Sonho com Isabel

O sonho com Isabel. Foi um sonho dentro de outro sonho, muito estranho. Eu não era bem eu e Isabel não era bem Isabel, mas semelhantes. Outras vidas, outros universos, até melhores do que esse aqui.

Ele aportava em uma baía luminosa com muitos veleiros, água azul do mar, dia de sol. A cidade subia pelas colinas em volta da baía. Como era sonho, ele viu a baía lá de baixo, na chegada, no cais de madeira do porto, e quase ao mesmo tempo, percebia a baía vista de cima, os veleiros ancorados. Ele subiu as ladeiras da cidade correndo. Uma cidade como Granada, que não é perto do mar mas tem colinas, uma cidade como São Francisco, e menos como Olinda, que não tem uma baía. Uma cidade antiga, como as cidades portuguesas. Subia uma ladeira correndo sem sentir cansaço nem o peso do corpo, leve, leve. Uma moça subia pedalando e desistiu no meio da ladeira, desceu da bicicleta e empurrou, e ele seguiu correndo leve. Paralelepípedos. No topo de uma ladeira, escadarias como em Granada continuavam a subida. Ele subia ansioso, levava um pequeno pacote, um presente simples para ela.

A casa dela era lá em cima, em cima, uma rua quase plana, e paralela à baía lá em baixo. A casa dela era na esquina, ela morava no andar de cima de uma casa antiga, um apartamento pequeno; para chegar no primeiro pavimento havia uma escada externa com guarda-corpo de ferro trabalhado, tudo antigo. Ele notou que estava tudo fechado em cima, olhou na esquina, foi para lá e para cá, dobrou a esquina de novo e, quando voltou à rua principal, ela subia a escada, já ia pelo meio. Ela usava uma blusa vermelha colada, os peitos pequenos que ele conhecia bem, uma saia curta de jeans. Os cabelos estavam diferentes, não lisos, não os de sempre, e ele nem achou estranho, estavam ondulados. Ela sorriu, subia com uma amiga, acenou para que ele subisse, ele pulou degraus e foi entrando no apartamento com ela e a amiga, que ele não conhecia.

Ela abriu as janelas, o piso era de madeira escura, como o das casas de Olinda e Ouro Preto. Ele chegava de viagem, como um marinheiro, mas ele nunca fora marinheiro na vida, tampouco velejava na vida, sabia nada de barcos, sonho é assim. Falaram da viagem, ele entregou o presente, algo que trouxera de longe, não ficava claro o que era, um artesanato de uma ilha distante, um livro, quem sabe. Nada valioso, somente mostrar que a mantivera no pensamento. A amiga dela fez um comentário, dirigindo-se a ela, foi como “ele ganhou pontos com você”. E ela disse desse modo “ele não precisa ganhar pontos, ele já tem todos os pontos necessários”.

Daí, ela começou a cuidar da casa, arrumar alguns objetos, frutas, compras, não se sabe, e colocou roupas na máquina de lavar; os móveis e equipamentos estavam todos mais ou menos no cômodo principal, e havia ainda um quarto ou dois. A máquina ficava perto de uma prateleira de madeira antiga. Com um canivete suíço, ele gravou algumas palavras na parte de baixo da madeira antiga, sem que ela visse, em um momento no qual ela foi ao quarto. A frase, quem sabe o que diria, talvez “eu estive aqui”, ou algo mais romântico, algo de saudade.

Eles se despediram sem beijos, nada grandioso, um roçar de rostos, nariz. Ele foi para a casa dele, não era longe, ela ficou cuidando das coisas da casa. Então, ele acordou na casa dele e percebeu que fora um sonho. Mas, ele sabia, era verdade, ela existia e morava ali perto na casa do sonho e eles moravam naquela cidade do sonho. Ele telefonou para ela e contou o sonho, ela gostou do sonho dele, e ele contou que, absurdo, no sonho, havia gravado palavras na madeira antiga que havia por trás da máquina de lavar roupa, ora ele nunca faria isso acordado, riscar uma madeira. Ao telefone ainda, ela foi até a máquina de lavar, puxou-a para a frente e encontrou ali atrás as palavras que ele em sonho rabiscara.

Então, ele acordou do sonho e se viu na vida real, essa aqui sem graça e cinza, sem veleiros, sem baía, sem blusa vermelha, presentes, madeira, nada.

