Sul da fronteira, oeste do sol, Haruki Murakami, 1992

Sul da fronteira, oeste do sol, Haruki Murakami, 1992, 177 páginas, tradução de Rita Kohl, Alfaguara.

Murakami é um excelente contador de histórias – melhor do que muitos nobelizados que tem por aí. Esta é uma boa história, daquelas que interessa ao leitor do começo ao fim. Há algo que ficou atrasado na história (um homem casado com uma amante), mas mesmo esse assunto tão ordinário vibra nas mãos do autor.

Este livro quase não tem nada de sobrenatural ou de fantástico, como sói acontecer frequentemente em Murakami. Eu disse quase porque há uma mulher misteriosa e que algum leitor pode pensar que não existia, que era apenas delírio, imaginação do narrador, ou até um fantasma.

Um aspecto que me chamou a atenção foi de que o tema dos mundos paralelos, ou de deixar um mundo para entrar em outro, ou de o que é real, esses tópicos são discutidos aqui e foram posteriormente aprofundados por Murakami em 1Q84, de 2009. Também se notam semelhanças entre o relacionamento do narrador, na infância, com a menina Shimamoto e entre o relacionamento de Tengo e Aomame em 1Q84. Inclusive, salvo engano, em ambos os casos, a menina e o menino deram-se as mãos uma única vez e isso marcou o personagem para sempre.

Trecho:

“Para provar que certo acontecimento é real, precisamos nos basear em alguma realidade. Nossas memórias e sensações são incertas e parciais demais. Em muitos casos é impossível distinguir se um fato que acreditamos perceber é mesmo um fato ou apenas algo que nós percebemos como fato. Então, para fixar uma realidade como tal, precisamos de mais uma realidade — uma realidade adjacente — a partir da qual podemos relativizá-la. Porém, essa realidade adjacente também demanda alguma base para se confirmar como realidade. Ou seja, há outra realidade adjacente, que prova que a anterior é real. Essa cadeia se estende a perder de vista em nossa mente, e não seria exagero dizer que em certo sentido é justamente essa continuidade, a manutenção dessa cadeia, que forma a existência de cada um de nós. Mas se, por algum motivo, um elo dessa corrente se parte, você fica desorientado. Qual é a verdadeira realidade? Aquilo que há para além da ruptura, ou o que há do lado de cá?”

Resumo (com spoiler):

1. Hajime e Shimamoto estudam na mesma escola, gostam de livros e de escutar música juntos. Shimamoto manca de uma perna por causa de poliomielite. A família de Hajime se muda e eles deixam de se ver.

2. Aos 16 anos, Hajime começa a namorar Izumi.

3. Após um ano de namoro, Hajime consegue que ambos fiquem nus no quarto dele.

4. Hajime começa a fazer sexo com uma prima de Izumi, ela descobre, fica muito abalada, não entra na faculdade, Hajime vai para um faculdade de Tóquio.

5. Depois da faculdade, anos de trabalho tedioso em uma editora de livros didáticos. Tem um encontro com uma moça que manca.

6. Com 28 anos. Nas ruas de Tóquio, segue uma moça que mancava, parecida com Shimamoto. Um cara ordena que pare de seguir a moça e dá a ele um envelope com dinheiro.

7. Casa-se aos 30 anos com Yukiko. Abre um bar de jazz com a ajuda do pai da moça, que é rico. Aos 36, tem dois bares e duas filhas. Recebe de Izumi o comunicado de que a prima morreu aos 36 anos. Descobre que Izumi vive isolada e sem amigos.

8. Shimamoto vai ao bar e conversam. Ela não conta nada da vida dela, misteriosa. Ele descobre que era ela mesma que ele seguiu anos atrás, mas ela não explica mais nada.

9. Em outra ocasião, Shimamoto pede que Hajime vá com ela até um rio específico. Ele irá com ela de avião, ida e volta no mesmo dia, mente para a esposa.

10. Shimamoto joga as cinzas de seu bebê no rio. Shimamoto passa mal no carro. Voltam para Tóquio no mesmo dia.

11. Sogro envolve Hajime em negócios escusos – mas esse ganho não vai adiante no livro.

12. Passeios e conversas com Shimamoto. Ela some e ele entra em parafuso.

13. Yukiko percebe que ele está angustiado. Shimamoto reaparece no bar.

14. Shimamoto leva um disco de presente para ele, um que escutavam quando crianças. Vão para a casa de campo dele escutar o disco na madrugada. Fazem sexo, prometem ficar juntos. De manhã, Shimamoto desapareceu.

15. Hajime no limbo, quase louco pela ausência de Shimamoto, que ele sente que será para sempre. Vê mulheres parecidas com ela nas ruas. O envelope com o dinheiro de anos antes desaparece sem explicação. Depois de muito sofrimento, dele e de Yukiko, decide não se separar e retomar sua vida.

Observe-se que Hajime age como um típico marido: não sabe quase nada da esposa e se derrete pela amante. A mulher de fora é vibrante, interessante, viva; a esposa quase não existe. Apesar de conduzir a história deste modo, Murakami dá voz a Yukiko no último capítulo, no qual ela fala do sofrimento pelo qual estava passando com a traição de Hajime. Como diz a tradutora Rita Kohl no posfácio:

Pois hoje o perfil de Hajime — de um homem que não pode resistir aos seus ímpetos sexuais, que não consegue deixar de trair e magoar as mulheres ao seu redor — não me inspira grande simpatia.

E ainda: “O desejo do narrador de abandonar a família em busca de um amor irresistível deixa de ser uma questão pessoal deste personagem para refletir um padrão incansavelmente repetido, em uma sociedade em que pais têm muito mais liberdade, tempo e espaço para encontrar amores irresistíveis e considerar largar tudo.

Acerca da existência “real” de Shimamoto, penso que Murakami deixou isto em aberto, mas prefiro – assim como Rita Kohl – a opção do não-fantástico. Para mim, Shimamoto se cercava de segredos por algum motivo grave e possivelmente fatal; penso que ela poderia ser amante de algum chefão da máfia japonesa ou uma prostituta de luxo; em ambos os casos, isso explicaria os desaparecimentos, o bebê, o fato de nunca ter trabalhado e de aparentar boa situação financeira. Como diz Hajime, provavelmente Shimamoto pensava em se matar com ele, provocando um acidente de carro; isso condiz com as hipóteses que levantei.

