A nona vida de Louis Drax. Liz Jensen.

Depois do almoço, passei na loja de livros usados, passava a vista nas prateleiras e nos livros por vezes jogados. Achei o título curioso, a nona vida…, o que seria essa nona vida? Não li orelhas nem comentários das capas, peguei. É realmente intrigante o início do livro e a autora escreve direitinho. Mas bastaram poucas páginas, ou capítulos, para que o livro se tornasse imensamente irritante para mim. Uma criança tem propensão a sofrer acidentes e doenças graves. A mãe é frágil e sofrida. Apenas este mote, esta situação, leva diretamente qualquer profissional da área médica, e mesmo um leigo bem informado, a pensar na Síndrome de Münchausen na mãe. Pois a autora tece toda a trama como se ninguém soubesse da existência da síndrome. Dois neurologistas renomados e um psicólogo brilhante não identificam, nem sequer suspeitam da síndrome na mãe. É demais, é totalmente absurdo. Péssimo livro, não recomendo.

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Manchester by the sea é um bom filme?

Manchester by the sea é um bom filme? Não sei. Sou influenciado pela opinião de pessoas que considero mais capazes do que eu? Não sei. Mas gostaria de ler a opinião de outros mais capazes. Nunca li nada sobre este filme. Ouvi o nome do filme vagamente na época do Oscar. Assisti ontem, passou na HBO. É um filme cheio de chavões do cinema. O tio que é obrigado a assumir a guarda do sobrinho após a morte repentina do irmão. Isso já passou demais, há vários filmes assim. O personagem que é obrigado a voltar para a cidade de origem da qual se afastou após acontecimentos traumáticos. Já tem filme demais sobre isso também. Casey Affleck, não sei se trabalha bem. O ator não demonstrar emoção é difícil? Esse papel não é semelhante àquele em que ele mata Jesse James? Acho que não é um bom filme. Mas tem algumas qualidades. É um filme lento. Dá tempo de aproveitar as cenas, de tentar entender o que se passa. É um filme sobre a culpa. O personagem diz que não consegue superar. Culpa não se supera, penso, apenas a gente segue em frente, e ele não consegue seguir em frente. A ex-mulher dele conseguiu. É um filme de nuances. Nem bom nem ruim, talvez.

Manchester by the sea. Diretor: Kenneth Lonergan. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges, Kyle Chandler.

No restaurante

É curioso como tem gente esquisita naquele lugar onde almoço e naquele horário, cedo, pouco depois das onze. Deve ser o horário das gentes esquisitas. Um velho magro que se senta sempre no mesmo lugar, junto às janelas, no final do salão, de costas para o salão. O prato é mediano, não come excessivamente, entretanto bebe refrigerante. Uma, não diria velha, mas uma senhora, mais de cinquenta anos, macérrima, um pouco encurvada, não olha para as pessoas, não olha para a frente, olha para baixo. Óculos, cabelos pretos lisos cortados como playmobil. Não come no restaurante. Tem seu próprio recipiente e leva o almoço. E o mais irritante, um velho mais encorpado que o outro, e mais alto, que analisa detidamente cada uma das comidas colocadas na pista, com as mãos nos bolsos, atrapalhando quem quer que esteja se servindo. Depois da demorada análise, coloca um mínimo de comida, come, paga e sai. O tempo que demora na análise é o mesmo que gasta em comer. O velho encorpado e o velho magro possuem o mesmo hábito: na entrada do restaurante, a moça entrega um papel para a anotação dos pedidos. Esse papel sai de um bloco e tem uma faixa estreita separada por um serrilhado. Os dois velhos retiram cuidadosamente essa faixa e a devolvem para a moça. Não fui eu que observei essa faceta, foi a própria moça que, ao receber um dia a faixinha de papel de um dos velhos, disse: “eita, ele faz igualzinho ao outro, me devolve o papelzinho!”. E, obviamente, temos a mim no mesmo horário dos esquisitos.

Conversa com Augusto

Augusto é o proprietário da loja de livros usados, ou sebo, essa palavra um brasileirismo. A loja de Augusto é grande, comprida, entupida de livros.

– Augusto, você ja pensou em abrir um café aqui em uma parte da loja? Onde tem livros, tem café.

– Não dá certo, não, só dá problema. Onde fizeram, fechou.

– Mas Augusto, a Livraria Cultura, por exemplo…

– Você já foi no café de lá ultimamente? Está às moscas.

– Augusto, não fui recentemente, mas é muito movimentado.

– Nada. E as pessoas querem é um lugar para sentar, ficam lendo um livro horas, diz que esqueceu o dinheiro, o cartão, que vai voltar, e nada.

– Mas Augusto, você tem que pensar no lucro do café… Uma xicrinha de café expresso é caríssima.

– Não, dá lucro não. É melhor vender livro que café.

Anti-herói de Svevo faz refletir sobre literatura

LAURA ERBER

ESPECIAL PARA A FOLHA de São Paulo

04/08/2017 02h01

UMA GOZAÇÃO BEM-SUCEDIDA (ótimo) 
AUTOR Italo Svevo
TRADUÇÃO Davi Pessoa
EDITORA Carambaia
QUANTO R$ 49,90 (224 págs.)

Na sequência do rebaixamento do herói e da literatura como estoque de modelos de conduta, nossa modernidade viu surgir uma família de antiprotagonistas, figuras do insucesso, da improdutividade e do apagamento de si.

