O Papa-figo

No Instituto de Medicina Legal, um corpo de indigente para ser necropsiado. Está sem o fígado. O médico de plantão registra o fato no relatório, indigente, ferimento longo e profundo com instrumento cortante, fígado ausente. O funcionário da administração recebe o relatório e percebe que já viu isso antes. Consulta a lista de necrópsias dos últimos cento e oitenta dias. A observação “fígado ausente” aparece em alguns casos. O funcionário comunica o fato ao diretor.

O diretor ordena uma pesquisa para os últimos trezentos e sessenta e cinco dias e recuos de seis meses até não encontrarem mais casos semelhantes. Os casos limitavam-se a nove no período de doze meses. O diretor e sua equipe preparam um relatório detalhado e o encaminham para o secretário de Segurança Pública.

O secretário não lê o relatório, deixa de lado. Meses depois, um jornalista do caderno de cotidiano do jornal local é chamado para cobrir a retirada de um corpo que flutuava no rio, no centro da cidade. O jornalista ouve quando um dos membros da equipe do IML comenta, durante a colocação do corpo na embalagem, “deve ser mais um sem fígado”.

O jornalista faz perguntas e consegue chegar até o diretor que o informa do relatório enviado ao secretário. O caso se torna manchete do jornal, o secretário é obrigado a se manifestar, diz que designara um delegado para o caso meses antes, o caso estava sendo investigado. O secretário, então, consulta o chefe da polícia e juntos escolhem um delegado para cuidar do caso. O escolhido é um delegado em fim de carreira, experiente, apático, desinteressado das questões policiais, espera a data em que poderá se aposentar e não quer problemas.

O caso não cai no esquecimento, como todos esperavam. Novas vítimas surgem e os jornais fazem escândalo. O delegado é obrigado a investigar de verdade e aumenta a equipe responsável pelo caso. Fazem pesquisa sobre as vítimas, mapeamento dos locais de desova e dos prováveis locais do crime. Revisam as necrópsias, recuperam as gravações de câmeras das regiões analisadas e pedem a ajuda da população. O jornalista vive no pé do delegado.

O delegado, inicialmente relutante, adquire interesse no caso e, paralelamente, certo interesse na vida e na própria saúde. Ele pensa estar próximo da solução do caso, a equipe é proibida de dar entrevistas e de revelar qualquer detalhe das investigações. O delegado prepara uma operação especial, que acontecerá na madrugada. A equipe invadirá o lugar onde, se acredita, o criminoso mora e efetua os crimes. No final da tarde do dia anterior à operação, o delegado caminha no parque da cidade quando é atacado à facadas, na hora de maior movimento. O criminoso consegue matar o delegado e escapar entre os frequentadores do parque. O jornalista, que seguia o delegado quase todo o tempo, estava no parque e corre atrás do criminoso, mas perde-o de vista.

A equipe antecipa a operação e invade o local investigado. Encontra evidências de que o criminoso morava e executava ali os crimes, mas não encontra o indivíduo. Ele jamais será encontrado, apesar da divulgação de suas fotografias. O nome do criminoso permanece desconhecido.

O jornalista escreve um livro de sucesso, “O Papa-figo”, ganha prestígio e tem uma carreira próspera como jornalista investigativo e escritor de histórias policiais.

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