Playlist “Sul da fronteira, oeste do sol”

– Corcovado, com trio de jazz do bar de Hajime

– South of the border, Nat King Cole

– Pretend, Nat King Cole

– Star-crossed lovers, Duke Ellington

– Burning down the house, Talking Heads

– As time goes by, com o pianista do trio de jazz

– Robbin’s nest, Count Basie (nome do bar de Hajime)

– Pastoral (Sinfonia nº 6), Ludwig van Beethoven

– Concerto nº 1 e nº 2, Liszt

– Peer Gynt, Edvard Grieg

– Viagem de inverno, Franz Schubert

– Bing Crosby (músicas de Natal)

– Vivaldi

– Telemann

Deus ex-machina

“Diários incompletos”, de Miguel Heraldo, Editora Todavida, tradução de Herculano Quintanilha, 587 páginas, trecho:

Encontrei a seguinte citação atribuída a Clarice Lispector no jornalzinho da vila: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro”. Não sei se é dela mesmo, teria que pesquisar; deve ser. O jornalzinho é uma iniciativa meritória, sem fins lucrativos, com despesas que superam qualquer receita, projeto utópico de um poeta local. Não o conheço ainda, mas pretendo.

Estou lendo Dante pela primeira vez na vida, agora na maturidade: nunca é tarde. Imperdível.

Aqui nesta “novela”, se ao final pudermos denominá-la assim, não tem, não haverá deus ex-machina. Advirto porque este recurso atrai os escritores – mesmo aqueles que almejam apenas a fidedignidade, como eu. Exemplo: um romance quase perfeito é “Lolita”, de Vladimir Nabokov. A falha é o deus ex-machina: um tio de Humbert Humbert que lhe deixa uma pequena herança, com a qual o rapaz pode viver despreocupadamente. Resolvida a questão financeira, tudo fica mais fácil. Faz muito tempo que li “Anna Kariênina”, de Liev Tolstói, mas me recordo vagamente de que Vronski e Anna passam apertos de grana, mas continuam gastando e gastando. Não bate. Soa fantástico, soa fácil demais.

Aqui, não. Aqui, se vivo essa situação idílica – para alguns – é porque fiz planejamento e, ademais, trabalho bastante. A facilidade é trabalhar em casa, algo que muita gente consegue, então não tem nada de ex-machina.

Eu que nunca conheci os homens, Jacqueline Harpman, 1995

Eu que nunca conheci os homens, Jacqueline Harpman, 1995, 192 páginas, Dublinense, tradução de Diego Grando.

Recomendo muitíssimo. A tradução é péssima. A capa brasileira é tão feia que não vou colocar aqui; coloco a capa francesa.

Li este romance em dois dias. Quando comecei não conseguia largar. Tem defeitos, sim, mas a narrativa prende do começo ao fim.

O que é este romance? Algo entre futuro distópico, ficção científica, pesadelo kafkiano e alegoria sobre a nossa condição humana. Gostei demais. A narrativa é linear, sem malabarismos de falsa técnica, e a cada passo ansiamos por ler mais.

A história conta de quarenta mulheres presas em um subterrâneo há anos, e vigiadas constantemente por guardas armados que nunca se dirigem a elas. Eles usam um chicote para adverti-las. As mulheres recebem comida para prepararem duas vezes por dia. É proibido se matar, é proibido correr na “jaula”. A narrativa é feita na primeira pessoa pela prisioneira mais jovem. Até que um dia…

Que livro!

Recomendo não ler daqui em diante para não perder o impacto que a leitura poderia causar.

A narrativa é feita pela “pequena”, que foi aprisionada – juntamente com as outras mulheres – por volta dos oito anos de idade e que tem quase nenhuma lembrança do “mundo de antes”. A narradora sem nome não esconde que está com câncer e no final da vida, que está só e que quis registrar o que viveu. Durante a narrativa, a personagem vez em quando adianta algo dos acontecimentos futuros. Assim, penso que este é um livro “sem esperança”: não se produz no leitor a esperança de que algo melhore, de que algo se revele. Ou melhor, a gente quer ter esperança mas sente que é inútil.

As mulheres adultas recordam o mundo antes da “catástrofe”, mas recordam de forma nebulosa o modo como tudo mudou. De repente, em uma noite, elas foram aprisionadas, talvez drogadas, e só lembram de acordarem já no subterrâneo.

O romance se divide em três atos: o primeiro conta da estada das mulheres no subterrâneo, a monotonia da vida de prisioneiras, a raiva da menina, as tentativas infrutíferas de entender o que aconteceu.

O segundo ato começa repentinamente quando toca uma sirene e os guardas abandonam a prisão deixando, por acaso, as chaves das grades na portinhola da comida. As mulheres abrem as grades e descobrem que estão em um subterrâneo: são cem degraus até lá em cima. O mundo que se descortina é uma planície com algumas ondulações e vegetação rasteira. Não há sinal dos guardas, tampouco veículos e estradas. A entrada para o subterrâneo se dá por uma espécie de guarita com uma porta de metal.

As mulheres passam a viver nessa terra sem atrativos, inicialmente como nômades. Descobrem numerosas outras guaritas e subterrâneos, todos iguais, e todos com quarenta mulheres ou homens mortos de fome nas jaulas. Os subterrâneos tem energia contínua que nunca cessa, água corrente, estoque de enlatados e câmaras frias entupidas de carne. Depois, as mulheres decidem construir casas com pedras e teto de galhos. Elas duvidam estar na Terra porque a paisagem é invariável e o clima varia pouco entre a estação seca e a chuvosa. Com o tempo, as mulheres vão morrendo por idade ou doenças. Resta a “pequena”.

