A máquina do tempo, H. G. Wells, 1895

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A máquina do tempo, H. G. Wells, 1895, tradução de Braulio Tavares.

Livro sumamente famoso e que inaugurou o tema das viagens no tempo, de acordo com o prefácio de Braulio Tavares. É possível, até, que a ideia seja mais conhecida do que o livro foi lido. É curioso conhecer este enredo, mas o próprio autor, anos mais tarde, disse que suas concepções eram grosseiras – embora não se arrependesse do livro. Penso que há vários defeitos no livro: o Viajante no Tempo vai apenas para um lugar temporal, o ano oitocentos mil e tantos, a concepção simplória de um mundo dividido entre duas espécies de humanos, a ausência, naquele futuro, de qualquer tecnologia. Apesar dos defeitos, vale a pena conhecer o livro de Wells.

Primeiro parágrafo:

O Viajante no Tempo (pois convém que ele seja designado desta forma) estava nos explicando um assunto dos mais recônditos. Seus olhos cinzentos cintilavam e seu rosto, em geral pálido, exibia cor e animação.

Trechos:

Tempos atrás, tive uma vaga ideia para a construção de uma máquina… – Para viajar no Tempo! – exclamou o Rapaz Muito Jovem. – Para viajar em qualquer direção do Espaço e do Tempo, à vontade do piloto.

Algumas partes eram de níquel, outras de marfim, e outras partes eram blocos de cristal de rocha limados ou serrados. Parecia completo, exceto pelas duas barras retorcidas e de aspecto cristalino ainda sobre a mesa de trabalho, ao lado de papéis cobertos de desenhos de projetos.

Coisas que teriam feito a fama de homens menos hábeis pareciam, em suas mãos, meros truques. É um erro fazermos as coisas de um modo que pareça muito fácil. Pessoas sérias que o levavam a sério nunca estavam totalmente seguras a respeito de sua conduta;

Creio que um suicida, ao encostar na testa um revólver, sente a mesma curiosidade que me invadiu naquele instante: o que aconteceria em seguida?

Há um sentimento crescente, e que crescerá ainda mais, contra o ciúme conjugal, contra a dedicação exclusiva à maternidade, contra as paixões de qualquer espécie; coisas desnecessárias agora e que nos deixam desconfortáveis. São resíduos da vida primitiva e se tornam dissonâncias na vida refinada e agradável de hoje.

Minha teoria era bastante simples, bastante plausível — como, aliás, é a maior parte das teorias equivocadas!

No cômputo geral, sua devoção me trazia conforto e problemas em igual medida, mas ela representava para mim uma fonte de bem-estar.

Pouco a pouco, a verdade se revelou: o Homem não havia se mantido como uma espécie única, mas se ramificado em dois animais diferentes.

Ali, à luz vacilante da lamparina, estava de fato a Máquina — feia, atarracada, posta em diagonal; uma coisa feita de latão, ébano, marfim e quartzo translúcido e cintilante.

Talvez tenha ido em busca da fase mais madura de nossa raça; porque, de minha parte, não posso crer que estes tempos mais recentes, com experiências banais, teorias incompletas e discórdia recíproca, sejam o apogeu de nossa era.

A ideia de uma diferenciação social dos seres humanos em Eloi e Morlocks parece-lhe agora pouco mais que grosseira.

Temos que errar se queremos evoluir, e este autor não se arrepende desta sua obra da juventude.

Gemma Bovery, filme de 2014

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Gemma Bovery é um filme francês que, no momento, está disponível gratuitamente na plataforma Looke, com o impagável Fabrice Luchini e Gemma Arterton, dirigido por Anne Fontaine. O filme é derivado de uma história em quadrinhos de mesmo nome, escrita pela britânica Posy Simmonds.

O filme deixa claro, até no título, seu interlaçamento com a obra-prima de Gustave Flaubert, o livro Madame Bovary. Não sei se o filme é boa indicação para alguém que não leu o livro de Flaubert visto que há numerosas referências no filme às peripécias da personagem Emma Bovary.

(Cabe observar que considero Madame Bovary um dos três melhores livros que já li – os outros dois são Lolita, de Vladimir Nabokov, e O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald.)

