Ver falar

Homem que sofreu racismo em agência da Caixa disse uma frase, acerca da filha, que me interessou: “Ela está muito abalada, muito triste, muito angustiada. Ela não aguenta ver falar nada referente ao acontecido.” Esse “ver falar” é muito curioso porque me parece comum na linguagem oral e, no entanto, soa estranho quando escrito. Ver falar.

Hinos

Na Folha de São Paulo, Sérgio Rodrigues escreveu sobre hinos, Nacional, da Bandeira, etc. Recordo que na minha escola se cantava vez ou outra o Hino Nacional, o da Bandeira no dia dela, e o hino da escola do qual não tenho a mínima ideia de quem o compôs. A escola particular se chamava Instituto Domingos Sávio. Eu não sabia quem era Domingos Sávio, mas o hino rezava assim: “Domingos Sávio tua vida imitamos, à Pátria e à Igreja servimos e amamos”. Não sei se havia mais versos do que estes. Nas ocasiões de hinos e de hasteamento da bandeira, todos os alunos ficavam perfilados no pátio de terra na frente da escola. O prédio antigo, tombado, ainda hoje existe, tem um muro baixo com grades complementando, se vê de fora, as pessoas paravam para ver as crianças perfiladas. Eu não entendia o Hino Nacional nem sabia a letra toda. Preferia o Hino da Independência. Tive uma amiga que modificava o Hino Nacional com nomes de frutas e verduras, mas não decorei essa versão. A minha amiga estudava em uma escola conceituada, difícil ser matriculado lá, uma escola administrada pela Marinha. Daí, eles aprendiam o “Cisne Branco”, uma música que considero muito bonita e que nunca aprendi a cantar totalmente. Minha amiga sabia o “Cisne Branco” todinho. Havia, também, uma piadinha boba. Alguém dizia que gostava do hino “Virudum”. Que “Virudum” é esse? O “Virudum” ora, aquele “Virudum Ipiranga às margens plácidas…”. Mas essa questão de hinos deve ser como a das Constituições dos países: todos são mais ou menos complicados, todos mais ou menos patrióticos, bobos e nacionalistas e sentimentais, e poderiam ser feitas análises comparadas entre eles. O nosso não seria, talvez, o mais bobão e complicado.
Ainda sobre o Instituto Domingos Sávio, a diretora chamava-se Dona Auristela, havia uma professora rigorosa, Tia Iracilda, e a professora mais bonita era a de inglês na terceira série, Tia Ana. No início, a menina mais bonita se chamava Nadiege. Depois, conheci a irmã mais velha dela, Niégile, que passou a ser a mais bonita e a mais inatingível. Muito tempo depois, na quinta série, a musa dos meninos passou a ser Maria Júlia.

Bela e Bala

Os filhos pequenos de Dona Esailda. Ela recebia a ajuda de uma empregada, que se chamava Bela. Na época, não se chamava empregada de secretária ou outros eufemismos. Negra, peitões fartos, quase sempre usava um lenço amarrando o pixaim. Ninguém se recorda qual era o nome de Bela. Bela teve uma filha e parece que o parto foi difícil. Assim, a menina foi batizada de Maria do Bomparto. Todos a chamavam de Bomparto. Bomparto muita vez ia com Bela para a casa de Dona Esailda. Era uma menina magrela, alegre, comprida, de uma cor café com leite e cabelo sarará, muito mais clara que a mãe. Nunca se conheceu na casa o pai de Bomparto. O marido de Dona Esailda, Seu Antonio, gostava de ler jornais. O entregador de jornais se chamava Bala. Ninguém sabe qual era o nome de Bala. Bala entregava os jornais todos os dias, mas só recebia o pagamento no final de semana. Era um cachaceiro, difícil ver Bala sóbrio, sem ter tomado umas. Faltavam-lhe vários dentes. Seu Antonio gostava de brincar com Bela dizendo que ela ia casar com Bala, ela só “deus me livre”. Daria um casal de nomes curiosos, é evidente, Bala e Bela. Os filhos pequenos de Dona Esailda eram fresquentos para comer comida de panela. Por isso, Bela dava o almoço às crianças, fazendo aquilo que chamavam de “bolão”: um bolinho arredondado pela mão de Bela, contendo feijão, arroz, carne e farinha para dar consistência ao bolão, e geralmente umedecido no molho da carne. Os filhos de Esailda comiam assim, abriam a boca e Bela colocava o bolão lá dentro. Demorou anos para que as crianças aprendessem a usar talheres. Talvez não tenham aprendido até hoje.

