Quiromante

Há três pessoas nesta pequeníssima história: um suicida, uma quiromante e uma aleijada. O pretenso suicida se chamava Norberto, a quiromante se chamava Conchita, a aleijada, não se declinará seu nome para protegê-la. Quase tudo se passou no Edifício Visconde de Itaboraí, ali na esquina mesma da avenida com a ponte, de frente para o Rio das Águas Pretas. Norberto escolhera aquele prédio para se jogar porque (1) era um prédio alto, pra lá de vinte andares, (2) era de fácil acesso, na portaria ninguém pedia documentos, ninguém perguntava para onde se subia, e (3) o prédio dispunha de uma marquise sobre a calçada, de modo que o corpanzil de Norberto não esmagaria um transeunte qualquer no impacto. Norberto não queria levar um inocente acompanhante em sua derradeira viagem.

Ele entrou no saguão do prédio, viu que um vulto acabara de entrar no elevador mais próximo, lançou-se e entrou no elevador, havia o homem que entrara e o ascensorista, essa profissão tão-tão brasileira. Comandou, ao acaso: “Dezoito”. O rapaz respondeu: “Dezessete, vai ter que ser dezessete porque não chega no dezoito.” Quase ao mesmo tempo, o homem repetiu as palavras do ascensorista, que era assim mesmo, o elevador não ia até os andares depois do dezessete. Norberto torcia para que o homem descesse em algum andar antes do dezessete, mas não teve jeito, desceram os dois no dezessete. Norberto disfarçou como se procurasse uma direção, desorientado entre os vários corredores, já o homem sabia para onde ia, uma porta pertinho do elevador. Ainda deu tempo de Norberto ver a mocinha de baby-doll que abriu a porta, “ora, ora”, pensou, “uma casa de putaria aqui em cima”.

Escapou por um dos corredores do labirinto, no fingimento de que tinha um compromisso, mas só queria era uma janela aberta. Havia salas de tatuagem, escritórios de contadores, e uma porta que chamou a atenção dele. A placa anunciava: “Conchita Kiromante”, com k, e abaixo do nome: “Futuro e passado na palma da mão”. Sem pensar, sem entender o motivo, talvez para retardar o voo, apertou a campainha. Ouviu a voz de uma mulher lá dentro. A moça, vestida de forma aciganada, abriu a porta e se cumprimentaram. Ela perguntou se ele havia marcado um horário. “Não, estava passando e decidi subir.” Conchita: “Deu sorte, estou sem ninguém no momento, um excelente augúrio”, e sorriu e se afastou para que ele entrasse.

Do lado de fora, encontrou a janela que queria, junto da escada, alta, larga, aberta. Livrara-se de Conchita, a mulher não dizia uma frase que não fosse um clichê, dissera que o futuro suicida teria uma vida longa e proveitosa, ele não fez perguntas, abreviou a consulta, ainda teve que pagar. Regateou, falou que não estava preparado, não trazia dinheiro – um suicida não carrega dinheiro, no máximo a identidade para facilitar a identificação. Pagou no cartão, a quiromante possuía a maquininha. Da janela entrava o vento forte, vinha do rio e do mar. Dava para ver o rio, a ponte, um retalho entre os prédios de esquina, aquela janela ficava na lateral, não na fachada de frente para o rio. Preferia pular na frente do rio, mais bonito. Olhou a marquise lá em baixo, suja, cheia de pequenos objetos que caíam das janelas, ou eram jogados, papéis, restos de caixas, pegadores de roupas, vidros de esmalte, cocô de pombo. Não gostou nada de imaginar o contato da sua pele com a nojeira da marquise, o sangue espalhando e colorindo a miuçalha.

