Pureza, Jonathan Franzen, 2016

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Pureza, Jonathan Franzen, 2016, 616 páginas, Companhia das Letras, tradução de Jorio Dauster.

Pureza é o livro mais fraco dentre aqueles que li de Franzen. Extenso, seiscentas páginas, contudo irregular, tedioso. Franzen escreve bem e gostei muito dos anteriores, Liberdade e Correções. Franzen continua escrevendo bem, mas a história não pega, se arrasta, é lenta e confusa. A gente até percebe que o autor tenta juntar as pontas soltas, juntar as diversas histórias, mas a tentativa caminha tão devagar que dá impaciência, e não é bem sucedida.

O romance é composto por sete partes, sete longos capítulos. A primeira parte nos apresenta Pip Tyler, o personagem mais simpático do livro. Pip mora em San Francisco, tem um empreguinho bosta, é pobre, têm dívidas e uma mãe desequilibrada e paranóica. A segunda parte abandona Pip, volta no tempo e conta a história do jovem Andreas Wolf, na Alemanha Oriental. A terceira parte apresenta Leila, uma jornalista que trabalha com Tom Aberant em um jornal investigativo na cidade de Denver. A história de Leila e de suas reportagens é desperdiçada e não se liga a quase nada do restante do livro. Pip Tyler reaparece aqui como estagiária do jornal. A quarta parte volta um pouco no tempo e mostra Pip trabalhando para Andreas Wolf em um lugar remoto no interior da Bolívia. Wolf é uma caricatura de Julian Assange e, como tal, se dedica a vazar informações secretas na internet. A quinta parte volta no tempo e é narrada na primeira pessoa por Tom Aberant e mostra o longo relacionamento dele com Anabel, uma mulher completamente desequilibrada. A sexta parte mostra um encontro decisivo em Aberant e Wolf na Bolívia. A sétima parte, mais curta, é um epílogo no qual Pip, enfim, assume as rédeas da sua vida.

Como se vê acima, muitos personagens e tramas, tudo resultando em uma história descabida, confusa, inverossímil. As personagens são tediosas, antipáticas, esquizofrênicas. Que prazer um autor encontra em criar personagens tão enfadonhos e maçantes? A mãe de Pip, insuportável e louca. Wolf, maluco e egocêntrico. Aberant, lerdo, maré-me-leva-maré-me-traz. Vixe. Leila, personagem completamente desperdiçado, inclusive abandonado pelo autor na história. Pip, a personagem mais interessante e que dá o título ao livro, quase não aparece, tem apenas o primeiro capítulo para chamar de seu.

Quase uma perda de tempo, nota dois em uma escala de um a cinco.

Three billboards outside Ebbing, Missouri

Uma quarta-feira de noite, sessão das seis e cinquenta, o filme tem um título esquisito. Logo, percebe-se que se trata de um dos piores títulos de filmes estrangeiros em português. Em inglês, Three billboards outside Ebbing, Missouri. Literalmente, tem-se “três outdoors fora de Ebbing, Missouri”. Traduziram Três anúncios para um crime. O filme começa e mostra de cara os três outdoors em uma estrada perto da cidade de Ebbing no Missouri. Quando se lê o nome do filme em português, pode-se pensar que alguém vai colocar, ou colocou, três anúncios em um jornal convidando para um crime. A palavra mais incômoda nesse título português é “para”. Dá a entender que são três anúncios “para” cometer um crime, “para” fazer parte de um crime. O filme, todavia, trata de um crime que já aconteceu. Três anúncios sobre um crime. O filme vai vai se equilibrando, bom mas muito irregular. O final é péssimo, não fecha, não termina.

O pior título de filme estrangeiro em português foi dado ao Annie Hall de Woody Allen: Noivo neurótico, noiva nervosa.

Quem será que inventou a bosta de usar outdoor para significar billboard? Qual a palavra em português para billboard? Seria “placa grande de propaganda” ?

Uma vida pequena, Hanya Yanagihara, 2015

Uma vida pequena, Hanya Yanagihara, 2015, 784 páginas, Record, tradução de Roberto Muggiati.

Um excelente livro. A história de quatro amigos desde quando se conhecem na faculdade até um pouco mais do que a maturidade. O livro conta um pouco de cada um dos quatro, mas se concentra mesmo na história da vida de Jude St. Francis. A infância e a juventude de Jude foram terríveis, abusado sexualmente em um mosteiro e em um orfanato. A história é bem escrita, sem melodrama, e prende o leitor, eu devorei as setecentas e tantas páginas.

Como falha, penso que o extremo sucesso profissional dos quatro é irreal, todos, em algum momento, se tornam ricos e viajados, possuem diversos imóveis em diferentes países. Irreal. Não é uma vida pequena, embora toda vida seja pequena. Outra falha é uma certa repetição das situações em que Jude não aceita qualquer tipo de auxílio com suas dificuldades, como foi também apontado por Taize Odelli em seu blog. Não gostei, também, de certas mortes em acidente de automóvel. É muito fácil, penso, matar um personagem em acidente de automóvel. Franzen fez isso em um de seus livros e não gostei também.

