Gênesis, autor desconhecido, 102 páginas

Gênesis, autor desconhecido, 102 páginas, entre 900 a.C e 500 a.C., diversos tradutores.

Já havia lido o Gênesis anos atrás, decidi reler agora em uma tradução melhor. A tradução foi feita a partir dos originais hebraicos e gregos.

Livro curioso repleto de lendas, algumas confusas e sem significado aparente. O livrinho tem 102 páginas, não se conhece o autor e a datação varia bastante, tanto pode ter sido escrito por volta de 900 a.C. ou 600 e poucos a.C. ou uma mistura disso tudo.

O Gênesis é um ajuntamento de fatos curiosos e pequenas lendas de uma tribo nômade que habitava um território inóspito ali no Médio Oriente, entre o Rio Jordão e o Rio Nilo. Desertos, relevo montanhoso, tribos inimigas, dificuldades de conseguir água, períodos de fome, eram o mundo que os cercava na época.

Se os índios brasileiros tivessem evoluído para a escrita, teríamos possivelmente uma ou mais compilações de histórias e lendas pré-brasileiras tão interessantes quanto aquelas.

O objetivo sacerdotal de se reunir os vários textos de fontes e épocas distintas em um único livro foi demonstrar e explicar que aquela tribo nômade era melhor e tinha mais direito àquela terra agreste que as outras tribos, visto que aquela tribo específica fora escolhida aleatoriamente por um ser superior que com ela fez uma aliança.

Portanto, o tema da aliança com esse ser mitológico é repetido muitas vezes e perpassa todo o livro. O livro mostra que a partir do primeiro homem se segue uma genealogia que passa por Noé, Abrãao, Isaac e Jacó, e que com todos eles, o ser superior renovou o pacto, a aliança.

Uma curiosidade é que o nome desse ser, aquele deus da tribo nômade evidentemente, era tão sagrado que não poderia ser pronunciado. Isso lembra o Voldemort de Harry Potter, “aquele-que-não-pode-ser-nomeado”. O nome do deus daquela tribo de pastores não podia ser pronunciado, mas podia ser escrito. Entretanto, em hebraico não se anotam as vogais, só as consoantes.

Daí que o nome do Deus deles ficou registrado como um tetragrama, YHWH. E ninguém sabe quais eram as vogais que havia ali pelo meio das consoantes. Costuma-se registrar algo como Yahweh, Javé, Jeová, mas efetivamente o nome daquele deus poderia ser qualquer coisa como yahwah, yehweh, yihwih, yohwoh, yuhwuh, yuhwoh e assim por diante. Para ficar mais simples, pode-se usar somente o tetragrama Yhwh, que eu pronuncio ivi, e que cada um complete as letrinhas que faltam como quiser.

Pois então, aquele ser poderoso, Yhwh criou um jardim, criou o homem e o colocou no jardim. O jardim tinha tudo de que o homem necessitava, comida, frutos, animais. Mas Yhwh achou que não era bom o homem ficar só. Aplicou a primeira anestesia geral da história, diz-se que deixou o homem em uma espécie de torpor, retirou uma costela do homem e a partir dela, criou a mulher “para auxiliar o homem”.

No meio do tal jardim, Yhwh colocou uma árvore da qual o homem e a mulher não poderiam comer os frutos. Colocou uma árvore frutífera e decretou a proibição de comer daquela árvore, meio contraditório esse Yhwh. Yhwh poderia ter colocado uma cerca elétrica em torno da árvore, um anjo tomando conta, câmeras de segurança e alarme. Mas não, Yhwh deixou a árvore e seus frutos lá livremente. Deu a merda que deu, bastante incompreensível visto que a punição foi demasiada para o crime de comer uma fruta.

De todo modo, é curioso que o ser Yhwh costumava falar de si no plural, nós, o que faz lembrar os deuses gregos. Esse Yhwh disse para si mesmo: “Agora que o homem e a mulher comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal, eles estão iguais a nós. Desse modo, nós devemos tirar deles a vida eterna, senão eles seriam deuses também”. O resultado é que homem e mulher se ferraram, como sabemos.

Fora do jardim, para reproduzir a raça humana e progredirem, os filhos desses primeiros homem e mulher recorreram naturalmente ao incesto e, posteriormente ao fratricídio.

