Nova tradução de Hamlet

A Folha de São Paulo fala em uma nova tradução de Hamlet por Geraldo Carneiro. Este diz que “todas as escolhas foram em direção ao melhor entendimento”. Só consultando a obra para saber se é boa a tradução. O tradutor diz, ainda, que gostaria de uma futura edição bilíngue. Isto é essencial para Shakespeare, penso, e que cada edição contenha muitas notas. A tradução de Lawrence Flores Pereira me pareceu muito boa e as notas muito interessantes e elucidativas.

Fiquei pensando que não se deveria “atualizar” a linguagem de Shakespeare visto que alguns dos temas tratados são próprios da época. Daí, a linguagem pomposa se relaciona bem com as questões. Ficaria estranho falar de pureza e virgindade (Ofélia) e do absurdo desejo sexual em uma mulher mais velha (Gertrudes) em linguagem atual.

Marcelo Coelho

“Hoje, é a máquina de lavar, acho, o caso sem remédio. Em geral, tudo que faz barulho quebra mais. Ninguém mais conserta fogões, que eu saiba. O computador passa, o micro-ondas é um milagre de resistência, a geladeira até que vai, e eu mesmo, bom, me seguro como posso, fazendo o menor ruído possível.”

Marcelo Coelho

Jornalista, é membro do Conselho Editorial da Folha. É autor de romances e comenta assuntos variados.

Anti-herói de Svevo faz refletir sobre literatura

LAURA ERBER

ESPECIAL PARA A FOLHA de São Paulo

04/08/2017 02h01

UMA GOZAÇÃO BEM-SUCEDIDA (ótimo) 
AUTOR Italo Svevo
TRADUÇÃO Davi Pessoa
EDITORA Carambaia
QUANTO R$ 49,90 (224 págs.)

Na sequência do rebaixamento do herói e da literatura como estoque de modelos de conduta, nossa modernidade viu surgir uma família de antiprotagonistas, figuras do insucesso, da improdutividade e do apagamento de si.

Todos eles arrastam ainda a sombra de algo que havia emergido no jovem Werther e na sensibilidade romântica que enfatizou o escritor que não escrevia, o músico que não compunha. São parte do culto da atitude e do espírito artísticos, afirmando a importância da sensibilidade criativa sobre a obra produzida.

Nesse rol se inscreve Mario Samigli, o escritor-funcionário, anônimo e ambicioso, ingênuo e lúcido, frustrado e realizado na sua insignificância, protagonista de “Uma Gozação Bem-Sucedida”. O conto é de 1926 e se desenvolve em torno de um homem comum e sua talvez pueril, mas tenaz, fantasia de escritor.

Sua ambição e sua perseverança literária tornam-se motivo de gozação por parte de um caixeiro-viajante conhecido pelo talento para pregar peças. Esse inimigo, Gaia, convence Mario a vender um manuscrito há décadas encalhado a um editor.

O choque entre a malandragem do gozador e a aparente ingenuidade de Mario permitem a Svevo desenvolver uma série de considerações sobre talento, reconhecimento, engano e orgulho.

Maliciosamente, Svevo nunca chega a desfazer a ambiguidade da figura de Mario, e ficamos sem saber se este, caso existisse, teria sido um tesouro escondido da literatura moderna ou apenas um medíocre funcionário a dramatizar suas aspirações estéticas.

As críticas do narrador ao que seria considerado um literato e um escritor de sucesso expressam bem o conflito de Svevo –que passou mais de 20 anos sem escrever– em relação à crítica e ao sistema literário italiano da época.

Uma definição de fama literária dada no livro deixa clara a visão pouco condescendente do autor sobre o assunto: “Para que a fama chegue, de fato, não basta que o escritor a mereça. É necessária a confluência de um ou tantos outros quereres que possam influir sobre os inertes, aqueles que depois leem o que os primeiros escolheram”.

A intimidade de Svevo com os problemas do protagonista lhe permitem elaborar um tom narrativo elástico, indo do gracioso ao autoirônico deste ao soturno, transitando com aparente despretensão pelos temas abordados.

Mais de uma vez a crítica acusou Svevo de ser um “mau escritor”, flagrado em barbáries estilísticas e “descarrilamento gramatical”. O uso um pouco deslocado do italiano foi utilizado de forma negativa pela crítica de gosto ainda influenciado pela noção clássica de literariedade.

Svevo não tinha efetivamente intimidade com o italiano, tendo por idiomas o alemão e o dialeto triestino. Por isso, sua relação com a língua reflete-se em desafios para a tradução.

O conto é uma ótima oportunidade para ampliar o espectro de compreensão do autor triestino, que, além de ter explorado pioneiramente a relação entre psicanálise e literatura, desenvolveu uma relação tensa e desestabilizadora com o idioma italiano.

