Vulgo Grace, Margaret Atwood, 1996

Vulgo Grace, Margaret Atwood, 1996, 512 páginas, Rocco, tradução de Geni Hirata.

Margaret Atwood escreveu essa ficção com base em um crime real acontecido no Canadá no século XIX. Uma menina de dezesseis anos, empregada de um pequeno sítio, e o caseiro mataram a governanta e o patrão. Fugiram para os Estados Unidos e foram  presos dias depois. Ele foi condenado à morte e enforcado. Para ela, o advogado conseguiu reduzir a pena para prisão perpétua com base na pouca idade da moça. A história de Atwood é boa e prende o leitor mas tem muitas pontas soltas. A história parece que vai deslanchar com o médico psiquiatra Simon, ou com o mascate Jeremias, mas ali só há becos sem saída. Acerca do psiquiatra Simon, achei muito curioso que o personagem tem como objetivo criar um instituto onde os loucos sejam tratados mais humanamente, contudo em seus pensamentos iniciais, Simon começa a acreditar que todos ao seu redor são um pouco loucos. O nome Simon e esse detalhe me fazem pensar que Atwood poderia ter conhecido a obra de Machado de Assis, O alienista, e seu famoso personagem Simão Bacamarte. Acerca de Grace, gostamos dela, sentimos muita pena dela, mas não conseguimos saber quem ela é realmente. Enfim, é um livro interessante, não me agradou de todo, não dá respostas ou certezas suficientes ao leitor. Infelizmente, prefiro livros redondinhos. Nota três de cinco.

O conto da aia, Margaret Atwood, 1985

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O conto da aia, Margaret Atwood, 1985, 368 páginas, Rocco, tradução: Ana Deiró.

O livro foi escrito em 1985 e ganhou ainda mais destaque a partir de 2016 por conta de uma série de televisão nele baseada.

A história é narrada em primeira pessoa por uma das aias, da qual não saberemos o nome verdadeiro. O enredo trata de uma distopia (lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia, Houaiss), gosto de livros que falam de distopias, nosso próprio planeta é uma distopia que não percebemos.

O livro retrata um lugar que era os Estados Unidos, as informações nos são passadas pela narração da aia, e apreendemos de forma fragmentada a situação e suas origens. Havia uma epidemia de infertilidade, nasciam pouquíssimas crianças, houve um golpe de estado, o presidente e o congresso foram eliminados, bem como a Constituição. Implantou-se um tipo de teocracia inspirada parcialmente na Bíblia. Todas as mulheres perderam seus direitos, as mulheres jovens e férteis foram recrutadas para os serviços de reprodução da nova classe dirigente. O antigo país está dividido e há algum tipo de guerra civil. A elite dirigente usa um sistema de Olhos, um tipo de espionagem semelhante ao Big Brother de Orwell e, evidentemente, aos sistemas nazistas e soviéticos. A aia que narra a história teve sua união anterior declarada ilegal, foi separada do companheiro e da filha. Depois de reeducada, está a serviço, sexual, reprodutivo, de um Comandante e sua Esposa, membros da alta classe governamental.

É um livro muito bom, bem escrito, longo mas não cansativo, um livro que faz pensar e que daria margem a muitas conversas com amigos, se estes não forem leitores exclusivos de twitter e whatsapp. Uma falha do livro é o apêndice que dá algumas informações extras, “históricas”, sobre o processo de desintegração social e cultural da época da aia. Penso que é apêndice desnecessário, a história é rica em si mesma, não necessitava desse tipo de “explicação”.

Vale a pena ler e reler.