Franzen e eu

Sou uma escritora, escrevo todos os dias durante algumas horas, pela manhã, preferencialmente. O rapaz, então, perguntou quais eram os meus livros, quantos livros, onde encontrá-los. Respondi que havia alguns deles na livraria digital, eram livros eletrônicos. Ele disse: – Ahh…

Eu compreendi isso como “assim é fácil”.

Visitei a cidade onde acontecia uma feira de livros. Nunca fui, nunca vou em feira de livros, penso que tudo aquilo é inútil. Escritores não devem falar e debater, escritores devem escrever. Livros aos milhares não me servem para nada, não consigo nem mesmo ler um livro por semana.

Entretanto, encontrei e conheci, superficialmente, claro, o escritor Jonathan Franzen.

Eu: – Como faço para ser uma escritora?

Franzen: – Escreva todos os dias, não importa o quê.

– O seu sucesso como escritor foi sorte ou talento?

– Nada de sorte, foi dedicação, vocação, algum talento.

– Quando não está escrevendo um livro, você escreve todos os dias?

– Sim, eu escrevo todos os dias, sejam cartas, tentativas de contos, projetos de livros e, claro, procuro manter um diário, que é uma maneira de exercitar a escrita e o pensamento criativo. Descrevo as pessoas e lugares onde estive, as conversas que mantive, as notícias que li e que me chamaram a atenção.

– Para quem você escreve?

– Em geral, respondo a essa pergunta dizendo que escrevo para ninguém, mas isso não é a inteira verdade. Escrevo para um amigo inespecífico, um amigo imaginário, ou, você pode denominar assim, um leitor imaginário. Não conseguiria escrever se pensasse em alguém específico. Tenho um grande amigo que mora em Saint Louis, tenho uma ex-esposa e amiga que mora em Seattle. Se fosse escrever pensando em um deles, ficaria bloqueado, pois sei o que cada um gosta, sei o que poderia ofendê-los, e assim por diante.

– Martin Amis diz que o sexo não é descritível, não é narrável, algo assim, não recordo exatamente as palavras dele. Observo que não há cenas de sexo em seus romances, pelo que me lembro. O que você pensa sobre isso?

– Não sei se não há cenas de sexo em meus livros, teria que pesquisar, mas lembro vagamente de algo entre Walter e sua assessora e, também, entre Patty, a esposa de Walter, e Richard, o amigo de ambos. Mas, tenho certeza de que é algo discreto. Não saberia escrever uma cena de sexo com crueza, não gosto das palavras cruas relacionadas ao sexo e não gosto das palavras cultas. Por outro lado, não gosto quando encontro uma cena de sexo no meio de um livro qualquer, me parece desnecessário e, às vezes, constrangedor. Não bastaria dizer que aqueles dois dormiram juntos? Entretanto, o sexo está presente em todos os meus romances, pois somos movidos por ambição, sexo, amor, desejos, dinheiro. A vontade do sexo, o desejo pelo outro, o tesão, tudo isso é inerente a quase toda história.

– Você ficou rico?

– Não dá para ficar rico como escritor. No meu caso, deu para ter uma vida confortável. Viajo muito a convite e não pago as minhas passagens e hotéis. Mas, no cotidiano, é o tipo de vida de um gerente de banco, um funcionário qualquer, com um pouco mais de liberdade. Entretanto, tenho que conviver com altos e baixos na minha receita. Não é fácil, embora eu saiba que estou acima da média da população americana.

Franzen e eu conversamos em um bar de esquina, uma mesa do lado de fora. Bebemos cerveja e ele fumava. Havia música no sistema de som do bar, samba. Um casal alemão bebia e conversava na mesa vizinha. A dona do bar, baixinha, cabelos pretos, longos, se chamava Paloma. Era final de tarde e as pedras da cidade estavam com um tom amarelado.