No filme, os ingleses Gemma Bovery e seu marido Charles se mudam para uma pequena cidade da Normandia, próxima de Rouen, a mesma área onde se passa a história de Emma. Eles ocupam uma casa vizinha do padeiro da cidade, Martin Joubert, interpretado pelo ator Fabrice Luchini. O padeiro é fã absoluto do romance de Flaubert e percebe, de imediato, a coincidência de nomes. Daí em diante, o padeiro se torna o observador da vida de Gemma, um observador à maneira do garoto da farmácia no romance de Flaubert, Justin, que exerce papel semelhante no livro.

Filme muito divertido, sensual, romântico, e de amor aos livros e à literatura.

Uma cena muito boa é quando o padeiro, sua mulher e o filho adolescente estão à mesa, e Joubert fala dos novos vizinhos e da coincidência de nomes. Ele diz de sua admiração pela obra Madame Bovary; a esposa diz preferir o livro La princesse de Clèves; então, o filho diz preferir Call of Duty. A mãe dá-lhe um tapa na cabeça e diz que estão falando de livros, não de games. Joubert diz que preferia que o filho fosse um drogado a escutar algo assim.

O personagem de Fabrice Luchini, neste filme, tem o mesmo tom, entre cáustico e melancólico, do personagem que ele fez no filme O mistério de Henri Pick, também disponível de graça no Looke.

Flores Para Algernon, Daniel Keyes, 1966

 

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Flores Para Algernon, Daniel Keyes, 1966, tradução de Luisa Geisler, Editora Aleph.

Bom livro. A história de Charlie Gordon, um rapaz de 32 anos, mas com severo retardo mental, submetido a uma cirurgia experimental que pode desenvolver sua capacidade de aprender. A cirurgia é bem sucedida e Charlie vai de bobo a gênio, inclusive aprendendo diversas línguas e se tornando exímio em muitas áreas de conhecimento. É evidente que nem tudo vai sair como o esperado. O tema deste livro de 1966 é encontrado em outros livros e filmes. Há um filme com John Travolta em que o personagem sofre um acelerado processo de aquisição de conhecimento por conta de um tumor cerebral. Também o filme Tempo de despertar, com Robert de Niro e Robin Williams, baseado em livro do neurologista Oliver Sacks e, ainda, o filme Lucy, com Scarlett Johansson. Uma falha do livro – e de todos os enredos que contam uma evolução rápida da inteligência – é que o conhecimento não se adquire apenas devorando livros e mais livros, visto que também é essencial o tempo, a experiência e o amadurecimento. De todo modo, uma boa leitura. O Algernon, do título, é o ratinho que precedeu Charlie nas experiências de laboratório para desenvolvimento do intelecto.

Primeiro parágrafo:

3 de marsso – Dotor Strauss diz que eu deveria iscrever o que eu penso e mi lembra de tudo que acontese de agora endiante. Não sei por que mas ele diz que é importante e então eles vão poder ver se vão mi usar. Quero que eles mi usem porque a professora Kinnian disse que tal vez eles possão mi fazer intelijente. Eu quero ser intelijente. Eu mi chamo Charlie Gordon, trabalho na padaria Donners onde o senhor Donner mi dá 11 dolares por semana e pão e bolu se eu quero. Tenho 32 anos de idade e fasso aniversario mes que vem.

Trechos:

Tive muitos testes e diferentes tipos de corridas com Algernon. Odeio aquele rato. Ele sempre mi vense.

Odeio os testes e odeio os quebra cabessas e odeio Algernon. Eu nunca soube antis que era mais burro que um rato. Não quero mais iscrever relatórios de progresso.

Por que uma memória assim da infância permanece comigo com tanta força, e por que me assusta agora?

Comecei a ver que, por meio do meu surpreendente crescimento, eu os fiz encolher e enfatizei suas inadequações.

Enquanto escutava o que ela dizia, a enormidade daquilo me ocorreu. Eu estava tão absorvido em mim mesmo e no que acontecia comigo que nunca pensara sobre o que acontecia com ela.

Em diversas ocasiões, ele entra em um lado muito rapidamente e bate de frente em uma barreira. Há um estranho senso de urgência no comportamento de Algernon.