Fanfic, Braulio Tavares

Fanfic, Braulio Tavares.

Coleção de contos de Braulio Tavares, parcialmente inspirados nos autores favoritos dele. Não apenas uma homenagem ou extensão de histórias alheias, mas contos bastante criativos e, muita vez, com muito humor. A qualidade dos contos independe da filiação a algum autor, todavia é divertido tentar identificar a possível homenagem. Lido em um dia de sábado. 

Finegão Zuera: escrito no modo Joyce, aparece o Trupizupe, um alter ego de BT.

O homem que perdeu seu reflexo: a história de Ladislau, que desafiou um poderoso e foi sendo gradativamente apagado da história. Modo 1984.

Haxan: meio distopia futurista, meio Rubem Fonseca e Bradbury, mistura tecnologia e miséria (em sentido amplo).

Sete Ovnis: puro Braulio Tavares, como ele costuma fazer no blog.

Fenda no espaço tempo: Seu Claudionor, ótimo, e os caras que aparecem por engano lá pelas brenhas do interior. Vôte.

Concerto noturno: tom de pesadelo, soturno e ameaçador, algo de Poe e Lovecraft.

A estética eliminacionista: idéia curiosa que me fez pensar em certo tipo de arte contemporânea.

The ghost in the machine: um dos melhores. As diversas civilizações interplanetárias e a dificuldade de convivência pacífica. A saudação terrestre é excelente: “amigos leais, bravos inimigos, paz no futuro, glória no passado”. O fantasma feito de memórias perdidas. Asimov. As notas ao texto compõem quase um conto à parte. Pensei em um livro no qual as notas ocupem tanto espaço quanto o próprio enredo.

Universos tangenciais: recursivo; o personagem cai de um sonho para outro e outro.

A arca: um exercício de aliterações. Pareceu-me que Anna matou Alan, mas havia apagado o fato da memória.

A demanda do bosque sombrio: algo como um Dom Quixote e o sertão nordestino.

A propósito da difração quântica nas regiões periféricas da consciência: de início, parece ficção científica, mas resulta na capacidade de não ver a situação miserável de um país/cidade.

Um só seu filho: um papa tem um encontro místico na última noite de vida.

A república do recurso infinito: misto de pesadelo kafkiano com erros da Matrix.

No labirinto: um dia comum de trabalho para um tradutor-escritor.

O vale da maldição: muito bom. Tem algo de Planeta dos Macacos e de Piquenique à beira da estrada. O perigo do conhecimento parcial juntamente com a descrença nas lendas.

Gronk: intercâmbio escolar entre diferentes civilizações planetárias.

Aquele de nós: aquele que escreve o faz porque teve permissão “do alto”, “dos criadores do jogo”, para revelar ínfimas partes do mistério.

O polvo: a forma da água em diapasão mais cruel e divertido.

A ilha ao meio: estranho. Lembrou-me algo de Comando Sul. Uma ilha artificialmente cortada ao meio gera universos incomunicáveis.

Frankenstadt: tem algo de jogador número um, Blade Runner, o personagem busca respostas e busca também “os criadores”. Mary Shelley.

O molusco e o transatlântico: “se eu estivesse aqui sozinho, começaria a pensar que era minha mente que estava criando o Universo, que girava devagar em volta daquela nave imóvel no vácuo”. Algo de Clarke. Um dos melhores. Um pesquisador brasileiro na estação espacial é levado para testes em uma nave alienígena. Definitivamente.

Hamlet

“É um risco que alguém de baixa estirpe se meta entre os golpes e feras pontas abrasadas de opostos poderosos.”

Hamlet traduz para uma linguagem sofisticada o dito popular “em briga de cachorro grande, quem mete a mão acaba mordido” ou “em briga de cachorro grande, vira-lata fica calado”.

Macbeth, Ato 1, Cena 3

Como exercício, inventei de traduzir mais uma cena de Macbeth. É difícil para mim, mas o resultado é prazeroso e traz grande aprendizado sobre a obra e os personagens.

Ato 1, Cena 3.
Uma charneca perto de Forres.
(Trovão. Entram as três feiticeiras.)

Primeira feiticeira
Por onde tu tens estado, irmã?