The Lolita Workout (em construção)

Lolita, Vladimir Nabokov, 1955, meu volume foi publicado em 1981 pela Abril Cultural, uma capa tenebrosa, 423 páginas, tradução de Brenno Silveira.

1. Lolita é um clássico incontornável.
2. Não gostei dessa tradução. Na língua original é muito melhor.
3. Um clássico é um livro que pode ser lido diversas vezes e, em cada nova leitura vai revelar aspectos inusitados. É um livro citado por todo mundo que a gente admira. Um livro que não se esgota em si mesmo, a gente fica a imaginar outras histórias, o outro lado, outras versões. Um livro que incomoda, às vezes por motivos até ignorados. Um livro que está no imaginário coletivo, todo mundo conhece mesmo sem ter lido.
4. Nabokov incorporou dois substantivos ao mundo contemporâneo: lolita e ninfeta.
5. Houaiss, lolita: jovem do sexo feminino sexualmente precoce.
6. Houaiss, ninfeta: menina adolescente voltada para o sexo ou que desperta desejo sexual.
7. A palavra francesa nymphette, pequena ninfa, existe desde o século xvi, e foi ressignificada por Nabokov.
8. O personagem Humbert Humbert faz a seguinte definição: “Desejo, agora, apresentar a seguinte ideia. Entre um limite de idade que vai dos nove aos catorze anos, existem garotas que, diante de certos viajantes enfeitiçados, revelam sua verdadeira natureza, que não é humana, mas ‘nínfica’ (isto é, demoníaca), e a essas dadas criaturas proponho designar como nymphets.”
9. Contudo, pergunta Humbert, “são todas as meninas, entre esses limites de idade, nymphets? Claro que não. Do contrário, nós que conhecemos esse segredo, nós, os viajeiros solitários, os nympholepts, teríamos há muito enlouquecido.”
10. O livro começa com um prefácio, evidentemente falso, e inútil. É aquele tipo de prefácio muito usado por escritores, que diz mais ou menos o seguinte: “eu estava em minha casa, tranquilo, e recebi esse manuscrito misterioso pelo correio”, ou “eu estava no metrô e achei um pacote que continha…”, ou “alguém me entregou esse manuscrito, fiz pequenas correções e agora o publico”. Esse tipo de introdução busca tornar mais enigmática, misteriosa, a origem do texto e, de certo modo, retirar, despropositadamente, a “culpa” do verdadeiro autor pelo texto.
11. Nabokov é um galhofeiro. Ele brinca com o leitor e com as palavras todo o tempo. O falso prefácio dá notícias sobre alguns personagens após o final da história, diversos trechos do livro dão pistas sobre os acontecimentos futuros, não é possível ler Lolita apenas uma vez. Se o leitor faz como eu fiz, e relê o prefácio após o final do romance, descobre qual o “destino” da personagem Lolita. As palavras, os trocadilhos, os significados: Humbert Humbert; Haze (neblina), o sobrenome de Dolores e sua mãe; Clare Quilty, nome de um importante personagem, deriva de uma cidade na Irlanda, Quilty, no condado de Clare; o Acampamento Q; Dolores que significa dores, em espanhol. Nomes de ruas e de lugares e de hotéis. São muitas correlações, pistas, jogos, é quase um livro dentro do livro. Nas primeiras páginas do livro, de modo disfarçado, Nabokov já revela qual o crime cometido por Humbert.
12. A estrutura do romance: Humbert Humbert está preso, não sabemos qual crime ele cometeu, e nos conta sobre seu relacionamento com Dolores Haze, Lolita, uma menina de doze anos. Humbert escreve a história para apresentá-la diante dos jurados. Ele justifica sua atração por meninas a partir de um amor de verão na infância. Quase por acaso, Humbert se casa com a mãe de Dolores. A mãe morre em um acidente. Humbert fica com a “guarda” informal, não legalizada, de Dolores e leva a menina em uma longa viagem pelos Estados Unidos, um misto de fuga, sequestro e férias permanentes.
13. Tudo o que sabemos da história vem de Humbert. Humbert enfeita, romantiza, seus propósitos e “sentimentos” por Dolores.
14. É um livro excelente. O grande defeito do livro é a morte acidental da mãe de Dolores. Seria mais credível que, após o casamento, Humbert abusasse da menina evitando, no possível, as suspeitas da mãe, ou mesmo que sequestrasse a garota. Essa morte acidental de Charlotte é demais conveniente, artificial, o sonho de muitos maridos, o paraíso para um pedófilo.
15. Nunca conheci um pedófilo pessoalmente, tampouco li algum livro sobre essa patologia. Contudo, Humbert Humbert não me parece um pedófilo típico, se é que isso existe. Não sei se pedófilos sentem culpa e, em alguns momentos, Humbert parece se sentir culpado pela destruição da infância de Dolores. Contraditoriamente, Humbert parece continuar a “amar” Dolores mesmo quando ela já passou da idade de nymphet.
16. Nesse tipo de livro narrado de forma confessional, em primeira pessoa, só conhecemos aquilo que o narrador deseja que conheçamos.
17. Assim, Albertine, a prisioneira de Proust. Assim, Dolores Haze.
18. Braulio Tavares diz que Nabokov “se incomodava mais com o fato de Lolita, que ele vê como uma pirralha muito desinteressada em sexo, ter sido transformada, pela ilustração e pela publicidade, numa modelo de pernas longas”.