A sensação era de viver a morte – ou, pior, de nunca ter estado realmente vivo e consciente. Almas murchavam desde o início e estavam condenadas a encarar o tempo e o espaço do cotidiano.

Declínio. Pensamentos suicidas para interromper tudo agora, enquanto ainda estou no controle e consciente do mundo em torno de mim.

Contos de terror, de mistério e de morte, Edgar Allan Poe, 1835-1849

Contos de terror, de mistério e de morte, Edgar Allan Poe, 1835-1849, tradução Oscar Mendes, Nova Fronteira.

Muito fraco, confuso, obnubilado. Não sou fã de Poe nem de contos de mistério; peguei este livro para ler porque estava de graça na Amazon. Não gostei, não me agrada o tipo de narração adotada por Poe, verborrágica, extensa, gótica, obscura às vezes. De todo modo, foi curioso conhecer as obsessões do autor: a morte da amada, a morte em geral, a metempsicose, o crime perfeito ou quase perfeito, o duplo. A seguir, brevíssimo resumo de cada conto.

Berenice: o narrador extrai os dentes da morta Berenice. Morela: o esposo conta que, na hora da morte, Morela dá a luz uma menina que cresce igual a ela, um clone avant la lettre. Quando o narrador vai enterrar a segunda Morela, não há vestígios da primeira. Não fica claro se o narrador fez sexo com a segunda Morela, clone ou filha. O visionário: um casal de amantes executa um pacto suicida. O Rei Peste: conto bêbado, sem pé nem cabeça, dois bêbados entram em uma sala ocupada por pessoas estranhas e ao final fogem com duas mulheres de lá. Metzengerstein: conto sobre metempsicose; a inimizade entre duas famílias, o jovem de uma família incendeia o estábulo da outra, o proprietário morre e transforma-se em um cavalo que é acolhido pelo jovem; este mesmo cavalo conduzirá o jovem à morte. Ligeia: a mulher amada (e única, inigualável, elas sempre são únicas e inigualáveis e marmóreas em Poe) morre, o narrador se casa com uma jovem que morre, mas na longa noite do velório, Ligeia assume o corpo da morta e revive. A queda do Solar de Usher: a irmã gêmea e adorada de Usher morre, mas ressurge em noite tenebrosa e o solar desmorona. William Wilson: o narrador tem ou imagina um duplo que o persegue desde a infância até a morte. Eleonora: o narrador promete amar Eleonora por toda a vida e após a morte dela, todavia encontra novo amor e se casa. O retrato oval: um pintor faz o retrato da amada e concentra-se tão profundamente no retrato que não percebe que a amada definha e morre. A máscara da Morte Rubra: um bom conto sobre um reino no qual grassa a peste conhecida como Morte Rubra e com um príncipe que se aliena da epidemia e do seu povo. O coração denunciador: conto que já comentei aqui; é um tipo de conto que se repete em Poe: um criminoso não resiste e revela seu crime. O gato preto: mesmo tipo de conto do anterior, o criminoso se revela, mas involuntariamente; na narrativa, ele exerce toda a crueldade contra um gato preto. O poço e o pêndulo: um herege submetido a torturas da Inquisição em Toledo. Uma história das Ragged Mountains: um conto sobre o duplo, mas separados por tempo e espaço; o senhor Bedloe entra em uma caverna nos Estados Unidos e se vê, repentinamente, na Índia, em meio a uma batalha na qual morre como o oficial Oldeb; ele volta ao presente e morre de forma semelhante ao oficial. O enterramento prematuro: um homem sofre de catalepsia e teme ser enterrado vivo. O caixão quadrangular: em uma viagem de navio, um homem transporta o corpo da esposa morta em uma caixa, sem que os outros passageiros suspeitem. O demônio da perversidade: o narrador mata um homem e herda a herança, é um crime perfeito, mas ele não resiste e se revela. Revelação mesmeriana: Franz Mesmer foi um charlatão que acreditava em um tal de magnetismo animal, onde alguém poderia comandar e curar outras pessoas com a força de seu próprio magnetismo; no conto, o narrador mesmeriza um moribundo e faz perguntas a ele. O caso do Sr. Valdemar: outro conto sobre mesmerização; o narrador mesmeriza um moribundo até a hora da morte e mantém o indivíduo sob magnetismo mesmo após a morte; o cadáver não se decompõe e ainda responde perguntas por sete meses. O barril de amontillado: o narrador leva um inimigo para sua adega e o empareda; o crime nunca é descoberto. Hop-Frog: um rei e seus ministros recebem o devido castigo por maltratar os anões da corte.