Perdido em Marte – trechos

“Meu Deus, eu daria qualquer coisa para conversar cinco minutos com alguém. Qualquer pessoa, em qualquer lugar. Sobre qualquer assunto.

Sou a primeira pessoa a ficar sozinha em um planeta inteiro.

Tudo bem, chega de lamentações. Estou conversando com alguém: a pessoa que ler este diário. É um pouco unilateral, mas vai ter que bastar. Talvez eu morra, mas alguém vai saber o que eu tinha a dizer.”

(…)

“Durante os dias maçantes, estou assistindo a O Homem de Seis Milhões de Dólares, parte da inesgotável coleção de lixo dos anos 1970 de Lewis.

Acabei de assistir a um episódio no qual Steve Austin luta com uma sonda venusiana russa que pousou na Terra por engano. Como especialista em viagens interplanetárias, posso dizer que não há nenhuma imprecisão técnica na história. É bastante comum sondas pousarem no planeta errado. Além disso, a fuselagem grande e com painéis planos da sonda é ideal para a atmosfera venusiana de alta pressão. E, como todos nós sabemos, as sondas muitas vezes se recusam a obedecer diretrizes, optando, em vez disso, por atacar seres humanos à primeira vista.”

Andy Weir – Perdido em Marte.

Perdido em Marte – Andy Weir

Terminei a leitura de Perdido em Marte, de Andy Weir. Não é e nunca vai ser um clássico. É um bom livro de aventura e ficção científica. O livro nos mantém interessados todo o tempo. Há um excesso de explicação sobre soluções técnicas. O autor quis fazer um livro com suficiente embasamento nos reais programas espaciais norte-americanos. Entretanto, há falhas. A maior delas são as tempestades de areia que o autor faz acontecer em Marte. O próprio autor declara mais de uma vez que Marte quase não tem atmosfera, portanto tais tempestades são impossíveis de acontecer.

O astronauta Mark Watney fica sem comunicação nenhuma e sai em busca de uma das sondas que foram deixadas anteriormente no planeta. O astronauta lembra de tudo e é inteligente acima da média, mas não lembra de escrever uma mensagem no solo, com pedras, visto que Marte é constantemente fotografado por satélites. Muito mais tarde, esse recurso é utilizado por ele.

A tripulação que o deixou no planeta, acreditando que estava morto, parte na nave Hermes de imediato. Ora, o livro diz que a nave teria vinte e quatro horas para partir, não precisava ser de imediato. A tripulação chocada e abalada ficaria, é evidente, o tempo que fosse possível na órbita de Marte para tentar conseguir contato ou, ao menos, localizar o corpo de Watney. Com esse comportamento natural, a tripulação veria, da mesma forma que o controle na Terra viu, tempos depois, a movimentação na base marciana, o que indicaria que Watney estava vivo.

Essas falhas são truques do autor para que a trama pudesse ocorrer e incomodam o leitor atento. É uma ficção científica que se pretende mais científica do que ficção e, dessa forma, incorre em falhas científicas, como a da tempestade. Prefiro a ficção científica que não explica os cálculos de combustível para uma decolagem. Apesar de tudo, é um livro divertido, instigante, uma leitura leve e que prende o leitor, entretanto descartável em boa medida.

Carta a Kariênina

Querida Kariênina:

Estou em uma cidade sem nome e sem identidade. Uma cidade sem rio, sem mar, sem montanha, sem castelo, sem igreja antiga.

É curioso, querida, que estou lendo um livro sobre um personagem cujo nome começa com K e no qual a história se passa em um castelo. O próprio personagem se dá conta disso: sou um K e estou em um castelo. Penso que o autor, sabendo que a semelhança seria notada, ainda mais por citar Kafka em algum trecho da história, decidiu que o personagem mesmo apontaria a semelhança. Não sei se era necessário. Melhor deixar implícito.