19. Lolita é uma “pirralha” muito chata e muito safada. É o que, em geral, Humbert nos mostra dela.
20. Humbert Humbert descreve Dolores como o tipo de menina insuportável, cheia de gostos, volúvel, superficial, permanentemente irritadinha, consumista. Sexualmente adiantada para sua idade.
21. Por outro lado, Humbert, vez por outra, em raros momentos, levanta a cortina da romantização e da sexualidade precoce e nos mostra o sofrimento de Dolores. Dores. E esses momentos são extremamente tristes.
22. Um pedófilo típico se incomodaria com o sofrimento de sua vítima?
23. Lolita é um prodígio de literatura, muito bem escrito, delicioso de ler, doloroso em alguns momentos, intrigante, repleto de truques e referências, pleno de nuances.
24. A vida real é muito pior e aterradora do que Lolita. Todos os dias, nos jornais de sangue, aparecem notícias de meninas e meninos abusados, muitas vezes pelos próprios parentes e vizinhos. Muitas vezes, tais abusos terminam em morte.
25. Natascha Kampusch e a história real em seu livro 3096 dias.
26. Natascha Kampusch repete mais de uma vez que não é um caso da Síndrome de Estocolmo, pois muitos a criticaram por ela ter demonstrado algum tipo de, digamos, empatia em relação ao maluco que a sequestrou. Ninguém pode sequer se aproximar de algum tipo de compreensão de toda a angústia e sofrimento daquela menina.
27. O sequestrador de Natascha se suicidou. Ela quis ir ao enterro dele, o que não foi permitido.
28. Quando Dolores recebe a visita de Humbert, anos depois da época dos abusos, ela conversa normalmente com ele, sem aparentar horror ou aversão. Humbert percebe que não significou quase nada para Dolores, apenas a pessoa que arruinou a vida dela.
29. Quando Dolores recebe a visita de Humbert, ela pede desculpas a ele por “tê-lo enganado tanto”.
30. Humbert pede que Dolores volte para ele. Dolores: “Pare de chorar, por favor. Você deveria compreender. Deixe que lhe sirva um pouco mais de cerveja. Oh, não chore! Lamento muito tê-lo enganado tanto, mas assim são as coisas.”
31. Duas, três, quatro vidas destruídas.
32. Humbert: “(…) alguém queria que HH existisse pelo menos durante mais uns dois meses, para fazer com que você pudesse existir na mente das gerações futuras. Estou pensando em auroques e anjos, no segredo de duráveis pigmentos, em sonetos proféticos, no refúgio da arte. E esta é a única imortalidade de que você e eu podemos compartilhar, minha Lolita.”
33. Estas são as últimas linhas do livro de Nabokov. Conforma um dos finais de livro entre os mais perfeitos que conheço.
34. Não me incomodo com spoilers, especialmente acerca de um clássico. Tampouco penso que seja necessário avisar de spoilers. Entretanto, aviso: daqui em diante, spoilers.
35. Humbert Humbert casa com Charlotte Haze apenas por estar fascinado pela filha desta, Dolores Haze, doze anos. Quando Charlotte descobre o real motivo do casamento, atravessa a rua para colocar cartas na caixa de correio, é atropelada e morre. HH leva a menina Dolores em uma longa viagem de dois ou três anos pelo país. No primeiro hotel em que se hospedam, no primeiro amanhecer, é Dolores quem o seduz. A menina já havia trocado beijos roubados com HH. A menina já havia feito sexo com um coleguinha de acampamento. Depois de meses viajando de hotel em hotel, Dolores foge com outro pedófilo, Clare Quilty, famoso autor teatral, pelo qual estava apaixonada. CQ, inclusive, estava seguindo o casal havia algum tempo. HH, enlouquecido, continua viajando e procurando Dolores sem sucesso. Dois anos depois, recebe uma carta de Dolores. Ela precisa de dinheiro, está com dezessete anos, mora com um rapaz, Dick Schiller, e está grávida. HH investiga a caixa postal de Dolores e consegue descobrir a casa onde ela mora. Vai até lá, pede que ela volte para ele, consegue que ela lhe diga quem era o homem que a levou e entrega uma boa quantidade de dinheiro à garota. HH vai atrás de Clare Quilty e mata o homem que roubou sua menina.
36. Nas primeiras páginas de Lolita, Humbert Humbert já nos revela, em forma de enigma, o nome da pessoa que ele assassinou.
37. Na prisão, HH folheia um livro sobre atores e autores de teatro, e reproduz uma das páginas do livro. Nela consta o nome de “Quilty, Clare, autor teatral” e o título de suas peças, entre elas a peça de muito sucesso Little Nymph. A seguir, HH imagina que Dolores poderia ter se tornado atriz e atuado em diversas peças, entre elas Guilty of killing Quilty, ou seja “Culpado de matar Quilty”.
38. No falso prefácio, o fictício Doutor John Ray Jr., que recebeu o manuscrito das mãos do advogado de Humbert Humbert, nos informa que o prisioneiro morreu antes de ser julgado, de trombose coronária, em novembro de 1952.
