As cidades invisíveis – Italo Calvino

Último parágrafo:

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”

A prisioneira – Marcel Proust (1923)

A prisioneira – Marcel Proust (1923). Tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Souza de Alencar.

Eu havia lido À la recherche du temps perdu em francês e foi difícil, eu perdi muito do texto. Há pouco, comecei a reler em português, e escolhi o volume 5, A prisioneira, para recomeçar. As falhas de compreensão do texto em francês deveram-se, em grande parte, penso, ao fato de que meu volume único da obra, da Gallimard, é um volume seco, apenas o texto, nem uma única nota explicativa. Com isso, é difícil ou impossível compreender referências que faz o autor e expressões que não tem tradução direta. Como já citei em outro texto, há dois exemplos característicos. O Barão de Charlus, homossexual em segredo, refere-se a outros homens que “têm esse vício”, como “une tante”, “uma tia” em tradução direta, mas que significa “bicha”, “veado”. Em outro momento, Albertine, a prisioneira do título, em um momento de impaciência, escandaliza o personagem principal, ao dizer que, em vez de dinheiro, preferia a liberdade de “faire casser le pot”, uma expressão vulgar que significa “dar o cu”. Sem essa compreensão crua, não se compreende bem a agressividade da frase de Albertine. Dessa forma, estou aproveitando para fazer a nova leitura de Proust, em português, e cotejar algumas partes, alguns momentos importantes, com o texto em francês.

Alguém já disse, e concordo, que se pode começar a ler Em busca do tempo perdido por qualquer um dos sete volumes. Por exemplo, neste A prisioneira há referência a diversos acontecimentos dos volumes anteriores, mas nada que impossibilite a compreensão deste livro específico. Os livros se inter-relacionam mas são quase independentes e, de todo modo, a referência a um acontecimento, passado ou futuro, aumenta o interesse de ler ou reler o trecho. Acontecimentos futuros, sim, pois em cada volume, Proust refere coisas que ainda vão acontecer.

A prisioneira deriva diretamente do parágrafo final do volume anterior, Sodoma e Gomorra, no qual o personagem anuncia à mãe que vai se casar com Albertine.

É curioso observar que, nos quatro livros anteriores, o personagem não tem nome. A história é em primeira pessoa e ninguém diz o nome do personagem. Entretanto, no quinto volume, o autor fala, quase em tom de brincadeira, algo assim: “imagine que o nome do personagem seja Marcel como o nome do autor”. E depois, mais umas duas vezes, Albertine diz Marcel, ao se referir ao personagem.

Então, Marcel anunciou que casaria com Albertine, mas não é o que acontece. De fato, Marcel queria manter Albertine junto a si, em sua casa de Paris, disponível, e, ao mesmo tempo, afastar Albertine do “vício” que ele julga, sem certeza, que ela tem.

“Vício”, na obra de Proust, é o homossexualismo.

Não é possível resumir todos os entrelaçamentos que existem em uma obra tão densa como essa, a todo momento a gente percebe uma curiosidade, um outro nível de relações.

Veja-se que Proust era, aparentemente, homossexual, ou bissexual, entretanto o personagem Marcel é heterossexual e, inclusive, em outro volume, rejeita um convite do Barão de Charlus. Na obra, o homossexualismo é chamado frequentemente de “vício”, e a discussão do tema e dos relacionamentos homossexuais ocupa grande parte da obra, entretanto, na maior parte das vezes, de forma encapsulada, discreta. O próprio Barão de Charlus é ridicularizado na descrição de Proust e ridiculariza outros homossexuais da sociedade da época. No entanto, Charlus apresenta um interesse expressivo em apontar mais participantes do vício. Diz ele que entre cada dez homens, apenas três ou quatro gostam de mulheres.

Grande parte dos sete volumes é dedicada a discutir o ciúme e o amor. Não um ciúme comum, mas um ciúme obsessivo. Swann foi extremamente ciumento em relação à Odette, Marcel foi ciumento em relação à Gilberte, uma namoradinha da juventude, o Barão de Charlus tem ciúmes do violinista Morel, com quem mantém um caso, e, neste quinto volume, o ciúme obsessivo de Marcel por Albertine é preponderante.

Marcel não sabe se ama ou se é indiferente a Albertine, mas tem ciúme extremo dela, dos pensamentos dela, do passado dela. Ele usufrui dos “prazeres carnais” que Albertine lhe concede, embora não se saiba exatamente que prazeres seriam esses, a linguagem é eufêmica. Para afastar Albertine do vício de “mulheres que gostam de mulheres”, vive com ela em Paris e a vigia constantemente. Albertine faz passeios, levada pelo motorista, o qual é subornado por Marcel para contar todos os detalhes dos passeios. O personagem cascavilha e investiga a vida da coitada da Albertine. O personagem pensa elaborar alguma forma de se separar de Albertine e, ao mesmo tempo, evitar que ela possa ter encontros com antigas amigas e outros homens.

