Lendo Lygia

As horas nuas, Lygia Fagundes Telles, 1989. Anotações durante a leitura.

“Entro no quarto escuro, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio, desabo em cima dessa coisa, ah! meu pai. A mania de Dionísia largar as trouxas de roupa suja no meio do caminho. Está bem, querida, roupa que eu sujei e que você vai lavar, reconheço, você trabalha muito, não existe devoção igual mas agora dá licença? eu queria ficar assim quietinha com a minha garrafa, ô! delícia beber sem testemunhas, algodoada no chão feito o astronauta no espaço, a nave desligada, tudo desligado. Invisível. O que já é uma proeza num planeta habitado por gente visível demais, gente tão solicitante, olha meu cabelo! olha o meu sapato! olha aqui o meu rabo! E pode acontecer que às vezes a gente não tem vontade de ver rabo nenhum.”

Lendo As horas nuas, de Lygia Fagundes Telles. Um excelente primeiro parágrafo, um primeiro capítulo mediano, Rosa Ambrósio, uma atriz, fala de sua vida de forma confusa, entrecortada, mas o livro não conseguiu me prender, de início. O capítulo seguinte traz dois pontos que detesto: um gato pensando e vidas passadas. O mesmo gato que narra em primeira pessoa relembra uma vida que teve em Roma, algo assim. Será que vai melhorar? Tedioso. O terceiro capítulo é bom, volta Rosa, ela comenta sobre a porcaria que é o Brasil, era 1989, continua a mesma merda, desanimador. O quarto, volta o gato a observar os acontecimentos, merda, hum, vai ser esse esquema: um capítulo com Rosa, um com o gato, saco.

Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar (2)

Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar, 1964, primeiros parágrafos.

“A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas em frente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com seu letreiro Hotel de Belgique.
Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal. Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a fria eficácia de um reflexo cotidiano. Até logo, querida. Passe bem.
Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quando mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café.”

Razões óbvias, Miguel Heraldo, 1947

Razões óbvias, Miguel Heraldo, 1947, Joker Edições, 315 páginas.

Primeiro parágrafo:

Uma mulher pilotando uma motocicleta não era comum na cidade. Caiu uma chuva e ela entrou no posto de gasolina para se abrigar. Outras motocicletas também. Intencionalmente, ela percebeu, o cara parou a moto perto da dela. “Chuva, hein?”. Ela resmungou “é”. “Um homão”, pensou. “Mais alto do que eu”. Ela, um metro e setenta e cinco, era raro encontrar homens mais altos do que ela. E quando usava salto então. O marido era magrinho e mais baixo, um contraste, ela alta e corpuda. Ela que inventou essa palavra. Carne, peitos generosos, sabia que aqueles peitos iam cair muito se tivesse filhos. No momento, estavam de bom peso e tamanho. O cara puxando assunto, ela enfarruscada na cara, se divertia por dentro. O cara fazia parte de u m clube de motociclismo e conseguiu entregar a ela um adesivo do clube, “dá uma olhada lá no site, tem uns passeios final de semana”. Claro que ela mencionou o marido, “vou ver, meu marido também tem moto”, etc, por aí. No verso do adesivo, ele rabiscou o número do telefone. No escritório, ela passeou no site, fotos, adicionou o número do cara no zap. Resumo. Demorou umas semanas, mas foi para a cama de um hotel com ele, no oeste da cidade, as duas motos na garagem. Na primeira vez não foi muito bom, só agradável. Na terceira ou quarta vez foi muito além do que ela esperava. O cara era grande, ela grande, ele maior, ela sentia meio esquisito, meio como dois homens se agarrando, era mais uma luta do que a foda carinhosa que estava acostumada a ter com o marido. Não era fácil agendar esses encontros, tempo roubado. Antes de ir, cada vez, ela não queria ir, mas ia.

Grandes esperanças, Charles Dickens, 1861

Grandes esperanças, Charles Dickens, 1861, tradução de Paulo Henriques Britto.

Primeiro parágrafo:

Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.

Agosto, Rubem Fonseca, 1990

Agosto, Rubem Fonseca, 1990, Companhia das Letras, 349 páginas.

