Falsos segredos, Alice Munro, 2015

Falsos segredos, Alice Munro, 2015, 320 páginas, tradução de Celina Portocarrero.

Não gostei. Estou sem paciência para contos e gostei de verdade de apenas um dos livros de contos de Munro, o primeiro que li. Os outros achei muito fracos, no geral. Neste, os contos parecem incompletos, trechos de histórias maiores. Contos que iniciam com a história de X e terminam com a história de Y. Contos preguiçosos. Parece que a maior parte dos contos se passa em uma mesma região do Canadá, as cidades de Carstairs e Walley são sempre citadas, mas em épocas diferentes e, por vezes, o mesmo sobrenome de família aparece. Arrebatada conta a história de Louisa, uma bibliotecária da cidadezinha, e dos homens que amou. O início é mais interessante que o final por relatar um amor epistolar. Uma vida de verdade conta a história de Dorrie Beck, uma mulher fechada, do campo, que se casa com um australiano graças à insistência de uma amiga. A virgem albanesa é um conto chato, relata duas histórias e fica levando o leitor de uma para a outra. Em um hospital, uma velha conta uma história que se passa no interior da Albânia. Esquisito. Falsos segredos não revela nada. Conta a história de uma menina que desaparece em um passeio de escoteiros e nunca mais se sabe dela. Inconcluso. O hotel Jack Randa conta a história do tipo de mulher que detesto: mulher que corre atrás do homem que a deixou por outra. Uma estação deserta lembra vagamente a história narrada no livro de Atwood, Vulgo Grace. Talvez por serem histórias que se passam no século xix e por acontecerem, aparentemente, na mesma região do Canadá. No conto, uma mocinha órfã é escolhida para casar com um homem que está desbravando uma região selvagem, iniciando sua propriedade. O homem é assassinado e a mocinha passa algum tempo desnorteada e em fuga, obtendo um certo tipo de redenção ao final. Interessante. Espaçonaves aterrissaram conta a história de dois rapazes e duas moças que se tornam casais, e uma das moças teve uma experiência estranha atribuída, na época, a extraterrestres. Tedioso. Vândalos é uma história sobre abuso sexual e um certo tipo de triste e inútil vingança. Até me parece agora, ao fazer o resumo, que este conto é que deveria se chamar Falsos segredos, não o outro. Cabe notar que o título original do livro não tem a palavra falso. O livro se chama, de fato, Segredos abertos, Open secrets. Nota 1 de cinco.

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O livro do juízo final, Connie Willis, 1992

O livro do juízo final, Connie Willis, 1992, 576 páginas, tradução de Braulio Tavares.

Encontrei uma breve citação deste livro no blog de Braulio Tavares, então fui lê-lo. Apesar de tratar de um tema que gosto, viagens no tempo, quase detestei o livro. Conta-se a história de uma jovem historiadora que viaja no tempo, algo comum na época futura em que ela vive. A historiadora tem interesse na Idade Média e vai viajar para um determinado ano antes da Peste Negra dizimar boa parte da população da Europa. Por um erro no momento de ser enviada ao passado, a jovem cai exatamente no ano em que a Peste chegou à Inglaterra. Ela é abrigada por uma família em um vilarejo e se apega em especial às crianças. Essa é a parte melhor do livro. Na origem, no tempo em que ela foi enviada, demoram a perceber que houve um erro, há uma epidemia de gripe acontecendo e a história se arrasta. Cenas repetidas e personagens insossos. Mesmo na parte da Idade Média, a história não empolga. Para mim, perda de tempo. Nota 1 de cinco.

A forma da água, fraco, fraquinho

A forma da água é um filme aguado, uma sessão da tarde luxuosa. Aguado: frouxo, diluído, pouca substância nutritiva, ralo, mortiço. E, como sessão da tarde, repete passo a passo a mesma história de um clássico daquela sessão, Splash, a história da sereia, com Daryl Hannah e Tom Hanks. Será que daqui a vinte anos, as criancinhas estarão assistindo A forma da água na sessão da tarde? Penso que Splash ainda será mais exibido, pois menos pretensioso e mais luminoso. A forma da água é uma fábula, um conto de fadas, sem qualquer criatividade no roteiro, tudo nele é clichê, nenhuma surpresa para os espectadores. Visualmente, é um filme escuro e desagradável. Enfim, uma historinha da qual não há nada a guardar na memória.

Tudo o que nunca contei, Celeste Ng, 2014

Tudo o que nunca contei, Celeste Ng, 2014, 304 páginas, Intrínseca, tradução de Júlia Sobral Campos.

Este é o que chamo de livro redondinho. Como em Elena Ferrante, a autora quer contar a história e fazer com que saibamos de quase todos os acontecimentos. E essa moça, Celeste Ng, fez os cursos de escrita direitinho, ou seja, ela sabe usar os recursos (ou truques) literários para prender e interessar o leitor. Veja-se que o romance começa por declarar que Lydia, uma menina de quinze ou dezesseis anos está morta, enquanto a família e a polícia começam a procurar por ela. Daí em diante, entre idas e vindas temporais, a autora nos conta como tudo que cerca aquela família culminou com a morte da menina. Há, vez ou outra, um excesso de sentimentalismo, mas não compromete. Não ficam pontas soltas ou personagens desperdiçados. Nota três de cinco.