Albertine sofre demais, é dócil e obediente, mas isso não é suficiente para Marcel. E, na minha opinião, Albertine ama Marcel. Não dá para ter certeza disso, pois só conhecemos a história do ponto de vista extremado do autor. De todo modo, tive muita pena de Albertine, todo o tempo, e detestei o egoísmo, o egocentrismo, a preguiça, o descaso, a covardia, a falta de ânimo, o ciúme louco do personagem principal.

Leia Proust. Depois que você se acostuma com os enormes parágrafos, repletos de uma frase dentro da outra e dentro da outra, que devem ser desenroladas pelo leitor, torna-se uma leitura fascinante.

Marcel

Em um blog, alguém escreveu que Proust, a Recherche pode ser lida a partir de qualquer volume. Curiosamente, tive essa mesma impressão. Os sete volumes se inter-relacionam, mas não dependem exclusivamente uns dos outros. Em um volume qualquer, há referências a fatos relatados nos volumes anteriores, mas isso não impede a compreensão da história.

Cabe notar que a primeira leitura que fiz da Recherche foi mais dificultosa porque a edição da Gallimard era seca, sem qualquer nota. Não dá, Proust precisa de notas para um entendimento mínimo. Exemplos: saber que a expressão “une tante”, em francês, significa “bicha”, “veado”, em português; saber que a expressão “faire casser le pot” ou apenas “casser le pot”, dita por Albertine, significa “dar o cu”, em português.

Livros lidos 2017

Até agora 😉

12) A prisioneira – Marcel Proust (1923)

11) O compromisso – Herta Müller (1997)

10) História de quem foge e de quem fica – Elena Ferrante (2013)

9) História do novo sobrenome – Elena Ferrante (2011)

8) Carne viva – Paulo Francis (2007)

7) A amiga genial – Elena Ferrante (2011)

6) Reunião de poesia – Adélia Prado (2013)

5) Vozes de Tchernóbil – a história oral do desastre nuclear – Svetlana Aleksiévitch (2016)

4) Amor insensato – Junichiro Tanizaki (1924)

3 ) O moleque Ricardo – José Lins do Rego (1935)

2) Fico besta quando me entendem – Entrevistas com Hilda Hilst (2007)

1) Cartas a Murilo Miranda (1934-1945) – Mário de Andrade (1981)

Cabeça – Adélia Prado

Adélia Prado

Cabeça

Quando eu sofria dos nervos,
não passava debaixo de fio elétrico,
tinha medo de chuva, de relâmpio,
nojo de certos bichos que eu não falo
pra não ter de lavar minha boca com cinza.
Qualquer casca de fruta eu apanhava.
Hoje, que sarei, tenho uma vida e tanto:
já seguro nos fios com a chave desligada
e lembrei de arrumar pra mim esta capa de plástico,
dia e noite eu não tiro, até durmo com ela.
Caso chova, tenho trabalho nenhum.
Casca, mesmo sendo de banana ou manga,
eu não intervo, quem quiser que se cuide.
Abastam as placas de ATENÇÃO! que eu escrevo
e ponho perto. Um bispo, quando tem zelo
apostólico, é uma coisa charmosa.
Não canso de explicar isso pro pastor
da minha diocese, mas ele não entende
e fica falando: ‘minha filha, minha filha’,
ele pensa que é Woman’s Lib, pensa
que a fé tá lá em cima e cá em baixo
é mau gosto só. É ruim, é ruim,
ninguém entende. Gritava até parar
quando eu sofria dos nervos.

O compromisso – Herta Müller (1997)

O compromisso – Herta Müller (1997) – Editora Globo – 206 páginas. Título original: Heute wär ich mir lieber nicht begegnet. Tradutor: Lya Luft.

Decididamente não gostei do livro. Quase detestei. É um livro entediante, monótono, disperso. A estrutura do romance é conhecida: a moça vai para um interrogatório de bonde; no caminho, misturam-se acontecimentos do passado distante e próximo e as trivialidades do trajeto. O tema do romance é a opressão dos governos autoritários do Leste Europeu, antes da queda do Muro.

A personagem colocara bilhetes em roupas que seriam vendidas para a Itália. Por este motivo é demitida e convocada a depor em frequentes interrogatórios, diversas vezes por semana. A história não é contada de forma linear, foi uma opção da autora, certamente, mas é tedioso e desgastante para o leitor tentar arrumar na cabeça as informações esparsas que a personagem solta aqui e ali. Penso que o romance seria muito mais legível, agradável, impactante, se a história estivesse mais organizada temporalmente.

Por fim, a tradução me pareceu descuidada e sem revisão.

Vozes de Tchernóbil: A história oral do desastre nuclear – Svetlana Aleksiévitch (2016)

Vozes de Tchernóbil: A história oral do desastre nuclear – Svetlana Aleksiévitch (2016).