O terceiro ato conta as explorações da “pequena” pela terra. Ela não queria ter se fixado e o fez apenas por conta das mais velhas. Quando morre a última, ela se prepara e sai pelo mundo. Encontra infinitas guaritas. Encontra um ônibus e uma estrada já coberta de grama. Faz mais de vinte anos que elas saíram do subterrâneo. O ônibus contém os esqueletos de vinte guardas que aparentam ter morrido repentinamente. São os únicos guardas mortos que ela verá naquela terra. A “pequena” segue a estrada mas ela acaba em lugar nenhum. Por fim, depois de anos, ela encontra uma marcação feita com pedras e uma porta que dá acesso a um subterrâneo diferente: há estoque de enlatados e carnes, e há também um apartamento ao modo do “mundo de antes”, com banheiro, água quente, energia elétrica, estante de livros. Ela, já começando a envelhecer, decide se estabelecer neste local. Começa a sofrer de um câncer, provavelmente de útero, e escreve toda a sua história e se prepara para o suicídio. E fim.

Jamais saberemos as respostas às inúmeras perguntas que nós e as personagens fizemos.

Resta ao leitor pensar sobre os enigmas propostos pela autora e traçar suas próprias respostas ou arremedos de. A primeira interpretação que me surgiu foi a de que o romance se propõe a ser uma alegoria da nossa triste condição humana: não sabemos de nada além do nosso cotidiano, estamos presos nesse planeta, não conhecemos o “lá fora”, não sabemos se há vida “lá fora”, ou se tudo é um grande jogo ou simulação no qual fomos aprisionados. Ou seja, a nossa vida é muito semelhante àquela das prisioneiras: não sabemos de onde viemos, qual a motivação, nem para onde vamos. Tudo isso foi envolvido pela autora em um clima de pesadelo e de falta de sentido próprios de Franz Kafka. Penso que este foi o objetivo principal da autora. A falta de sentido do mundo que ela criou é espelho da falta de sentido do nosso.

De forma mais comezinha, pode-se ter certeza de que aquele planeta não é a Terra: não é possível explorar por anos este planeta e não encontrar mares, montanhas, abismos, ruínas. O clima quase imutável também não é terrestre. Mesmo uma grande “catástrofe” não apagaria todas as características do nosso planeta. É possível imaginar que uma civilização alienígena aprisionou os humanos, ou uma parte deles, para experiências e que, em algum momento, algo impediu a continuação do projeto.

Entretanto, como falei no início, há alguns problemas na composição do romance. A energia elétrica eterna e a água corrente eternas dependeriam de sistemas de geração, transmissão e distribuição dos quais não há o mínimo sinal – além da necessária manutenção dos sistemas e equipamentos. O conteúdo dos enlatados parece durar eternamente, enquanto sabemos que estes produtos têm validade limitada. Os enlatados apresentam rótulos, mas em nenhum momento a personagem diz algo sobre origem dos produtos, composição, elementos normais em embalagens.

Ah, tá, tudo pode ter sido feito por uns etês bem avançados e tal, mas fica estranho. E facilita escrever o romance, já que a personagem não tem de se ocupar com aspectos essenciais da sobrevivência. Considerando que é tudo semelhante ou igual ao que existe na Terra, não haveria como não encontrar uma placa de identificação, um registro, o nome de uma empresa, uma etiqueta, as editoras nos livros que ela encontrou. Agora, se se considerar a hipótese de uma simulação de computador… Mas essa é uma hipótese sem graça para a profundidade do romance.

Enfim, é um livro intrigante e impressionante, apesar dos defeitos.

Nós, Ievguêni Zamiátin, 1924

Nós, Ievguêni Zamiátin, 1924, tradução de Gabriela Soares, 344 páginas, Aleph.

Este romance deu origem a outros romances distópicos e aqui se encontram diversos elementos que aparecem nos posteriores “Admirável mundo novo” (1932), de Aldous Huxley, e em “1984” (1949), de George Orwell.

A história é narrada em primeira pessoa, na forma de breves anotações do personagem D-503. Estamos por volta do século 30. As pessoas não possuem nomes e são denominadas “números”. A matemática e o pensamento racional são essenciais. Todos os prédios e apartamentos – ou cubículos – são de vidro, de forma que todos observam todos. As cortinas podem ser fechadas, com permissão do Estado, na hora predeterminada para o sexo. A Guerra dos Duzentos Anos dizimou mais de 99% da população. O Estado Único tem uma população de cem milhões de habitantes, mas não há detalhes sobre sua distribuição geográfica. Aparentemente, a metrópole onde vive D é a única no mundo, e é cercada por um Muro Verde, de vidro, que separa a civilização da zona selvagem.

Não há reprodução humana natural, mas o autor não especifica como o Estado cuida disso. É crime ficar grávida e ter um filho. O sexo tem dia e hora marcados e as pessoas se registram para ter sexo com alguém de seu interesse – e recebem um talão rosa onde se anotam os encontros. O grande líder, o Número dos Números, é o Benfeitor, um cara que aparece em público para as execuções de criminosos. O transporte é feito em “aeros”, veículos aéreos não detalhados. D-503 é o Construtor da “Integral”, uma nave espacial que vai levar a mensagem e a ideia do Estado Único para as civilizações infelizes do Universo. D mantém encontros sexuais com O-90, que o ama: amar é um comportamento anormal, quase um crime. O também tem outros relacionamentos, como deve ser. De início, D é um crente e servo absoluto do Estado Único. Depois que conhece I-330, uma mulher sedutora e rebelde, ele passa a duvidar de alguns dogmas, mas todo o tempo D flutua entre suas convicções fortemente inculcadas pelo Estado e o mundo rebelde que vislumbra por meio de I.

O livro tem muitas cenas e acontecimentos não resolvidos, sem definição precisa, nebulosos. Algumas partes e atitudes dos personagens não são compreensíveis. Talvez isso se deva à forma como o livro foi escrito, sob a censura russa e soviética da época, e à forma como foi publicado fora do país, sem a supervisão do autor. Talvez, o autor tenha preferido assim, uma história fragmentada como a própria “alma” do personagem D, alma dividida, angustiada. De todo modo, apesar de seus defeitos, “Nós” é um livro sensacional. Uma história forte e pungente.

Curiosidades de “Nós”:

– George Orwell leu o livro em 1946 e fez uma resenha para uma revista de Londres, pouco tempo antes de escrever o seu “1984”.

