Os mímicos, V. S. Naipaul, 1967

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Os mímicos, V. S. Naipaul, 1967, 319 páginas, tradução de Paulo Henriques Brito.

“Intimidade: esta palavra encerra o horror. Eu seria capaz de ficar o resto da vida agarrado a uns seios de mulher, desde que fossem fartos, pesados o bastante para necessitarem de um suporte. O problema era a pele, o cheiro da pele. Havia calombos e arranhões, dezenas de coisinhas que me irritavam profundamente.”

Gostei do livro de Naipaul, a quem não conhecia. A história é dividida em três partes, embora a terceira parte me pareça mais fraca, menos inspirada que as duas primeiras. Pretendo ler outros de Naipaul, quando for possível.

Naipaul tem uma história de vida muito curiosa, visto que vem de uma família indiana que emigrou para Trinidad e Tobago, uma colônia inglesa no Caribe.

A história é narrada por um homem de mesma ascendência que o autor. O personagem nos conta desde sua infância na ilha caribenha fictícia de Isabella, passando por sua juventude como estudante em Londres, o retorno para Isabella, a ascensão na política, o exílio voluntário em Londres.

Como disse, o livro é dividido em três partes, infância, juventude, idade adulta. Entretanto, e isto é um truque de escrita, o autor coloca a parte do meio no início (a juventude), depois conta a infância e, no final, a idade adulta. Eu me pergunto se esse truque, que se presta unicamente a prender o leitor, é válido, eficaz. Por que não simplificar e contar a história linearmente. Uma história A, B, C, e o autor conta assim B, A, C. Outro truque que me é desagradável: com muita frequência, Naipaul anuncia que algo vai dar errado, seja o casamento, seja a incursão na política, por exemplo. Novamente um truque para prender, despertar a curiosidade do leitor. Quando percebo esses truques, vejo apenas a técnica e não o talento, embora, no caso de Naipaul, haja muito talento.

Valeu a pena ler o livro, e o autor traz, em paralelo ao relato do personagem, uma série de pessoas e fatos históricos e mitológicos que me interessaram sobremaneira, como Asoka, Hailé Selassié, Perseu, Eneias, Marco Valério Marcial.

Trechos:

“Um rosto inocente, sem nada de especial, despido do fascínio que a devassidão e a palavra ‘amante’ deveriam emprestar-lhe.”

“Agora a saia e a blusa padronizadas da loja transformavam seus seios e quadris em volumes amorfos.”

“Eu que vinha dos trópicos, onde a noite substituía o dia abruptamente, achava o crepúsculo uma coisa nova e encantadora.”

“Também não sei por que comecei a anotar num diário minhas conquistas sexuais. Lembro que comecei por puro tédio e falta do que fazer, mas em pouco tempo a coisa virou uma espécie de empreendimento auto-erótico. Era a mim mesmo, minhas mais sutis reações, que eu queria analisar. Ridículo! Abjeto! Era o que eu próprio achava na época.”

“Os políticos são pessoas que verdadeiramente fazem algo a partir do nada. Pouco de concreto têm a oferecer. Não são engenheiros nem artistas; nada constroem. São manipuladores; oferecem seus serviços de manipulação.”

“Meu pai entrou, ainda com o grampo na bainha da calça que usava para andar de bicicleta, a jaqueta tropical frouxa e suja nos bolsos, o rosto cansado, os olhos úmidos por trás das lentes dos óculos.”

“Ninguém, nem professores nem alunos, naquela época, tinha quaisquer escrúpulos em relação a ferir as suscetibilidades raciais ou políticas dos outros. O curioso resultado dessa atitude era que quase ninguém se sentia ofendido.”

“Meu pai havia sido morto a tiros, juntamente com uma mulher. A arma utilizada fora uma Luger. Aquela notícia pedia uma resposta. Pedia sentimento e o oposto de sentimento. Caminhei pelas ruas. Mais tarde, saí com uma prostituta. A notícia mal cabia dentro de mim.”

“Mas, para falar com franqueza, não sentia muita admiração pelos escritores, enquanto pessoas, por mais que admirasse suas obras. Eu os considerava pessoas incompletas, para quem o ato de escrever substituía aquilo que, na época, eu me comprazia em chamar ‘vida’.”

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