Carta a Kariênina

Querida Kariênina:

Estou em uma cidade sem nome e sem identidade. Uma cidade sem rio, sem mar, sem montanha, sem castelo, sem igreja antiga.

É curioso, querida, que estou lendo um livro sobre um personagem cujo nome começa com K e no qual a história se passa em um castelo. O próprio personagem se dá conta disso: sou um K e estou em um castelo. Penso que o autor, sabendo que a semelhança seria notada, ainda mais por citar Kafka em algum trecho da história, decidiu que o personagem mesmo apontaria a semelhança. Não sei se era necessário. Melhor deixar implícito.

Nesta cidade indistinta, amorfa, em que estou morando, em um apartamento pequeno no sexto andar de um prédio do centro, tenho meus livros comigo. Pedi a minha mãe que os embalasse e enviasse, depois que cheguei aqui.

Alguns dias atrás, passei os olhos na prateleira dos livros em busca de qualquer coisa para passar os olhos. Puxei o livro de Martin Amis, “A Viúva Grávida”. Minha memória me dizia que eu não gostara do livro. Abri a capa, a folha de rosto continha o título e uma anotação à lápis: “irregular, mas muito bom”. Até me surpreendi. Recomecei a leitura do livro. O pior desse livro são os diálogos. Não consigo definir bem o motivo, mas os diálogos me irritam. Talvez por parecerem artificiais demais.

Esta cidade sem nome em que estou, para a qual fui enviada a trabalho, também me irrita. De fato, essa cidade me enlouquece, me sinto a doida da cidade, andando para cima e para baixo em busca de uma referência.

Eu não deveria ter usado “para cima e para baixo”, pois esta cidade é completamente plana. Deveria ter dito “para um lado e para o outro”.

Esta cidade me enlouquece por sua falta de referências. Caminho, nas horas vagas, e as ruas iguais se sucedem, prédios iguais, casas iguais, tudo feio e repetitivo, parece um pesadelo.

A sua cidade K, que foi minha também, é feia, mas, pelo menos, há pontos de respiração, há indícios, há lugares. Não é todo dia que, na sua cidade, o morador vai até o rio, ou até a praia, mas o rio está ali, naquela direção, a praia está ali, outra direção. Os morros, às vezes distantes, também fornecem essa sensação de pertencimento a um lugar.

Nesta cidade em que estou não parece nem mesmo existir um mínimo de planejamento urbano. As leis municipais condicionam, em geral, a formatação da cidade. Aqui não parece existir tal condicionamento. Olho da varandinha do sexto andar: um prédio enorme, um pequeno, casas comerciais, estacionamentos, outros prédios que pipocam aqui e ali. Parece que jogaram um monte de bloquinhos aleatoriamente sobre o território. Tudo feio.

A cidade tem um milhão de habitantes. Tento compreender como é morar aqui, como os habitantes podem gostar desse amorfo. Não tenho namorado ou amigas aqui, ainda. Isso faz de mim uma potencial escritora, pois se diz que o escritor é aquele que se mantém calado nas festas, jantares, bares, observando e anotando mentalmente.

Assim estou. Vou a bares e restaurantes sozinha, como, bebo e observo os casais nas mesas, os grupos de amigos ou conhecidos. De certo modo, talvez esse seja um tempo triste ou inóspito para o romance, a amizade, a conversa e para a criação literária. Casais sentam juntos para jantar, mas cada um pega seu telefone e fica lendo e escrevendo.

Faço tudo a pé. Quando fui transferida para cá, procurei um apartamento perto do trabalho, algumas quadras. O centro, onde moro, tem uma boa quantidade de serviços, lojas, restaurantes. Perto do meu prédio, o Largo do Terço. Quando lia esse nome no mapa, esperava encontrar uma igreja de mesmo nome. Entretanto, não há nem vestígio de igreja ali. O largo é uma grande área retangular vazia. Ao menos não foi entregue aos automóveis, é uma área de pedestres, mas apenas para a passagem. Nada incita o pedestre a parar e usufruir da cidade. Não há bancos, não há sombras, não há árvores, não há bar ou quiosque. Duas bancas de revistas em um dos lados menores do retângulo. É um grande salão dos passos perdidos a céu aberto. Atravessando a rua em um dos lados maiores, há um botequim do tipo que prefiro, com mesas na calçada. Gosto de sentar ali, um livro e um lápis, um chopp gelado, só vende chopp, nenhum outro tipo de bebida. Leio um pouco, olho as pessoas que atravessam o largo.

Por enquanto, é o que tenho.

Abraços, Renata.

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