– O Benfeitor, governante praticamente eterno, que cuida da felicidade de todos, como o Grande Irmão.

– A separação física entre o mundo civilizado e a terra selvagem, que também ocorre em “AMN”, Huxley. A liberdade sexual e a proibição de ter filhos pelo modo natural, em ambos os livros.

– A história de amor entre I-330 e D-503, ela resoluta, rebelde, ele medroso, covarde, que também ocorre em “1984” entre Júlia e Winston, com personalidades semelhantes.

– O local de encontro do casal em “Nós” é a Casa Antiga. Em Orwell, é um quarto no subúrbio sem teletela, decorado ao modo de vida antigo.

– A impossibilidade de saber como é o mundo, se há um mundo lá fora, em “Nós” e em “1984”.

– O transporte é feito por veículos voadores, os “aeros”, como em “AMN”. Todos usam uniformes azuis em “Nós”; em “1984”, todos usam uniformes, acho que azuis e em “AMN” os uniformes variam a cor de acordo com a classe.

– As execuções de criminosos em praça pública, na Máquina do Benfeitor, como as cerimônias de despedaçamento de criminosos em “O conto da aia”, de Atwood.

– A vida em cubículos de vidro iguais para todos, a repetição das atividades (cinquenta movimentos mastigatórios antes de engolir) faz recordar o episódio de Black Mirror, “Fifteen Million Merits”.

Resumo:

Estamos mil anos no futuro. Há o Estado Único, regido por um Benfeitor. O personagem D-503 é um cientista estatal que coordena a construção da nave “Integral”, que vai levar a mensagem da felicidade do Estado Único para outras civilizações. “Nosso dever é obrigá-los a serem felizes”. As pessoas são chamadas de “números”, não têm nomes e usam uniformes azuis.

Existem dois intervalos em que as pessoas podem fazer o que quiserem, é a chamada Hora Pessoal. Na HP de 16 às 17 horas, D marcha pelas ruas em grupo, juntamente com O-90, uma mulher com a qual ele mantém relações sexuais regularmente estabelecidas pelo Estado. Ela também se relaciona com o Poeta Estatal, R-13. As ruas são retas, as moradias são de vidro, transparentes. O-90 tem corpo menor que o padrão, é arredonda e infantil. D conhece I-330, que é uma mulher esbelta e intensa. “A velocidade da língua deve ser menor que a do pensamento.”

Há um Muro Verde em volta do Estado Único. O Muro Verde é de vidro, e do lado de fora fica a natureza selvagem. Será que só existe o Estado Único? Será que não existem outras nações e aquela população é mantida prisioneira e em ilusão? Não saberemos.

Houve a Guerra dos Duzentos Anos que exterminou boa parte da população. Parece que hoje a população do Estado soma cem milhões de habitantes. Não se diz se todos vivem naquela metrópole sem nome. Na parede dos quartos há a Tábua das Horas, a agenda pessoal de cada “número”. O Benfeitor é auxiliado pelos Guardiões.

I-330 diz que verá D no dia seguinte no auditório 112. Ele então recebe o convite para comparecer ao auditório 112, no qual ocorre uma apresentação da horripilante música selvagem – de antes da Guerra – e é I que toca a música no piano usando um vestido de época. Por instantes, a música selvagem comove D mas logo depois se toca a música matemática eletrônica da Fábrica Musical, que o acalma. No Ano 35, foi criado o alimento à base de petróleo, depois que a Guerra dizimou a maior parte da população.

Naturalmente, tendo submetido a Fome (algebricamente = a soma dos bens externos), o Estado Único conduziu uma ofensiva contra outro senhor do mundo: contra o Amor. Finalmente, esse elemento também foi vencido, isto é, organizado e matematizado, e por volta de trezentos anos atrás foi promulgada nossa histórica Lex Sexualis: ‘todo número tem direito a qualquer outro número como produto sexual’”.

I o convida para ir à Casa Antiga, uma casa de antes da guerra que foi preservada, envolta em vidro. I propõe desobediência; D não concorda mas também não a denuncia, o que era sua obrigação. No hangar da nave “Integral”, D encontra S-4711, que ele acha que é um espião dos Guardiões – ele está sempre por perto de I e de D. Liberdade é crime e D quer ir aos Guardiões denunciar I, mas não consegue. Ele se sente doente e vai ao médico. De noite, resolve problemas de matemática com O. R-13, Poeta Estatal, é o outro parceiro sexual de O; este triângulo é como uma família para D. Ele está com raiva e confuso. O e R têm um encontro sexual mais tarde; D fica algum tempo com eles e depois deixa-os em privacidade.

O Dia da Justiça: um criminoso político é executado na praça pelo próprio Benfeitor – por meio de uma máquina – as crianças assistem bem de pertinho e antes há apresentação de poetas. Isto faz recordar cerimônia semelhante em “O conto da aia”, Margaret Atwood, com a diferença de que são as próprias aias que matam o criminoso. Encontro sexual com I no apartamento dela, com direito a tudo o que é proibido: vestido antigo, fumo e álcool. Crise de D: ele se refugia na Poesia Estatal – que é matemática – e na própria matemática. I consegue um atestado para D com um médico amigo dela e fazem sexo na Casa Antiga. Ele fracassa no encontro sexual com O.

No trabalho de construção da “Integral”, D está desatento e se sente culpado. Vai novamente ao médico amigo de I: a doença, diz o médico, é que ele tem uma alma, há uma epidemia de gente que está tendo alma; recebe mais um atestado. Volta à Casa Antiga e descobre que dentro do armário do quarto há um elevador. Nos subterrâneos, ocorre uma reunião secreta. I o conduz para fora, para o quintal da casa. Ele anda só pelas ruas e isso é antinatural – faz recordar “Fahrenheit 451”.

Iu, a senhora da portaria, se oferece discretamente para um encontro sexual com ele. Recebe carta de O em que ela diz que vai deixar de ser registrada com ele. No teste de motores da “Integral” dez pessoas são vaporizadas – isso não é nada diante do avanço tecnológico. Recebe carta de I na qual ela pede que ele faça exatamente o que ela orientar: ela quer alguns falsos encontros sexuais com ele; isso é mais um crime com o qual ele concorda. Visita de O, ela quer um bebê dele, isso é um crime, ele concorda. O vai se tornar uma mãe ilegal.