Não gostei. Ruim. Uma estrela entre cinco. Não gostei principalmente porque o livro conta duas histórias ao mesmo tempo, em agosto de 1954. É comum esse tipo de divisão em muitos livros: um trecho, ou capítulo, conta a parte A da história; o trecho seguinte conta a parte B. As duas partes se tocam ou convergem no final. Esse tipo de truque é bobinho, para mim, não usufruo de histórias assim contadas. Neste Agosto, o autor conta a investigação de um crime pelo comissário de polícia Alberto Mattos e, paralelamente, os acontecimentos em torno dos últimos dias de Getúlio Vargas. A parte histórica dedicada ao final do governo Vargas é mais interessante que a ficção com o comi ssário Matos. Deu até vontade de ler uma biografia de Getúlio, tem uma boa do Lira Neto. O tal comissário Mattos é um anti-herói: dentes podres, doente de uma úlcera tenebrosa, mal vestido, utópico, insatisfeito com tudo. O comissário tenta solucionar o assassinato de um rico empresário, enquanto sua vida pessoal se torna caótica, dividido entre uma namorada, Salete, amante de um ricaço, e uma ex-namorada bipolar, casada com outro ricaço. A ficção, ou seja, a história do comissário, suas mulheres, sua úlcera e o assassinato se perde ante a força da história real da época. Além disso, o autor deixa um monte de pontas sem solução. Foi intencional? Ah, ele diria, a vida é assim também, as histórias não resultam bem amarradinhas. Tá. Se foi intencional ou não, ficou mal amarrado demais, tudo solto, desarranjado. Parece que o autor teve preguiça de pensar e de terminar a narrativa. A parte boa do livro, a não-ficção, mostra que o Brasil de hoje é a mesma bosta do Brasil de Getúlio Vargas. Isso dá uma desesperança danada. A mesma corrupção, a mesma elite nojenta e os mesmos políticos, todos ladrões, mentirosos, cínicos, hipócritas.

Primeiro parágrafo:

O porteiro da noite do edifício Deauville ouviu o ruído dos passos furtivos descendo as escadas. Era uma hora da madrugada e o prédio estava em silêncio.

Trechos:

Em maio, os golpistas haviam tentado o impeachment do presidente e o traidor João Neves ajudara a difundir falsidades sobre um acordo secreto entre Perón e Vargas.

***

No xadrez, em duas celas com capacidade prevista para oito presos, havia trinta homens. As celas de todas as delegacias da cidade estavam com excesso de presos aguardando vagas nos presídios, uns à disposição da Justiça esperando julgamento, outros já condenados.

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As negociatas da Cemtex são fatos. Por exemplo: a empresa conseguiu uma licença de importação na Cexim no valor de cinquenta milhões de dólares. O Banco do Brasil nunca deu tanto dinheiro a ninguém, está na cara que é mais uma safadeza patrocinada por algum figurão de cima. Gomes Aguiar era amigo do senador Vitor Freitas, que provavelmente é um dos que mexem os pauzinhos para ele.

***

O senhor é novo na polícia – não que eu queira lhe dar lições, quem sou eu? Sou apenas mais velho, quase um ancião de cinquenta e cinco anos de idade, trinta de polícia… A única coisa que aprendi nesses anos todos é que em crime de morte só há duas motivações. Sexo e poder. Aí é que está o busílis. Só se mata por dinheiro ou por boceta, com perdão da palavra, ou as duas coisas juntas. Assim é o mundo.

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Os jornais da manhã noticiavam em grandes manchetes o atentado. Os estudantes haviam entrado em uma greve de “protesto contra o banditismo. Nossa alma está coberta de opróbrio. Uma cova se abriu e o povo não esquecerá”. A repercussão do atentado no Congresso fora enorme. (…) Conforme os congressistas da oposição, “corria sangue nas ruas da capital e não havia mais tranquilidade nos lares”.

***

“A polícia tudo fará para apresentar à Justiça os responsáveis por esse crime”, disse o ministro com voz cansada ao reconhecer o senador ao seu lado. Tancredo Neves dissera aquela frase dezenas de vezes nas últimas vinte e quatro horas.

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Aqueles calhordas acreditavam realmente no mito proveitoso, que eles mesmos haviam inventado, de que a imprensa era o quarto poder da República. (…) Mas não havia isenção em parte alguma. Duas correntes facciosas e antagônicas se enfrentavam e a imprensa tomara o seu partido.

Lolita, Vladimir Nabokov, 1955

Lolita, Vladimir Nabokov, 1955, meu volume foi publicado em 1981 pela Abril Cultural, 423 páginas, tradução de Brenno Silveira.

