Bovary

Madame Bovary. Abri o livro, em francês, edição de bolso, papel semelhante ao jornal, livro que já li mais de uma vez e que tem marcações, sublinhados. Abri aleatoriamente como os religiosos fazem com seus textos sagrados. Não é um texto sagrado para mim, é um texto em que se encontra algo interessante em quase todas as páginas.

Abri aleatoriamente e deparei com uma rusga entre Madame Bovary mãe e Madame Bovary esposa, Emma. De início, isso me fez recordar as três Bovary do livro: a mãe de Charles, a primeira esposa, que morreu, e Emma, a segunda esposa, e a que dá título ao livro.

No trecho da briga entre Emma e a mãe de Charles, ele, o marido, vai ao quarto de Emma, ajoelha-se e pede que ela faça as pazes com a mãe. Ela cede, a contragosto, e “como uma marquesa”, diz Flaubert, se não me engano, estende a mão para a sogra.

Depois, contrariada, atira-se ao leito, chora, desespera-se, faz vir o amante à sua casa e implora que ele a tire daquela situação. “Um amor como o nosso”, diz ela, “deve ser vivido a céu aberto”. Cito de memória. Fim do trechinho, peguei a bicicleta e parti.

A nona vida de Louis Drax. Liz Jensen.

Depois do almoço, passei na loja de livros usados, passava a vista nas prateleiras e nos livros por vezes jogados. Achei o título curioso, a nona vida…, o que seria essa nona vida? Não li orelhas nem comentários das capas, peguei. É realmente intrigante o início do livro e a autora escreve direitinho. Mas bastaram poucas páginas, ou capítulos, para que o livro se tornasse imensamente irritante para mim. Uma criança tem propensão a sofrer acidentes e doenças graves. A mãe é frágil e sofrida. Apenas este mote, esta situação, leva diretamente qualquer profissional da área médica, e mesmo um leigo bem informado, a pensar na Síndrome de Münchausen na mãe. Pois a autora tece toda a trama como se ninguém soubesse da existência da síndrome. Dois neurologistas renomados e um psicólogo brilhante não identificam, nem sequer suspeitam da síndrome na mãe. É demais, é totalmente absurdo. Péssimo livro, não recomendo.

Manchester by the sea é um bom filme?

Manchester by the sea é um bom filme? Não sei. Sou influenciado pela opinião de pessoas que considero mais capazes do que eu? Não sei. Mas gostaria de ler a opinião de outros mais capazes. Nunca li nada sobre este filme. Ouvi o nome do filme vagamente na época do Oscar. Assisti ontem, passou na HBO. É um filme cheio de chavões do cinema. O tio que é obrigado a assumir a guarda do sobrinho após a morte repentina do irmão. Isso já passou demais, há vários filmes assim. O personagem que é obrigado a voltar para a cidade de origem da qual se afastou após acontecimentos traumáticos. Já tem filme demais sobre isso também. Casey Affleck, não sei se trabalha bem. O ator não demonstrar emoção é difícil? Esse papel não é semelhante àquele em que ele mata Jesse James? Acho que não é um bom filme. Mas tem algumas qualidades. É um filme lento. Dá tempo de aproveitar as cenas, de tentar entender o que se passa. É um filme sobre a culpa. O personagem diz que não consegue superar. Culpa não se supera, penso, apenas a gente segue em frente, e ele não consegue seguir em frente. A ex-mulher dele conseguiu. É um filme de nuances. Nem bom nem ruim, talvez.

Manchester by the sea. Diretor: Kenneth Lonergan. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges, Kyle Chandler.