D colabora com a farsa de I fechando as cortinas na hora adequada. Nova visita à Casa Antiga, vai ao quintal e não encontra a passagem subterrânea pela qual saiu. S surge no quintal, o céu está cheio de aeros dos Guardiões. Aproxima-se o Dia da Unanimidade. Iu vai ao quarto dele e sugere novamente um encontro sexual. Ela diz “não me apresse” a decidir pelo encontro, mas ele não estava apressando, sequer com intenção: “Eu não a apressava. Embora compreendesse que devia estar feliz e que não havia honra maior do que coroar os últimos anos de alguém.

Durante uma marcha unida, vê três pessoas presas. Duas pessoas ameaçam protestar e são presas; ele corre na direção de uma delas, que ele pensava ser I: não era e ele é pego, mas S o libera alegando que ele está doente e é o construtor da “Integral”. Iu: “você está doente, precisa de alguém que cuide de você”. Visita de I: “o que você fez na marcha me faz te amar ainda mais”. I pede que ele não a esqueça, ele se assusta. I: “você quer saber tudo? Quando o feriado terminar.” Ele espera ansiosamente o Dia da Unanimidade para, pelo menos, vê-la de longe. É o dia da eleição anual do Benfeitor. D pede para ficar junto de I no Dia da Unanimidade, mas ela diz “não posso, eu gostaria, não posso, amanhã você verá”.

No Dia da Unanimidade, I e R estavam juntos na multidão. D percebe que há alguma ligação entre I e S. “Quem é a favor?” da eleição do Benfeitor, mais uma vez: milhões de mãos se levantam. “Quem é contra?” Milhares de mãos se levantaram de forma inédita, I inclusive. Guardiões, confusão, milhares de bocas. D carrega I, “pálida, o unif rasgado do ombro ao peito, sobre o branco havia sangue”. D não sabe quem são “eles”, os companheiros de I, e se ele faz parte do “nós” deles.

No dia seguinte, D lê o jornal e se sente confortado porque o Estado diz que vai tomar providências. Ele vai ao hangar como se tudo estivesse normal. I leva D ao outro lado do Muro Verde, e ele conhece um mundo repleto de árvores, animais e seres humanos que optaram viver ali. I discursa: o objetivo é destruir o muro, e tomar o controle da Integral – para isso, eles têm o Construtor ali com eles. D toma um chazinho especial e declara que todos devem ficar loucos. Na confusão de sensações e cores, acha que viu S também por lá.

No apartamento dele, Iu tenta evitar que I fale com ele: “Sim, ele é uma criança. Sim! É só por isso que ele não vê que você está com ele para… Tudo isso é apenas para, para… que tudo é uma farsa. Sim! E meu dever é…”. I avisa a D que chegaram os últimos dias. D: “Há muito deixei de tentar entender quem são eles e quem somos nós. Não compreendo o que quero: que eles consigam ou não consigam.” Para D, o amor por I é mais importante que a revolução, ele não compreende onde está naquele processo muito maior que ele, maior que o amor dele.

I conta a ele como as pessoas foram forçadas a ir para a cidade (o Estado) para “aprenderem a felicidade”. Mas alguns ficaram fora do Muro. Mefi é o movimento e é “Mefistófeles” porque anticristão, contra o repouso, contra o equilíbrio feliz. Os Guardiões entram no prédio, I foge, S livra a cara de D. D está indo para a Casa Antiga encontrar com I, quando O o intercepta. Ela está mais arredondada – grávida. D propõe levá-la para o outro lado do Muro, para salvá-la e ao bebê. Ela se recusa, não quer nada com I. D segue para a Casa Antiga e conversa com I.

Sobressaltei-me: – Isso é inconcebível! Um absurdo! Por acaso não está claro que o que você está começando é uma revolução?

– Sim, uma revolução! Por que isso é absurdo?

– É um absurdo porque uma revolução não é possível. Porque a nossa, a nossa revolução foi a última. E não é possível haver outras revoluções. Todo mundo sabe disso…

Um zombeteiro triângulo pontiagudo de sobrancelhas: – Meu querido: você é um matemático. Inclusive mais do que isso: um filósofo da matemática. Então: fale-me sobre o último número.

– O que você quer dizer? Eu… Eu não entendo: que último?

– Bem, o último, o mais elevado, o maior.

– Mas, I, isso é um completo absurdo. Os números são infinitos, que último número é esse que você quer?

– E que última revolução é essa que você quer? Não há última, as revoluções são infinitas. Último é para as crianças: o infinito as assusta, e é imprescindível que as crianças durmam tranquilamente à noite…

D pensa em suicídio – o conflito entre o amor por I, o leve interesse nos rebeldes e o condicionamento imposto pelo Estado pipocam a cabeça dele. O Estado Único publica no jornal que a solução para a crise é extirpar a imaginação das pessoas, para que elas ajam mecanicamente, como deve ser. Isso será feito com raios X em um ponto específico do cérebro: a Grande Operação. No apartamento dele, Iu leu as anotações e sabe da intenção de sequestro da “Integral”.

No apartamento de I, ela diz adeus porque ele está doente “e agora existe a Operação, e você vai se curar de mim. Isso é um adeus.” Ele diz que quer ficar ao lado dela e mantém o plano de sequestro da nave. No dia seguinte, um monte de recém-operados se deslocam firmemente pelas ruas, parecem tratores humanoides porque possuem rodas. As pessoas nas ruas se assustam e fogem. O diz a D que quer se salvar, mesmo dependendo de I. Ele faz um bilhete e a envia para I.

Jornal: quem não comparecer à Operação, será executado na Máquina do Benfeitor. A nave “Integral” é lançada ao espaço, sai da atmosfera. Os rebeldes estão infiltrados na nave, mas o plano deles é meio desconjuntado. I informa a D que O já está em segurança fora do muro. Os Guardiões sabem do plano e tentam impedir. I acredita que D traiu os rebeldes, mas não foi ele, foi Iu. D ainda tenta arremessar a nave contra o solo, mas o Segundo Construtor consegue evitar.