1. Lolita é um clássico incontornável.

2. Não gostei dessa tradução. Vou ler no original.

3. Um clássico é um livro que pode ser lido diversas vezes e, em cada nova leitura vai revelar aspectos inusitados. É um livro citado por todo mundo que a gente admira. Um livro que não se esgota em si mesmo, a gente fica a imaginar outras histórias, o outro lado, outras versões. Um livro que incomoda, às vezes por motivos até ignorados. Um livro que está no imaginário coletivo, todo mundo conhece mesmo sem ter lido.

4. Nabokov incorporou dois substantivos ao mundo contemporâneo: lolita e ninfeta.

5. Houaiss, lolita: jovem do sexo feminino sexualmente precoce.

6. Houaiss, ninfeta: menina adolescente voltada para o sexo ou que desperta desejo sexual.

7. A palavra francesa nymphette, pequena ninfa, existe desde o século xvi, e foi ressignificada por Nabokov.

8. O personagem Humbert Humbert faz a seguinte definição: “Desejo, agora, apresentar a seguinte ideia. Entre um limite de idade que vai dos nove aos catorze anos, existem garotas que, diante de certos viajantes enfeitiçados, revelam sua verdadeira natureza, que não é humana, mas ‘nínfica’ (isto é, demoníaca), e a essas dadas criaturas proponho designar como nymphets.”

9. Contudo, pergunta Humbert, “são todas as meninas, entre esses limites de idade, nymphets? Claro que não. Do contrário, nós que conhecemos esse segredo, nós, os viajeiros solitários, os nympholepts, teríamos há muito enlouquecido.”

10. O livro começa com um prefácio, evidentemente falso, e inútil. É aquele tipo de prefácio muito usado por escritores, que diz mais ou menos o seguinte: “eu estava em minha casa, tranquilo, e recebi esse manuscrito misterioso pelo correio”, ou “eu estava no metrô e achei um pacote que continha…”, ou “alguém me entregou esse manuscrito, fiz pequenas correções e agora o publico”. Esse tipo de introdução busca tornar mais enigmática, misteriosa, a origem do texto e, de certo modo, retirar, despropositadamente, a “culpa” do verdadeiro autor pelo texto.

11. Nabokov é um galhofeiro. Ele brinca com o leitor e com as palavras todo o tempo. O falso prefácio dá notícias sobre alguns personagens após o final da história, diversos trechos do livro dão pistas sobre os acontecimentos futuros, não é possível ler Lolita apenas uma vez. Se o leitor faz como eu fiz, e relê o prefácio após o final do romance, descobre qual o “destino” da personagem Lolita. As palavras, os trocadilhos, os significados: Humbert Humbert; Haze (neblina), o sobrenome de Dolores e sua mãe; Clare Quilty, nome de um importante personagem, deriva de uma cidade na Irlanda, Quilty, no condado de Clare; o Acampamento Q; Dolores que significa dores, em espanhol. Nomes de ruas e de lugares e de hotéis. São muitas correlações, pistas, jogos, é quase um livro dentro do livro. Nas primeiras páginas do livro, de modo disfarçado, Nabokov já revela qual o crime cometido por Humbert.

12. A estrutura do romance: Humbert Humbert está preso, não sabemos qual crime ele cometeu, e nos conta sobre seu relacionamento com Dolores Haze, Lolita, uma menina de doze anos. Humbert escreve a história para apresentá-la diante dos jurados. Ele justifica sua atração por meninas a partir de um amor de verão na infância. Quase por acaso, Humbert se casa com a mãe de Dolores. A mãe morre em um acidente. Humbert fica com a “guarda” informal, não legalizada, de Dolores e leva a menina em uma longa viagem pelos Estados Unidos, um misto de fuga, sequestro e férias permanentes.

13. Tudo o que sabemos da história vem de Humbert. Humbert enfeita, romantiza, seus propósitos e “sentimentos” por Dolores.

14. É um livro excelente. O grande defeito do livro é a morte acidental da mãe de Dolores. Seria mais credível que, após o casamento, Humbert abusasse da menina evitando, no possível, as suspeitas da mãe, ou mesmo que sequestrasse a garota. Essa morte acidental de Charlotte é demais conveniente, artificial, o sonho de muitos maridos, o paraíso para um pedófilo.