Trechos:

Não há beleza rara – disse Bacon, lorde Verulam, falando verdadeiramente de todas as formas e gêneros de beleza – sem algo de estranheza nas proporções.

A pedido de Usher, ajudei-o pessoalmente nos arranjos para o sepultamento temporário. Tendo sido o corpo metido no caixão, nós dois sozinhos levamo-lo para seu lugar de repouso.

Minha memória retomava (oh, com que intensa saudade!) a Ligeia, a bem-amada, a augusta, a bela, a morta. Entregava-me a orgias de recordações de sua pureza, de sua sabedoria, de sua nobre, de sua etérea natureza, de seu apaixonado e idolátrico amor.

Podia, na verdade, ser Rowena viva que me enfrentava? Podia, de fato, ser verdadeiramente Rowena, a loura, a dos olhos azuis, Lady Rowena Trevanion de Tremaine?

Durante muito tempo devastara a Morte Rubra aquele país. Jamais se vira peste tão fatal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinete: a vermelhidão e o horror do sangue.

Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido e sagaz. Quando seus domínios se viram despovoados da metade de seus habitantes mandou chamar à sua presença um milheiro de amigos sadios e joviais dentre os cavalheiros e damas de sua corte, retirando-se com eles, em total reclusão, para uma de suas abadias fortificadas.

A abadia estava fartamente provida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o contágio. Que o mundo exterior se arranjasse por si. Enquanto isso, de nada valia nele pensar, ou afligir-se por sua causa. Providenciara o príncipe para que não faltassem diversões.

Muita gente o julgava louco. Mas seus cortesãos achavam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo, para se estar certo de que ele não o era.

Mesmo para os mais pervertidos, para quem a vida e a morte são idênticos brinquedos, há assuntos com os quais não se pode brincar.

Há certos temas de interesse totalmente absorventes mas por demais horríveis para os fins da legítima ficção. O simples romancista deve evitá-los se não deseja ofender ou desgostar.

Tinha ele o temperamento comum dos gênios, formando um conjunto de misantropia, sensibilidade e entusiasmo.

A Máscara da Morte Rubra, Edgar Allan Poe, 1842

Trechos do conto A Máscara da Morte Rubra, em Contos de terror, de mistério e de morte, Edgar Allan Poe, tradução de Oscar Mendes.

“Durante muito tempo devastara a Morte Rubra aquele país. Jamais se vira peste tão fatal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinete: a vermelhidão e o horror do sangue.
(…)
Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido e sagaz. Quando seus domínios se viram despovoados da metade de seus habitantes mandou chamar à sua presença um milheiro de amigos sadios e joviais dentre os cavalheiros e damas de sua corte, retirando-se com eles, em total reclusão, para uma de suas abadias fortificadas.
(…)
A abadia estava fartamente provida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o contágio. Que o mundo exterior se arranjasse por si. Enquanto isso, de nada valia nele pensar, ou afligir-se por sua causa. Providenciara o príncipe para que não faltassem diversões.
(…)
Muita gente o julgava louco. Mas seus cortesãos achavam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo, para se estar certo de que ele não o era.
(…)
Mesmo para os mais pervertidos, para quem a vida e a morte são idênticos brinquedos, há assuntos com os quais não se pode brincar.”

A ponte flutuante dos sonhos (1959) e Retrato de Shunkin (1933), de Junichiro Tanizaki

 

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A ponte flutuante dos sonhos (1959) e Retrato de Shunkin (1933), de Junichiro Tanizaki, tradução de Andrei Cunha, Ariel Oliveira e Lídia Ivasa, 156 páginas.

