Piquenique na estrada, Arkádi e Boris Strugátski, 1972

Piquenique na estrada, Arkádi e Boris Strugátski, 1972, Editora Aleph, 320 páginas, tradução: Tatiana Larkina.

Gostei do livro, é fácil de ler, não foi perda de tempo. A Terra foi visitada por seres extraterrestres em seis lugares distintos do planeta. Aparentemente, eles nem se deram ao trabalho de tentar qualquer comunicação com os terráqueos. Os autores comparam essa “Visitação” a um piquenique. Algumas pessoas param o carro na beira da estrada, estendem a toalha, fazem um longo piquenique e vão embora. As formigas e os animais silvestres encontrarão ali restos de comida, uma chave de fenda perdida, pedaços de papel, uma infinidade de coisas que podem ter serventia ou não.

Assim os extraterrestres deixaram os locais onde pousaram: uma bagunça contendo os mais diversos tipos de objetos misteriosos e forças desconhecidas, algumas delas mortais. O único local que a história nos dá a conhecer está cercado pelo governo e há um instituto de pesquisa que faz incursões cuidadosas na “Zona” para estudar e recolher material. Isso não impede que aventureiros, conhecidos como “stalkers” entrem na área sem autorização para roubar objetos e contrabandeá-los, às vezes ao custo da saúde ou da vida.

É uma história bacana para quem gosta de ficção científica e me fez pensar no livro de Encontro com Rama, de Arthur Clarke (que comentei aqui), onde uma nave alienígena cruza o Sistema Solar sem dar a mínima para as formigas terráqueas. É o tipo de história que faz pensar na possível desimportância do ser humano frente ao imenso universo e a outras civilizações.

Faz pena que o livro não descreva como foi a “Visitação”, quanto tempo os seres passaram no planeta, como foram as tentativas de contato. Dava até para fazer uma série de livros sobre o tema, mas os irmãos Strugátski não quiseram assim. Como ponto negativo, penso que a segurança em torno da tal “Zona” é fraquíssima face à importância do local e ao interesse militar e governamental, inclusive a segurança não aumenta com o passar dos anos no decorrer da história.

Quem me fez interessar por ler este livro foi Braulio Tavares em um post de seu blog Mundo Fantasmo, clique aqui para ler.

Trechos:

E não importa de onde eles vieram, com qual objetivo, por que ficaram por tão pouco tempo, nem aonde foram depois.

Ele olhou para mim através da taça, balbuciou algo para dentro e, sem dizer uma palavra, me serviu quatro dedos de álcool. Eu me acomodei num banco, dei um gole, fechei os olhos, sacudi a cabeça e engoli de novo. A geladeira zumbia baixinho, a máquina musical tilintava algo no fundo, Ernest soprava no copo da vez – tudo tranquilo…

Daria para viver apenas do salário, e beber quando tivesse bônus. E de repente uma tristeza me invadiu. Significava novamente contar cada centavo, calcular o que poderia e o que não poderia me permitir; economizar para comprar qualquer presente para Guta, não frequentar o bar, indo só ao cinema. Tudo sem graça, apagado. Dias cinzentos, tardes cinzentas, noites cinzentas…

Mas que coisa, por que gostamos de elogios? O dinheiro não aumenta por isso… A fama? Mas que fama podemos ter? “Ele ficou famoso, agora há três pessoas que sabem dele.” Bem, quatro se contar o Bailes. Que coisa curiosa é o ser humano!… Parece que gostamos de elogios por si sós. Como crianças gostam de sorvete. É o complexo de inferioridade, é isso. Como posso me elevar a meus próprios olhos?

Abanou a mão para dispersar a fumaça e sorriu sarcasticamente. – Eu, porém, há muito parei de discutir sobre a humanidade em sua totalidade. Pois é um sistema extremamente estacionário, não há como atingi-lo.

Resumindo, se um ser extraterrestre tiver a honra de ter uma psicologia humana, então será considerado inteligente. Essa é a situação, Richard. O senhor já leu Kurt Vonnegut?

– Em todo caso – repetiu ele com teimosia. – Não pode ser… Que diabo! Por que vocês, cientistas, têm tanto desdém em relação ao ser humano? Por que é que sempre tentam rebaixá-lo?

Escute isso: “Vocês me perguntam em que consiste a grandeza do homem?” – começou a citar. – “Ter criado uma segunda natureza? Ter acionado forças de magnitude quase cósmica? Ter em um espaço de tempo insignificante se apoderado do planeta e aberto a janela para o universo? Não! Está no fato de que, apesar de tudo isso, ele sobreviveu e está determinado a continuar sobrevivendo.”

Gosto de conversar com o senhor – disse ele para Valentin. – É como uma limpeza geral do cérebro. Como se jogassem sal grosso dentro da cabeça. Pois a gente só trabalha, trabalha sem entender o quê, para quê, que futuro nos espera, o que consolaria o coração…

“Meu Deus do Céu, o que mais deve acontecer para que finalmente abramos os olhos! Será que isso aqui não é suficiente?”. Ele sabia que não era. Sabia também que bilhões não estavam a par da situação e nem queriam estar e que, se um dia ficassem sabendo, iriam se apavorar por dez minutos e logo voltariam para as suas rotinas.