Vozes de Tchernóbil: A história oral do desastre nuclear – Svetlana Aleksiévitch (2016)

Vozes de Tchernóbil: A história oral do desastre nuclear – Svetlana Aleksiévitch (2016).

Gostei muito do livro, entretanto esperava mais dele. A qualidade do livro é deixar que as pessoas contem como foi para elas a terrível tragédia da explosão do reator nuclear, a evacuação, as doenças, o preconceito, a insistência em morar na zona de exclusão. É relevante destacar que a tragédia ocorreu em 1986, quando ainda existia o “povo soviético”, algo que acabou com a queda do Muro em 1989. Assim, além da explosão da usina, houve quase paralelamente a explosão da União Soviética. Os países, hoje independentes, mais atingidos foram a Ucrânia, onde se localiza a usina, e a Bielorrússia, país vizinho à usina nuc lear e para onde se dirigiu a nuvem radioativa.

O que não gostei: a autora deixa as pessoas falarem livremente, sem buscar conduzir a conversa para o tema do livro. Desse modo, ocorrem digressões desimportantes e, por vezes, entediantes. Penso que a entrevistadora deveria ter puxado mais pelos entrevistados, bastariam umas poucas perguntas para balizar e concentrar os depoimentos. Outro ponto falho é que o nome e a identificação da pessoa que fala só é colocado ao final do trecho e, muitas vezes, é relevante saber quem está contando aquela história, um liquidador?, um técnico da usina?, uma moradora da zona de exclusão? Saber a identidade da pessoa dá sentido a cada monólogo.

Trechos:

“No hospital, nos últimos dias, eu levantava a mão dele e os ossos se moviam, dançavam, se separavam da carne. Saíam pela boca pedacinhos do pulmão, do fígado. Ele se asfixiava com as próprias vísceras. Eu envolvia a minha mão com gaze e a enfiava na boca dele para retirar tudo aquilo… É impossível contar isso! É impossível escrever sobre isso!”

“Hoje eu só espero a morte. Morrer não é difícil, mas dá medo.”

“Até hoje tenho diante dos meus olhos o clarão cor de framboesa brilhante, o reator parecia iluminar-se de dentro. Uma luz incrível. Não era um incêndio comum, era uma luz fosforescente. Era lindo. Se esquecermos todo o resto, era muito bonito. Eu nunca tinha visto nada igual nem no cinema, nada que pudesse ser comparado àquilo.”

“Vimos uma mulher jovem sentada num banco junto à sua casa amamentando o filho. Testamos o leite do peito: radiativo. A virgem de Tchernóbil…”

“Eu sei a carga que é uma pessoa velha, os filhos te aguentam, aguentam e no final te ofendem. Os filhos te dão alegrias quando são pequenos.”

“A minha filhinha pequena… O tifo a consumiu durante a guerra. Assim que a depositamos na sepultura, o sol saiu de detrás das nuvens. Brilhava tanto… Dava vontade de voltar e desenterrá-la.”

“Ninguém comprovava a medição das doses. Enfim, o caos russo de sempre. Assim vivemos.”

“Tenho refletido muito. Buscado um sentido, uma resposta. Tchernóbil é uma catástrofe da mentalidade russa. Você nunca pensou nisso? Certamente estou de pleno acordo com os que escrevem que não foi o reator que explodiu, mas todo o sistema anterior de valores. Mas essa explicação ainda não me é suficiente.”

“Não gosto de ligar a televisão e de ler jornais. Lá só matam e matam. Na Tchetchênia, na Bósnia, no Afeganistão. Isso me faz perder a razão e corrompe a minha visão. O horror se tornou habitual, até mesmo banal.”

“Nós nos transformamos de tal forma que o horror que hoje passa nas telas precisa ser ainda mais terrível que o de ontem. Caso contrário, não mete medo. Nós cruzamos a linha.”

“O homem se levanta de manhã cedo. Inicia a sua jornada. E não se detém para pensar na eternidade, os seus pensamentos estão no pão de cada dia. Mas você quer que a gente pense na eternidade. É o erro de todos os humanistas.”

Além da impressionante tragédia que atingiu milhões de pessoas, surpreendeu-me a enorme semelhança entre o povo eslavo e o povo brasileiro, que pode ser verificada nos trechos que selecionei a seguir:

“O que há conosco? Pela nossa monstruosa indolência eslava, estamos dispostos a crer antes num milagre que na capacidade que temos de criar algo com as nossas próprias mãos.”

“Alguns dizem: um povo santo e um governo criminoso. Logo lhe direi o que penso disso. Sobre o nosso povo e sobre mim mesma…”

“O nosso povo sempre tem a sensação de que o estão enganando, em todas as etapas do grande caminho. Por um lado, há niilismo e negação; por outro, fatalismo. Não acredita nas autoridades, nem nos cientistas, nem nos médicos, mas tampouco toma qualquer iniciativa. É uma gente inocente e desvalida, que encontra sentido e justificação no próprio sofrimento; todo o resto parece não ter importância.”

“Esperam um milagre. Vão à igreja. Sabe o que pedem a Deus? Isso mesmo, um milagre. Não, não pedem que Deus lhes dê saúde e forças para que consigam algo por si mesmos. Estão acostumados a pedir. Seja ao estrangeiro, seja aos céus.”

“Tchaadáiev tinha razão: a Rússia é um país sem memória, um espaço de amnésia total, uma consciência virgem de crítica e de reflexão.”

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