Os despossuídos, Ursula K. Le Guin, 1974

Os despossuídos, Ursula K. Le Guin, 1974, 283 páginas, tradução de Danilo Lima de Aguiar.

Olha, é um livro bonzinho, dá para ler, traz uma ideias curiosas e o leitor pode até terminar o livro satisfeito, a história é redonda e fecha adequadamente. Mas é terrível a ingenuidade do enredo.

O livro conta a história de dois planetas muito próximos, de forma que um considera o outro como seu satélite. O planeta Urrás assemelha-se à Terra. O planeta Anarres é desértico, tem pouca água e a vida lá é difícil. Anarres é habitado há cerca de duzentos anos apenas, por pessoas que desistiram do tipo de vida que se levava em Urrás e decidiram colonizar Anarres com base em suas ideias. Então, o livro se dedica a mostrar o contraste entre Urrás, com seu capitalismo, e Anarres, com uma sociedade anarquista socialista. A ingenuidade, a meu ver, está em fazer essa polarização, essa dicotomia bem x mal, os certos x os errados, capitalismo x socialismo, solidariedade x competição. É esquemático demais. Outras pequenas ing enuidades abundam como, por exemplo, imaginar que onde há disponibilidade de produtos e de sexo, não haveria disputa, estupros, violência. Anarres não tem governo, nem polícia, nem armas, nem jogos. Neste aspecto, é um livro bem chatinho. A bondade é tediosa.

Os despossuídos, Ursula K. Le Guin, primeiro parágrafo

Havia um muro. Não parecia importante. Foi construído em pedra bruta e grosseiramente cimentado. Um adulto podia olhar por cima dele e até uma criança podia subir nele. No ponto em que interceptava a estrada, em vez de ter um portão, o muro declinava até tornar-se mera figura geométrica, uma linha, uma ideia de limite. Mas essa ideia era real, era importante. Por sete gerações não houve nada mais importante no mundo do que o muro.

Tradução: Danilo Lima de Aguiar.