinha visto em livros. Havia outra tela, uma mulher gordinha deitada, o desenho era bonito e algumas partes de tinta branca, isso sobre tela e papéis muito mal colados. Havia uma parte do museu dedicado ao Picasso colecionador, com quadros que ele havia comprado, de Le Douanier, Cézanne, Matisse. Pensava mesmo voltar lá outro dia. Ainda tenho que ver a exposição de Pollock que está na Pinacoteca daqui. E ainda mais um bocado de exposições.

O tempo está cada vez mais frio, mas sempre com céu completamente azul e sol. Hoje ficou em torno de 4 graus. Mas dá para andar na rua sem problemas, agasalhado. Com o dia bonito, não dá vontade de entrar em museus, a gente quer mais é estar passeando na rua. O sol não esquenta nada. Sentamos ao sol na Place des Vosges e nada de esquentar, e vento frio. O dia amanhece tarde e escurece cedo, inverno é assim, naturalmente.

É isso, abração.

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