39. No falso prefácio, o fictício Doutor John Ray Jr. fornece ao leitor o destino de algumas pessoas citadas no livro, entre elas uma tal “senhora Richard F. Schiller”. Isso não tem nenhum significado para o leitor que inicia a leitura naquele momento. Contudo, quem já leu o livro até o final, sabe que a referida senhora é Lolita. Portanto, somos informados sub-repticiamente, de que Dolores Haze “morreu de parto, ao dar à luz uma menina natimorta” em dezembro de 1952.
40. Dolores e Humbert morreram quase na mesma época.
41. A primeira vez em que Quilty, em carne e osso, surge na história é no hotel dos Caçadores Encantados (Enchanted Hunters), o primeiro hotel em que Dolores e Humbert se hospedaram.
42. Meses depois, Dolores tenta confundir Humbert sobre a identidade de Quilty. Após assistirem, por acaso, uma peça de Clare Quilty e Vivian Darkbloom, Dolores contradiz Humbert ao afirmar que Vivian é homem e Clare Quilty é uma mulher. Aparentemente, Humbert não se deixou enganar pela pequena artimanha da menina.
43. De algum modo, Dolores nutria uma paixãozinha de menina pelo autor famoso, cuja família morava na mesma cidade dela. Aparentemente, Quilty havia visitado o Acampamento Q, onde Dolores passou férias.
44. Dolores fugiu com Quilty e foram a um rancho onde estavam muitos amigos e conhecidos dele. Quilty tentou fazer com que Dolores participasse de uns filmes pornográficos amadores que eles produziam no rancho. Ela se recusou e ele a mandou pastar. E a menina passou a viver por aí, em pequenos empregos de lanchonete. Prosaico. Nada romântico tampouco trágico.
45. Humbert Humbert era o pedófilo romântico, barroco, “delicado”. Clare Quilty era o pedófilo barra-pesada, pornográfico.
46. Em todo o livro, salvo engano, não há nenhuma palavra crua em relação ao sexo. As poucas descrições de Humbert são enviesadas, literárias. Somente uma exceção: Humbert diz que era intolerável saber que aquele sub-humano tinha sodomizado sua querida.
47. Quem é Capitu? Albertine? Dolores Haze? Mulheres que conhecemos pela via indireta: um homem nos conta acerca delas. De acordo com Bentinho, Capitu é mentirosa, dissimulada e libertina.
48. Alguns anos antes da publicação de Lolita, em 1948, Florence Sally Horner, de onze anos, foi sequestrada por um pedófilo, Frank La Salle, de cinquenta anos. Ele a levou em uma viagem de vinte e um meses por diferentes lugares dos Estados Unidos. La Salle se apresentava como pai da menina e, inclusive, a matriculou em uma escola de Dallas. Sally fugiu de La Salle e telefonou para sua irmã. Ele foi preso, julgado e condenado a trinta e cinco anos. Sally Horner morreu pouco depois, aos quinze anos, em um acidente de automóvel. Frank La Salle morreu na prisão, em 1966, aos sessenta e nove anos.
49. Humbert Humbert diz que uma senhora de Ramsdale aproxima-se dele cheia de suspeitas: “Será que eu havia feito a Dolly o mesmo que Frank La Salle, engenheiro de cinquenta anos de idade, fizera com Sally Horner, de onze anos, em 1948?”
50. Sete letras. Humbert e nymphet.
51. Nabokov brinca com sons e palavras da língua que não é a sua, materna. “(…) the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth”. “She did, indeed she did”.
52. Humbert rememora Annabel, a predecessora de Lolita. Ele e Annabel, aos treze anos, durante as férias no Hotel Mirana. Humbert e Annabel não conseguiam ficar a sós, e restava um “petrified paroxysm of desire”. Todavia, Humbert-Nabokov deixa o leitor em suspenso ao descrever o último e furtivo encontro entre os dois na areia da praia. Depois de uma “brief session of avid caresses”, dois banhistas saem do mar e dirigem palavras rudes aos dois, justo quando Humbert estava “on the point of possessing my darling”. Provavelmente, isto não é declarado pelo autor, as crianças assustadas devem ter fugido da praia.
53. Depois disso, Nabokov espalha uma pitada de melancolia: “four months later she died of typhus in Corfu”.
54. O sonho acordado de Humbert: um naufrágio e sobraram ele e uma criança trêmula. O enredo do romance de Nabokov é também um sonho, a morte de Charlotte é providencial e deixa Humbert na posse irrestrita da criança. Morrer é muito difícil. Os romances deveriam ter extremo cuidado em colocar uma morte como facilitadora do enredo.
55. É impossível ler Lolita, em cada parágrafo pululam pérolas, cuidados, joalherias de linguagem, imagens disruptivas que conduzem a mente do leitor a histórias paralelas não contadas. I dissolved in the sun. Axillary russet. Diminutive romances.
56. Lolita é um livro perfeito. Mais perfeito na língua original. As traduções não conseguem prover todas as nuances da escrita de Nabokov, as frases e trechos de frases que ecoam como poesia, a ironia, o sarcasmo, a falsa ingenuidade do narrador.
“We played chess; his daughter watched me from behind her easel, and inserted eyes or knuckles borrowed from me into the cubistic trash that accomplished then painted instead of lilacs and lambs.”
“Nós jogávamos xadrez; a filha dele me observava por trás do cavalete, e inseria olhos e nós dos dedos roubados de mim no lixo cubista que mocinhas talentosas costumavam pintar em lugar de lilases e cordeiros.”

