Contardo Calligaris, FSP

Contardo Calligaris na Folha de São Paulo: Ela se sentou e me disse: “Tive uma sessão sobre os desejos mais duvidosos que pairavam sobre meu berço; descobri que sou filha de uma farsa sinistra. Bom, saí da sessão péssima. Voltei para dizer a Lacan: com a história que lhe contei, fico com a impressão de que estou fodida”. Aqui ela me olhou um momento, sorrindo atrás da xícara de café, e concluiu me relatando a réplica de Lacan: “Mas, minha querida”, Lacan lhe disse, “não é apenas uma impressão: com a história que é a sua, você está mesmo fodida”. Rimos ao constatar que o conforto supremo é a verdade, sempre.

O imortal, conto de Machado de Assis, 1882

Não é dos melhores contos de Machado, mas tem alguma fama porque flerta com o fantástico. Um médico homeopata conta a história de seu pai, o qual teria morrido com 255 anos de idade. Observe-se que, aparentemente, Machado gostava do tema homeopatia visto que José Dias, personagem do Dom Casmurro também se dizia homeopata. Na história do conto, o homem que nasceu no ano de 1600, em Igarassu, Pernambuco, recebeu de um índio uma poção que dava a imortalidade. Ele toma a metade da poção e se torna imortal. Após muitas peripécias, viagens, amores, o homem está cansado da imortalidade, cansado de ver se repetirem os pequenos dramas humanos. Então, seguindo os princípios da homeopatia, toma a outra metade da poção e morre. As peripécias do imortal, contadas pelo filho, são alinhavadas, como se o autor não quisesse gastar muito do seu tempo elaborando a historieta. Recordei de um conto de Borges sobre os imortais que tem enredo semelhante: o personagem bebe a água de um rio que concede a imortalidade, vive, vive e farta-se de viver, bebe a água de outro rio que devolve a mortalidade e fim.

Primeiro parágrafo e trechos:

– Meu pai nasceu em 1600…
– Perdão, em 1800, naturalmente…
– Não, senhor, replicou o dr. Leão, de um modo grave e triste; foi em 1600. Estupefação dos ouvintes, que eram dous, o coronel Bertioga, e o tabelião da vila, João Linhares.

Caminhamos todos, subi ao cadafalso, não fiz discurso; inclinei o pescoço sobre o cepo, o carrasco deixou cair a arma, senti uma dor penetrante, uma angústia enorme, como que a parada súbita do coração; mas essa sensação foi tão grande como rápida;

Damião quis voltar para Olinda; meu pai disse-lhe que não, que fosse no ano seguinte. Damião ficou. Três meses depois uma paixão desordenada… Meu pai soube da aleivosia de ambos, por um comensal da casa. Quis matá-los; mas o mesmo que os denunciou avisou-os do perigo, e eles puderam evitar a morte.

Machado de Assis, o escritor que nos lê: As figuras machadianas através da crítica e das polêmicas, de Hélio De Seixas Guimarães, 2017

Machado de Assis, o escritor que nos lê: As figuras machadianas através da crítica e das polêmicas, de Hélio De Seixas Guimarães, 2017.

Este livro é uma compilação de artigos, livros e opiniões da crítica sobre a obra de Machado de Assis desde a morte dele em 1908 até a nossa época. Gostei de ler sobre a mudança de opinião sobre Machado ao longo das décadas e sobre as diversas polêmicas suscitadas. Em especial, me interessava obter mais informações sobre a repercussão do livro de Helen Caldwell sobre Dom Casmurro, no qual ela defende que a aventada traição de Capitu foi fruto da imaginação doentia e ciúme obsessivo do narrador. Esta a melhor parte do livro. Outros trechos e polêmicas foram estendidas em demasiado. Um livro informativo, útil, mas mediano.

 

Trechos:

Quando as Memórias póstumas de Brás Cubas foram publicadas, em 1881, Capistrano de Abreu publicou um artigo na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 30 de janeiro do mesmo ano, em que lançava a pergunta: “As Memórias póstumas de Brás Cubas serão um romance?”

(…) podemos ter uma ideia do desconforto e do desconcerto causados pelo romance machadiano entre os seus contemporâneos, que não encontravam ali o romance usual (…).

Em pleno ano de 1900, Artur Azevedo, em artigo sobre Dom Casmurro, diria que “romance propriamente dito quase não o há nestas páginas […] cheias de estilo, de graça, de observação e de análise”.

(…) a recepção de Brás Cubas, definido como “o livro mais esquisito de quantos se tem publicado em língua portuguesa” por Araripe, e como “bolorenta pamonha literária” por Romero, (…).