Segunda feiticeira
Matando suínos.

Terceira feiticeira
E tu, irmã?

Primeira feiticeira
A esposa de um marinheiro trazia castanhas no colo,
E mastigava, e mastigava, e mastigava:
– “Dê-me”, eu disse:
“Não são para ti, bruxa” gritou a gorda sarnenta.
O marido dela está indo para Alepo, Tigre é seu navio:
Em uma peneira eu navegarei para lá, (1)
E como um rato sem rabo,
Eu vou roer, eu vou roer, e eu vou roer.

Segunda feiticeira
Eu te darei um vento.

Primeira feiticeira
Que gentileza.

Terceira feiticeira
E eu te darei outro.

Primeira feiticeira
Eu mesma tenho outros;
E por muitos portos eles sopram,
De todos os cantos conhecidos
No mapa do marinheiro.
Eu o secarei como uma palha:
Ele não dormirá dia e noite
Suas pálpebras sempre abertas;
Se tornará um homem condenado:
Fatigado sete noites nove vezes nove
Ele enfraquecerá, sobe, desce, sobe:
Embora o barco não se perca,
A tempestade será inclemente.
Olhem o que eu tenho.

Segunda feiticeira
Mostra, mostra.

Primeira feiticeira
Tenho aqui o polegar de um piloto,
Que naufragou quando ia para casa.

(Som de tambor)

Terceira feiticeira
Um tambor, um tambor!
Macbeth chega.

Todas
As irmãs videntes de mãos dadas,
Viajantes do mar e da terra,
Então irão sobre, sobre:
Três vezes para vós, e três vezes para nós,
E três vezes de novo, para completar nove:
– Paz! – o feitiço foi lançado.

(Entram Macbeth e Banquo. Soldados a alguma distância.)

Macbeth
Um dia tão detestável e tão justo ainda não tinha visto.

Banquo
Quanto falta para Forres? Quem são aquelas
Tão secas e tão selvagens em suas vestes,
Que não parecem habitantes da terra,
E ainda assim estão sobre ela? Estão vivas? Ou são algo
Que pode nos intrigar? Vocês parecem me compreender,
Pois seus dedos rachados cobrem
Seus lábios finos: – poderiam ser mulheres,
Mas suas barbas me proíbem julgar
Que o são.

Macbeth
Falem se conseguem; o que são vocês?

Primeira feiticeira
Salve ambos. Salve, Macbeth, thane de Glamis!

Segunda feiticeira
Salve ambos. Salve, Macbeth, thane de Cawdor!

Terceira feiticeira
Salve todos, Macbeth, que será rei no futuro!

Banquo
Bom senhor, por que parece temer
Coisas que soam tão belas? Em nome da verdade,
São vocês sobrenaturais, ou aquilo que de fato
A aparência nos mostra? Meu nobre companheiro
Vocês agradaram com essa dádiva, e grandes previsões
De nobreza e de real esperança
Que ele parece extremamente fascinado: para mim, não falaram:
Se vocês podem olhar nas sementes do tempo,
E dizer qual grão vingará e qual não,
Falem, então, para mim, que não imploro nem temo
seus favores tampouco seu ódio.

Primeira feiticeira
Salve!

Segunda feiticeira
Salve!

Terceira feiticeira
Salve!

Primeira feiticeira
Menor que Macbeth, e maior.

Segunda feiticeira
Não tão feliz, e muito mais feliz.

Terceira feiticeira
Tu farás reis, mas não serás nada:
Então, salve ambos, Macbeth e Banquo.

Primeira feiticeira
Banquo e Macbeth, salve!

Macbeth

Fiquem, falantes imperfeitas, contem-me mais:
Pela morte de Sinel, sei que sou o thane de Glamis; (2)
Mas como de Cawdor? O thane de Cawdor vive, (3)
Um próspero cavalheiro; e ser rei
Está fora da possibilidade de crença
Não mais que ser Cawdor. Digam de onde
Tiraram esse estranho conhecimento? Ou por que
Nesta insípida charneca interromperam nosso caminho
Com tais bem-aventuranças proféticas? Falem, eu ordeno.

(As feiticeiras desaparecem.)

Banquo
A terra tem bolhas, como a água tem,
E estas são delas: como desapareceram?