15. Nunca conheci um pedófilo pessoalmente, tampouco li algum livro sobre essa patologia. Contudo, Humbert Humbert não me parece um pedófilo típico, se é que isso existe. Não sei se pedófilos sentem culpa e, em alguns momentos, Humbert parece se sentir culpado pela destruição da infância de Dolores. Contraditoriamente, Humbert parece continuar a “amar” Dolores mesmo quando ela já passou da idade de nymphet.

16. Nesse tipo de livro narrado de forma confessional, em primeira pessoa, só conhecemos aquilo que o narrador deseja que conheçamos.

17. Assim, Albertine, a prisioneira de Proust. Assim, Dolores Haze.

18. Braulio Tavares diz que Nabokov “se incomodava mais com o fato de Lolita, que ele vê como uma pirralha muito desinteressada em sexo, ter sido transformada, pela ilustração e pela publicidade, numa modelo de pernas longas”.

19. Lolita é uma “pirralha” muito chata e muito safada. É o que, em geral, Humbert nos mostra dela.

20. Humbert Humbert descreve Dolores como o tipo de menina insuportável, cheia de gostos, volúvel, superficial, permanentemente irritadinha, consumista. Sexualmente adiantada para sua idade.

21. Por outro lado, Humbert, vez por outra, em raros momentos, levanta a cortina da romantização e da sexualidade precoce e nos mostra o sofrimento de Dolores. Dores. E esses momentos são extremamente tristes.

22. Um pedófilo típico se incomodaria com o sofrimento de sua vítima?

23. Lolita é um prodígio de literatura, muito bem escrito, delicioso de ler, doloroso em alguns momentos, intrigante, repleto de truques e referências, pleno de nuances.

24. A vida real é muito pior e aterradora do que Lolita. Todos os dias, nos jornais de sangue, aparecem notícias de meninas e meninos abusados, muitas vezes pelos próprios parentes e vizinhos. Muitas vezes, tais abusos terminam em morte.

25. Natascha Kampusch e a história real em seu livro 3096 dias.

26. Natascha Kampusch repete mais de uma vez que não é um caso da Síndrome de Estocolmo, pois muitos a criticaram por ela ter demonstrado algum tipo de, digamos, empatia em relação ao maluco que a sequestrou. Ninguém pode sequer se aproximar de algum tipo de compreensão de toda a angústia e sofrimento daquela menina.

27. O sequestrador de Natascha se suicidou. Ela quis ir ao enterro dele, o que não foi permitido.

28. Quando Dolores recebe a visita de Humbert, anos depois da época dos abusos, ela conversa normalmente com ele, sem aparentar horror ou aversão. Humbert percebe que não significou quase nada para Dolores, apenas foi a pessoa que arruinou a vida dela.

29. Quando Dolores recebe a visita de Humbert, ela pede desculpas a ele por “tê-lo enganado tanto”.

30. Humbert pede que Dolores volte para ele. Dolores: “Pare de chorar, por favor. Você deveria compreender. Deixe que lhe sirva um pouco mais de cerveja. Oh, não chore! Lamento muito tê-lo enganado tanto, mas assim são as coisas.”

31. Duas, três, quatro vidas destruídas.

32. Humbert: “(…) alguém queria que HH existisse pelo menos durante mais uns dois meses, para fazer com que você pudesse existir na mente das gerações futuras. Estou pensando em auroques e anjos, no segredo de duráveis pigmentos, em sonetos proféticos, no refúgio da arte. E esta é a única imortalidade de que você e eu podemos compartilhar, minha Lolita.”

33. Estas são as últimas linhas do livro de Nabokov. Conforma um dos finais de livro entre os mais perfeitos que conheço.

34. Não me incomodo com spoilers, especialmente acerca de um clássico. Tampouco penso que seja necessário avisar de spoilers. Entretanto, aviso: daqui em diante, spoilers.