(…) o tom irreverente e a carga de negativismo que permeiam a obra machadiana, (…).

Com seu recato e contenção, Machado, segundo Araripe, fazia clamorosa exceção à regra dos brasileiros, afeitos às conversas pornográficas, “sublinhadas pelo vermelhão da lubricidade, clima, ociosidade ou educação”.

Veríssimo também foi o primeiro a chamar a atenção para a natureza pouco confiável do narrador de Dom Casmurro, ao mesmo tempo envolvido e distanciado dos fatos que narra, condição que poderia torná-lo suspeito aos olhos do leitor.

(…) a narração em Dom Casmurro se dá em vários planos, de modo que Dom Casmurro, Bento Santiago e Bentinho são e não são exatamente um mesmo personagem, (…).

“Ele não era um colorista local e pensava que, qualquer que fosse a latitude, o homem lhe pareceria sempre idêntico, tendo apenas de nacional o feitio exterior”.

Ao atentar para a leitura distorcida que o personagem-narrador, Bento Santiago, faz do destino trágico de Desdêmona, a crítica norte-americana Helen Caldwell chamou a atenção para o caráter mistificador da narrativa construída por Dom Casmurro (…).

A grande descoberta crítica de Lúcia Miguel Pereira nesse livro, no entanto, é o “ciclo da ambição”, traço comum a todas ou quase todas as heroínas dos primeiros romances de Machado de Assis, às voltas com a situação incômoda de suas origens modestas e desejosas de realizar a ascensão social (…).

Através das palavras polidas, Machado descobria o sentimento egoísta ou cínico, através do sorriso a dureza do coração. O véu da hipocrisia rasgou-se diante dele.

Essa sensação de falta de sentido da vida, misturada a um sentimento de compaixão pelos vãos esforços dos homens, fez de Machado de Assis o grande romancista e o grande humorista que se revelou no Brás Cubas.

(…) publicou o livro “Machado de Assis”, com a intenção clara de intervir e criticar a canonização de Machado, a quem ele chamou de “deus das letras nacionais”, em torno do qual se reunia uma legião de fanáticos, chamados por ele de “machadólatras”.

(…) “mas a natureza é capaz de tudo, amigo e senhor. Inventou o ciúme de Otelo e o do cavaleiro Des Grieux, podia inventar este outro de uma pessoa que não quer ceder o que não quer possuir”, Machado a respeito de Sofia, personagem de Quincas Borba.

Helen Caldwell chega a insinuar que os brasileiros não são capazes de apreciar algo de tanto valor, uma prerrogativa de “nós, do mundo anglófono”, entendidos por ela como “os únicos verdadeiramente aptos a apreciar esse grande brasileiro”.

Em relação ao mistério internacional, Wood sugere que a dificuldade talvez esteja relacionada à própria constituição dos textos, cujos sentidos tendem à indeterminação, à relativização das verdades, ao questionamento de quão livres somos quando tomamos nossas decisões – questões pouco palatáveis para o público mais amplo e árduas até mesmo para leitores mais inteligentes.

(…) a inutilidade de decidir entre culpa e inocência, uma vez que o desastre está feito (em Dom Casmurro), relembrando observação de Antonio Candido em “Esquema de Machado de Assis”: “dentro do universo machadiano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói a sua casa e a sua vida.”

Antes de dormir

Na cama, antes de dormirem, ambos liam. Isabel relia o livrinho de poesias dele. Terminou. Perguntou quando ele havia escrito as poesias. Leonardo explicou que eram de várias épocas, apenas coligidas no ano anterior, não sabia exatamente quando cada uma havia sido composta. A pergunta de Isabel podia ser capciosa, tentativa de relacionar alguma poesia com alguma situação ou pessoa. Isabel aceitou a sugestão dele, de ler um conto bacana publicado no jornal. Depois, no aparelho kindle, começou a ler um livro que ele havia indicado também. Leo suspeitava que ela ia gostar do livro e Isabel ria, vez em quando, passando os capítulos.

Vestidinho

Leonardo olhou-a e disse: “Parece uma menininha… (pausa) Mas fode como gente grande.” Ela usava uma roupinha jovial. Não, não importa a idade real dela, se jovem, adulta, madura. Além, é difícil saber a idade de uma mulher, hoje, elas parecem se manter em um limbo. Ela riu, achou engraçado. Quem a vê assim, vestida de menina, não imagina que ela fode como uma putinha e que goza forte e que não se farta facilmente.