Vulgo Grace, Margaret Atwood, 1996

Vulgo Grace, Margaret Atwood, 1996, 512 páginas, Rocco, tradução de Geni Hirata.

Margaret Atwood escreveu essa ficção com base em um crime real acontecido no Canadá no século XIX. Uma menina de dezesseis anos, empregada de um pequeno sítio, e o caseiro mataram a governanta e o patrão. Fugiram para os Estados Unidos e foram  presos dias depois. Ele foi condenado à morte e enforcado. Para ela, o advogado conseguiu reduzir a pena para prisão perpétua com base na pouca idade da moça. A história de Atwood é boa e prende o leitor mas tem muitas pontas soltas. A história parece que vai deslanchar com o médico psiquiatra Simon, ou com o mascate Jeremias, mas ali só há becos sem saída. Acerca do psiquiatra Simon, achei muito curioso que o personagem tem como objetivo criar um instituto onde os loucos sejam tratados mais humanamente, contudo em seus pensamentos iniciais, Simon começa a acreditar que todos ao seu redor são um pouco loucos. O nome Simon e esse detalhe me fazem pensar que Atwood poderia ter conhecido a obra de Machado de Assis, O alienista, e seu famoso personagem Simão Bacamarte. Acerca de Grace, gostamos dela, sentimos muita pena dela, mas não conseguimos saber quem ela é realmente. Enfim, é um livro interessante, não me agradou de todo, não dá respostas ou certezas suficientes ao leitor. Infelizmente, prefiro livros redondinhos. Nota três de cinco.

O poço

Menino de oito anos desapareceu no curto trajeto de cem metros entre a casa da avó e a casa de um amigo. A polícia investigava, mas logo descartou sequestro e se concentrou na família. Poucos dias depois do desaparecimento que comovia a Espanha, a namorada do pai achou a camiseta do menino suja de sangue em um terreno no qual a polícia já havia feito buscas. A polícia, sem anunciar, começou a vigiar e fechar o cerco em torno da namorada do pai. Por fim, seguiam o carro dela em uma viagem de cinquenta quilômetros entre cidades da região. Na cidade de destino, cercaram o carro, abriram a mala e estava o corpo do menino, envolvido em uma manta. A polícia diz que o corpo havia ficado em um poço e estava sendo transportado para outro esconderijo. Acha-se que há outros cúmplices e que mesmo o pai pode ter participado da morte da criança.

Pureza, Jonathan Franzen, 2016

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Pureza, Jonathan Franzen, 2016, 616 páginas, Companhia das Letras, tradução de Jorio Dauster.

Pureza é o livro mais fraco dentre aqueles que li de Franzen. Extenso, seiscentas páginas, contudo irregular, tedioso. Franzen escreve bem e gostei muito dos anteriores, Liberdade e Correções. Franzen continua escrevendo bem, mas a história não pega, se arrasta, é lenta e confusa. A gente até percebe que o autor tenta juntar as pontas soltas, juntar as diversas histórias, mas a tentativa caminha tão devagar que dá impaciência, e não é bem sucedida.

O romance é composto por sete partes, sete longos capítulos. A primeira parte nos apresenta Pip Tyler, o personagem mais simpático do livro. Pip mora em San Francisco, tem um empreguinho bosta, é pobre, têm dívidas e uma mãe desequilibrada e paranóica. A segunda parte abandona Pip, volta no tempo e conta a história do jovem Andreas Wolf, na Alemanha Oriental. A terceira parte apresenta Leila, uma jornalista que trabalha com Tom Aberant em um jornal investigativo na cidade de Denver. A história de Leila e de suas reportagens é desperdiçada e não se liga a quase nada do restante do livro. Pip Tyler reaparece aqui como estagiária do jornal. A quarta parte volta um pouco no tempo e mostra Pip trabalhando para Andreas Wolf em um lugar remoto no interior da Bolívia. Wolf é uma caricatura de Julian Assange e, como tal, se dedica a vazar informações secretas na internet. A quinta parte volta no tempo e é narrada na primeira pessoa por Tom Aberant e mostra o longo relacionamento dele com Anabel, uma mulher completamente desequilibrada. A sexta parte mostra um encontro decisivo em Aberant e Wolf na Bolívia. A sétima parte, mais curta, é um epílogo no qual Pip, enfim, assume as rédeas da sua vida.

Como se vê acima, muitos personagens e tramas, tudo resultando em uma história descabida, confusa, inverossímil. As personagens são tediosas, antipáticas, esquizofrênicas. Que prazer um autor encontra em criar personagens tão enfadonhos e maçantes? A mãe de Pip, insuportável e louca. Wolf, maluco e egocêntrico. Aberant, lerdo, maré-me-leva-maré-me-traz. Vixe. Leila, personagem completamente desperdiçado, inclusive abandonado pelo autor na história. Pip, a personagem mais interessante e que dá o título ao livro, quase não aparece, tem apenas o primeiro capítulo para chamar de seu.

Quase uma perda de tempo, nota dois em uma escala de um a cinco.