Yukio Mishima, O marinheiro que perdeu as graças do mar, 1963

“Pouco depois de ter feito essa descoberta, Noboru começou a espionar a mãe, à noite, principalmente quando ela ralhava ou implicava com ele. No momento em que a porta era fechada, ele retirava silenciosamente a gaveta da cômoda e punha-se a observar, com um espanto nunca diminuído, os preparativos dela para dormir. Nas noites em que a mãe era boazinha, ele nunca a espionava.

Descobriu que ela tinha o hábito, embora as noites ainda não fossem excessivamente quentes, de sentar-se completamente nua, durante alguns minutos, antes de deitar-se. Ele passava maus momentos quando ela se dirigia ao espelho da parede, pois ficava em um canto do quarto que não conseguia ver. 

A mãe tinha apenas trinta e três anos, e seu corpo esbelto, bem modelado graças à prática semanal do tênis, era belo. Em geral, ela se deitava logo depois de colocar um pouco de água de colônia, mas por vezes ficava algum tempo sentada à penteadeira, olhando no espelho o seu perfil, durante minutos até, os olhos vazios, como se desgastados pela febre, os dedos perfumados colocados entre as coxas. Nessas noites, julgando que o vermelho das unhas dela era sangue, Noboru tremia.

Nunca havia observado o corpo de uma mulher assim tão de perto. (…)”

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Gueixa

Leonardo queria muito conhecer o Japão. Foi para lá a trabalho, somente Tokyo e Kyoto. Ele gostava dessa aliteração entre as duas capitais do Japão. Contudo, não foi o Japão que ele queria, ele queria o Japão de Kawabata, de Oe, de Mishima. Mal viu o Japão, somente edifícios infinitamente. Era impossível, é evidente, encontrar algo Kawabata em poucos dias de trabalho, mesmo assim contratou uma gueixa. Foi quase horrível. Ela veio a maquiagem forte pesada uma máscara, o vermelho da boca delineado. Não se podia beijar nem roçar o rosto dela. Ela tirou a roupa mas não tirou a maquiagem, parecia uma boneca nua. Ela tirou a roupa e dobrou-a e colocou-a cuidadosamente em uma cadeira. O corpo era branco e carnudo, os peitos eram medianos, a aréola era plana mas o mamilo era pontudo. Embaixo, uma moita, ele detestava pelos. Não viu nada do Japão.

Tardezinha

Todos os dias, deitava na rede da varanda, de tardezinha, e lia. Lia e lia e às vezes um cochilo e tornava a ler. Escurecia lentamente e por volta das cinco e meia, seis da tarde, começavam as buzinas, o estresse daqueles que morriam enlatados em seus veículos. Ele adorava as buzinas por causa do contraste com a quietude e silêncio da varanda e da leitura. Um dia, que era um dia como qualquer outro, quando começava a escurecer, levantou da rede, foi até a varanda do quarto de casal e fez o que desde sempre planejara fazer.

Nas ruas

Rapaz, menina, passava na frente do consultório de um oftalmologista meu conhecido, havia umas pessoas na porta, e ouvi duas frases esparsas, soltas assim ditas sem conexão uma com a outra, não conversavam entre si os dizedores das palavras. A moça disse: tive que vir aqui hoje, passei o dia ontem com uma dor na vista. O homem disse: achei foi engraçado, o médico tirou a carne do olho dele todinha.

Livro de necrológios

Leo disse: “Rapaz, menina, pensei em escrever um livro – estou cheio de ideias de livros que nunca começam, ou que comecei e nunca acabei, uma bosta – um livro de necrológios. Necrológio: “elogio, oral ou escrito e publicado em periódico, a respeito de alguém falecido”, diz o Houaiss. Todavia, escrever necrológios para meus amigos vivos. É uma pena que o morto não possa ler aquilo que se escreveu sobre ele, uma injustiça. Em vida, o futuro morto deveria ter a possibilidade de ler o que os amigos escreveriam quando ele morresse. Eu escolheria uma ou duas das principais lembranças que tenho do amigo não-morto e faria esse livro de necrológios de vivos. Vivológio não existe. Comecei a fazer a lista mental dos amigos para os quais eu necrologizaria, S., F., Á., minha mãe, meu irmão, você.”

