Elena Ferrante

Elena Ferrante. 1) A amiga genial, 331 páginas. 2) História do novo sobrenome, 470 páginas. 3) História de quem foge e de quem fica, 416 páginas. 4) História da menina perdida, 480 páginas. Tradução: Maurício Santana Dias.

Deixei para falar de Elena Ferrante quando terminasse de ler a tetralogia napolitana. Muito já se escreveu sobre esses livros de Ferrante, vou ser breve, então. Leia logo, vale a pena. O leitor não consegue parar de ler depois que começa. No quarto volume, a própria Ferrante define o que faz com que seus livros sejam tão deliciosos: ela tem o prazer de narrar. Nada de subterfúgios, técnicas pós-modernas, malabarismos. Ferrante conta uma bela história do começo ao fim, de forma direta e apaixonante. A história da amizade e de certo ódio mútuo entre duas amigas, da infância até a velhice. É uma história de fôlego, observe a quantidade de páginas total e por volume. De todo modo, penso que no quarto volume a autora acelera a história. Mesmo assim, excelente leitura, muitos momentos de prazer literário que Ferrante nos oferece. Leia, leia, é muito bom.

Anúncios

A confraria do medo, Rex Stout, 1935

A confraria do medo, Rex Stout, 1935, 368 páginas, Companhia das Letras.

É uma boa história de detetives mas não faz o gênero de leitura que aprecio. Gosto de livros que tragam a história e mais além, uma discussão mais profunda aqui e ali, uma sugestão de cultura mais elevada aqui e ali. Neste livro de Stout encontra-se apenas uma história bem escrita e divertida e só. Stout criou um detetive, Nero Wolfe, gordo, sedentário, amante da cerveja, criador de orquídeas, cheio de horários e rituais. Wolfe resolve seus casos quase sem sair de casa, enviando para tudo o seu pau mandado Archie Goldwin, que é quem narra a história. O olhar de Archie é divertido, sarcástico, irritadiço. Para quem quer apenas isso, uma história de detetives, vale a pena. Para mim, deixa a desejar. Por fim,, de cara dava para saber quem não era o assassino visto que o assassino nunca é o principal suspeito. Não gostei.

Franco e Lenu

No livro História da menina perdida, de Elena Ferrante, Lenu encontra o seguinte bilhete na porta de Franco: “Lena, não deixe as meninas entrarem”. Lenu entra e verifica que Franco se matou. Esse bilhete que busca, de certa forma, diminuir o impacto da cena de suicídio parece ser comum entre os suicidas. Em Recife, da mesma forma e há muitos anos, um político local bastante conhecido deixou um bilhete na porta do apartamento, dizia para a faxineira não se assustar com o que presenciaria ao entrar. A moça deve ter se assustado ainda assim. O político havia se suicidado com um tiro. Por outro lado, o proprietário de uma pequena construtora, o qual eu conhecia de longe, suicidou-se com um tiro no quarto do casal, não havia bilhetes e ninguém em casa, a esposa encontrou o corpo mais tarde. Sempre há alguma sujeira nesse tipo de suicídio. O político, disseram na época, colocou toalhas por baixo da cabeça para absorção do sangue, suicidou-se deitado na cama. Deixou preparado também o terno com o qual seria enterrado. O engenheiro, até onde sei, não foi tão cuidadoso.

No episódio do livro, Ferrante descreveu a cena vista por Lenu da seguinte forma: “Havia sangue no travesseiro e no lençol, uma grande mancha escura que se alongava até os pés. A morte é tão repulsiva. Aqui digo apenas que, quando vi sem vida aquele corpo que eu conhecera na intimidade, que tinha sido feliz e ativo, que tinha lido tantos livros e se expusera a tantas experiências, senti simultaneamente repulsa e piedade. Franco havia sido uma matéria viva entranhada de cultura política, de propósitos generosos e esperanças, de boas maneiras. Agora oferecia um horrível espetáculo de si. Desembaraçou-se de um modo tão feroz da memória, da linguagem, da capacidade de atribuir sentidos, que me pareceu evidente o ódio por si mesmo, pela própria epiderme, pelos cheiros, pelos pensamentos e palavras, pela feia dobra do mundo que o havia envolvido.”

Literariamente, observa-se que Ferrante não especifica o modo como Franco se matou. Se matou e pronto. Havia sangue e pronto. Fica por conta do leitor completar a morte de Franco. Gostei assim, é mais sucinto, menos técnico.

História da sua vida e outros contos, Ted Chiang, 2002

shopping

História da sua vida e outros contos, Ted Chiang, 2002, 368 páginas, tradução: Edmundo Barreiros.

Não gostei dos contos, esperava mais, foi decepcionante, visto que muitos elogiam o autor. O conto “A torre da Babilônia” soa como uma história de Borges sem a qualidade dele, não gostei, conta de uma torre que sobe e passa da lua e do sol e bate em um céu de granito. O conto “Entenda”: não gostei, lembra aquele filme Lucy, trata de um humano que expande as potencialidades de seu cérebro. “Divisão por zero”: não goste, fala de uma matemática que se decepciona com a inconsistência daquela ciência. “História da sua vida”: gostei da parte de tentar entender uma linguagem alienígena, não gostei das partes que tratam de conhecer o futuro, soam bobinhas.  “Setenta e duas letras”: longo, fraco, absurdo, uma história sobre dar vida a autômatos a partir de um nome específico. “A evolução da ciência humana”: curto, fraco, mostra como a ciência humana fica paralisada após as máquinas começarem a fazer ciência por conta própria. “O inferno é a ausência de Deus”: não gostei, é interessante a parte que mostra a aparição de anjos causando acidentes, mortes, tragédias, mas é bobinha a parte do cara que quer ir para o paraíso para ficar com a esposa que morreu. “Gostando do que se vê: um documentário”: é legal a ideia de se produzir artificialmente no cérebro uma caliagnosia, a incapacidade de distinguir a beleza, mas o conto é chatinho.