Todos eles arrastam ainda a sombra de algo que havia emergido no jovem Werther e na sensibilidade romântica que enfatizou o escritor que não escrevia, o músico que não compunha. São parte do culto da atitude e do espírito artísticos, afirmando a importância da sensibilidade criativa sobre a obra produzida.

Nesse rol se inscreve Mario Samigli, o escritor-funcionário, anônimo e ambicioso, ingênuo e lúcido, frustrado e realizado na sua insignificância, protagonista de “Uma Gozação Bem-Sucedida”. O conto é de 1926 e se desenvolve em torno de um homem comum e sua talvez pueril, mas tenaz, fantasia de escritor.

Sua ambição e sua perseverança literária tornam-se motivo de gozação por parte de um caixeiro-viajante conhecido pelo talento para pregar peças. Esse inimigo, Gaia, convence Mario a vender um manuscrito há décadas encalhado a um editor.

O choque entre a malandragem do gozador e a aparente ingenuidade de Mario permitem a Svevo desenvolver uma série de considerações sobre talento, reconhecimento, engano e orgulho.

Maliciosamente, Svevo nunca chega a desfazer a ambiguidade da figura de Mario, e ficamos sem saber se este, caso existisse, teria sido um tesouro escondido da literatura moderna ou apenas um medíocre funcionário a dramatizar suas aspirações estéticas.

As críticas do narrador ao que seria considerado um literato e um escritor de sucesso expressam bem o conflito de Svevo –que passou mais de 20 anos sem escrever– em relação à crítica e ao sistema literário italiano da época.

Uma definição de fama literária dada no livro deixa clara a visão pouco condescendente do autor sobre o assunto: “Para que a fama chegue, de fato, não basta que o escritor a mereça. É necessária a confluência de um ou tantos outros quereres que possam influir sobre os inertes, aqueles que depois leem o que os primeiros escolheram”.

A intimidade de Svevo com os problemas do protagonista lhe permitem elaborar um tom narrativo elástico, indo do gracioso ao autoirônico deste ao soturno, transitando com aparente despretensão pelos temas abordados.

Mais de uma vez a crítica acusou Svevo de ser um “mau escritor”, flagrado em barbáries estilísticas e “descarrilamento gramatical”. O uso um pouco deslocado do italiano foi utilizado de forma negativa pela crítica de gosto ainda influenciado pela noção clássica de literariedade.

Svevo não tinha efetivamente intimidade com o italiano, tendo por idiomas o alemão e o dialeto triestino. Por isso, sua relação com a língua reflete-se em desafios para a tradução.

O conto é uma ótima oportunidade para ampliar o espectro de compreensão do autor triestino, que, além de ter explorado pioneiramente a relação entre psicanálise e literatura, desenvolveu uma relação tensa e desestabilizadora com o idioma italiano.

O leitor aqui terá a chance de percorrer essa narrativa por uma tradução muito sensível que nos restitui a sensação de estranho-familiar em que Svevo converteu a língua.

Italo Svevo, Una burla riuscita, 1926, primeiro parágrafo

Italo Svevo, Una burla riuscita, 1926, primeiro parágrafo.

“Mario Samigli era un letterato quasi sessantenne. Un romanzo ch’egli aveva pubblicato quarant’anni prima, si sarebbe potuto considerare morto se a questo mondo sapessero morire anche le cose che non furono mai vive. Scolorito e un po’ indebolito, Mario, invece, continuò a vivere per tanti anni di certa vita lemme lemme com’era consentita da un impieguccio che gli dava non molti fastidi e un piccolissimo reddito. Una tale vita è igienica e si fa ancora più sana se, come avveniva da Mario, è condita da qualche bel sogno. Alla sua età egli continuava a considerarsi destinato alla gloria, non per quello che aveva fatto né per quello che sperava di poter fare, ma così, perché un’inerzia grande, quella stessa che gl’impediva ogni ribellione alla sua sorte, lo tratteneva dal faticoso lavoro di distruggere la convinzione che s’era formata nell’animo suo tanti anni prima. Ma così finiva coll’essere dimostrato che anche la potenza del destino ha un limite. La vita aveva rotto a Mario qualche osso, ma gli aveva lasciati intatti gli organi più importanti, la stima di se stesso, e anche un po’ quella degli altri, dai quali certo la gloria dipende. Egli attraversava la sua triste vita accompagnato sempre da un sentimento di soddisfazione.”

Sei personaggi in cerca d’autore. Luigi Pirandello, 1921

Sei personaggi in cerca d’autore. Luigi Pirandello, 1921.

Li a peça de Pirandello em italiano para melhorar a minha compreensão da língua. O título da peça já me fazia esperar o que viria, personagens, em um teatro, em busca de um autor que lhes desse sentido. O diretor e um grupo de atores estão ensaiando uma peça quando seis personagens invadem o teatro e o palco exigindo mostrar sua história. De início, não gostei de como a peça se desenvolve. Muita discussão e muita interrupção de parte a parte. Não conseguia acompanhar a história que os personagens contavam, pois eram continuamente interrompidos por diretor e atores. Minha impressão, mesmo ao final da peça, é que a história se desenvolveu aos tropeções. Enfim, temos seis personagens que foram abandonados por um autor, que não julgou interessante continuar a elaborá-los. Discute-se, então, a função dos personagens, do autor, dos atores, do próprio teatro. Quando terminei de ler, percebi que a peça era melhor do que eu pensara, inicialmente. Entretanto, a mim me parece que falta mais trabalho do autor, mais definição, mais elaboração. Quando terminei de ler, me deu vontade de reler para entender melhor. É necessária uma segunda leitura, sim.