Epifania

“Ontem, depois de passear de bicicleta, estava em um bar de calçada, almoçava com E. e degustava uma Stella, quando assisti involuntariamente a uma epifania. Antes da manifestação, eu discorria sobre a seleção das dez melhores cervejas do tipo pilsen, aquelas clarinhas, criada (chutada) pelo jornal espanhol El Mundo e observava que tivera a sorte de experimentar três entre as dez: a belga Stella Artois, a italiana Nastro Azzurro e a tcheca Pilsner Urquell, esta amaríssima. Vale a pena recordar que as cervejas claras foram inventadas justamente na Tchéquia – novo nome da República Tcheca – e mais exatamente ainda na cidade tcheca de Plzen. Acerca da epifania, propriamente dita, caberia aqui discorrer um tico sobre as palavras terminadas em -fania, todas elas curiosíssimas. -Fania significa aparição, daí temos teofania, hierofania, angelofania, e a aqui citada epifania. Epifania tem diversos significados e eu a utilizo aqui como “apreensão intuitiva da realidade por meio de algo geralmente simples e inesperado” e “manifestação ou percepção da natureza ou do significado essencial de algo”. Vamos ao fato, à epifania em si.

Havia um rapaz que não conhecia, sabia dele pelo Instagram, sabia que que andava de bicicleta pela cidade do Recife. Navegando nos desvãos do Instagram, uma bicicleta levou a outra e passei a acompanhar as fotografias de Nairo Quintana, boas fotografias ele fazia. Vi que ele possui uma ou duas bicicletas simples e magrinhas, do tipo das antigas Caloi 10, parece que vai para todo canto com elas, tem um gato preto que só bebe água na torneira da pia, vi que vez em quando ele faz um desenho, e pouco mais. Boas fotos ele faz, por algumas das fotos eu achava que sabia o prédio em que ele morava. Estava esquecido disso. Foi quando, naquele domingo na calçada do bar, a aparição veio pela rua pedalando sua bicicleta preta magrinha, veio reto, fez uma curva suave e entrou no prédio que era o prédio que eu achava que ele morava. Essa foi a minha singela epifania: alguém que só existia na tela pequena do telefone, de fato nem existia, não era real, materializou-se em gente na minha frente. Ele existe, a bicicleta existe, ele anda nas ruas e mora no prédio pouco distante do meu. Nem deu tempo de gritar: ei Nairo, você existe.”

 

O país das neves, Yasunari Kawabata, 1935

O país das neves, Yasunari Kawabata, 1935, 160 páginas, tradução de Neide Hissae Nagae.

Rapaz, li um livrinho bem esquisito. Um livro curto, uma história estranha. Talvez, a estranheza toda vem da distância cultural, e temporal, entre nós e o Japão de mil novecentos e trinta e poucos. O livro é como se fosse as fotografias de um episódio na vida de um homem comum. Não haveria um suficiente antes tampouco um bastante depois. A história é assim, Shimamura, um homem de Tóquio, casado e com filhos, costuma tirar períodos de férias, sozinho, em uma pequena cidade nas montanhas, ele gosta de caminhar e de ficar na vilazinha. A região dispõe de inúmeras pousadas. Na vila, Shimamura encontra-se repetidas vezes com uma gueixa, a favorita dele. A nossa cultura não entende bem, penso, o papel da gueixa. Em geral, ela é uma mulher que foi educada para divertir e entreter os homens, ela aprende a tocar, cantar e dançar, vestir-se, maquiar-se com uma maquiagem pesadíssima, quase uma máscara. Os favores sexuais poderiam ou não estar incluídos na atividade da gueixa. Então, Shimamura encontra-se sempre com Komako, uma gueixa do interior, uma mulher que parece, na linguagem de hoje, bipolar: em um momento, está alegre e excitada, em outro, profundamente triste. De Shimamura, saberemos muito pouco. De Komako, um pouquinho mais, pelo que ela conta a Shimamura. De todo modo, há sempre uma tristeza imensa na fala de Komako pois nota-se que ela se apegou ao homem e sabe que é um relacionamento sem futuro. Da mesma forma, a história parece não ter princípio nem fim, é um episódio que uniu duas pessoas sem a esperança, e sem o propósito, de ficarem juntas ou de construir um relacionamento mais profundo. Além dessa tristeza da desesperança, há aquele típico comportamento japonês, que a gente não entende bem, de que qualquer coisinha pode envergonhar ou ofender. É um livro muito intrigante que vale a pena ler.