The Lolita Workout

125. O narrador “confiável” afirma que foi seduzido por Lolita. Ele conta que, após uma noite mal-dormida, a menina se propõe a ensinar-lhe algo. O parágrafo é muito bem escrito. Coloco abaixo ambos, a minha tradução e o original. Chamo a atenção para a forma sutil como o narrador usou a palavra “life”: ela manuseou/manejou minha vida como um apêndice; a diferença entre a vida de um garoto e a minha. Na tradução, pensei em usar a palavra “vigor” em lugar de “vida”, mas por fim preferi deixar do modo como Nabokov escreveu. Assim se percebe a quantidade de entrelinhas e significados semiocultos que existem no texto do autor.

“Ok,” disse Lolita, “aqui é onde nós começamos.”
Entretanto, eu não vou entediar meus instruídos leitores com um detalhado registro da presunção de Lolita. É suficiente dizer que eu não percebi nenhum traço de recato naquela bela jovenzinha pouco desenvolvida que a moderna escola mista, os costumes juvenis, as algazarras nos acampamentos e tudo o mais haviam depravado de modo total e irreversível. Ela via o “ato cru” meramente como parte do furtivo mundo da juventude, desconhecido dos adultos. Aquilo que adultos faziam com propósitos de procriação não era do interesse dela. Minha vida foi manuseada pela pequena Lo de uma forma vigorosa e bruta como se fosse um apêndice insensato desconectado de mim mesmo. Embora ansiosa para me impressionar com o mundo das crianças selvagens, ela não estava totalmente preparada para certas discrepâncias entre uma vida de garoto e a minha. Somente o orgulho a impedia de desistir; pois, em minha estranha situação, eu simulei extrema estupidez e deixei que ela conduzisse do jeito dela – ao menos enquanto eu consegui suportar. Todavia, de fato, estes são assuntos irrelevantes; eu não estou preocupado com isso de “sexo” afinal. Qualquer um pode imaginar aqueles elementos animalescos. Um desafio maior me seduz: registrar de uma vez por todas o perigoso encantamento das ninfetas.

“Okay,” said Lolita, “here is where we start.”
However, I shall not bore my learned readers with a detailed account of Lolita’s presumption. Suffice it to say that not a trace of modesty did I perceive in this beautiful hardly formed young girl whom modern co-education, juvenile mores, the campfire racket and so forth had utterly and hopelessly depraved. She saw the stark act merely as part of a youngster’s furtive world, unknown to adults. What adults did for purposes of procreation was no business of hers. My life was handled by little Lo in an energetic, matter-of-fact manner as if it were an insensate gadget unconnected with me. While eager to impress me with the world of tough kids, she was not quite prepared for certain discrepancies between a kid’s life and mine. Pride alone prevented her from giving up; for, in my strange predicament, I feigned supreme stupidity and had her have her way – at least while I could still bear it. But really these are irrelevant matters; I am not concerned with so-cal led “sex” at all. Anybody can imagine those elements of animality. A greater endeavor lures me on: to fix once for all the perilous magic of nymphets.

The Lolita Workout

121. Quando Humbert fala em “a completely anesthetized little nude”, pensei em “A casa das belas adormecidas” de Yasunari Kawabata (1961). Lolita é de 1955. Imagino um grande gráfico, é deveria ser uma representação visual, no qual o círculo contendo esta frase de Nabokov seria ligado por uma flecha com o círculo contendo o nome do romance de Kawabata. O círculo contendo as frases de Dmitri Karamázov sobre o inseto se ligaria com o círculo de A metamorfose. Alguém já deve ter feito esse gráfico.

The Lolita Workout

120. Então, no capítulo 28 de Lolita, a menina está dormindo no quarto do hotel, e o narrador declara que o seu único arrependimento, hoje, é não ter deixado a chave do quarto na recepção e desaparecer da cidade, do país, do universo naquela noite. Se o narrador tivesse entregado a chave na recepção, o livro existiria? Seria outro livro e outra história. Se eu não tivesse nascido, se eu não tivesse atravessado aquela rua naquele dia, se eu não tivesse conhecido aquela moça. Na vida dos arrependidos, essa pergunta que começa com aquele “se” é crucial, fica martelando na cabeça nas noites de insônia. Ou seja, todas as noites. Se Humbert tivesse fugido, Dolores acordaria no dia seguinte, estranharia a ausência, tomaria o café da manhã, telefonaria para casa, após alguma dificuldade descobriria a morte da mãe, seria acolhida pelos amigos mais próximos e, por fim, criada por um parente distante da mãe ou do pai.