Dicionário do suicídio (em construção)

Dicionário do suicídio (em construção)
 
Letra A
 
Anna Kariênina: Jogou-se na frente de um trem. Personagem famoso de Tolstói. Diz-se que o impulso inicial do romance veio de um fato real, assunto comentado na família do escritor, uma mulher que se jogou na frente do trem na estação local.
 
Arma de fogo: Método caseiro para deixar de viver. A melhor opção para o suicídio, exceto por uma morte controlada pela medicina. Como não é permitido que alguém procure um médico com a intenção de deixar de viver, restam os métodos caseiros. A arma de fogo tem uma grande porcentagem de sucesso, é um método que causa uma morte rápida e quase imediata e, importante, supõe-se que não deve doer muito ou, ao menos, seria uma dor forte e curta. A maior dificuldade é conseguir legalmente uma arma. O método tem o inconveniente de provocar certa sujeira. Nã o é bom dar um tiro na cabeça sentado na cama visto que provavelmente se vai inutilizar o colchão, encharcado de sangue. Se o suicida é casado, vai deixar mais um problema para a futura viúva. O melhor lugar seria, talvez, o box do banheiro, visto que o sangue poderia ser lavado com mais facilidade. Diz-se que o melhor lugar do corpo para o tiro seria a cabeça. Eu não arriscaria o coração, mais fácil de errar e de sobreviver. Diz-se, também, que, para o tiro na cabeça, é melhor colocar o cano da arma de fogo na boca para evitar que a arma desvie e o tiro atinja apenas parcialmente o cérebro.
 
