Conversa com Augusto

Augusto é o proprietário da loja de livros usados, ou sebo, essa palavra um brasileirismo. A loja de Augusto é grande, comprida, entupida de livros.

– Augusto, você ja pensou em abrir um café aqui em uma parte da loja? Onde tem livros, tem café.

– Não dá certo, não, só dá problema. Onde fizeram, fechou.

– Mas Augusto, a Livraria Cultura, por exemplo…

– Você já foi no café de lá ultimamente? Está às moscas.

– Augusto, não fui recentemente, mas é muito movimentado.

– Nada. E as pessoas querem é um lugar para sentar, ficam lendo um livro horas, diz que esqueceu o dinheiro, o cartão, que vai voltar, e nada.

– Mas Augusto, você tem que pensar no lucro do café… Uma xicrinha de café expresso é caríssima.

– Não, dá lucro não. É melhor vender livro que café.

Anti-herói de Svevo faz refletir sobre literatura

LAURA ERBER

ESPECIAL PARA A FOLHA de São Paulo

04/08/2017 02h01

UMA GOZAÇÃO BEM-SUCEDIDA (ótimo) 
AUTOR Italo Svevo
TRADUÇÃO Davi Pessoa
EDITORA Carambaia
QUANTO R$ 49,90 (224 págs.)

Na sequência do rebaixamento do herói e da literatura como estoque de modelos de conduta, nossa modernidade viu surgir uma família de antiprotagonistas, figuras do insucesso, da improdutividade e do apagamento de si.

Todos eles arrastam ainda a sombra de algo que havia emergido no jovem Werther e na sensibilidade romântica que enfatizou o escritor que não escrevia, o músico que não compunha. São parte do culto da atitude e do espírito artísticos, afirmando a importância da sensibilidade criativa sobre a obra produzida.

Nesse rol se inscreve Mario Samigli, o escritor-funcionário, anônimo e ambicioso, ingênuo e lúcido, frustrado e realizado na sua insignificância, protagonista de “Uma Gozação Bem-Sucedida”. O conto é de 1926 e se desenvolve em torno de um homem comum e sua talvez pueril, mas tenaz, fantasia de escritor.

Sua ambição e sua perseverança literária tornam-se motivo de gozação por parte de um caixeiro-viajante conhecido pelo talento para pregar peças. Esse inimigo, Gaia, convence Mario a vender um manuscrito há décadas encalhado a um editor.

O choque entre a malandragem do gozador e a aparente ingenuidade de Mario permitem a Svevo desenvolver uma série de considerações sobre talento, reconhecimento, engano e orgulho.

Maliciosamente, Svevo nunca chega a desfazer a ambiguidade da figura de Mario, e ficamos sem saber se este, caso existisse, teria sido um tesouro escondido da literatura moderna ou apenas um medíocre funcionário a dramatizar suas aspirações estéticas.

As críticas do narrador ao que seria considerado um literato e um escritor de sucesso expressam bem o conflito de Svevo –que passou mais de 20 anos sem escrever– em relação à crítica e ao sistema literário italiano da época.

Uma definição de fama literária dada no livro deixa clara a visão pouco condescendente do autor sobre o assunto: “Para que a fama chegue, de fato, não basta que o escritor a mereça. É necessária a confluência de um ou tantos outros quereres que possam influir sobre os inertes, aqueles que depois leem o que os primeiros escolheram”.

A intimidade de Svevo com os problemas do protagonista lhe permitem elaborar um tom narrativo elástico, indo do gracioso ao autoirônico deste ao soturno, transitando com aparente despretensão pelos temas abordados.

Mais de uma vez a crítica acusou Svevo de ser um “mau escritor”, flagrado em barbáries estilísticas e “descarrilamento gramatical”. O uso um pouco deslocado do italiano foi utilizado de forma negativa pela crítica de gosto ainda influenciado pela noção clássica de literariedade.

Svevo não tinha efetivamente intimidade com o italiano, tendo por idiomas o alemão e o dialeto triestino. Por isso, sua relação com a língua reflete-se em desafios para a tradução.