Macbeth
No ar; e aquilo que parecia corpóreo misturou-se
Como a respiração ao vento. Elas deviam ter ficado!

Banquo
Tais coisas estiveram aqui e falamos com elas?
Ou comemos raízes maléficas
Que deixam prisioneira a razão?

Macbeth
Teus filhos serão reis.

Banquo
Tu serás rei.

Macbeth
E thane de Cawdor também, não foi isso?

Banquo
Com o mesmo tom e as mesmas palavras.
Quem vem lá?

(Entram Ross e Angus.)

Ross
O rei recebeu com felicidade, Macbeth,
As notícias do teu sucesso: e quando ele soube
Da tua ventura pessoal na luta contra os rebeldes,
A admiração e gratidão dele combateram
Acerca de qual deveria ser tua, qual deveria ser dele; emudecido,
Em vista de tudo que aconteceu naquele dia,
Ele soube de ti nas difíceis posições norueguesas,
Sem temor daquilo que tu fizeste, (4)
Estranhas imagens da morte. Tão espesso quanto granizo
Veio mensagem após mensagem; e cada uma confirmou
Teu empenho na imensa defesa do reino dele,
E submeteste a todos perante o rei.

Angus
Nós fomos enviados
Para te dar os agradecimentos de sua real majestade;
Somente para te agradecer no lugar dele,
Não para te pagar.

Ross
E para cúmulo de uma honra imensa,
Ele me ordenou, da parte dele, chamar-te thane de Cawdor:
O mais valoroso thane, salve, adiciona mais um
Título aos teus.

Banquo
(À parte.) Como é possível que o demônio fale a verdade?

Macbeth
O thane de Cawdor vive: por que você me veste
Com roupas de empréstimo?

Angus
Aquele que foi o thane ainda vive;
Mas sob severo julgamento confirmou que tal vida
Serve-lhe somente para perdê-la. Se ele estava aliado
Com aqueles da Noruega, ou alinhou-se aos rebeldes
Com secreta ajuda e vantagem, ou com ambos
Trabalhou para a derrocada de seu país, eu não sei.
Todavia traições capitais, confessadas e provadas,
Caíram sobre ele.

Macbeth

(À parte.) Glamis, e thane de Cawdor!
O melhor está por vir. (Para Ross e Angus.)
Meus agradecimentos pelo incômodo.
(Para Banquo, à parte.) Tu agora esperas que teus filhos se tornem reis,
Visto que aquelas que me deram o thane de Cawdor
Não prometeram menos para eles?

Banquo
(À parte para Macbeth) Aquilo, caro senhor,
Pode ainda inspirá-lo para a coroa,
Além de thane de Cawdor. Mas é estranho:
Frequentemente, para nos levar à destruição
Os instrumentos das trevas nos falam verdades;
Convencem-nos com honestas ninharias, para nos afundar
Em severas consequências.
Primos, uma palavra, eu peço.

Macbeth
(À parte) Duas verdades foram previstas,
Como feliz prólogo para o expansivo ato
Do tema imperial.
Eu agradeço a vocês, cavalheiros.
(À parte) Este sobrenatural convite
Não pode ser mau; não pode ser bom: se mau,
Por que me teriam dado a prova do sucesso,
Iniciando pela verdade? Eu sou thane de Cawdor:
Se bom, porque produziriam tal sugestão
Cuja terrível imagem faz arrepiar meu cabelo,
E faz meu coração se chocar com as costelas
Contra o costume natural? Os temores presentes
São menores que as horríveis fantasias:
Meu pensamento, no qual o assassinato ainda é fantástico,
Sacode minha solitária condição de homem, cuja função
É sufocada no pressentimento; e nada é
Tampouco não é.

Banquo

Olhem, como nosso companheiro está fascinado.

Macbeth
(À parte) Se o acaso me quer rei, o acaso
Deve me coroar,
Sem meu movimento.

Banquo
Novas honrarias caem sobre ele
Como estranhas armaduras, não apegadas ao modelo
Mas com a ajuda do costume.

Macbeth
(À parte) Aconteça o que acontecer,
O tempo e a hora passam até pelo mais difícil dia.

Banquo
Honorável Macbeth, permanecemos a seu dispor.