No dia seguinte, nada funciona, é a Grande Operação para todos. Iu está no quarto dele e ele quer matá-la, mas Iu pensa que ele quer sexo e tira a roupa. Iu confessa que denunciou a trama, mas não revelou o número de I. O Benfeitor telefona e chama D. O Benfeitor: “Você também? Você, o Construtor da “Integral”?” O Benfeitor pergunta: “Sou um carrasco?” e D: “Sim, é”. O Benfeitor faz o discursozinho de sempre dos ditadores, a felicidade humana, e diz que D foi usado pelos rebeldes para conseguirem a nave e que o próprio D ainda vai confessar os nomes deles. D foge dali e vê a Máquina do Benfeitor em funcionamento e grita “salve-me disso, salve-me”.

No dia seguinte, aves invadem a cidade, os rebeldes explodiram o muro, I está em ação na cidade. D se pergunta “quem somos nós, quem são eles, quem sou eu?” Luta entre “eles” e os operados. Ele dorme e acorda com I em seu quarto. Ele diz que esteve com o Benfeitor, ela vai embora para sempre, ainda acreditando na traição dele. Caos nas ruas, o cadáver de R, o poeta. D vai ao Departamento de Guardiões para denunciar, está cheio, filas, ele é recebido na sala de S, que se revela como membro do Mefi. Ele foge, é detido e levado para a Grande Operação.

Depois, vai ao Benfeitor e conta tudo que sabia sobre os rebeldes. “Nenhum delírio, nem metáforas absurdas, nem sentimentos: somente fatos. Porque estou saudável, totalmente, absolutamente saudável. Sorrio e não posso deixar de sorrir: removeram alguma lasca da minha cabeça, ela está leve, vazia.” Naquela noite, torturam “aquela mulher”, I, na presença dele e do Benfeitor. Ela foi colocada em uma câmara da qual retiravam o ar, ela sufocava, morria e era ressuscitada com choques, três vezes, e ela não falou nada. Outros falaram logo. No dia seguinte, a Máquina do Benfeitor funcionará para todos os traidores.

Mas, diz D, “no oeste ainda impera o caos, a gritaria, os cadáveres, as feras e, infelizmente, uma quantidade significativa de números que traíram a razão. Mas, no cruzamento da Avenida 40, conseguimos construir um Muro alto, temporário e elétrico. E tenho esperança de que venceremos. Mais: tenho certeza de que venceremos. Porque a razão deve vencer.

Fim.

Céu vermelho

“Diários incompletos”, de Miguel Heraldo, Editora Todavida, tradução de Herculano Quintanilha, trecho:

“Ontem pedalei até o escritório onde não pisava há setecentos dias – trabalho em casa. Apesar da nossa selvageria, impressiona que existe ciclovia desde a porta do edifício em que moro até a porta do edifício do escritório. A assim chamada Rua dos Estudantes – que é apenas uma travessa estreita entre duas ruas importantes – teve o piso refeito para melhor atender pedestres e ciclistas. Depois de prender a bicicleta no bicicletário do edifício, fui à portaria e o meu cartão de acesso ainda funcionava. A única reunião presencial em dois anos. O trabalho flui melhor em casa. A volta para casa fiz por outras ciclovias, para variar, até juntar naquela mais direta até a porta de casa.

O sol está nascendo por volta das cinco e vinte e quatro. Hoje, saí de casa com a bicicleta às cinco. Na avenida que vai reta na direção leste, no leste, céu vermelho, incialmente, depois alaranjado e amarelado. Belo, belo. Vontade de fotografar, sempre dá, mas, para quê, basta ver, a fotografia é redutora. No porto da cidade, céu cada vez mais claro mas ainda sem sol. Fui para o sul e voltei para o norte com o mar a minha direita, e o sol laranja, enorme, pegando fogo, mil volts de potência, subiu, estava a bola inteira pouquinho acima do horizonte. Perfeito.”

O homem invisível, H. G. Wells, 1897

O homem invisível, H. G. Wells, 1897, Alfaguara, tradução de Braulio Tavares, 216 páginas.

É bacana ler um clássico que é tão entranhado na cultura pop de hoje, e que deu origem a tantos filmes: entre outros, um filme preto e branco de 1933, um com Kevin Bacon – que se chamou “O homem sem sombra” (“Hollow man”) – esse mais recente com Elizabeth Moss, e conhecer o enredo original.

Esta edição tem um bom prefácio de Braulio Tavares, no qual, entre outras coisas, ele define precisamente o personagem principal: arrogante e misantropo. Curiosamente, a arrogância, o fato de ser uma pessoa “do mal” se mantém nos diversos filmes. Braulio alerta para os defeitos do livro, visto que Wells quase não revisava o que escrevia, daí há falhas de continuidade, mudanças inesperadas de estação.

Durante a leitura, a maldade do personagem e a afobação de seus experimentos científicos me remeteram a “O médico e o monstro” (1886), de Robert Louis Stevenson, e “Frankenstein” (1818), de Mary Shelley. Certamente, estes volumes impressionaram Wells e algo deles se encontra aqui. De Stevenson, especificamente, penso que encontra-se o desejo do personagem de praticar atos libidinosos – que ele não chega a realizar – e que são referidos de forma sutil.

O núcleo da história todo mundo conhece, mesmo sem ter lido: um cientista inventa uma forma de se tornar invisível e atormenta a vida de seus concidadãos. Todavia, o romance de Wells avança mais e, ao final, o personagem é castigado.

Gostei como leitura leve, até divertida, mas não é livro de profundidades, é rápido, é esquemático e defeituoso.

Resumo:

Um homem misterioso se hospeda em uma pensão na cidadezinha de Iping, no inverno. O homem não quer que entrem em seus cômodos sem aviso e é antipático com todos. Ele tem a cabeça coberta por ataduras que ele atribui a um acidente. Na sala que ocupa, ele instala um monte de produtos químicos e equipamentos científicos. O dinheiro do homem está acabando e ele, usando da invisibilidade, entra na casa do reverendo e rouba o dinheiro que consegue encontrar. Móveis e portas começam a se movimentar por si mesmos na pensão.