Gostei muito do livro, entretanto esperava mais dele. A qualidade do livro é deixar que as pessoas contem como foi para elas a terrível tragédia da explosão do reator nuclear, a evacuação, as doenças, o preconceito, a insistência em morar na zona de exclusão. É relevante destacar que a tragédia ocorreu em 1986, quando ainda existia o “povo soviético”, algo que acabou com a queda do Muro em 1989. Assim, além da explosão da usina, houve quase paralelamente a explosão da União Soviética. Os países, hoje independentes, mais atingidos foram a Ucrânia, onde se localiza a usina, e a Bielorrússia, país vizinho à usina nuc lear e para onde se dirigiu a nuvem radioativa.

O que não gostei: a autora deixa as pessoas falarem livremente, sem buscar conduzir a conversa para o tema do livro. Desse modo, ocorrem digressões desimportantes e, por vezes, entediantes. Penso que a entrevistadora deveria ter puxado mais pelos entrevistados, bastariam umas poucas perguntas para balizar e concentrar os depoimentos. Outro ponto falho é que o nome e a identificação da pessoa que fala só é colocado ao final do trecho e, muitas vezes, é relevante saber quem está contando aquela história, um liquidador?, um técnico da usina?, uma moradora da zona de exclusão? Saber a identidade da pessoa dá sentido a cada monólogo.

Trechos:

“No hospital, nos últimos dias, eu levantava a mão dele e os ossos se moviam, dançavam, se separavam da carne. Saíam pela boca pedacinhos do pulmão, do fígado. Ele se asfixiava com as próprias vísceras. Eu envolvia a minha mão com gaze e a enfiava na boca dele para retirar tudo aquilo… É impossível contar isso! É impossível escrever sobre isso!”

“Hoje eu só espero a morte. Morrer não é difícil, mas dá medo.”

“Até hoje tenho diante dos meus olhos o clarão cor de framboesa brilhante, o reator parecia iluminar-se de dentro. Uma luz incrível. Não era um incêndio comum, era uma luz fosforescente. Era lindo. Se esquecermos todo o resto, era muito bonito. Eu nunca tinha visto nada igual nem no cinema, nada que pudesse ser comparado àquilo.”

“Vimos uma mulher jovem sentada num banco junto à sua casa amamentando o filho. Testamos o leite do peito: radiativo. A virgem de Tchernóbil…”

“Eu sei a carga que é uma pessoa velha, os filhos te aguentam, aguentam e no final te ofendem. Os filhos te dão alegrias quando são pequenos.”

“A minha filhinha pequena… O tifo a consumiu durante a guerra. Assim que a depositamos na sepultura, o sol saiu de detrás das nuvens. Brilhava tanto… Dava vontade de voltar e desenterrá-la.”

“Ninguém comprovava a medição das doses. Enfim, o caos russo de sempre. Assim vivemos.”

“Tenho refletido muito. Buscado um sentido, uma resposta. Tchernóbil é uma catástrofe da mentalidade russa. Você nunca pensou nisso? Certamente estou de pleno acordo com os que escrevem que não foi o reator que explodiu, mas todo o sistema anterior de valores. Mas essa explicação ainda não me é suficiente.”

“Não gosto de ligar a televisão e de ler jornais. Lá só matam e matam. Na Tchetchênia, na Bósnia, no Afeganistão. Isso me faz perder a razão e corrompe a minha visão. O horror se tornou habitual, até mesmo banal.”

“Nós nos transformamos de tal forma que o horror que hoje passa nas telas precisa ser ainda mais terrível que o de ontem. Caso contrário, não mete medo. Nós cruzamos a linha.”

“O homem se levanta de manhã cedo. Inicia a sua jornada. E não se detém para pensar na eternidade, os seus pensamentos estão no pão de cada dia. Mas você quer que a gente pense na eternidade. É o erro de todos os humanistas.”

Além da impressionante tragédia que atingiu milhões de pessoas, surpreendeu-me a enorme semelhança entre o povo eslavo e o povo brasileiro, que pode ser verificada nos trechos que selecionei a seguir:

“O que há conosco? Pela nossa monstruosa indolência eslava, estamos dispostos a crer antes num milagre que na capacidade que temos de criar algo com as nossas próprias mãos.”

“Alguns dizem: um povo santo e um governo criminoso. Logo lhe direi o que penso disso. Sobre o nosso povo e sobre mim mesma…”

“O nosso povo sempre tem a sensação de que o estão enganando, em todas as etapas do grande caminho. Por um lado, há niilismo e negação; por outro, fatalismo. Não acredita nas autoridades, nem nos cientistas, nem nos médicos, mas tampouco toma qualquer iniciativa. É uma gente inocente e desvalida, que encontra sentido e justificação no próprio sofrimento; todo o resto parece não ter importância.”

“Esperam um milagre. Vão à igreja. Sabe o que pedem a Deus? Isso mesmo, um milagre. Não, não pedem que Deus lhes dê saúde e forças para que consigam algo por si mesmos. Estão acostumados a pedir. Seja ao estrangeiro, seja aos céus.”

“Tchaadáiev tinha razão: a Rússia é um país sem memória, um espaço de amnésia total, uma consciência virgem de crítica e de reflexão.”