Macbeth
Perdoem-me: meu tolo cérebro estava tomado
Com coisas esquecidas. Gentis cavalheiros, seus préstimos
Estão registrados e a cada dia eu voltarei
A página para lê-los. Vamos ao rei.
(Para Banquo) Medite sobre os acontecimentos e, mais tarde,
Havendo sopesado-os, conversaremos
Com nossos corações abertos um para o outro.

Banquo
Com muito prazer.

Macbeth
Até lá então. Vamos, amigos.

————-

(1) Peneiras faziam parte da cozinha de uma feiticeira. Um texto de 1591, Newes from Scotland, relata que duzentas feiticeiras de uma vez atravessaram o mar em suas peneiras.

(2) Sinel foi o pai de Macbeth do qual ele herdou o título de thane de Glamis.

(3) Deve ser erro de continuidade visto que Macbeth deveria saber sobre a traição de Cawdor.

(4) As estranhas imagens da morte são os corpos que restaram nos campos de batalhas.

Anotações Macbeth

Anotações Macbeth

Macbeth, William Shakespeare, 1606, tradução e introdução de Bárbara Heliodora, Editora Nova Fronteira, 134 páginas.

A tradução

Já havia lido Macbeth mais de uma vez em traduções que não lembro quem fez. Encontrei esse volume com tradução de Barbara Heliodora e decidi ler mais uma vez. Sim, a tradução dela é boa, e Heliodora é admirada entre os tradutores brasileiros. Todavia, ainda não encontrei a tradução do jeito que prefiro: traduzir Shakespeare diretamente, quase literalmente, sem lutar com a métrica e a rima. Meu desejo é conhecer a frase inteira, do jeito que o autor pensou, se for possível. No caso de Heliodora e de quase toda tradução do autor, para se acomodar a uma ou a outra, o tradutor transforma a oração. Veja-se apenas um exemplo, quando a Segunda Feiticeira responde à pergunta da Primeira (quando nos encontraremos de novo?):

Shakespeare escreveu:
When the hurlyburly’s done,
When the battle’s lost and won.

Eu traduzi de forma direta:
Quando a confusão estiver terminada,
Quando a batalha estiver perdida e ganha.

Barbara Heliodora traduziu:
Só com a bulha arrefecida,
Ganhar a luta perdida.

Heliodora optou por bulha porque a palavra se parece com hurlyburly em som e sentido. Optou por luta perdida para rimar. Entretanto, essa opção faz perder significado. No primeiro verso, bulha não tem o significado claro e imediato de confusão. No segundo verso, perdeu-se a intenção do autor. Shakespeare fala em batalha perdida e ganha porque a batalha é perdida por um lado e é ganha pelo lado oponente. Ganhar a luta perdida não me dá essa ideia.

Portanto, a tradução de Heliodora é boa e tem boas rimas, mas perde em significado e em aderência à ideia original.

A introdução feita pela tradutora é muito boa e adiciona elementos à comprensão da obra. Entretanto, esta edição da Nova Fronteira peca pela ausência de notas explicativas. Há muitos contextos e citações que necessitavam ser explicados ao leitor atual. Deve haver edições melhores de Macbeth em português.

A história

Evidentemente, Macbeth é um clássico e todo clássico deveria ser lido um dia. Talvez quem nunca tomou conhecimento sobre a obra tenha ao menos uma vaga noção de um rei, algumas bruxas, algum sangue, alguma batalha. Macbeth é uma história sobre ambição desmedida, sobre insanidade, violência e crueldade. O personagem Macbeth é o valente general do rei Duncan e se destaca nas batalhas recentes. Sua ambição é despertada por feiticeiras que o saúdam como futuro rei. Ao hospedar Duncan, Macbeth ainda tem dúvidas sobre o ato, porém, pressionado pela esposa, comete o regicídio. Daí em diante, Macbeth afunda em sangue. Parece buscar na quantidade de crimes uma forma de anestesiar o primeiro assassinato. Lady Macbeth, de início tão segura e determinada, é tomada pelo peso do crime, a visão e o cheiro do sangue a perseguem, e ela tira a própria vida. Depois de cometer diversos assassinatos para se manter no poder, Macbeth é derrotado pelas forças inglesas que apoiam o herdeiro legítimo do trono, o filho mais velho do rei Duncan.