Narrador traidor

O narrador é confiável? O narrador, não se pode confiar no narrador. Entretanto, nós, leitores humildes, tendemos a acreditar no narrador. Muita vez, o narrador não é o autor. Será que alguma vez o narrador é verdadeiramente o autor? Mas todos os personagens são o autor, uma faceta do autor, um algo do autor que dele se desprendeu e nasceu para um vida independente. O autor não existe, existe o autor?

Em Karamázov, o narrador é alguém daquela vila onde transcorrem os acontecimentos. Mas antes de entrar o narrador – que é um personagem, visto sabermos que Fiódor Dostoiévski não mora nem morou em uma cidadezinha que tem um mosteiro, etc, etc, como ele mesmo gosta de usar tantas vezes – repito, antes de entrar o narrador, o autor fala conosco: um preâmbulo que Dostoiévski denominou “Do autor”, no qual ele expõe algumas de suas dúvidas acerca da história e de Aliócha. Esse autor é confiável? Como pode ser se nos expõe suas dúvidas?

Portanto, há um narrador e há um autor, Dostoiévski faz a divisão logo no início. E o narrador, não totalmente confiável, pois narra diálogos dos quais não participou, destaca intensamente a pusilanimidade de Fiódor Karamázov. Entretanto, mais umas páginas e percebe-se um Karamázov até divertido.

Em Lolita, temos a capa com o nome do autor, Nabokov, um prefácio, assinado por um tal John Ray Jr, phd, no qual este Ray assevera que recebeu o manuscrito por meio do advogado do autor, Humbert Humbert. Este narrador, Humbert Humbert, extremamente sedutor, ambíguo, viperino, conta a história e seduz e ludibria o leitor, o qual é obrigado a permanecer alerta contra as falsificações do narrador. 

The Lolita Workout

115. No capítulo 25, Humbert muito ansioso, pouco antes de ir buscar Dolores no Acampamento Q. Acredito que Nabokov, de forma figurada e sutil, descreve a explosão da tensão sexual de Humbert. HH estaciona o carro próximo a um hidrante que considera tenebroso, vermelho e prata, debaixo de chuva forte. HH telefona para o Acampamento Q e, depois de falar com a coordenadora, recebe de volta todas as moedas que havia depositado, uma enxurrada como a de uma máquina caça-níqueis. Por fim, mais calmo, a chuva passou, HH faz compras e observa que a cidadezinha está como coberta de prata e vidro.

116. “(…) obscure motives of envy and dislike, (…)”. Um bom título para um livro.

117. “Oh, let me be mawkish for the nonce! I am so tired of being cynical.”

Frida Meyer, de Vivaldo Coaracy, na Revista BBM

Frida Meyer, de Vivaldo Coaracy, na Revista BBM. “Cahia a tarde, grisalha e triste. Vinha de longe, vago, um prenuncio de chuva, no ar frio daquella primavera precoce. (…) Frida estendia o olhar dos olhos ainda congestionados do pranto, sobre a paizagem tristonha. Tomava-a um acabrunhamento completo, todo o seu ser, alma e corpo, como um trapo, e via na atonia cinzenta do dia o reflexo do seu proprio estado de espirito, o marasmo em que sentia esboroar-se-lhe a vida.”

“Nesses quatro anos de convivência constante [Frida] apenas percebera, sem jamais ouvir-lhe um queixume, que a mãe encarava a existência como se fosse uma punição, castigo em que estivesse a purgar um pecado antigo.”

A autora do artigo comenta: “Não parece haver espaço, nesse universo, para soluções folhetinescas, nas quais o dinheiro advém da sorte grande ou de herança providencial.”

E é justamente esse tipo de solução, a grana que surge fora do universo impactante do trabalho, que muito me incomoda em muitos romances. Exemplo evidente, Lolita, Nabokov, no qual Humbert recebe uma herança de um tio na América. Isto, uma herança, uma grana surgida do nada, facilita tudo, facilita a trama do romance.