São dois textos em um único volume. Ambas as histórias não me agradaram inteiramente, mas adimitiria até uma releitura no futuro. Há inovação e experimentação em ambos. A ponte flutuante dos sonhos mistura poesia, caligrafia e literatura japonesa antiga enquanto o narrador desfia suas memórias de infância e juventude. O narrador teve duas mães e mistura as duas em suas lembranças. A primeira mãe morreu cedo, o pai se casou com outra mulher, que apresentava semelhanças físicas com a primeira, e que passou a ser tratada pelo mesmo nome. Há atração erótica entre o menino/jovem e a segunda mãe, aparentemente incentivada pelo pai. A morte da segunda mãe ocorre em circunstâncias dúbias e o final do conto é melancólico. O Retrato de Shunkin me fez pensar em Borges: o narrador se envolve em um tipo de pesquisa amadora sobre a famosa musicista cega Shunkin e descreve o que encontrou sobre ela em uma biografia escrita por Sasuke, discípulo e amante dela. Borges também inventava livros que não existiam e descrevia a história neles contada. O narrador também aduz ao enredo boatos e entrevistas que fez. Shunkin é autoritária e cruel com todos, e especialmente com Sasuke. Este a idolatra de forma absoluta e chega ao extremo de perfurar os próprios olhos para compartilhar a cegueira com sua mestra.

De repente a vida acaba, Clotilde Tavares, 2019

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De repente a vida acaba, Clotilde Tavares, 245 páginas, 2019.

Excelente romance, gostei demais. Um dos melhores livros que li nos últimos anos. Na minha classificação pessoal, cinco estrelinhas. Impressiona que seja o primeiro romance da autora visto que é muito bem construído. O livro é, ao mesmo tempo, profundo e divertidíssimo.

O enredo conta da vida solitária da doutora Maria Eulina, aposentada e uma escritora falhada, e de suas reações ao receber e ler um manuscrito elaborado por Aline, sua amiga distante. Aline, ao morrer, deixara o envelope com o manuscrito para ser entregue a Eulina.

A oposição entre as personalidades de ambas é evidente, inclusive nos nomes das personagens: Aline > Elina > Eulina. Embora opostas, Aline e Eulina podem ser vistas como aspectos de uma mesma pessoa. Somos humanos assim, solares e sombrios. Aline, com toda a sua fúria, apresenta traços da rabugice de Eulina. Esta renega o desregramento da outra, a bacante, com a inveja escondida atrás do desprezo. Ambas são divertidíssimas. Aline com sua autodivisão em personagens, a Rainha do Lar, Lady Midnight e a Paladina da Estatística. Eulina com sua mordacidade e lunguice.

O livro deixa no leitor a vontade de saber mais e mais sobre as duas personagens. Fiquei particularmente intrigado para saber de que forma os filhos de Aline terminaram por se afastar dela. Um afastamento tão completo que nem mesmo vieram cuidar do espólio da mãe. A vida de Aline é tão fascinante que renderia muitas páginas a mais.

Adorei o romance desde a primeira página, devorei o livro em poucos dias. Este livro compartilha seu universo ficcional com Martha Batalha e sua Eurídice Gusmão e com as amigas Lina e Lenu de Elena Ferrante.

Não vou colocar trechos especiais aqui, dessa vez. São muitos. Em quase todas as páginas do romance, meu lápis 8B selecionou frases memoráveis.

Imperdível.

O fogo na floresta, Marcelo Ferroni, 2017

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O fogo na floresta, de Marcelo Ferroni, 2017.

Muito fraco. A personagem principal, Heloísa, não desperta no leitor nenhum sentimento, nenhuma empatia ou ódio ou nojo ou raiva ou admiração. Nem mesmo se consegue torcer pela personagem. Ela desperta tédio. Uma mulher irresponsável e desleixada que mantém um casamento falido e um filho mal-educado. Talvez possa despertar pena.

Heloísa, separada do primeiro marido, fica grávida, sem querer, de um rapaz com quem namorava de leve. Tem um empreguinho sofrível, não sabe sobreviver nos meandros da empresa, não é competente nas suas tarefas, administra pessimamente sua casa e suas finanças, o filho tem deficiências no desenvolvimento, não gosta do marido com quem casou por causa do filho, inicia um caso com um enrolão e por aí vai. É de notar que todos os homens com quem ela se relaciona, exceto o pai de seu filho, são enrolões, malandros cariocas.