35. Humbert Humbert casa com Charlotte Haze apenas por estar fascinado pela filha desta, Dolores Haze, doze anos. Quando Charlotte descobre o real motivo do casamento, atravessa a rua para colocar cartas na caixa de correio, é atropelada e morre. HH leva a menina Dolores em uma longa viagem de dois ou três anos pelo país. No primeiro hotel em que se hospedam, no primeiro amanhecer, é Dolores quem o seduz. A menina já havia trocado beijos roubados com HH. A menina já havia feito sexo com um coleguinha de acampamento. Depois de meses viajando de hotel em hotel, Dolores foge com outro pedófilo, Clare Quilty, famoso autor teatral, pelo qual estava apaixonada. CQ, inclusive, estava seguindo o casal havia algum tempo. HH, enlouquecido, continua viajando e procurando Dolores sem sucesso. Dois anos depois, recebe uma carta de Dolores. Ela precisa de dinheiro, está com dezessete anos, mora com um rapaz, Dick Schiller, e está grávida. HH investiga a caixa postal de Dolores e consegue descobrir a casa onde ela mora. Vai até lá, pede que ela volte para ele, consegue que ela lhe diga quem era o homem que a levou e entrega uma boa quantidade de dinheiro à garota. HH vai atrás de Clare Quilty e mata o homem que roubou sua menina.

36. Nas primeiras páginas de Lolita, Humbert Humbert já nos revela, em forma de enigma, o nome da pessoa que ele assassinou.

37. Na prisão, HH folheia um livro sobre atores e autores de teatro, e reproduz uma das páginas do livro. Nela consta o nome de “Quilty, Clare, autor teatral” e o título de suas peças, entre elas a peça de muito sucesso Little Nymph. A seguir, HH imagina que Dolores poderia ter se tornado atriz e atuado em diversas peças, entre elas Guilty of killing Quilty, ou seja “Culpado de matar Quilty”.

38. No falso prefácio, o fictício Doutor John Ray Jr., que recebeu o manuscrito das mãos do advogado de Humbert Humbert, nos informa que o prisioneiro morreu antes de ser julgado, de trombose coronária, em novembro de 1952.

39. No falso prefácio, o fictício Doutor John Ray Jr. fornece ao leitor o destino de algumas pessoas citadas no livro, entre elas uma tal “senhora Richard F. Schiller”. Isso não tem nenhum significado para o leitor que inicia a leitura naquele momento. Contudo, quem já leu o livro até o final, sabe que a referida senhora é Lolita. Portanto, somos informados sub-repticiamente, de que Dolores Haze “morreu de parto, ao dar à luz uma menina natimorta” em dezembro de 1952.

40. Dolores e Humbert morreram quase na mesma época.

41. A primeira vez em que Quilty, em carne e osso, surge na história é no hotel dos Caçadores Encantados (Enchanted Hunters), o primeiro hotel em que Dolores e Humbert se hospedaram.

42. Meses depois, Dolores tenta confundir Humbert sobre a identidade de Quilty. Após assistirem, por acaso, uma peça de Clare Quilty e Vivian Darkbloom, Dolores contradiz Humbert ao afirmar que Vivian é homem e Clare Quilty é uma mulher. Aparentemente, Humbert não se deixou enganar pela pequena artimanha da menina.

43. De algum modo, Dolores nutria uma paixãozinha de menina pelo autor famoso, cuja família morava na mesma cidade dela. Aparentemente, Quilty havia visitado o Acampamento Q, onde Dolores passou férias.

44. Dolores fugiu com Quilty e foram a um rancho onde estavam muitos amigos e conhecidos dele. Quilty tentou fazer com que Dolores participasse de uns filmes pornográficos amadores que eles produziam no rancho. Ela se recusou e ele a mandou pastar. E a menina passou a viver por aí, em pequenos empregos de lanchonete. Prosaico. Nada romântico tampouco trágico.

45. Humbert Humbert era o pedófilo romântico, barroco, “delicado”. Clare Quilty era o pedófilo barra-pesada, pornográfico.

46. Em todo o livro, salvo engano, não há nenhuma palavra crua em relação ao sexo. As poucas descrições de Humbert são enviesadas, literárias. Somente uma exceção: Humbert diz que era intolerável saber que aquele sub-humano tinha sodomizado sua querida.

47. Quem é Capitu? Albertine? Dolores Haze? Mulheres que conhecemos pela via indireta: um homem nos conta acerca delas. De acordo com Bentinho, Capitu é mentirosa, dissimulada e libertina.