O livro é excelente. As dúvidas iniciais de Macbeth acerca do crime, sua gradual transformação em sanguinário e sem limites, as visões e aparições que ambos, ele e sua esposa, presenciam, todo o sobrenatural da peça, tudo isso é marcante. As cenas em que as feiticeiras aparecem estão entre as melhores. Percebo nelas, além da maldade e da falsidade, uma alegria malévola e até infantil. É relevante observar que momentos cruciais da história, e da peça teatral, não são mostrados, ou seja, são apenas subentendidos e referidos depois pelos personagens: assim, o assassinato de Duncan por Macbeth, o momento em que Lady Macbeth vai ao quarto do rei assassinado deixar as adagas, o suicídio de Lady Macbeth. Observe-se, também, que é o fantasma de Banquo que assombra Macbeth, não o do rei Duncan. Na peça, não se esclarece a forma como Banquo dará origem a uma casa real, algo que foi previsto pelas feiticeiras, visto que Macbeth é derrotado e sucedido pelo herdeiro legítimo de Duncan.

Uma obra inesquecível, sombria, sanguinária e valiosa.

Resumo e anotações

Ato 1

Cena 1

Na charneca, apresentação das bruxas.

Cena 2

Duncan, rei da Escócia, no acampamento, recebe notícias das batalhas contra a Irlanda e a Noruega. A coragem dos generais Banquo e Macbeth, este chamado de noivo de Belona. Belona é a deusa da guerra na mitologia romana. Duncan ordena a morte do traidor, o Thane de Cawdor, e determina que Macbeth fique com o título. Thane é um título de nobreza semelhante a conde ou barão.

Cena 3

As bruxas na charneca, com Macbeth e Banquo. Banquo: “Quem são essas, tão secas e tão loucas no vestir, que não parecem habitar a terra?” As bruxas prevêem que Macbeth será Thane de Cawdor e rei, e que Banquo será pai de reis. Banquo: “Mas, falamos de algo que aqui esteve, ou comemos raízes que enlouquecem fazendo o cérebro seu prisioneiro?” Rosse e Angus informam que Macbeth agora é Cawdor. Banquo tem ótimas falas: “Muita vez, para levar-nos para o mal, as armas do negror dizem verdades; ganham-nos com tolices, para trair-nos em questões mais profundas”. Macbeth: “A tentação do sobrenatural não pode nem ser má e nem ser boa”. Macbeth está assustado: “se o fado me quer rei, me coroe sem que eu me mova”.

Cena 4

No palácio Forres, Duncan e seu filho Malcolm. Cawdor foi executado: “Em sua vida, nada lhe foi tão bem quanto o deixá-la”. Macbeth é primo do rei Duncan. Malcolm é feito Príncipe de Cumberland. Combina-se que todos irão a Inverness, o castelo de Macbeth. Ele: “Apaga, estrela, para que a luz não veja os meus negros desígnios”.

Cena 5

Em Inverness. Lady Macbeth lê a carta do marido e pensa: “Temo-te a natureza: sobra-lhe o leite da bondade humana para tomar o atalho. Sonhas alto, não te falta ambição, porém privada do mal que há nela! (…) Vem para que eu jorre brio em teus ouvidos.” Ela está mais decidida ao crime que o marido, “Vinde espíritos das ideias mortais, tirai-me o sexo”, para que ela possa atuar como homem e exercer a “vil crueldade”. Clama aos “espíritos mortíferos” para tornar seu “leite em fel”. Macbeth chega na frente da comitiva do rei e ela diz a ele: “Teu rosto é um livro aonde os homens podem ler suspeições”. Macbeth angustiado.

Cena 6

Em Inverness, o rei Duncan é recebido por Lady Macbeth.

Cena 7

Macbeth tem dúvidas: “Não vou levar avante esse negócio”. Lady Macbeth: “Estava bêbada a ambição que vestias? E dormiu?”. E ele: “Paz, eu peço”. Ela mais forte e mais decidida. Macbeth: “Estou pronto”.

Ato 2

Cena 1

Em Inverness, Banquo e Macbeth no pátio do castelo, Banquo sonhou com as bruxas. Macbeth: “Estar do meu lado quando calhar lhe trará honra”. Banquo mostra reservas em relação a Macbeth: “Desde que não a perca por querer aumentá-la”. Macbeth fica só e tem a visão de um punhal, “uma adaga da mente”.

