Dez-tōes

Dinheiro. É problema e é solução. Será que existe uma grande fortuna que não se fundamente em corrupção? Talvez não. Imagine-se um bilionário que faz e fez tudo certinho. Isso existe? Acho difícil. De todo modo, se o cara tem um bilhão de moedas, tem também um monte de gente trabalhando para ele por dez-tões. Isso também é corrupção; corromper: aviltar, degradar, apodrecer.

Na literatura, tudo fica fácil quando o personagem ganha uma herança. É a solução menos criativa que um autor pode usar para desenvolver um enredo. Ganhou a herança, pronto, elimina um monte de problemas triviais e se pode escrever despreocupadamente. Ganhar na loteria também. O personagem de “O colecionador”, de John Fowles: só depois de ganhar um prêmio, ele se torna o ator de sua história; antes, era apenas um empregadinho de repartição.

Claro que é curioso, literário, ver como alguém se comporta quando não há mais as amarras do cotidiano. Todavia, há várias preciosidades literárias com personagens “de repartição”, por exemplo em Bartleby, de Melville, e em “A trégua”, de Mario Benedetti. Poderia alguém até se ocupar de fazer essa lista: livros com personagens de repartição.

No momento, ocupado com Dostoievski e Machado (e mais um ou outro), fico a pensar se as heranças e os dotes (das moças) eram tão comuns quanto essa literatura do século dezenove faz crer. Não apenas nos dois citados, mas especificamente neles, a qualquer momento encontra-se uma herança caída do céu. E as moças, coitadinhas, só eram boas para casar quando acompanhadas de um valioso montante.

Não cabe se ocupar de quanto dado valor da época significa hoje, deixemos isso para as fundações e os institutos de economia. Todavia, dá para fazer algumas comparações. Em um conto de Machado, o personagem é avisado de que dilapidou toda a fortuna que herdara e dispõe apenas de seis contos. Seis contos é quase a pobreza para ele. Há uma moça que tem um dote de trinta contos. O rapaz não se interessa porque, diz ele, trinta contos é a despesa de um ano, ou seja, dois contos e quinhentos por mês. Essa mesma moça vai herdar, mais adiante, trezentos contos e se tornar um bom partido. Imagino a preocupação de um pai da época em preparar um dote para cada filha. Hoje as moças casam com a cara, a coragem e a capacidade de trabalhar.

Em outro conto de Machado, o personagem também esperdiça a fortuna e para rolar uma dívida de nove contos aceita dobrar a dívida para dezoito contos. Parece que uma boa parte da “sociedade” da época vivia daquilo que os antepassados lutaram para ganhar e acumular. Sem entrar em tentativas de explicação sócio-econômica, dá para imaginar que os ancestrais eram pecuaristas e agricultores, acumularam recursos e a geração seguinte, metropolitana, desvinculada da origem dos recursos, joga fora o patrimônio.

Em Dostoievski, Dmitri é obcecado pelo dinheiro do pai, em lugar de se ocupar em ganhar o seu próprio, e tudo que obtém do velho é desperdiçado em farras e mulheres. O velho tem um patrimônio de cento e vinte mil rublos, o que daria quarenta mil rublos para cada filho. Contudo, Fiódor Karamázov não pensa em dividir nada com os filhos. Ele acumula somente para si e para sua velhice. Em dado momento, Dmitri, com dinheiro recebido do pai e movido pela lascívia, ajuda Catierina com quatro mil e quinhentos rublos: era toda a dívida do pai dela, a família estava arruinada. Posteriormente, Catierina herda uma herança de uma tia e é a vez de Dmitri se apropriar (roubar, de fato) três mil rublos da moça e gastar tudo em uma única noitada de farra. Para se ter noção do esbanjamento de Dmitri, quando Aliócha oferece duzentos rublos a um capitão falido, chefe de uma família doente e pobre, o capitão faz planos de mudar de vida, de cidade, de comprar uma carroça e um cavalinho, tudo com os duzentos rublos.

Enfim, tudo isso não conclui, não fecha, mas serve para contar da minha predileção pelos personagens que precisam resolver aquelas nossas comuns questões cotidianas, aquele personagem que vai à repartição, como em Benedetti, que almoça e janta, que até prepara o jantar, como em Murakami, e, ainda assim, o autor consegue desenvolver uma história, um enredo que atrai o interesse do leitor e dispensa o deus ex-machina da fortuna inesperada.