Nesta cidade indistinta, amorfa, em que estou morando, em um apartamento pequeno no sexto andar de um prédio do centro, tenho meus livros comigo. Pedi a minha mãe que os embalasse e enviasse, depois que cheguei aqui.

Alguns dias atrás, passei os olhos na prateleira dos livros em busca de qualquer coisa para passar os olhos. Puxei o livro de Martin Amis, “A Viúva Grávida”. Minha memória me dizia que eu não gostara do livro. Abri a capa, a folha de rosto continha o título e uma anotação à lápis: “irregular, mas muito bom”. Até me surpreendi. Recomecei a leitura do livro. O pior desse livro são os diálogos. Não consigo definir bem o motivo, mas os diálogos me irritam. Talvez por parecerem artificiais demais.

Esta cidade sem nome em que estou, para a qual fui enviada a trabalho, também me irrita. De fato, essa cidade me enlouquece, me sinto a doida da cidade, andando para cima e para baixo em busca de uma referência.

Eu não deveria ter usado “para cima e para baixo”, pois esta cidade é completamente plana. Deveria ter dito “para um lado e para o outro”.

Esta cidade me enlouquece por sua falta de referências. Caminho, nas horas vagas, e as ruas iguais se sucedem, prédios iguais, casas iguais, tudo feio e repetitivo, parece um pesadelo.

A sua cidade K, que foi minha também, é feia, mas, pelo menos, há pontos de respiração, há indícios, há lugares. Não é todo dia que, na sua cidade, o morador vai até o rio, ou até a praia, mas o rio está ali, naquela direção, a praia está ali, outra direção. Os morros, às vezes distantes, também fornecem essa sensação de pertencimento a um lugar.

Nesta cidade em que estou não parece nem mesmo existir um mínimo de planejamento urbano. As leis municipais condicionam, em geral, a formatação da cidade. Aqui não parece existir tal condicionamento. Olho da varandinha do sexto andar: um prédio enorme, um pequeno, casas comerciais, estacionamentos, outros prédios que pipocam aqui e ali. Parece que jogaram um monte de bloquinhos aleatoriamente sobre o território. Tudo feio.

A cidade tem um milhão de habitantes. Tento compreender como é morar aqui, como os habitantes podem gostar desse amorfo. Não tenho namorado ou amigas aqui, ainda. Isso faz de mim uma potencial escritora, pois se diz que o escritor é aquele que se mantém calado nas festas, jantares, bares, observando e anotando mentalmente.

Assim estou. Vou a bares e restaurantes sozinha, como, bebo e observo os casais nas mesas, os grupos de amigos ou conhecidos. De certo modo, talvez esse seja um tempo triste ou inóspito para o romance, a amizade, a conversa e para a criação literária. Casais sentam juntos para jantar, mas cada um pega seu telefone e fica lendo e escrevendo.

Faço tudo a pé. Quando fui transferida para cá, procurei um apartamento perto do trabalho, algumas quadras. O centro, onde moro, tem uma boa quantidade de serviços, lojas, restaurantes. Perto do meu prédio, o Largo do Terço. Quando lia esse nome no mapa, esperava encontrar uma igreja de mesmo nome. Entretanto, não há nem vestígio de igreja ali. O largo é uma grande área retangular vazia. Ao menos não foi entregue aos automóveis, é uma área de pedestres, mas apenas para a passagem. Nada incita o pedestre a parar e usufruir da cidade. Não há bancos, não há sombras, não há árvores, não há bar ou quiosque. Duas bancas de revistas em um dos lados menores do retângulo. É um grande salão dos passos perdidos a céu aberto. Atravessando a rua em um dos lados maiores, há um botequim do tipo que prefiro, com mesas na calçada. Gosto de sentar ali, um livro e um lápis, um chopp gelado, só vende chopp, nenhum outro tipo de bebida. Leio um pouco, olho as pessoas que atravessam o largo.

Por enquanto, é o que tenho.

Abraços, Renata.