O conto é uma ótima oportunidade para ampliar o espectro de compreensão do autor triestino, que, além de ter explorado pioneiramente a relação entre psicanálise e literatura, desenvolveu uma relação tensa e desestabilizadora com o idioma italiano.

O leitor aqui terá a chance de percorrer essa narrativa por uma tradução muito sensível que nos restitui a sensação de estranho-familiar em que Svevo converteu a língua.

Italo Svevo, Una burla riuscita, 1926, primeiro parágrafo

Italo Svevo, Una burla riuscita, 1926, primeiro parágrafo.

“Mario Samigli era un letterato quasi sessantenne. Un romanzo ch’egli aveva pubblicato quarant’anni prima, si sarebbe potuto considerare morto se a questo mondo sapessero morire anche le cose che non furono mai vive. Scolorito e un po’ indebolito, Mario, invece, continuò a vivere per tanti anni di certa vita lemme lemme com’era consentita da un impieguccio che gli dava non molti fastidi e un piccolissimo reddito. Una tale vita è igienica e si fa ancora più sana se, come avveniva da Mario, è condita da qualche bel sogno. Alla sua età egli continuava a considerarsi destinato alla gloria, non per quello che aveva fatto né per quello che sperava di poter fare, ma così, perché un’inerzia grande, quella stessa che gl’impediva ogni ribellione alla sua sorte, lo tratteneva dal faticoso lavoro di distruggere la convinzione che s’era formata nell’animo suo tanti anni prima. Ma così finiva coll’essere dimostrato che anche la potenza del destino ha un limite. La vita aveva rotto a Mario qualche osso, ma gli aveva lasciati intatti gli organi più importanti, la stima di se stesso, e anche un po’ quella degli altri, dai quali certo la gloria dipende. Egli attraversava la sua triste vita accompagnato sempre da un sentimento di soddisfazione.”

Sei personaggi in cerca d’autore. Luigi Pirandello, 1921

Sei personaggi in cerca d’autore. Luigi Pirandello, 1921.

Li a peça de Pirandello em italiano para melhorar a minha compreensão da língua. O título da peça já me fazia esperar o que viria, personagens, em um teatro, em busca de um autor que lhes desse sentido. O diretor e um grupo de atores estão ensaiando uma peça quando seis personagens invadem o teatro e o palco exigindo mostrar sua história. De início, não gostei de como a peça se desenvolve. Muita discussão e muita interrupção de parte a parte. Não conseguia acompanhar a história que os personagens contavam, pois eram continuamente interrompidos por diretor e atores. Minha impressão, mesmo ao final da peça, é que a história se desenvolveu aos tropeções. Enfim, temos seis personagens que foram abandonados por um autor, que não julgou interessante continuar a elaborá-los. Discute-se, então, a função dos personagens, do autor, dos atores, do próprio teatro. Quando terminei de ler, percebi que a peça era melhor do que eu pensara, inicialmente. Entretanto, a mim me parece que falta mais trabalho do autor, mais definição, mais elaboração. Quando terminei de ler, me deu vontade de reler para entender melhor. É necessária uma segunda leitura, sim.

Hades, Olimpo

Qual filho de deus caminhava sobre as águas?
Órion, filho de Netuno, recebeu do pai o poder de andar sobre as águas.
Quem sobreviveu ao dilúvio?
Deucalião e Pirra, escolhidos por Zeus para repovoar o mundo. Zeus estava descontente com a humanidade e provocou um dilúvio que cobriu o planeta.
Qual filho de deus subiu aos céus?
Hércules. Pouco antes de Hércules morrer, Zeus fez com que ele ascendesse ao Olimpo para que o seu corpo não sofresse a decomposição.
Que virgem teve um filho de um deus?
Várias. Dânae, virgem, foi fecundada por Zeus, este disfarçado em chuva de ouro. Europa, virgem, foi raptada por Zeus, transformado em touro, que a levou para Creta onde se consumou a relação. Antíope, virgem que Zeus fecundou disfarçado de sátiro. Todas tiveram filhos do relacionamento com o deus.
Que entidade é adorada nas encruzilhadas?
A deusa Hécate era a senhora das encruzilhadas, onde erguiam-se templos em sua homenagem e depositavam-se oferendas.
Como as almas reencarnam?
As almas dos bons habitam durante mil anos nos Campos Elísios, uma região do Hades. Depois desse tempinho, bebem a água do Rio Letes, o rio do esquecimento, apaga-se a memória de suas vidas passadas e voltam a uma vida terrena.

