Manual da faxineira, Lucia Berlin, trechos

“Lucia Berlin (1936-2004) publicou setenta e seis contos em vida. A maioria deles, mas não todos, foi reunida em três coletâneas da Black Sparrow Press: Homesick (1991), So Long (1993) e Where I Live Now (1999).” (from “Manual da faxineira: Contos escolhidos” by Lucia Berlin, tradução de Sonia Moreira)

“Eu poderia citar quase qualquer trecho de qualquer conto de Lucia Berlin, para ser contemplado, saboreado, mas aqui vai um último favorito meu: “Então, o que é o casamento afinal? Eu nunca consegui descobrir. E agora é a morte que eu não entendo”.”

“Eles não poderiam ter acontecido, esse “e se”, aquele “e se”. Tudo de bom ou de ruim que aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, sobretudo as escolhas e ações que garantiram que eu viesse a estar agora absolutamente sozinha.”

“Claro que eu poderia procurar num livro ou telefonar para alguém para descobrir como são os hábitos noturnos dos corvos, mas o que me incomoda é que eu só reparei neles por acidente. O que mais será que eu deixei passar?”

“Sinto saudades dos meus filhos e de suas famílias. Vejo-os talvez uma vez por ano e é sempre ótimo, mas não faço mais realmente parte da vida deles. Nem da vida dos seus filhos, Sally, embora Mercedes e Enrique tenham vindo se casar aqui!”

“Não lembro quando exatamente ela parou de chorar, pouco antes de morrer, mas, quando parou, aí sim foi horrível de verdade, aquele silêncio, e durou muito tempo.”

“O tempo para quando alguém morre. Claro que para para quem morre, talvez, mas para quem fica de luto o tempo entra em parafuso. A morte vem cedo demais. Ela esquece das marés, dos dias que estão ficando mais curtos ou mais longos, da lua. Rasga o calendário”

“Fiquei vendo B. F. medir o banheiro durante um tempo, depois fui me sentar na cozinha. Continuei sentindo o cheiro dele de lá. Aquela sua catinga era como uma madeleine para mim, trazendo de volta vovô e tio John, para começar.”

“Qualquer coisa que você diga sobre a prisão é clichê. A humilhação. A espera, a brutalidade, o fedor, a comida, as horas intermináveis. Não dá para descrever o barulho incessante e ensurdecedor. “

“Então, que Deus me perdoe, mas confesso que de vez em quando sinto um impulso diabólico de, bem, esculhambar tudo.”

“Ela odiava a palavra amor. Falava essa palavra do mesmo jeito que as pessoas dizem puta.”

“A minha vida inteira eu tive a sensação de não existir de verdade.”

“Os dois nunca flertavam um com o outro, fosse aberta ou disfarçadamente, nunca faziam gestos eróticos ou mesmo amorosos, mas a proximidade deles era elétrica.”

“Quando queria dizer a alguém como estava se sentindo, mas era difícil, ela mostrava um poema. Geralmente as pessoas não entendiam qual tinha sido a intenção dela.”

Manual da faxineira, Lucia Berlin

Lucia Berlin escreveu setenta e seis contos ao longo de sua vida (1936 – 2004). O Manual da faxineira agrupa uma seleção desses contos. Antes desse livro póstumo, coletâneas de contos de Berlin já haviam sido publicadas por pequenas editoras. Para escrever sobre o livro de Berlin, preciso retornar a ele e revisar os contos. De todo modo, a impressão que tive, sem uma análise mais aprofundada, é de que faltou um agrupamento dos contos. Berlin teve uma vida diversificada e costumava transformar a realidade em seus contos. Eles não são exatamente autobiográficos, entretanto partem de acontecimentos reais da vida dela. Assim, como exemplo, Berlin teve uma irmã que morreu de câncer e que ela, Berlin, acompanhou nos últimos meses de vida. Há uma série de contos que abordam essa época da vida dela. Entretanto, como ficaram espalhados no volume, dificultam a apreciação e o entendimento. Da mesma forma, outros contos poderiam ser agrupados conforme tratassem da mesma época ou dos mesmos acontecimentos, o que é muito comum nos contos de Berlin.
Gostei do volume, no geral, mas muitos contos não me agradaram, talvez porque eu não goste de histórias sobre viciados; viciados em qualquer coisa, fumo, drogas ou álcool, visto acreditar que qualquer vício pode ser combatido e debelado, exige força de vontade, disciplina, autocontrole. E, no volume, são dezenas de personagens destruindo suas vidas e a de seus parentes e amigos. É curioso verificar que o conto do qual mais gostei chama-se Mijito. Nele não há viciados: as duas personagens principais, que dividem a narração, são uma enfermeira de um hospital público e uma jovem mãe mexicana que procura o serviço com seu bebê. Todavia, como escrevi acima, é necessário que eu reveja os contos para melhor definir o que senti.

Trechos do Manual da faxineira, Lucia Berlin

Não estou gostando, é mediano, contudo selecionei alguns trechos do Manual da faxineira, Lucia Berlin.

A expressão de tristeza no rosto de Mark, a mesma que vi mais tarde no rosto de todos os meus filhos no decorrer da vida deles. Uma ferida causada por um acidente, um divórcio, um fracasso. A ferocidade da minha ânsia de protegê-los. A minha impotência.

Adoro casas e todas as coisas que elas me dizem, então essa é uma das razões por que eu não me importo de trabalhar como faxineira. É como ler um livro.
Nos dois casos, o triste é a quantidade ínfima de tempo que isso leva. Pense só. Se você morresse… eu poderia me livrar de todos os seus pertences em duas horas, no máximo.

Ela não disse nada. Mas eu percebi que a morte estava trabalhando nela. Morte é cura, ela nos convence a perdoar, nos faz lembrar que não queremos morrer sozinhos.

Nem “Descanso Celestial” nem “Vale Sereno”. Panteão de dores é o nome do cemitério do parque de Chapultepec. Não há como escapar disso no México. Morte. Sangue. Dor.

Ela odiava cheiros, qualquer cheiro, e o México cheira, mesmo acima da fumaça dos canos de descarga. Cebola e cravo. Coentro, mijo, canela, borracha queimada, rum e angélicas. Os homens têm um cheiro forte no México. O país inteiro cheira a sexo e sabonete.
Ficava sentada no escuro, fumando, chorando de solidão e tédio. Minha mãe, madame Bovary. Você lia peças de teatro. Ela queria ter sido atriz.

Agora é a privada que está quebrada. Eles precisam tirar o piso todo. Sinto falta da lua. Sinto falta de solidão.

“É que eu odeio morar na Upson Street. O seu pai só me escreve pra falar do navio dele e pra me dizer pra não chamar o navio de barco. E o único romance que existe na minha vida agora é com um vendedor de lâmpadas nanico!” Isso pode parecer engraçado agora, mas não foi quando ela estava chorando e soluçando, como se o seu coração fosse explodir. Eu fiz um carinho nela e ela se esquivou. Odiava ser tocada.