Letra C
 
Carta: Embora muitos suicidas não o façam, é aconselhável deixar uma carta, ao menos para os familiares mais próximos. Mesmo que eles continuem a não entender e não aprovar o gesto extremo, terão um pouco de conforto com algumas palavras deixadas pelo finado.
 
Comprimidos: Método inseguro, com possibilidade de ser doloroso. A dificuldade de conseguir comprimidos eficazes também deve ser considerada.
 
Coragem: Qualidade necessária ao suicida. Há que ter coragem para executar o plano. “Um dia vou tomar coragem e” é um pensamento recorrente aos suicidas.
 
Letra D
 
Direito de morrer: Ausente da Constituição, o direito à morte, ou direito de morrer, é um direito fundamental do ser humano. A Constituição cita o “direito à vida” em três artigos e nada sobre o direito à morte. Todos têm o direito inalienável de não querer continuar no mundo.
 
Dívidas: Um bom motivo para cometer suicídio. Mortos não têm dívidas, é a libertação total. Adeus CPF, boletos, cartões, contas, despesas, saldo negativo, imposto de renda, multas.
 
Letra E
 
Edifício: Deve ser muitíssimo alto. Método caseiro de suicídio, geralmente eficaz. Entretanto, o suicida não deve se arriscar escolhendo edifícios de poucos andares. Muita gente sobrevive a quedas de quatro, sete, oito andares. É aconselhável verificar se não há toldos ou árvores lá embaixo que poderiam atrapalhar o plano. É imprescindível certificar-se de que o alvo esteja livre da circulação de pessoas, o suicida não deveria provocar a morte de terceiros. Deve-se considerar que este método favorece as fotografias dos curiosos.
 
Emma Bovary: Personagem do livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Sofre uma morte dolorosa depois de comer um veneno que surrupia da farmácia que fica quase em frente a sua casa.
 
Enforcamento: Não é um bom método caseiro de morrer, esse de colocar a corda no pescoço e ficar pendurado. Geralmente, apresenta muitas falhas. A corda tem que ser forte, o lugar de se pendurar fortíssimo. A morte é lenta, esse o principal motivo para evitar o método. Diz-se que demora uns vinte minutos para morrer dessa forma. Além da demora para morrer, alguém pode entrar e salvar o indivíduo. Alguns enforcados também se cagam e se mijam, muito feio.
 
Enrique Vila-Matas: Escritor que publicou um livro intitulado Suicídios exemplares no qual ninguém se mata de verdade.
 
Letra F
 
Facebook: Inimigo dos suicidas. Nos tempos atuais, se um cidadão escreve no Facebook algo que dê a entender a vontade do suicídio, em minutos terá na sua porta um carro da polícia para evitar a tentativa. Se alguém quer realmente se matar, não deve dar nenhum indício, especialmente no Facebook.
 
Letra K
 
Kawabata: Escritor e suicida famoso. Tópico em desenvolvimento.
 
Letra M
 
Madalena: Personagem do livro São Bernardo, de Graciliano Ramos. Mata-se com veneno, deve ter sofrido, contudo o marido não presencia seus momentos derradeiros, só descobre o corpo no dia seguinte. O autor fala em espuma na boca e vidro quebrado pelo chão.
 
Mishima: Escritor e suicida famoso. Tópico em desenvolvimento.
 
Letra O
 
Ônibus: Método desaconselhável. Doloroso e com muitas probabilidades de não se atingir o objetivo. Já imaginou ficar todo arrebentado e vivo no asfalto, cercado de curiosos?
 
Oração: Embora sem utilidade prática – nenhum deus responde aos apelos humanos – o suicida também reza. Muita vez, é esta a oração dos suicidas: “Por favor, deus, me tire daqui deste pedaço de rocha solto no espaço, hoje, agora, de preferência sem doer”. Todavia, deus prossegue silencioso.
 