Daí, o livro nos conta que, naqueles tempos iniciais fora do jardim, os homens viviam em média oitocentos anos e vai nos dando a relação dos velhuscos. Até que Yhwh encheu o saco da humanidade e resolveu destruir tudo para começar de novo. Em vez de começar do zero, escolheu um dos velhos, Noé, com a família dele, para preservar, e todo mundo conhece essa parte. A parte esquisita da história é que, depois do fim do dilúvio, Noé encheu a cara de vinho, ficou nuzão dentro de sua tenda, o filho mais novo viu o pai nu e contou para os irmãos. Noé arretou-se com essa bobagem e amaldiçoou o filho mais novo.

Segue a história e conhecemos o casal Abrão e Sarai que depois mudam de nome para Abraão e Sara. Pois então, como deu uma fome miserável naquele lugar horroroso onde a história se passa, Abraão decidiu ir para o Egito, mais rico e mais fértil. Diz que Sarai era muito bela e, no caminho, Abrão ficou com um medo da porra de ser assassinado pelos egípcios a fim de roubarem Sarai, tempos difíceis aqueles. Daí, Abrão combinou com Sarai de dizerem que eram irmãos. Chegaram ao Egito e a beleza de Sarai chamou a atenção do funcionários do Faraó. O Faraó, que não era besta, tomou Sarai como uma de suas mulheres. Com isso, Abrão caiu nas graças da burocracia egípcia e enricou, acumulando bois, vacas, cabras, bens, escravos.

Entretanto, Yhwh não gostou da tramóia e jogou umas pragas em cima do Faraó. Não se explica o motivo de Yhwh jogar as pragas justo no Faraó, que não era mentiroso e que estava sendo enganado pelo casal suspeitoso. Então, o Faraó chegou para Abrão e disse: como é que tu me faz uma coisa dessas, rapaz, falar que a mulher é tua irmã, vai embora daqui. E deixou Abrão partir com todos os seus bens, escravos, animais e Sarai. Mentira da porra isso aí. Se um Faraó do Egito, que era o mesmo que um deus em carne e osso, fosse enganado por um qualquer nômadezinho do deserto, ele mandava degolar o intrujão e ficava com os bens e a mulher do dito, se a dita valesse a pena.

De todo modo, Abrão se foi do Egito e voltou a morar acampado pelas terras sem graça ali perto do Mar Morto. O povo escolhido vivia de cuidar de rebanhos, de plantar trigo, e de montar acampamentos aqui e ali. Sarai era estéril, visto que aquele tempo todo com o Faraó e nada de filhos. Daí, Sarai disse a Abrão: pega minha escrava tal e faz um filho nela e este será meu filho. Abrão foi lá e fez um filho na escrava, e o menino se chamou Ismael. Pouco tempo depois, Yhwh disse a Abrão que Sarai ficaria grávida. Yhwh fez uma aliança com Abrão, não se sabe o motivo, visto que Yhwh não tinha nada a ganhar com essa aliança.

Por conta da aliança, Abrão passou a se chamar Abraão e Sarai passou a se chamar Sara. Entretanto, para firmar a aliança e fazer Sara engravidar, Yhwh ordenou que todos os homens da tribo de Abrãao, inclusive escravos, e também os animais machos, fossem circuncidados. Abrãao obedeceu. Entretanto, antes de cumprir sua parte do acordo, Yhwh resolveu destruir Sodoma e Gomorra. Depois de mandar umas bombas atômicas sobre as cidades, o texto diz que Yhwh visitou Sara e ela engravidou.

Eu me estendi demais, não vou contar todo o resto da história. Digo que é um livro muito interessante, não tem capítulo tedioso. É uma sucessão de roubos, violências, traições, assassinatos, seduções, mentiras, é divertidíssimo. Cito por alto episódios saborosos. Os homens de Sodoma querendo sexo com os caras enviados por Yhwh. As filhas de Ló que embebedaram o pai para transar com ele e ficar grávidas ambas. A ordem de Yhwh para Abrãao sacrificar seu primeiro filho de Sara, Isaac. Jacó, filho de Isaac, sendo enganado por Labão, pai de Raquel, episódio que inspirou o belo soneto de Camões. Jacó, por sua vez, enganando o pai de Raquel e fugindo com rebanhos e suas duas mulheres, Raquel e Lia. Raquel roubando as imagens dos deuses do lar que pertenciam à casa de seu pai, Labão. Os irmãos de José, filhos de Jacó, que atiram José em uma cisterna seca no deserto e o vendem como escravo para mercadores, que depois o vendem para Putifar, o capitão da guarda do Faraó. A mulher de Putifar que não consegue seduzir José e o acusa de assédio, motivo pelo qual José vai para a prisão.

Enfim, leitura imperdível e extremamente divertida.

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