48. Alguns anos antes da publicação de Lolita, em 1948, Florence Sally Horner, de onze anos, foi sequestrada por um pedófilo, Frank La Salle, de cinquenta anos. Ele a levou em uma viagem de vinte e um meses por diferentes lugares dos Estados Unidos. La Salle se apresentava como pai da menina e, inclusive, a matriculou em uma escola de Dallas. Sally fugiu de La Salle e telefonou para sua irmã. Ele foi preso, julgado e condenado a trinta e cinco anos. Sally Horner morreu pouco depois, aos quinze anos, em um acidente de automóvel. Frank La Salle morreu na prisão, em 1966, aos sessenta e nove anos.

49. Humbert Humbert diz que uma senhora de Ramsdale aproxima-se dele cheia de suspeitas: “Será que eu havia feito a Dolly o mesmo que Frank La Salle, engenheiro de cinquenta anos de idade, fizera com Sally Horner, de onze anos, em 1948?”

50. Sete letras. Humbert e nymphet.

51. Nabokov brinca com sons e palavras da língua que não é a sua, materna. “(…) the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth”. “She did, indeed she did”.

52. Humbert rememora Annabel, a predecessora de Lolita. Ele e Annabel, aos treze anos, durante as férias no Hotel Mirana. Humbert e Annabel não conseguiam ficar a sós, e restava um “petrified paroxysm of desire”. Todavia, Humbert-Nabokov deixa o leitor em suspenso ao descrever o último e furtivo encontro entre os dois na areia da praia. Depois de uma “brief session of avid caresses”, dois banhistas saem do mar e dirigem palavras rudes aos dois, justo quando Humbert estava “on the point of possessing my darling”. Provavelmente, as crianças assustadas devem ter fugido da praia.

53. Depois disso, Nabokov espalha uma pitada de melancolia: “four months later she died of typhus in Corfu”.

54. O sonho acordado de Humbert: um naufrágio e sobraram ele e uma criança trêmula. O enredo do romance de Nabokov é também um sonho, a morte de Charlotte é providencial e deixa Humbert na posse irrestrita da criança. Morrer é muito difícil. Os romances deveriam ter extremo cuidado em colocar uma morte como facilitadora do enredo.

55. É impossível ler Lolita, em cada parágrafo pululam pérolas, cuidados, joalherias de linguagem, imagens disruptivas que conduzem a mente do leitor a histórias paralelas não contadas. I dissolved in the sun. Axillary russet. Diminutive romances.

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Primeiro parágrafo:

Lolita, luz de minha vida, fogo da minha carne. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO. LI. TA.

Trechos:

Oh, como ela odiava a filha. (…) No dia em que Lo completou doze anos, em 1º de janeiro de 1947, Charlotte Haze, neé Becker, sublinhara os seguintes epítetos, em número de dez entre quarenta outros, sob o tópico “A personalidade de seu filho”: agressiva, turbulenta, crítica, desconfiada, impaciente, irritável, curiosa, apática, negativista (sublinhado duas vezes) e obstinada. Ignorara os trinta adjetivos restantes, entre os quais jovial, cooperativa, enérgica e assim por diante. Era, realmente, de enlouquecer!

***

Ouça aqui, Lo. (…) Na ausência de sua mãe, sou responsável pelo seu bem-estar. Não somos ricos e, quando em viagem, seremos obrigados… seremos obrigados a passar muito tempo juntos. Duas pessoas que compartilham do mesmo quarto entram, inevitavelmente, numa espécie… Como é que direi?… Numa espécie…

– A palavra é “incesto” – disse Lo.

***

Frígidas e nobres senhoras do júri! Eu julgava que deviam passar meses, talvez anos, antes que usasse revelar-me a Dolores Haze; mas ali pelas seis horas da manhã, ela já estava inteiramente acordada e, às seis e quinze, já éramos, tecnicamente, amantes. Vou contar-lhes algo muito estranho: foi ela quem me seduziu.

***

(…) Lo era deixada de sentinela, enquanto Barbara e o rapazinho copulavam atrás de um arbusto. A princípio, Lo recusou-se a “ver como era”, mas a curiosidade e a camaradagem prevaleceram e logo ela e Barbara o faziam, cada uma por seu turno, com o rude, soturno e infatigável Charlie, que tinha tanto sex appeal quanto uma cenoura crua (…)

***

A loquaz Lo continuava muda. As frias aranhas do pânico desciam-me, rastejantes, pela espinha. Ali estava uma órfã. Ali estava uma criança solitária, inteiramente desamparada, com quem um adulto vigoroso, malcheiroso, tinha tido aquela manhã, por três vezes, porfiadas relações.