Eu gostaria, ainda, que a autora tivesse explorado mais o personagem JB, fascinante e controverso, mas que fica à margem da história de Jude. JB e Jude são os melhores personagens, enquanto Willem e Malcolm são aguados. Vale muito a pena ler este livro.

A falsificação de Vênus, Michael Gruber, 2008

A falsificação de Vênus, Michael Gruber, 2008, 365 páginas, tradução de Beatriz Horta.

Encontrei esse livro em uma pilha de livros usados, promoção a dez reais. A capa, um pouco confusa, misturava Velázquez e um dos quadros dele, mas, mesmo assim, me fez pegar o volume. Gostei bastante do livro e da história, intrigante, mas não gostei do final. De início, a história conta de um talentoso pintor de Nova York que se mal sustenta com pequenos trabalhos de ilustração para revistas. O pintor recebe uma encomenda para refazer um teto de um palácio em Veneza. Ao mesmo tempo, o pintor tem visões, ou momentos de ausência, em que se vê como Velázquez, pintando e vivendo na corte espanhola do século xvii. Em outros momentos, o pintor pobre acorda e se vê como um pintor famoso e rico em Nova York. A história também trata com bastante verossimilhança da falsificação de quadros. É um enredo interessante e prende o leitor. Entretanto, o final indefinido, a falta de clareza sobre “o que é a verdade” estraga o prazer da leitura, na minha opinião.

Carbono alterado, Richard Morgan, 2001

Carbono alterado, Richard Morgan, 2001, 490 páginas, tradução Edmo Suassuna. A história se desenvolve no século XXV. A mente humana, a personalidade, tudo, pode ser armazenada em discos e colocada em qualquer corpo. Os mais ricos dispõem de muitos corpos à disposição, portanto são quase imortais. Os mais pobres, economizam durante a vida para ao menos poder comprar um corpo. A pena para os crimes é o armazenamento. A depender da gravidade do crime, o armazenamento pode ir de meses a centenas de anos. Os corpos dispõem de diversos melhoramentos e implantes, ao gosto do comprador. As drogas existentes são inúmeras, tanto para afetar a mente quanto os corpos. Essas são a parte mais criativa do livro. O enredo é confuso, complicado, com excesso de personagens e, ao mesmo tempo, clássico: o detetive durão e machão e fortão e sem medo que é contratado para desvendar um assassinato. Sexo e violência e belas mulheres dispostas ao sexo com o detetive. A grande falha da história é a vontade explícita do detetive de consertar a vida de gente sofredora que acabou de conhecer. O cara é um ex-militar feroz e treinadíssimo, essa empatia soa descabida. De todo modo, o livro prende o leitor e devorei as 490 páginas em poucos dias.

Os meninos da Rua Paulo, Ferenc Molnár, 1907

Os meninos da Rua Paulo, Ferenc Molnár, 1907, 264 páginas, Cosac & Naify.
Um livrinho gostoso que se lê rapidamente. Não gostei muito pois me parece uma leitura para crianças e adolescentes, não me emocionou ou trouxe recordações de infância. O destino do menino lourinho, o mais novo, me parecia evidente desde quase o início. Uma historinha boinha de ler mas não me acrescentou muito. Gostei mais de conhecer um pouco da vida de Ferenc Molnár, o autor, e de Paulo Rónai, o tradutor.

O conto da aia, Margaret Atwood, 1985

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O conto da aia, Margaret Atwood, 1985, 368 páginas, Rocco, tradução: Ana Deiró.

O livro foi escrito em 1985 e ganhou ainda mais destaque a partir de 2016 por conta de uma série de televisão nele baseada.

A história é narrada em primeira pessoa por uma das aias, da qual não saberemos o nome verdadeiro. O enredo trata de uma distopia (lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia, Houaiss), gosto de livros que falam de distopias, nosso próprio planeta é uma distopia que não percebemos.

O livro retrata um lugar que era os Estados Unidos, as informações nos são passadas pela narração da aia, e apreendemos de forma fragmentada a situação e suas origens. Havia uma epidemia de infertilidade, nasciam pouquíssimas crianças, houve um golpe de estado, o presidente e o congresso foram eliminados, bem como a Constituição. Implantou-se um tipo de teocracia inspirada parcialmente na Bíblia. Todas as mulheres perderam seus direitos, as mulheres jovens e férteis foram recrutadas para os serviços de reprodução da nova classe dirigente. O antigo país está dividido e há algum tipo de guerra civil. A elite dirigente usa um sistema de Olhos, um tipo de espionagem semelhante ao Big Brother de Orwell e, evidentemente, aos sistemas nazistas e soviéticos. A aia que narra a história teve sua união anterior declarada ilegal, foi separada do companheiro e da filha. Depois de reeducada, está a serviço, sexual, reprodutivo, de um Comandante e sua Esposa, membros da alta classe governamental.

É um livro muito bom, bem escrito, longo mas não cansativo, um livro que faz pensar e que daria margem a muitas conversas com amigos, se estes não forem leitores exclusivos de twitter e whatsapp. Uma falha do livro é o apêndice que dá algumas informações extras, “históricas”, sobre o processo de desintegração social e cultural da época da aia. Penso que é apêndice desnecessário, a história é rica em si mesma, não necessitava desse tipo de “explicação”.

Vale a pena ler e reler.