Il piccolo principe. Antoine de Saint-Exupèry. 1943.

60. Il piccolo principe. Antoine de Saint-Exupèry. 1943. Tradução para o italiano de Wirton Arvel. Edição bilíngue. Não tenho certeza, mas acredito que, em tempos remotos, eu já houvesse lido este livro. Não gostei e não gosto. Li agora apenas para poder praticar e aprender a língua italiana. Não gosto de livros fantasiosos e de livros que procuram dar lições-zinhas, seja com fundo moral ou sobre amor, amizade, essas pieguices. Ainda bem que o rapazinho morre no final do livro, eu não recordava isso. A história, você sabe, é sem pé nem cabeça. Um príncipe de reino nenhum parte em viagem por diversos planetas anômalos. O autor não estabelece um normativo para que as viagens aconteçam. Entretanto, para partir do planeta Terra em direção ao seu planeta de origem, o príncipe é obrigado a “morrer”, pois o corpo que usa é muito pesado para a viagem. Puf. Detestei. A edição em kindle é boa, com o texto em francês e italiano disposto em colunas paralelas.

Notas esparsas, um sonho

59. Um sonho estranho. De bicicleta, eu visitava uma fazenda, ou um engenho de cana-de-açúcar. Estava lá para orientar o proprietário sobre a compra de uma impressora de grande porte. O meu cérebro puxou este detalhe da conversa com o médico, eu falei que queria comprar uma impressora mais adequada. Conversava com o proprietário sobre impressoras, chegavam dois caras representantes da marca de impressora. Haviam trazido uma impressora para testes. Era uma impressora imensa, viera na caçamba de um caminhão, era quase do tamanho do caminhão. Eu fui ao menos duas vezes, de bicicleta, olhar a impressora mais de perto. No escritório, eu dizia aos vendedores impossível, a fazenda não precisava de uma impressora monumental como aquela. O escritório possuía enormes janelas de vidro,  via-se o céu imenso e a fazenda, falávamos da impressora, o escritório era parte de um galpão. Pelo grande vidro, vi que um avião se aproximava, já enorme no céu, a fuselagem de cor azul marinho e branca, gritei, interrompi a conversa, mandei correr, acidente, o avião vai cair aqui. É evidente que, na “vida real”, a queda de um avião é como tomar um tiro, instantâneo, medonho, à jato. O sonho se tornou em câmera lenta, ou eu é que não conseguia agir rapidamente. O sonho passou a se parecer com filme. Eu corri em direção à porta do escritório que abria para dentro do galpão, via os outros correndo em várias direções, pensava que era uma merda correr para dentro do galpão, queria ir para fora, vi a luz do dia através das grandes portas do galpão, corri em direção a elas. Ao mesmo tempo, já o avião começava a derrubar tudo, o teto, vigas de madeira começavam a cair, eu só queria fugir, não queria ficar preso debaixo de destroços, corria e não conseguia chegar ao lado de fora, mais destruição, o avião ou parte dele parecia se arrastar pelo terreno e uma onda escura de terra e destroços me cobria e tudo ficava escuro e eu acordei. Acordei com a respiração ofegante, quase sem fôlego. Isso me impressionou grandemente: como um sonho se transformava em algo físico. O sonho, que é virtual, que não existe, fazia o organismo reagir como se eu estivesse realmente correndo, fatigado, sufocado.