Estava encostado na janela, usufruindo a brisa e analisando os procedimentos necessários ao salto, erguer-se até a borda alta da janela, jogar-se de frente ou de costas, não decidira, olhava a tarde clara de sol, quando uma aleijada dobrou o patamar da escada embaixo. Usava duas muletas canadenses, as pernas eram bamboleantes e finas – uma mais grossinha apoiava o corpo, a outra quase inútil – e da cintura para cima havia um corpo normal. A moça subia degrau por degrau com dificuldade. Impulsivamente, Norberto desceu os degraus e perguntou se a moça aceitava sua ajuda. “Pode deixar, estou acostumada.” Sem a permissão, “não, não”, Norberto pegou a moça nos braços, com muletas e tudo, carregou-a para o dezoito, depositou-a no chão, com cuidado. “O andar é esse mesmo?”, perguntou. Sim, era o andar, ela ia fazer uma tatuagem, assustada com a improvisação do homem. Ele perguntou se poderia assistir a sessão, curioso, não havia nenhuma tatuagem no corpo de Norberto. No seu último dia de vida, Norberto estava menos inibido do que em sua vida pregressa. A moça desassustou, achou graça em tudo e permitiu. Ele acompanhou agoniado enquanto o tatuador marcava a pele da aleijada, parecia doer, e doía nele, a tatuagem era no ombro direito, a pele dela era macia e moreninha, o sangue minava.

Saíram, terminou, dessa vez ele pediu e ela permitiu ser carregada até o dezessete, o elevador. O rosto da aleijada não era feio nem bonito, comum, os peitos eram gostosos, do tamanho que ele gostava, o perfume do corpo e dos cabelos agradável. “Vamos tomar um café ou outra bebida, como você preferir?”. Ela: “Não me sinto bem em lojas e bares.”. “Na minha casa, então, se não for pedir demais, ou o lugar que você quiser.” Ela: “Prefiro ir a um motel, gosto dos quartos de motel porque ficam bem escuros, daí não tenho tanta inibição.” Pegaram um táxi na avenida e dispararam pelas ruas do final da tarde.

Razões óbvias, Miguel Heraldo, 1947

Razões óbvias, Miguel Heraldo, 1947, Joker Edições, 315 páginas.

Primeiro parágrafo:

Uma mulher pilotando uma motocicleta não era comum na cidade. Caiu uma chuva e ela entrou no posto de gasolina para se abrigar. Outras motocicletas também. Intencionalmente, ela percebeu, o cara parou a moto perto da dela. “Chuva, hein?”. Ela resmungou “é”. “Um homão”, pensou. “Mais alto do que eu”. Ela, um metro e setenta e cinco, era raro encontrar homens mais altos do que ela. E quando usava salto então. O marido era magrinho e mais baixo, um contraste, ela alta e corpuda. Ela que inventou essa palavra. Carne, peitos generosos, sabia que aqueles peitos iam cair muito se tivesse filhos. No momento, estavam de bom peso e tamanho. O cara puxando assunto, ela enfarruscada na cara, se divertia por dentro. O cara fazia parte de u m clube de motociclismo e conseguiu entregar a ela um adesivo do clube, “dá uma olhada lá no site, tem uns passeios final de semana”. Claro que ela mencionou o marido, “vou ver, meu marido também tem moto”, etc, por aí. No verso do adesivo, ele rabiscou o número do telefone. No escritório, ela passeou no site, fotos, adicionou o número do cara no zap. Resumo. Demorou umas semanas, mas foi para a cama de um hotel com ele, no oeste da cidade, as duas motos na garagem. Na primeira vez não foi muito bom, só agradável. Na terceira ou quarta vez foi muito além do que ela esperava. O cara era grande, ela grande, ele maior, ela sentia meio esquisito, meio como dois homens se agarrando, era mais uma luta do que a foda carinhosa que estava acostumada a ter com o marido. Não era fácil agendar esses encontros, tempo roubado. Antes de ir, cada vez, ela não queria ir, mas ia.

Deixado para morrer, Beck Weathers, 2015

Deixado para morrer, Beck Weathers, 2015, Intrínseca, 256 páginas, tradução de Catharina Pinheiro.

Deus, que péssimo livro. Beck Weathers esteve na tragicamente famosa expedição de 1996 ao Everest na qual uma dúzia de montanhistas morreram após uma tempestade. A história dessa expedição foi belamente narrada por Jon Krakauer. Beck foi abandonado por outros montanhistas próximo a um dos acampamentos, estava congelado, quase sem respirar, acharam que ele ia morrer em breve. Ele não morreu, passou a noite congelando na neve, levantou-se no dia seguinte e caminhou sozinho até o acampamento. A narrativa de Beck é praticamente a mesma de Krakauer, e continua daí com a volta dele para casa. As partes que se salvam do livro são, exatamente, aquelas em que Beck Weathers conta de suas escaladas pelo mundo, o monte McKi nley, o Aconcágua, o Kilimanjaro. O resto do livro é nojento: uma arrastada apologia do casamento, do tédio, do ficar em casa com a esposinha e os filhos. Lixo.

