Don Quijote

“- Pues lo mismo – dijo don Quijote – acontece en la comedia y trato de este mundo, donde unos hacen los emperadores, otros los pontífices, y finalmente todas cuantas figuras se pueden introducir en una comedia; pero, en llegando al fin, que es cuando se acaba la vida, a todos les quita la muerte las ropas que los diferenciaban, y quedan iguales en la sepultura.

– Brava comparación – dijo Sancho -, aunque no tan nueva, que yo no la haya oído muchas y diversas veces, como aquella del juego del ajedrez, que mientras dura el juego cada pieza tiene su particular oficio, y en acabándose el juego todas se mezclan, juntan y barajan, y dan con ellas en una bolsa, que es como dar con la vida en la sepultura.

– Cada día, Sancho – dijo don Quijote -, te vas haciendo menos simple y más discreto.”

Eclesiastes

Eclesiastes é um livrinho magnífico, de poucas páginas e muita sabedoria.
A palavra principal do Eclesiastes, “vaidade”, pode ser traduzida também como vapor, névoa, fumaça.
Assim, pode-se compreender o Eclesiastes como uma dissertação sobre a fatuidade, a transitoriedade e o efêmero da vida humana.
O livrinho foi escrito antes do ano II a.C., e não se conhece o seu autor.
O prólogo é excepcional.

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?
Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece.
O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta.
O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas.
Todos os rios correm para o mar e contudo, o mar nunca se enche.
Embora chegando ao fim do seu percurso, os rios continuam a correr.
Todas as palavras estão gastas e ninguém pode mais falar.
O olho não se sacia de ver, nem o ouvido se farta de ouvir.

O que foi, será,

o que se fez, se tornará a fazer:

nada de novo há debaixo do sol!

Mesmo que alguém afirmasse de algo: “Olha, isto é novo!”, eis que já sucedeu em outros tempos muito antes de nós.
Ninguém se lembra dos antepassados, e também aqueles que lhes sucedem não serão lembrados por seus pósteros.”

Vale a pena ler esse livrinho fininho, de preferência em uma boa tradução, com notas explicativas sobre as palavras originais em hebraico e grego.

Anotação 295

295.

Um livro relevante, um clássico, bem traduzido ou na língua original, às vezes até acrescido de notas explicativas não é um objeto para o nosso tempo. Tempo de relógio e a contemporaneidade, concomitantemente. Ou para o meu tempo pessoal ou para o tempo apressado do cotidiano de todos. Isabel diz que a Terra está girando mais depressa. Um livro assim, o Quijote, o Eclesiastes, À la recherche du temps perdu, Ulysses, é para ser degustado, ingerido, apreciado ao longo de meses, anos. Não é para o nosso imediatismo.