Franco e Lenu

No livro História da menina perdida, de Elena Ferrante, Lenu encontra o seguinte bilhete na porta de Franco: “Lena, não deixe as meninas entrarem”. Lenu entra e verifica que Franco se matou. Esse bilhete que busca, de certa forma, diminuir o impacto da cena de suicídio parece ser comum entre os suicidas. Em Recife, da mesma forma e há muitos anos, um político local bastante conhecido deixou um bilhete na porta do apartamento, dizia para a faxineira não se assustar com o que presenciaria ao entrar. A moça deve ter se assustado ainda assim. O político havia se suicidado com um tiro. Por outro lado, o proprietário de uma pequena construtora, o qual eu conhecia de longe, suicidou-se com um tiro no quarto do casal, não havia bilhetes e ninguém em casa, a esposa encontrou o corpo mais tarde. Sempre há alguma sujeira nesse tipo de suicídio. O político, disseram na época, colocou toalhas por baixo da cabeça para absorção do sangue, suicidou-se deitado na cama. Deixou preparado também o terno com o qual seria enterrado. O engenheiro, até onde sei, não foi tão cuidadoso.

No episódio do livro, Ferrante descreveu a cena vista por Lenu da seguinte forma: “Havia sangue no travesseiro e no lençol, uma grande mancha escura que se alongava até os pés. A morte é tão repulsiva. Aqui digo apenas que, quando vi sem vida aquele corpo que eu conhecera na intimidade, que tinha sido feliz e ativo, que tinha lido tantos livros e se expusera a tantas experiências, senti simultaneamente repulsa e piedade. Franco havia sido uma matéria viva entranhada de cultura política, de propósitos generosos e esperanças, de boas maneiras. Agora oferecia um horrível espetáculo de si. Desembaraçou-se de um modo tão feroz da memória, da linguagem, da capacidade de atribuir sentidos, que me pareceu evidente o ódio por si mesmo, pela própria epiderme, pelos cheiros, pelos pensamentos e palavras, pela feia dobra do mundo que o havia envolvido.”

Literariamente, observa-se que Ferrante não especifica o modo como Franco se matou. Se matou e pronto. Havia sangue e pronto. Fica por conta do leitor completar a morte de Franco. Gostei assim, é mais sucinto, menos técnico.

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