Grandes esperanças, Charles Dickens, 1861

Grandes esperanças, Charles Dickens, 1861, tradução de Paulo Henriques Britto.

Primeiro parágrafo:

Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.

The Road Not Taken, by Robert Frost (minha tradução)

The Road Not Taken
by Robert Frost

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

***

A estrada que não percorri
de Robert Frost (tradução: Paulo Mendes)

Em um bosque amarelo, o caminho se bifurcava em duas estradas
E desculpe-me, eu não podia seguir por ambas,
Eu, o viajante solitário, passei longo tempo ali
E olhei uma das estradas tão longe quanto pude
Até lá onde ela se deitava nos campos

Daí, eu peguei a outra estrada, para ser justo,
E tive quem sabe a melhor das intenções,
Porque era verdejante e eu queria segui-la;
Embora quem passa por ali
Costuma usar as duas, sem dúvida;

E ambas as estradas estendiam-se sem fim pela manhã adentro
Com folhas que ainda não haviam sido pisadas.
Oh, eu deixei a primeira estrada para um outro dia!
Eu sabia que um caminho leva a outro e a outro,
E duvidava que pudesse retornar um dia.

Em algum lugar, séculos e séculos depois,
Eu sei que direi com um suspiro:
Havia uma bifurcação em um bosque, e eu –
Eu peguei a estrada menos utilizada,
E isso tem feito toda a diferença.

Agosto, Rubem Fonseca, 1990

Agosto, Rubem Fonseca, 1990, Companhia das Letras, 349 páginas.

Não gostei. Ruim. Uma estrela entre cinco. Não gostei principalmente porque o livro conta duas histórias ao mesmo tempo, em agosto de 1954. É comum esse tipo de divisão em muitos livros: um trecho, ou capítulo, conta a parte A da história; o trecho seguinte conta a parte B. As duas partes se tocam ou convergem no final. Esse tipo de truque é bobinho, para mim, não usufruo de histórias assim contadas. Neste Agosto, o autor conta a investigação de um crime pelo comissário de polícia Alberto Mattos e, paralelamente, os acontecimentos em torno dos últimos dias de Getúlio Vargas. A parte histórica dedicada ao final do governo Vargas é mais interessante que a ficção com o comi ssário Matos. Deu até vontade de ler uma biografia de Getúlio, tem uma boa do Lira Neto. O tal comissário Mattos é um anti-herói: dentes podres, doente de uma úlcera tenebrosa, mal vestido, utópico, insatisfeito com tudo. O comissário tenta solucionar o assassinato de um rico empresário, enquanto sua vida pessoal se torna caótica, dividido entre uma namorada, Salete, amante de um ricaço, e uma ex-namorada bipolar, casada com outro ricaço. A ficção, ou seja, a história do comissário, suas mulheres, sua úlcera e o assassinato se perde ante a força da história real da época. Além disso, o autor deixa um monte de pontas sem solução. Foi intencional? Ah, ele diria, a vida é assim também, as histórias não resultam bem amarradinhas. Tá. Se foi intencional ou não, ficou mal amarrado demais, tudo solto, desarranjado. Parece que o autor teve preguiça de pensar e de terminar a narrativa. A parte boa do livro, a não-ficção, mostra que o Brasil de hoje é a mesma bosta do Brasil de Getúlio Vargas. Isso dá uma desesperança danada. A mesma corrupção, a mesma elite nojenta e os mesmos políticos, todos ladrões, mentirosos, cínicos, hipócritas.

Primeiro parágrafo:

O porteiro da noite do edifício Deauville ouviu o ruído dos passos furtivos descendo as escadas. Era uma hora da madrugada e o prédio estava em silêncio.

Trechos:

Em maio, os golpistas haviam tentado o impeachment do presidente e o traidor João Neves ajudara a difundir falsidades sobre um acordo secreto entre Perón e Vargas.

