O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald.

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Francis Scott Key Fitzgerald viveu apenas quarenta e quatro anos. Seu primeiro livro, Este Lado do Paraíso, fez muito sucesso e rendeu dinheiro suficiente para que ele casasse com Zelda Sayre e viajasse pela Europa. Ambos tiveram problemas com o excessivo consumo de álcool. O Grande Gatsby não fez sucesso durante a curta vida de Fitzgerald.

Para mim, Gatsby é um livro perfeito e um dos melhores livros que li. Esta é, também, a opinião do crítico Paul Antony Tanner, para quem o Gatsby é “perfeito e inesgotável” e “a obra de ficção mais perfeitamente construída da literatura americana”. Muito das qualidades do livro se deve às revisões e supressões que Fitzgerald realizou. Com isso, obteve um livro curto, enxuto e profundo. Milhares de páginas já foram escritas sobre esse livro fascinante e muitas outras ainda o serão.

Jay Gatsby é um homem rico, de passado nebuloso, e que obteve sua fortuna de diversas formas escusas e ilegais. Ele e seu amigo Nick são os personagens principais da história, da qual Nick é o narrador. É por meio de Nick que vemos e conhecemos Gatsby e os outros personagens. Mais do que a história do amor de Gatsby por Daisy, esta é a história de uma amizade imperfeita e desigual entre Nick e Gatsby. O livro é tremendamente melancólico e triste e percorre uma trajetória que vai do luminoso verão ao fenecente outono, não apenas em relação às estações do ano, mas em relação ao comportamento dos personagens.

Li o Gatsby no mínimo quatro vezes, sendo a mais recente delas em inglês, e uma vez na tradução de Vanessa Bárbara para a Penguin – Companhia das Letras. Penso que esta tradução não faz jus ao talento de Scott Fitzgerald. Além de diversas divergências entre o texto original e o texto em português, encontrei até um parágrafo no qual faltava uma frase essencial para a compreensão dos acontecimentos subsequentes entre Nick e Jordan Baker.

De todo modo, Gatsby é um livro excelente e deve ser conhecido e discutido por todos que amam a literatura.

Carta a Jorge

Bom dia, Jorge:

É provável que a sua vida seja a única que invejo, a única daquelas que conheço, pois poderia invejar a vida de algum milionário, mas não conheço nenhum. De todo modo, tanto a vida de um milionário quanto a sua são vidas imaginadas em relação a mim, pois não conheço a verdade delas, os cotidianos. Entretanto, tenho mais condição de imaginar a sua. Posso invejar a sua vida, pois você mora em Paris. Isso já é o suficiente para ser invejado.

Aqui, a minha vidinha segue a mesma, repetida e sem graça. Os momentos de luminosidade são os passeios de bicicleta nos finais de semana. Durante a semana, o pedalar é quase monótono, apenas um jeito de me deslocar entre dois pontos ou de manter a forma e o contato com os amigos.

Em relação aos livros, que amamos, continuo a reler o Gatsby, em inglês. Não é fácil para mim ler em inglês ou francês, mas insisto nisso porque também é uma forma de aprender essas línguas, além do prazer das histórias. Parece-me que o Gatsby é o livro favorito de Haruki Murakami. Não é o meu livro favorito, mas retomei essa leitura por conta da preferência de Murakami. Não gosto do final do Gatsby, não concordo com o assassinato de Jay Gatsby, não gosto da frivolidade de Daisy, detesto Tom Buchanan, simpatizo com Jordan Baker e gosto de Nick Carraway.

A história é contada por Nick, na primeira pessoa. É curioso que Nick seja uma pessoa tão moderada, enquanto que a vida pessoal de Scott Fitzgerald tenha sido tão atribulada, os problemas com o alcoolismo, as brigas com Zelda. Observe que Fitzgerald morreu aos quarenta e quatro anos de ataque cardíaco, muito menos que a nossa idade, hoje. No romance, Tom e Daisy estão mais próximos de Scott e Zelda do que Nick está de Scott. Chego a pensar que Scott gostaria de ter a vida metódica e regrada de Nick Carraway. O próprio Nick afirma que se embebedou apenas duas vezes na vida, algo oposto aos hábitos de Scott. Isso de escrever na primeira pessoa nos faz imaginar que é o autor que está falando com a gente, mas Nick é quase o contrário de Scott.

Em certa medida, o Gatsby me faz pensar em Proust, ao descrever a vida fútil de uma certa camada rica da sociedade, sem os excessos e as longas frases tediosas de Proust.

Bom, tenho uma extensa lista de livros que desejo ler, mas o tempo para a leitura é pouco, pois o trabalho execrável e a bicicleta ocupam muitas horas na semana. Dedico um pouco do tempo de trabalho à leitura, mas é pouco tempo. De fato, as fugas do trabalho, eu as tenho usado para revisar meus textos antigos e não tão antigos. Era outra pessoa que escrevia, e escrevia tão mal, às vezes. Dá raiva. De certa forma, tenho estado vivendo em duas épocas, a atual e aquela a que meus antigos diários me conduzem. Há fatos que eu havia esquecido de forma absoluta. Há muitas linhas mal escritas, mas há algo que se salva, moléstia à parte.

         Abraços, Rubem.