Cena 2

Lady Macbeth receia que o atentado falhe: “A tentativa pode perder-nos, não o ato em si”. Duncan se parece com o pai dela, Lady Macbeth não conseguiria matá-lo. Macbeth: “Fiz o feito. (…) É uma triste visão”. “Tolice”, responde ela. “Não pense tanto nisso (…) Não se pode pensar dessa maneira nesses feitos, assim ficamos loucos”. Macbeth ouviu uma voz: “Macbeth matou o sono e não mais dormirá”. Ele ainda está com os punhais ensanguentados. Lady Macbeth lhe diz que volte, leve os punhais e besunte os guardas com sangue – haviam sido embebedados e drogados por ela. Macbeth: “Não posso mais”. Ela vai: “Os que dormem e os mortos são só quadros. Só crianças temem um diabo pintado”. Macbeth: “O vasto oceano não consegue lavar o sangue destas mãos (…) Antes, estas mãos conseguiriam avermelhar a imensidão do mar”. Batem e batem nas portas do castelo. Macbeth: “Acordem Duncan com o seu bater. Quem dera o conseguissem”.

Cena 3

Lenox e Macduff chegam para acordar o rei. Vai Macduff ao quarto de Duncan. Macbeth e Lenox, “a noite foi inquieta”, “a noite foi terrível”. Macduff retorna e Lenox e Macbeth correm para ver o feito. Macduff: “Alarme, alarme, homicídio e traição. (…) Deixai o sono, imitação da morte, e olhai a própria morte.” Lady Macbeth, Banquo, Donalbain, Malcolm, Macbeth: “Se eu morresse uma hora antes do havido, minha vida seria abençoada.” Macbeth matou os assassinos, os guardas, em um ímpeto de fúria. Banquo: “Lutarei contra a falsidade oculta da maldosa traição.” Donalbain e Malcolm, filhos de Duncan, percebem o perigo: “Mostrar dor que não se sente é tarefa que o falso cumpre bem.” “Onde estamos há punhais nos sorrisos.” “A fatal flecha ainda não pousou e o mais seguro é evitar o alvo.” Sem “adeuses delicados”, eles partem.

Cena 4

Fora do castelo, Rosse e um velho, o dia está negro, foram horas terríveis. Velho: “É anormal como o ato perpetrado. Na terça-feira, um falcão altaneiro foi trucidado por uma coruja.” Macduff: “Os cavalos de Duncan fugiram, os filhos do rei são suspeitos pois fugiram. Macbeth foi para a coroação em Scone, Rosse vai para lá, Macduff para Fife.

Ato 3

Cena 1

Forres, palácio. Banquo, Macbeth e Lady Macbeth conversam, haverá uma ceia à noite. Banquo vai cavalgar com o filho. Macbeth: “Nossos primos sangrentos, nos informam, fugiram para Inglaterra e Irlanda sem confessar o cruel parricídio.” “Um cetro (!) estéril tenho em minha mão”, diz Macbeth, visto que as bruxas profetizaram que Banquo seria pai de reis. Macbeth contrato dois assassinos: “Cada alento de Banquo torna-se um golpe em minha própria vida.”

Cena 2

Sala do castelo, Lady Macbeth: “Não há ganhos, tudo é perda se o desejo se alcança sem prazer.” Macbeth: “Duncan está na tumba, dormindo após a febre desta vida.” Ele diz que o casal está “escondendo o que somos” e que “escorpiões entopem minha mente”. “Só o mal pode fazer crescer o mal.”

Cena 3

Um caminho que leva ao castelo, surge um terceiro assassino (falha de roteiro?), matam Banquo e Fleance foge.

Cena 4

Um banquete no castelo. O casal Macbeth e nobres. Um assassino vem falar com o rei. “Há sange no teu rosto”, “só de Banquo”, “melhor em você que dentro dele”. O fantasma de Banquo se senta na cadeira de Macbeth: “Não podes me acusar, nem sacudas para mim o teu cabelo ensanguentado.” A aparição do fantasma é “mais estranha que o próprio assassinato”. “Podem tais coisas existir e sombrear-nos, qual nuvem de verão, sem ser com espanto?” “Ele quer sangue: sangue pede sangue.” “Estou tão fundo em sangue que, se paro, a travessia e a volta são iguais.” Todavia, a angústia faz com que Macbeth diga que “ainda somos novatos em tais feitos.”