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No xadrez, em duas celas com capacidade prevista para oito presos, havia trinta homens. As celas de todas as delegacias da cidade estavam com excesso de presos aguardando vagas nos presídios, uns à disposição da Justiça esperando julgamento, outros já condenados.

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As negociatas da Cemtex são fatos. Por exemplo: a empresa conseguiu uma licença de importação na Cexim no valor de cinquenta milhões de dólares. O Banco do Brasil nunca deu tanto dinheiro a ninguém, está na cara que é mais uma safadeza patrocinada por algum figurão de cima. Gomes Aguiar era amigo do senador Vitor Freitas, que provavelmente é um dos que mexem os pauzinhos para ele.

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O senhor é novo na polícia – não que eu queira lhe dar lições, quem sou eu? Sou apenas mais velho, quase um ancião de cinquenta e cinco anos de idade, trinta de polícia… A única coisa que aprendi nesses anos todos é que em crime de morte só há duas motivações. Sexo e poder. Aí é que está o busílis. Só se mata por dinheiro ou por boceta, com perdão da palavra, ou as duas coisas juntas. Assim é o mundo.

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Os jornais da manhã noticiavam em grandes manchetes o atentado. Os estudantes haviam entrado em uma greve de “protesto contra o banditismo. Nossa alma está coberta de opróbrio. Uma cova se abriu e o povo não esquecerá”. A repercussão do atentado no Congresso fora enorme. (…) Conforme os congressistas da oposição, “corria sangue nas ruas da capital e não havia mais tranquilidade nos lares”.

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“A polícia tudo fará para apresentar à Justiça os responsáveis por esse crime”, disse o ministro com voz cansada ao reconhecer o senador ao seu lado. Tancredo Neves dissera aquela frase dezenas de vezes nas últimas vinte e quatro horas.

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Aqueles calhordas acreditavam realmente no mito proveitoso, que eles mesmos haviam inventado, de que a imprensa era o quarto poder da República. (…) Mas não havia isenção em parte alguma. Duas correntes facciosas e antagônicas se enfrentavam e a imprensa tomara o seu partido.

Esporádicos

Ela era casada, uma filha pequena. Ele casado, três filhos pequenos. Amantes esporádicos durante nove anos. No início, foram amantes-amantes, amantes de toda semana, amantes de aproveitar qualquer escapada para se encontrarem. Ela ainda não tinha uma filha. Quase terminam seus respectivos casamentos para ficar um com o outro. Ela ficou grávida, presumivelmente do marido, ele mudou de cidade. Quase perderam o contato. Voltaram a se falar, ela o procurou. Ele tornou a morar na cidade vizinha à dela. Encontraram-se de novo, sem a sede anterior. Com a filha, a vida dela ficou complicada, menina na escola, menina no médico, menina, menina. Às vezes, conseguiam um tempinho quando a menina estava na escola. Ele não gostava desses encontros de tempo conta do. Ela colocava o despertador para não perder a hora de buscar a filha. Ela ficou preguiçosa para as escapadas sexuais. Às vezes, ela telefonava, parecia a fim de foder, de repente desistia. Ela: “Bom dia, amore. Quando a gente se vê?” Ele: “Querida, você sabe que só depende da sua vontade.” Ela: “O que você sugere?” Ele: “Hoje, por exemplo, hoje de tarde, ou agora.” Ela: “Você só está trabalhando de manhã?” Ele: “Não, querida, mas por você eu dou um jeito, fujo, invento uma doença. Você é que complica as coisas e quando começa tergiversando, já sei que não…” Ela: “ O que é isso?” Ele: “Isso que você faz, essas manobras diversionistas. Ou quer ou não quer, ou vai ou não vai.” Ela: Você gosta de palavras difíceis.” Ele: “Vamos agora praquele hotel na Barra.” Ela: “Ainda tou acordando, minha cara está amassada, preciso de um banho pra acordar.” Ele: “ Pra quê ligou então, querida?” Ela: “Ouvir você. Você ainda tem tesão em mim?” Ele: “Sim.” Ela: “Hum.” Ele: “Vamos agora para o hotel. Em menos de uma hora você chega lá.” Ela: “É muito longe.” Ele desligou.