***

– Seu cabeça-dura! – disse ela, a sorrir-me docemente. – Criatura revoltante. Eu era uma pérola de menina e veja o que você me fez. Eu devia chamar a polícia e dizer que você me violentou. Oh, seu velho sujo, sujo!

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(…) começou a queixar-se de dores, disse que não podia sentar-se, que eu havia rompido algo dentro dela.

***

Jamais vibrou sob o meu contato, e um “o que é que você está fazendo?” foi tudo o que consegui obter em troca de meus esforços.

***

E vejo-me a pensar, hoje, que aquela nossa longa jornada não fez senão conspurcar, com uma sinuosa estrada de lama, o encantador, confiante, sonhador, enorme país que, então, visto retrospectivamente, não era para nós mais do que uma coleção de mapas dobrados, guias de viagem estragados, pneumáticos velhos e os soluços de Lo em meio da noite – todas as noites, todas as noites – Lo, em que eu fingia que estava dormindo.

***

Querido Papai: Como vai tudo? Estou casada. Vou ter um bebê. Desconfio que ele vai ser grande. Penso que chegará lá pelo Natal. Esta é uma carta difícil de se escrever. Estou ficando maluca, pois não temos o suficiente para pagar nossas contas e sair daqui.

***

(…) nada poderia fazer com que a minha Lolita esquecesse a imunda luxúria que eu lhe infligira.

A mulher que escreveu a Bíblia, Moacyr Scliar, 2007

A mulher que escreveu a Bíblia, Moacyr Scliar, 2007, Companhia de Bolso, 168 páginas.

Livro bom, três estrelinhas na minha classificação. Vale a pena ler, recomendo.

A história é narrada na primeira pessoa por uma jovem mulher de uma tribo na época do rei Salomão. A moça se descobre muito feia, tem uma paixãozinha por um pastor de cabras da região e aprende a escrever com o escriba do pai. O pai é o chefe naquela região. Como parte dos acordos e alianças que davam sustentação ao reino, a moça é enviada para ser uma das inúmeras esposas de Salomão. A habilidade dela com a escrita faz com que ela se torne a redatora da Bíblia, contudo com a supervisão de um conselho de anciãos.

O livro é delicioso, bem-humorado, com uma linguagem leve, desbocada. Penso que a história se perde um pouco depois que a rainha de Sabá chega ao palácio e, além disso, a finalização não é tão boa quanto o desenvolvimento. Por outro lado, uma das maiores qualidades do livro é que a história não parece “falsa”. Ou seja, tem-se um escritor brasileiro escrevendo sobre Jerusalém e Israel e um passado remoto, utilizando-se inclusive de expressões modernas, contudo a narração não causa estranheza tampouco parece anacrônica, deslocada ou artificial.

Primeiro parágrafo:

A feiúra é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita – feia, sempre feia.

Trechos:

E os olhos, que poderiam salvar tudo, eram estrábicos, um deles mirando, desconsolado, o espelho, o outro com o olhar perdido, fitando desamparado o infinito, talvez para não ter de enxergar a cruel imagem.

***

Colocar no pergaminho letra após letra, palavra após palavra, era algo que me deliciava. Não era só um texto que eu estava produzindo; era beleza, a beleza que resulta da ordem, da harmonia. Eu descobria que uma letra atrai outra, que uma palavra atrai outra, essa afinidade organizando não apenas o texto, como a vida, o universo.

***

Ou seja, eu o imaginava não apenas como o rei de Israel, mas principalmente como o rei da alcova, o grande fodedor do mundo conhecido e talvez desconhecido. Não via a hora de dividir o leito com ele.

***

Rumaria para a ilha da Eterna Felicidade, propelida pelo doce vento do amor, ou ficaria perdida no revolto e perigoso mar da Frustração? Eu não saberia dizer. Feias não predizem; feias aceitam o que lhes reserva a sorte.

***

Fechei os olhos — e nesse momento, vi. Diante de mim uma figura imensa, indefinida, uma diáfana presença imóvel sobre um infinito, escuro oceano. Foi só o que eu vi, mas era suficiente. Na fração de segundo que durou essa visão, pude sentir, na remota figura, a tensão, por toda a eternidade contida: a tensão do universo gestado, mas não criado, a tensão do tempo detido, pronto a iniciar o seu fluxo.