O mundo é uma simulação de computador

Todos os dias são iguais. O mundo é uma simulação de computador. Pequenas e ilusórias variações no cenário. Renata sai de bicicleta do prédio, entra à direita, a moça atraente passeia com o cachorro. Às vezes, a moça está abrindo o portão, às vezes está na calçada da direita, às vezes na da esquerda. Naquele semáforo em que ela dobra à direita, um grupo de mulheres caminha para o trabalho. Às vezes, elas estão antes da esquina, às vezes depois. Na copa do escritório, dois colegas conversam sobre o jogo de ontem. Ela sabe que tudo é cenário e falso. Ninguém pode sair do jogo. Gostaria de sair do jogo a qualquer momento. Quer descobrir onde estão os portais.

         No conto de Frederik Pohl, The Tunnel Under The World, o personagem começa a notar pequenas inconsistências em seu cotidiano. Investiga, descobre que todos os dias ele acorda no mesmo dia, quinze de junho. Descobre que alguns objetos são falsos. Por fim, descobre que todos ali têm a memória apagada todos os dias e que estão em um ambiente controlado e observado. Bráulio Tavares, que me apresentou o conto, diz que essa é uma das primeiras referências à ideia de que vivemos na Matrix, em um mundo artificial, ou em um game de computador. Pode ser que seja assim. Contudo, cabe lembrar que a ideia de que o mundo não é o que percebemos, de que existe algo além da nossa pobre percepção, é muito mais antiga. Devemos recordar Platão e a alegoria da caverna.

         Sim, é verdade que muitos de nós, talvez a maioria, não tem o menor interesse em saber se estamos vivos ou se somos uma simulação. Por outro lado, alguns de nós parecem não se conformar com o conceito de que este é o único mundo possível, a única vida possível. Um videogame, uma simulação de computador, o sonho de outro homem, uma história em um livro, androides em um ambiente controlado. São inúmeras as possibilidades levantadas pela literatura e pelo cinema.

         A mais recente investida criativa nesse território é a série Westworld. Um parque temático com ambientação de velho oeste, onde todos os equipamentos, pessoas e animais foram construídos para parecerem reais, recebe novos visitantes diariamente. Os pagantes podem fazer o que quiserem com os habitantes do parque, matar, roubar, torturar, estuprar. Os equipamentos não podem fazer mal aos pagantes. Entretanto, alguns dos androides começam a atingir algum grau de consciência e a perceber que algo está errado. A série aponta alguns questionamentos. Até onde se pode aperfeiçoar uma máquina sem que ela atinja a consciência? Se uma máquina pode parecer humana, como saber se sou máquina ou humano? Westworld é, até agora, um compêndio das diversas interrogações milenares sobre o que é o mundo real, passando por Platão, O Show de Truman, o Big Brother de Orwell, Matrix, Neuromancer, Frederik Pohl e mais.

                Todos os dias são iguais. Ela sabe que aquilo não é real e não é um sonho. É um pesadelo ou uma armadilha. Aquela simulação só existe em torno dela. Impossível chegar na borda da simulação visto que a área gerada se move com ela. Ela é o centro. Quer dormir e acordar fora da simulação. Ela imagina um universo sem saída, recursivo. Acima de uma simulação, outra simulação. O infinito em todas as direções é um pesadelo.