O leitor aqui terá a chance de percorrer essa narrativa por uma tradução muito sensível que nos restitui a sensação de estranho-familiar em que Svevo converteu a língua.

Marcelo Coelho, Folha de São Paulo

Encontrei isto, Marcelo Coelho, Folha de São Paulo:

“O jornalista inglês Christopher Hitchens (1949-2011) tinha uma lista das coisas mais superestimadas que existem na vida.

‘Champanhe, lagosta, sexo anal e piqueniques’, dizia ele. Mas quem se dedicar ao tema poderia facilmente acrescentar outros itens. Eu lembraria o caviar, as praias de Búzios, os livros de Roberto Bolaño e, pensando bem, qualquer produto excessivamente caro.

Por definição, uma maleta Louis Vuitton ou um sapato Louboutin custam mais do que realmente valem. Parte do seu valor imaginário está, precisamente, no fato de terem preços proibitivos.”

Para um livro ser sucesso de vendas

Reportagem de Juliana Cunha na Folha de São Paulo discorre sobre uma pesquisa na qual um algoritmo de computador analisou vinte mil livros que apareceram na lista do New York Times nos últimos trinta anos. Por meio dessa análise, os pesquisadores obtiveram as características mais frequentes nos livros que foram sucesso de vendas.

Apesar de considerar esse tipo de pesquisa sem utilidade real para os escritores sérios, apresento a seguir o que deve conter um livro de sucesso:

  • Uma heroína jovem e forte. Mas o estudo diz também que convém que a mocinha seja levemente desajustada.
  • Intimidade sim, sexo não. As pessoas gostam de ler cenas de proximidade, mas não de relações sexuais.
  • Evitar pontos de exclamação. Deixe que o ritmo da narrativa dê a ênfase.
  • Cachorros são melhores do que gatos. Numericamente, caninos têm mais sucesso que felinos nas vendas.
  • Temas em alta: casamento, morte, funeral, impostos, armas, escolas, crianças, mães, tecnologias ameaçadoras. Temas em baixa: sexo, drogas, rock’n roll.
  • Estrutura em três atos. Divide a história entre apresentação dos personagens, conflito e resolução.
  • No máximo três temas centrais. Evitar trabalhar temas demais. O narrador deve ser uma voz de autoridade.
  • O ritmo deve ser ágil e regular. Linguagem simples e direta, frases curtas.
  • Seja vago. A palavra ‘thing’, coisa, tem uma incidência seis vezes maior em best-sellers.
  • Finais tristes também fazem sucesso.

Que tal tentar escrever uma história com todas essas características?

Gonçalo M. Tavares

Tenho muito interesse em conhecer o processo produtivo dos escritores famosos e não tão famosos, em especial quando os próprios contam como fazem para criar a obra literária. Processo produtivo parece expressão de fábrica, do capital, da economia, mas penso que se aplica neste caso, na literatura. Reproduzo, abaixo, trecho de notícia da Folha de São Paulo no qual se descreve um pouco dos métodos de Gonçalo M. Tavares, escritor português.

Folha de São Paulo – 28/12/2015 – Ilustrada

DEIXAR DE MOLHO

Tavares só começou a publicar em 2001, aos 31, quando tinha muito material acumulado. Desse aprendizado trouxe a “metodologia de escrever um livro e deixá-lo sete, oito anos de molho”.

“Quando volto [ao texto] é como se fosse outra pessoa; já esqueci completamente do livro e posso me transformar num leitor para decidir o que fazer, mudar, cortar.”

E quando foi escrito “Uma Menina Está Perdida…”? Tavares não sabe ao certo. Acha que a primeira versão é de 2002 ou 2003. Até hoje diz que o final do livro o perturba.

“É forte, tem uma potência que me aflige. Não sei o que aconteceu. Na vida, muitas vezes não sabemos os porquês das coisas. A vida é qualquer coisa que começa no meio. Cruzamos com uma pessoa e desconhecemos o seu trajeto. O romance é como um percurso do meio.”

Tavares evita tratar de futuros projetos e do que ainda tem na gaveta. “Não tem uma ordem nem uma lógica. Tenho coisas que me dão tranquilidade de sentir que estou fazendo um percurso desde a fundação. Não sinto pressão.”

Mesmo assim, diz que tenta manter uma disciplina para trabalhar. Diariamente fica até quatro horas isolado do mundo, sem internet, escrevendo e lendo no seu ateliê. “É a minha sala do século 19; depois volto ao século 21.” Nas horas vagas, o escritor gosta de caminhar. Carregando caderninho, caneta e livros, percorre as ruas do centro de Lisboa. De vez em quando para em um café e toma notas. “O que vejo não tem a ver com o que vejo de forma concreta. São gestos, olhares que, de alguma maneira, vão ser transformados. É a energia do ser humano.”