O país das neves, Yasunari Kawabata, 1935

O país das neves, Yasunari Kawabata, 1935, 160 páginas, tradução de Neide Hissae Nagae.

Rapaz, li um livrinho bem esquisito. Um livro curto, uma história estranha. Talvez, a estranheza toda vem da distância cultural, e temporal, entre nós e o Japão de mil novecentos e trinta e poucos. O livro é como se fosse as fotografias de um episódio na vida de um homem comum. Não haveria um suficiente antes tampouco um bastante depois. A história é assim, Shimamura, um homem de Tóquio, casado e com filhos, costuma tirar períodos de férias, sozinho, em uma pequena cidade nas montanhas, ele gosta de caminhar e de ficar na vilazinha. A região dispõe de inúmeras pousadas. Na vila, Shimamura encontra-se repetidas vezes com uma gueixa, a favorita dele. A nossa cultura não entende bem, penso, o papel da gueixa. Em geral, ela é uma mulher que foi educada para divertir e entreter os homens, ela aprende a tocar, cantar e dançar, vestir-se, maquiar-se com uma maquiagem pesadíssima, quase uma máscara. Os favores sexuais poderiam ou não estar incluídos na atividade da gueixa. Então, Shimamura encontra-se sempre com Komako, uma gueixa do interior, uma mulher que parece, na linguagem de hoje, bipolar: em um momento, está alegre e excitada, em outro, profundamente triste. De Shimamura, saberemos muito pouco. De Komako, um pouquinho mais, pelo que ela conta a Shimamura. De todo modo, há sempre uma tristeza imensa na fala de Komako pois nota-se que ela se apegou ao homem e sabe que é um relacionamento sem futuro. Da mesma forma, a história parece não ter princípio nem fim, é um episódio que uniu duas pessoas sem a esperança, e sem o propósito, de ficarem juntas ou de construir um relacionamento mais profundo. Além dessa tristeza da desesperança, há aquele típico comportamento japonês, que a gente não entende bem, de que qualquer coisinha pode envergonhar ou ofender. É um livro muito intrigante que vale a pena ler.

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Entrevisto

Entrevisto

Quando se deu conta?
Quais são suas?
Que leitura é?
Se pudesse, qual seria?
Quais são as circunstâncias?
Quais são as circunstâncias ideais?
O que considera?
O que lhe dá?
Qual o maior?
O que mais lhe?
Um autor?
Um livro impres?
Que defeito é capaz?
Que assunto nunca?
Qual foi o canto mais?
Quando a inspiração?
Qual escritor?
O que é um bom?
O que te dá?
O que te faz?
Qual dúvida ou certeza?
Qual sua maior?
A literatura tem?
Qual o limite?
O que você espera da?

Klink

331.

Na livraria de livros usados não encontrou o livro indicado por Amyr Klink. Encontrou e comprou dois livros, Linhad’água, do próprio Klink, e A última viagem do Lusitania, Erik Larson. O livro de Klink pega o leitor desde o início e Leo leu uns quatro capítulos seguidos antes de dormir.

De forma prosaica

330.

Em janeiro de 1997, Tony Bullimore capotou com seu veleiro em águas geladas da latitude 52º Sul. Passou quatro dias dentro do barco capotado, no escuro e no frio, com uma barra de chocolate. Um navio da Marinha Australiana o localizou, um bote foi até o barco virado, bateram no casco, Tony respondeu e foi resgatado. Tony Bullimore morreu de forma prosaica, câncer no estômago, aos 79 anos, em 31 de julho de 2018.

Fiz meu próprio caderno de rabiscos

Ontem, desencavei um monte de cadernos de rabiscos. A palavra mais usada para definir esse tipo de caderno é chic pois em inglês: sketchbook. Literalmente, livro de esboços. De fato, um caderno de páginas em branco para registrar desenhos e anotações. Muito usado em viagens, mas principalmente no cotidiano daqueles que gostam de desenhar. Rabiscar, no meu caso. Tive cadernos de rabiscos de vários tamanhos e várias qualidades de papel, até Moleskine, que é uma marca famosa. Não gostei dos Moleskines, apesar da fama. Também não gostei dos mais caros porque o caderno mais caro me inibe, fico com medo de errar. E o objetivo de um caderno de “esboços” é exatamente errar, experimentar. Gostava dos mais baratos, dos cadernos qualquer-um que encontrava em papelarias. Ganhei alguns também, alguns usei, outros estão em branco.

Queria fazer meu próprio caderno. Uma tentativa houve, peguei folhas de papel reciclável tamanho A4, dobrava e separava ao meio, gostava do irregular no lado da separação, e usava essas folhas, então A5, para os rabiscos diários de sempre. Fiz umas noventa e tantas páginas. Mas queria encadernar e não tive coragem, e não fiz, ficaram folhas soltas com uma capa plástica, presas por presilhas metálicas. Ainda quero encadernar, mas é que esse povo de gráficas e copiadoras é extremamente desatento, podem fazer merda, fazem merda.

Estava quase chegando às folhas finais de mais um caderno industrial quando decidi fazer um, novamente. Ia usar papel canson, mas mudei de ideia porque estava desenhando com um tipo de caneta que não gosta de papel com textura. Eu gostava das canetas e elas gostavam de papel suave e gostavam mesmo mesmo era de papel couché. Comprei vinte folhas de couché A4, separei ao meio, portanto quarenta folhas de couché A5. O lado serrilhado pela separação ficou na margem interna e mandei encadernar com espiral. Sim, a espiral tão baratinha e pouco valorizada. Era a encadernação que eu queria para poder abrir o caderno em cento e oitenta ou trezentos e sessenta graus. Fiz o meu próprio caderno para rabiscar do jeito que eu queria. Estou rabiscando nele.

No ano que vem, que será um ano de introspecção e recuperação, gostaria de comprar uma perfuradora para que o processo de fazer meus cadernos fique inteiramente em minhas mãos.