O pessoal da pensão e os habitantes da cidade começam a desconfiar do estranho e durante uma grande confusão descobrem que ele é invisível. O Homem Invisível foge e termina por encontrar o senhor Marvel, um cara meio desocupado, meio preguiçoso e, por meio de ameaças, obriga Marvel a ajudá-lo. Marvel volta a Iping, entra na pensão e o homem invisível consegue entrar em seus aposentos e pegar suas anotações científicas e dinheiro. Entrega tudo a Marvel, mas a população começa a perseguir Marvel como ladrão. O Homem Invisível ataca um monte de gente, quebra janelas, é a maior confusão nas ruas. Marvel e o invisível conseguem fugir. Marvel tenta se livrar do Invisível, mas não consegue.

Eles vão para outra cidade. Em um bar, o Invisível rouba dinheiro e coloca nos bolsos de Marvel. Marvel consegue escapar da vigilância do Invisível e foge correndo pelos campos e entra em outro bar. Um médico, Kemp, que mora perto da cidade vê aquele indivíduo passar correndo na estrada. Depois de mais uma confusão no bar, inclusive com policiais e tiros, Marvel foge novamente e o Invisível é ferido e foge. Ele entra em uma casa em busca de abrigo, curativos e alimentos, e é a casa do médico Kemp – e para ficar mais arranjado, Kemp foi colega de escola do Invisível. Kemp abriga o homem. O Invisível quer encontrar Marvel que está com suas notas e o dinheiro roubado. O médico não se sente seguro e envia um aviso para a polícia.

No dia seguinte, enquanto não chega a polícia, o Invisível conta sua história: as primeiras experiências, o roubo de dinheiro do pai, o suicídio do pai por conta disso, a falta de sentimentos do Invisível, a obsessão. Por fim, ele consegue a fórmula para a invisibilidade. O pessoal da pensão onde mora está desconfiado dele. Ele manda seus livros de notas e seus cheques para uma posta restante, bota fogo no prédio e sai para testar o novo estado. Nas ruas, ele sofre por estar nu e descalço, pelo frio, por quase ser atropelado a todo momento. O invisível entra em uma loja de departamento, espera todos irem embora e pega roupas, acessórios e dinheiro e dorme na loja. Mas no dia seguinte, com roupas, os funcionário o veem e o perseguem. Ele tira as roupas e vai para as ruas novamente, nu, com frio e com fome. Ele entra em uma loja de adereços teatrais, ataca o dono, e rouba roupas, peruca. Depois, recupera suas anotações e cheques, compra material científico e vai para Iping.

Então, o Invisível avisa a Kemp que o quer como ajudante, e que quer instaurar um Reino de Terror, onde as pessoas o obedecerão ou ele vai sair matando – o homem é maluco. A polícia chega, tremenda confusão, o Invisível foge. Ele está sendo caçado em toda a área e, na cidade, mata uma pessoa. E manda um bilhete onde ameaça matar Kemp que se tornou seu inimigo. Kemp chama a polícia novamente, mas o Invisível consegue entrar na casa, ataca Kemp, atira no policial que chegou, Kemp foge e o Invisível o persegue.

Kemp corre para a cidade. Lá, Kemp é ajudado por muitas pessoas que conseguem localizar e atacar o Invisível. O Homem Invisível é morto pelas pessoas e seu corpo morto vai perdendo a invisibilidade. Por fim, sabemos que Marvel usou o dinheiro para abrir uma taverna e de vez em quando admira as anotações do Invisível, ininteligíveis para ele, sonhando em decifrá-las e se tornar invisível um dia. Fim.

Estação Onze, Emily St. John Mandel, 2014

Estação Onze, Emily St. John Mandel, 2014, 320 páginas, tradução de Rubens Figueiredo.

Será que consigo escrever sobre “Estação Onze”? É que foi uma leitura rápida, não fiz anotações. Bem, vamos lá. A leitura é rápida porque o livro prende o leitor, a gente quer acompanhar a história, saber logo o que vai acontecer a seguir e o que aconteceu no passado.

O resumo bem resumido da obra, escrita em 2014, é que uma pandemia de gripe dizima a maior parte de humanidade. Os que sobram, estão vivendo em um mundo sem energia elétrica e combustíveis, sem veículos motorizados, sem vacinas e sem anestesia, uma nova Idade Média. O livro se concentra na região de Toronto e dos Grandes Lagos. Os agrupamentos humanos pós-pandemia são pequenos, gente que se reuniu em torno de um hotel, um posto de gasolina, e que se defende, se ajuda e tenta sobreviver. No meio dessa desesperança, a Sinfonia Itinerante (the Traveling Symphony) é um grupo nômade que leva concertos e peças de Shakespeare às pequenas “vilas”, porque “sobreviver não é suficiente”.

O tema me interessa, evidentemente, adoro ler/ver obras de fim-do-mundo, mesmo aquelas menos elaboradas – como “Blecaute” de Marcelo Rubens Paiva. Será que esse tipo de obras onde o mundo quase acaba por vírus ou evento misterioso é de fato ficção científica? Afinal, nelas a ciência regride quase completamente. Seria um subgênero da FC no qual a ciência fracassa, visto que não foi possível conter aquele vírus/evento?

Recomendo a leitura de “Estação Onze” para quem gosta do gênero-subgênero. É livro dinâmico, interessante do começo ao fim. Claro que há ressalvas na escrita da autora. O leitor experiente logo identifica a técnica por trás da escrita, qual seja contar trechos paralelos de vidas de personagens que irão se cruzar em algum momento. Deste modo, é fácil e até decepcionante perceber de cara que o menino meio estranho vai se tornar o tal profeta maluco. Além de contar de forma paralela, a autora vai contando aos pedaços, o que torna mais difícil compreender a trajetória completa dos personagens – e até dificulta criar empatia por eles.

