O Mundo sem Anéis – Mariana Carpanezzi

Li o livro de Mariana Carpanezzi em duas longas sessões. Comecei em uma tarde e terminei no outro dia de manhã. É um livro que prende a atenção do leitor. Gostei das dúvidas iniciais de Mariana sobre o trabalho, sobre a Europa, sobre os compromissos. Gostei da forma como, quase sem preparação, ela caiu na estrada, de bicicleta, e de como a viagem deu a ela algumas respostas.

Gostei da descrição das dificuldades do ciclista viajante, o calor, a monotonia, as longas subidas, a chuva, a sede, que são as agruras de todos nós que nos lançamos nesse tipo de aventura.

Senti falta de mapas, de algumas fotos e de uma descrição mais detalhada e sequenciada dos acontecimentos. Nesse último aspecto, foi uma decisão da autora narrar os fatos de forma mais fluida, menos descritiva e mais perceptiva. Entretanto, penso que o leitor sente falta de mais detalhes do cotidiano e da sequência da viagem.

Homem Livre – Danilo Perrotti Machado

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Kindle Unlimited. Tenho dúvidas se esse sistema, no qual se paga uma mensalidade de dezenove reais e noventa centavos e se pega qualquer livro da lista de livros participantes, vale a pena para os leitores. É, pelo que entendo, um sistema de empréstimos, como em uma biblioteca e, caso se saia do sistema, os livros são recolhidos pela Amazon. Como os livros mais famosos ou importantes não participam, em geral, do sistema, o que se encontra são livros de autores desconhecidos, iniciantes, autopublicações. Da mesma forma, não parece ser bom para os autores, pois recebem muito pouco do sistema. Os autores não recebem o valor integral do seu livro emprestado, mas pela quantidade de páginas que foram lidas. Safadeza da Amazon, evidentemente.

De qualquer modo, como se oferece um mês grátis para testar o sistema, entrei para ver como é. No meu caso específico, pode valer a pena, pois encontrei vários guias do Lonely Planet, em inglês, que custam sessenta reais em formato kindle, cem reais em formato de papel, e que podem ser emprestados de graça no Unlimited. Encontrei, também, alguns livros de relatos de viagem que podem me interessar.

Nessas buscas, encontrei um livro muito interessante no Kindle Unlimited, que me prendeu e que li em dois ou três dias. Foi o livro Homem Livre, de Danilo Perrotti Machado.

Danilo narra, no livro, sua viagem de três anos ao redor do mundo em bicicleta. Ele escreve bem e a história prende a atenção, mesmo sabendo que uma viagem de bicicleta é pedalar quilômetros e quilômetros, suor, cansaço, calor, frio, perrengues, conhecer lugares e gente. A narrativa pode interessar mesmo a quem não está diretamente ligado ao universo das viagens de bicicleta. Eu recomendo a leitura e, para mim, foi muito prazerosa. No formato de papel, o livro tem 333 páginas que passaram rapidamente no meu kindle.

Entretanto, sou, também, um viajante de bicicleta e tenho alguma discordância em relação à forma como Danilo realizou sua viagem. É evidente que se pode dizer que a viagem é dele, ele faz e fez como quis, e eu não tenho nada a ver com isso. De todo modo, dou meu pitaco de viajante. Apesar de ser uma viagem de três anos, me parece que Danilo era acossado por uma pressa constante. Ele estabelecera uma meta diária mínima de cem quilômetros e isso, na minha opinião, exercia sobre ele uma pressão que o impedia, em muitos casos, de desfrutar e conhecer os lugares. Há vários casos em que ele diz, por exemplo, atravessei o país tal em três dias, ou no país tal, só fiz sentar em um venda e trocar umas palavras com um senhor.

Outro ponto de discordância, entre mim e ele, é certos encontros de data e local marcados com pessoas da família e com a namorada, hoje esposa. Penso que, em uma viagem de aventura, esses encontros com a normalidade são quebras no ritmo da viagem. Além disso, os cicloviajantes não tem muita condição de marcar datas, pelas próprias condições de uma viagem de bicicleta. No caso de Danilo, isso fazia com que ele se apressasse, ainda mais, ou que ficasse um tempo flutuando, sem objetivo, à espera de uma data.

A pressa que Danilo critica nas pessoas citadinas, a tal pressa contemporânea, o fustigava também, todo o tempo, pois ele amarrou sua viagem em metas aleatórias e desimportantes e em compromissos externos à viagem. Metas podem ser úteis em viagens curtas de bicicleta, quando se tem apenas alguns dias de férias e um embarque em avião esperando, mas não é o que eu esperava de uma viagem de volta ao mundo em três anos. Parece, até mesmo, aquela pressa de Phileas Fogg no livro de Jules Verne.

O livro também dá a impressão de que, a partir do momento em que ele chegou à América, ao Canadá, e seguia em direção ao Brasil, a partir desse momento, a viagem perdeu a graça, ele só pensava em chegar e nada da estrada o interessava. Danilo parece ser uma pessoa um pouco obcecada por números, ele estabelecera a partida em 08/08/08 e a chegada em 11/11/11, uma viagem de três anos, três meses e três dias, algo completamente sem importância e aleatório, e esse condicionante o impedia de aproveitar os últimos meses de viagem. Pode ser só uma impressão incorreta, mas foi isso que percebi.

De qualquer modo, o próprio livro parece sofrer dessa pressa que ele mesmo critica. Penso que Danilo poderia ter feito um livro de quinhentas páginas, seiscentas, e não seria cansativo. Entretanto, os capítulos se sucedem com rapidez alucinada. Me parece que, em vez de obrigatoriamente falar de cada país da viagem, mesmo aqueles dos quais ele diz não ter visto quase nada, Danilo poderia ter se estendido na descrição dos lugares mais curiosos e dos perrengues que, depois, se tornam interessantes de contar, embora quando acontecem são até desesperadores.

Você que me lê, observe, eu gostei muito do livro, mas discordei muito do autor, do modo como ele pensa uma viagem de bicicleta. E ele, Danilo, até poderia dizer: quem é você que só fez viagens curtinhas, de férias, para discordar de mim que realizei uma verdadeira proeza?

Gostei, especialmente, da narração dos trechos em que ele viajou ao lado do pai e das inúmeras dificuldades que surgem em viajar com outro ciclista. As sacolinhas de plástico em que o pai ficava mexendo antes de dormir, o barulhinho irritante das sacolinhas, eu sei bem o que é isso, e como esse algo aparentemente insignificante assume proporções avassaladoras em uma viagem de bicicleta.

Gostei da coragem e sinceridade com a qual ele narra alguns aspectos delicados, esses trechos com o pai, sua atenção dividida entre Julie e Sara, suas explosões de cólera apesar de tantas intenções budistas.

Por fim, vi que o livro de papel está em segunda edição. Não sei se a segunda edição em papel corrigiu alguns defeitos de revisão que aparecem no kindle. Existem muitas frases onde o correto era usar a preposição “a” e se utilizou o “há” do verbo haver. Há a incorreção do nome Guatemala, como Guatelama, e a palavra “helmet” (capacete, em inglês) está “helmut”. Há alguns problemas de diagramação, não sei se próprias do kindle ou da formatação, pois as margens ficam variando de tamanho e muitas páginas são interrompidas no meio, restando um espaço em branco e continuando na página seguinte. O leitor, em qualquer formato, necessita de constância para só se concentrar na leitura.

Recomendo vivamente o livro de Danilo. Comprem. Leiam. Vale a pena.