Cena 5

Na charneca. Hécate irada porque não foi chamada a participar dos feitiços. Diz que Macbeth “é um filho tão sem jeito que só tem ódio” e recomenda “aumentar-lhe a confusão”. “Confiar demais é o inimigo dos mortais”. O espírito está me esperando, e sai.

Cena 6

Escócia. Lenox faz ironia acerca dos assassinatos. Macduff está desgraçado porque não atendeu ao convite de Macbeth para jantar. “Que volte a ser abençoada nossa pátria que sofre sob mão maldita.”

Ato 4

Cena 1

Uma caverna escura com um caldeirão fervendo. As feiticeiras conjuram feitiços: “fígado de mau judeu (…) Nariz de turco e bandido”. Entram Hécate e outras três bruxas e logo saem. Macbeth chega. “Queres que falemos nós ou nossos mestres?”. “Eles.” Macbeth não precisa fazer perguntas, as aparições já sabem as perguntas, é só ouvir as respostas. Um: cuidado com Macduff, dois: ninguém parido de mulher pode ferir Macbeth, três: jamais será vencido enquanto a floresta de Birnam não se mover. Haverá uma linhagem de reis com origem em Banquo. Macduff foge para a Inglaterra.

Cena 2

Castelo de Macduff. Lady Macduff com Ross, depois com o filho. “Quem jura e mente é traidor.” “Juradores e mentirosos são tolos porque há bastantes juradores e mentirosos para ganhar dos honestos e enforcá-los.” Assassinos a mando de Macbeth matam Lady Macduff e filhos.

Cena 3

Na Inglaterra, Malcolm recebe Macduff: “Os anjos brilham apesar de Lúcifer.” Macduff: “Nem na tropa que habita o inferno pode haver demônio pior que Macbeth.” Malcolm não confia em Macduff e se denigre, diz que é pior que Macbeth. Macduff cita a sua luxúria. E Macduff: “Sempre há damas dispostas (…) todas as que aos grandes se querem dar quando buscadas.” E ainda: “Triste nação cujo cetro de sangue está com um tirano sem direito a ele.” Malcolm acredita em Macduff e conta que irá atacar com Siward e dez mil soldados. O rei da Inglaterra sofre do Mal e cura doenças e chagas. Ross comunica a Macduff a morte da mulher e dos filhos. “Até a longa noite acaba em dia.”

Ato 5

Cena 1

Dunsinane. Médico, dama e Lady Macbeth que alucina, sangue nas mãos, “Mas quem haveria de pensar que o velho tivesse tanto sangue?”, sente cheiro de sangue.

Cena 2

Campo aberto. Lenox e outros passam para o lado de Malcolm.

Cena 3

Dunsinane. A notícia de que são dez mil homens a força inglesa. Sobre a doença de Lady Macbeth, o médico diz que “males escritos no cérebro (…) nisso o doente tem de curar-se a si mesmo.”

Cena 4

Campo aberto com vista para a floresta. O exército e os nobres, Malcolm, Siward, Macduff, Lenox, Ross. Os soldados cortam galhos e usam como camuflagem.

Cena 5

Dunsinane. Macbeth: “Estou farto de horrores: o pavor, íntimo do meu pensar, já nem assusta.” “A vida é só uma sombra. Um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o idiota, todo som e fúria sem querer dizer nada.” Avisam a Macbeth que “a floresta avança.”

Cena 6

Na planície, o exército de Malcolm avança com Siward à frente.

Cena 7

Outra parte do campo. Macbeth mata o jovem Siward e sai. Entra Macduff, o castelo se rendeu.

Cena 8

No campo. Macduff e Macbeth: “Minha alma está farta do peso do teu sangue. (…) Vivo de encantos.” Macduff: “Fui arrancado fora do tempo ao ventre de minha mãe.” Macbeth: “Maldito aquele que primeiro gritar Basta!” Macbeth é morto por Macduff.

Cena 9

Dentro do castelo. Malcolm, Siward, Macduff e outros. “A rainha que por suas próprias mãos deixou a vida.” São todos convidados para a coroação.