Letra P
 
Pulsos: Cortar os pulsos não garante a morte desejada. É uma morte lenta, o que proporciona tempo para que alguém se meta a salvar o suicida. Diz-se que funciona melhor dentro de uma banheira com água, visto que o sangue vai fluir com mais facilidade e rapidez. Se é para morrer se esvaindo em sangue melhor cortar as artérias femorais, nas coxas, obviamente, ali o sangue vai espirrar muito mais rápido. Ou a carótida.
 
Letra S
 
Sylvia Plath: Escritora e suicida famosa. Colocou os filhos no quarto e tapou as frestas da porta. Na cozinha, abriu o forno, ligou o gás, colocou uma toalha e deitou a cabeça. Era inverno. As crianças foram encontradas um dia depois, com frio e fome.
 
 
Letra T
 
Tentativa: É uma falha do suicida. Suicidas não devem fazer tentativas. Devem cuidar para que a ação tenha sucesso de primeira. Tentativas frustradas conduzem a uma vida pior, aleijado, cego, doente, paralítico, sem rins, tronxo. Se sair com saúde de uma tentativa, o suicida passará a ser vigiado o resto da vida. Deve-se cuidar para que o ato não se torne uma tentativa. Fazer a coisa certa ao menos uma vez na vida.
 
Trem: Método de resultado duvidoso, além de doloroso. Funcionou com Anna Kariênina.
 
Letra V
 
Veneno: Método inseguro e doloroso, desaconselhável, a chance de sobrevivência é alta e pode deixar muitas sequelas no sobrevivente.
 
Vergonha: Morto tem vergonha? Contudo, o suicida deve decidir se terá vergonha de seu corpo morto. Muito mais agora, no mundo das fotografias e filmagens diuturnas. O suicida discreto não desejará que seu corpo, sangue, tripas seja fotografado pelos inevitáveis curiosos, e as fotos compartilhadas para horror e delícia da malta. O suicida discreto deve estar atento a este detalhe ao escolher onde tombará seu corpo morto.
 
Virginia Woolf: Foi lindo o suicídio de Virginia. Um vestido, encheu os bolsos do vestido com pedras e entrou na água gelada do rio. Corpo encontrado dias depois.

Nomes

Nomes da minha infância:
Minha avó Lourdes, Maria de Lourdes, religiosa, católica, pianista de cinema em cidade do interior. Eu a chamava Vovó de Duda porque Duda era o meu tio, Eduardo, Duda. Minha avó Lailda, nome complicado, com cheiro de naftalina, religiosa, espírita, via espíritos malignos e benignos pelos cantos das casas dos outros. Eu a chamava Vovó de Dedé porque Dedé era o meu tio, Zé, Zé Luís, tio Zé. Meu avô Rafael, não conheci, morreu um mês antes que eu começasse a existir, acidente vascular cerebral. Na foto, parecia um homem bonito. Pianista de cinema. Meu avô Sebastião, todos o chamavam de Seba. Usava paletó, chapéu e uma pasta pesada, preta, de formato triangular, no corte transversal. Colecionava revistas Seleções do Readers Digest. Na casa dele havia um birô com um vidro sobre a madeira do tampo e, debaixo do vidro, fotos e recortes. Morreu de câncer de próstata. Ninguém usava a palavra maldita: câncer, CÂNCER. Era proibido. Tomou um remédio maluco feito por charlatães, um roubo, um esperdício de dinheiro e esperança, uma bosta verde chamada VK-3. Acho que matava mais rápido os pacientes de câncer. Definhou lá em casa. Saiu para morrer no Hospital Tricentenário.

Tudo entrempado

A metrópole é um prédio entrempado no outro. Janela com janela, varanda com varanda. Os vizinhos do outro lado, dois andares abaixo, costumavam jantar na varanda, finais de semana, com amigos e vinhos. Eram jantares animados, até com gargalhadas. A dona da casa, uma loura vislumbrosa, bem mais de quarenta, devia ser cinquenta. Leo mesmo gostava de bispar a varanda lá embaixo, escondido na área de serviço, lâmpada apagada, na área de serviço a janela é alta, mais discreta, só o nariz de Leo e os olhinhos poderiam acaso ser vistos. É provável que outros vizinhos fossem menos discretos na apreciação da felicidade alheia: taparam a varanda com persianas. Persianas que descem apenas nas noites de jantares. Noites de Leo menos divertidas, sextas e sábados.