Agosto, Rubem Fonseca, 1990

Agosto, Rubem Fonseca, 1990, Companhia das Letras, 349 páginas.

Não gostei. Ruim. Uma estrela entre cinco. Não gostei principalmente porque o livro conta duas histórias ao mesmo tempo, em agosto de 1954. É comum esse tipo de divisão em muitos livros: um trecho, ou capítulo, conta a parte A da história; o trecho seguinte conta a parte B. As duas partes se tocam ou convergem no final. Esse tipo de truque é bobinho, para mim, não usufruo de histórias assim contadas. Neste Agosto, o autor conta a investigação de um crime pelo comissário de polícia Alberto Mattos e, paralelamente, os acontecimentos em torno dos últimos dias de Getúlio Vargas. A parte histórica dedicada ao final do governo Vargas é mais interessante que a ficção com o comi ssário Matos. Deu até vontade de ler uma biografia de Getúlio, tem uma boa do Lira Neto. O tal comissário Mattos é um anti-herói: dentes podres, doente de uma úlcera tenebrosa, mal vestido, utópico, insatisfeito com tudo. O comissário tenta solucionar o assassinato de um rico empresário, enquanto sua vida pessoal se torna caótica, dividido entre uma namorada, Salete, amante de um ricaço, e uma ex-namorada bipolar, casada com outro ricaço. A ficção, ou seja, a história do comissário, suas mulheres, sua úlcera e o assassinato se perde ante a força da história real da época. Além disso, o autor deixa um monte de pontas sem solução. Foi intencional? Ah, ele diria, a vida é assim também, as histórias não resultam bem amarradinhas. Tá. Se foi intencional ou não, ficou mal amarrado demais, tudo solto, desarranjado. Parece que o autor teve preguiça de pensar e de terminar a narrativa. A parte boa do livro, a não-ficção, mostra que o Brasil de hoje é a mesma bosta do Brasil de Getúlio Vargas. Isso dá uma desesperança danada. A mesma corrupção, a mesma elite nojenta e os mesmos políticos, todos ladrões, mentirosos, cínicos, hipócritas.

Primeiro parágrafo:

O porteiro da noite do edifício Deauville ouviu o ruído dos passos furtivos descendo as escadas. Era uma hora da madrugada e o prédio estava em silêncio.

Trechos:

Em maio, os golpistas haviam tentado o impeachment do presidente e o traidor João Neves ajudara a difundir falsidades sobre um acordo secreto entre Perón e Vargas.

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No xadrez, em duas celas com capacidade prevista para oito presos, havia trinta homens. As celas de todas as delegacias da cidade estavam com excesso de presos aguardando vagas nos presídios, uns à disposição da Justiça esperando julgamento, outros já condenados.

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As negociatas da Cemtex são fatos. Por exemplo: a empresa conseguiu uma licença de importação na Cexim no valor de cinquenta milhões de dólares. O Banco do Brasil nunca deu tanto dinheiro a ninguém, está na cara que é mais uma safadeza patrocinada por algum figurão de cima. Gomes Aguiar era amigo do senador Vitor Freitas, que provavelmente é um dos que mexem os pauzinhos para ele.

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O senhor é novo na polícia – não que eu queira lhe dar lições, quem sou eu? Sou apenas mais velho, quase um ancião de cinquenta e cinco anos de idade, trinta de polícia… A única coisa que aprendi nesses anos todos é que em crime de morte só há duas motivações. Sexo e poder. Aí é que está o busílis. Só se mata por dinheiro ou por boceta, com perdão da palavra, ou as duas coisas juntas. Assim é o mundo.

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Os jornais da manhã noticiavam em grandes manchetes o atentado. Os estudantes haviam entrado em uma greve de “protesto contra o banditismo. Nossa alma está coberta de opróbrio. Uma cova se abriu e o povo não esquecerá”. A repercussão do atentado no Congresso fora enorme. (…) Conforme os congressistas da oposição, “corria sangue nas ruas da capital e não havia mais tranquilidade nos lares”.

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“A polícia tudo fará para apresentar à Justiça os responsáveis por esse crime”, disse o ministro com voz cansada ao reconhecer o senador ao seu lado. Tancredo Neves dissera aquela frase dezenas de vezes nas últimas vinte e quatro horas.

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Aqueles calhordas acreditavam realmente no mito proveitoso, que eles mesmos haviam inventado, de que a imprensa era o quarto poder da República. (…) Mas não havia isenção em parte alguma. Duas correntes facciosas e antagônicas se enfrentavam e a imprensa tomara o seu partido.