As “conversas corporativas” e sobre negócios são imensamente chatas – já o são na vida real, por que alguém sentiria prazer em ler sobre tal assunto? reuniões de empresa, intrigas de escritório. Os trechos sobre uma expedição fracassada na Antártida estão completamente fora do contexto do romance, parecem enxertos para engrossar as páginas, totalmente desnecessários à história.

A vida de Heloísa é uma “tempestade perfeita” e o livro termina sem solução para qualquer um dos personagens. O autor poderia aprender algo com Celeste Ng, autora que sabe contar uma história e não deixa pontas soltas. A mim, me parece, que o autor não soube como concluir a imensa confusão da vida de Heloísa.

Trechos:

Matias, o que você está fazendo aí? Como? Mas você nunca faz isso, você nunca quer fazer isso quando estou aí, é só eu viajar que você fica todo animado, você não vai nem me perguntar como foi a apresentação?

Administrava os próprios horários, trabalhava só para si e, o melhor, seu escritório era em casa. Nas fotos que havia postado, bebia feliz no meio de uma turma na mureta com vista para o mar da Urca, estirava-se numa cadeira de armar na praia de Copacabana (a barriga bronzeada), fazia sinais de joia com ambas as mãos ao lado de um chef de cozinha (…).

Bolinhas subindo felizes na taça, ela toma um gole pequeno, que delícia, Matias é um caipira, se não é cerveja ele logo reclama de dor de cabeça, ou diz que é caro, mas não, não vai pensar nele agora (…).

Carlos Alberto queria saber o que ela estava fazendo, ela disse que não era da conta dele. O celular vibra mais uma vez. Ele responde que gostaria que fosse. Ela diz rsrsrs, ele diz que está falando sério, gostaria de ouvir a voz dela, ela responde que também gostaria mas está no meio de um jantar e não pode falar agora.

Trocam juras de amor, sim, sim, ele vai ligar, já está sentindo saudades, ela também, me ligue, te ligo, a gente se fala. Olhe, seu elevador chegou.

Digita ansiosa para Carlos Alberto. Passaram-se três dias e ele continua desaparecido. Tudo bem aí?

– Queria passar o dia inteiro com você. – Eu também, eu também queria, diz Heloísa, brincando com os pelos do peito de Carlos Alberto.

Queria levar você a restaurantes, beber bons vinhos sem se preocupar com nada. – Eu também, eu também. Carlos Alberto respira fundo, seu peito se ergue e abaixa numa marola.

(O marido) Tinha aptidão artística e precisava de tempo para botar no papel uma peça em três atos que vinha gestando nos últimos meses, entre outros projetos.

Pausa por um momento porque o celular vibrou, ela o puxou da bolsa. Havia uma mensagem de Murilo, Quero te ver hoje gata. Gata? Ele nunca me chamou de gata.

Ela viu as roupas jogadas no chão, os tênis desconjuntados, jornais velhos e até um prato com migalhas, antes de adormecer também. Jura que teve um começo feliz.

No final daquele dia funesto, sozinha no apartamento vazio, Fátima lhe pergunta ao telefone. Mas vocês não usavam, tipo, camisinha? Algumas vezes sim, pensa Heloísa. Outras não.

Dona Inez diz que o leite dela deve ser fraco. Heloísa fala a Matias, assim que ela sai do quarto, que não quer mais aquela megera na casa deles. Matias fica parado, olhando com ódio para a parede.

O choro do bebê ocupa todos os poros de Heloísa. Ela mal pode tomar banho. Quando abre os olhos, entre um leve suspiro e outro, sente-se agrilhoada a uma realidade da qual não poderá nunca mais fugir.

(…) algumas meninas conversam, todas elas com vestidos curtos estampados, cabelos alisados e compridos, com luzes. Pernas torneadas que Heloísa nunca vai ter, muito magras, cinturas finas, esperem só se tornarem mães para ver.

Cláudio Mário ajeita os cabelos a uma certa distância e não sorri. Heloísa sabe que ele odeia ser tocado, não é de hoje, mas nunca viu um serviço tão completo.