A rapidez dos acontecimentos também me parece uma falha porque nem dá tempo de sofrer com os personagens, tudo passa muito rápido. Fora Miranda e Kirsten, os personagens são planos, sem profundidade, mal dá para identificar as diferenças entre eles, entre Dieter, Sayid, August, entre as moças da Sinfonia. A maestrina e o diretor de teatro são pouquíssimo explorados – certamente eles teriam muito a contribuir visto serem os fundadores e líderes da Sinfonia. Já toda a história do ator Arthur Leander é dispensável, mas ocupa grande espaço do romance.

A autora abre demais o leque de personagens e acontecimentos para a quantidade de páginas. Talvez fosse necessário o dobro de páginas para aprofundar mais a história. Por exemplo, a trajetória de Jeevan se perde completamente do restante do romance e do resto dos personagens. Jeevan não mantém nenhum relacionamento com o núcleo principal da trama. A trajetória do profeta maluco é pouco explorada, bem como o destino de seus seguidores; a morte do profeta é repentina e fácil demais. Os primeiros anos de Kirsten na pandemia permanecem nebulosos. Como disse, dava para o dobro de páginas ou um segundo volume que até hoje não veio.

O mundo criado pela autora é rico de possibilidades literárias, mas é explorado de forma superficial. A violência esperada e o medo decorrente quase não aparecem na história, a não ser quanto ao profeta. De todo modo, apesar das falhas, um livro que me prendeu do começo ao fim.

Resumo com spoilers.

O ator hollywoodiano Arthur Leander desaba no palco, infartado, durante a representação de “Rei Lear” em Toronto. É socorrido por Jeevan, jovem paramédico, enquanto a atriz mirim de 8 anos, Kirsten, assiste a tudo. Arthur morre. A menina Kirsten é entregue ao irmão de 14 anos porque os pais não foram encontrados. Começa a pandemia de gripe naquele dia. Os pais de Kirsten nunca voltarão para casa. Jeevan recebe de um amigo a informação sobre a pandemia de gripe, compra sete carrinhos de mercadorias e vai para o apartamento do irmão Frank, cadeirante.

Miranda, a primeira ex-mulher de Arthur, recebe telefonema de Clark, amigo de Arthur, com a notícia da morte. Ela está na Malásia a trabalho e vai morrer da gripe dias depois. Clark pega um avião para o enterro de Arthur em Toronto, juntamente com a segunda mulher do ator, Elizabeth, e o filho dela, Tyler, mas o avião é desviado para o aeroporto da fictícia Severn City, por causa da pandemia. Caos no aeroporto. Clark e muitos outros ficaram morando aeroporto. Clark iniciou o Museu da Civilização, com equipamentos e objetos que só funcionavam na época pré-pandemia. Tyler lê o Novo Testamento e a mãe é meio doida, mística, elementos que farão o menino se tornar o doido profeta – mas a autora não nos conta como isso se deu, como foi a vida do menino. Elizabeth e Tyler deixam o aeroporto no Ano Três. No Ano Quinze, Clark recebe de um mercador exemplares de um jornal feito em uma cidade ao norte, New Petoskey. No Ano Dezenove, chegam ao aeroporto Charlie, Jeremy e a filha, fugindo do profeta. Clark percebe que o profeta maluco é o filho de Arthur Leander.

No Ano Vinte, Kirsten percorre a região dos Lagos com a Sinfonia Itinerante. Eles apresentam concertos e peças de Shakespeare nas pequenas localidades. Durante as viagens, eles caçam e procuram alimentos e equipamentos que ainda podem servir. Kirsten e August procuram também livros e revistas. Kirsten possui duas revistas em quadrinhos que lhe foram dadas por Arthur Leander. Ela não sabe, mas as revistas foram elaboradas, desenhadas e publicadas por Miranda. Kirsten não se recorda bem daquela época, início da pandemia, e do primeiro ano na estrada com o irmão.

Na localidade de St. Deborah by the Water, antes um lugar amistoso, eles se deparam com um ambiente tenso, gente mal-encarada. Naquela localidade, um casal da Sinfonia, Charlie e Jeremy, havia ficado, dois anos antes, porque a moça estava grávida. Só que eles não estavam mais lá. Ali agora reinava um fanático maluco místico pedófilo autodenominado profeta, que conta com um bando maluco de seguidores. O tal se achava o tampa, a última luz do mundo, com direito a muitas esposas meninas, o de sempre desses doidos religiosos. Esta localidade era a última cidade a sudoeste do território conhecido pela Sinfonia. Eles são avisados de que não devem permanecer ali. De todo modo, fazem uma apresentação de “Sonhos de uma noite de verão” e fogem logo depois, com medo das ameaças. A Sinfonia desce em direção ao sul desconhecido.

Paralelamente, a autora conta a história do ator Arthur Leander, que não é interessante, tampouco diferente das histórias de Hollywood, muitas mulheres, muitas festas, muitos casamentos fracassados. Ela perde muito tempo com Arthur somente porque Miranda (aquela que fez as histórias em quadrinhos) e o filho de Arthur com a segunda esposa vão ser relevantes na vida de Kirsten.

A autora também volta, em algum momento, para a história de Jeevan. Ele está com o irmão nos primeiros dias da pandemia, sem energia e água nas torneiras. Por volta do dia 50, os mantimentos começam a escassear e ele pensa em como vai conseguir levar o irmão cadeirante pelas ruas e rodovias. O irmão de Jeevan se mata e Jeevan sai caminhando pela margem do lago para oeste. Jeevan vai parar no antigo estado da Virgínia, no Ano Três, em um povoado em torno de um motel. Casa-se no Ano Dez. Como paramédico, ajuda os que precisam de cuidados médicos. No Ano Quinze, aparece uma mulher baleada por um tal profeta. No Ano Vinte, ainda no mesmo lugar, mil e seiscentos quilômetros ao sul do aeroporto, vivendo tranquilamente com a família. Ou seja, um relato que nada acrescenta à história principal.

Em paralelo também, conta-se que Kirsten entrou para a Sinfonia com 14 anos, em alguma cidade perto do rio Auglaize no estado de Ohio, para onde ela foi com o irmão. Nos primeiros dias, ela ficou com o irmão, esperando a volta dos pais. Depois de alguns dias, eles saíram caminhando para o leste e para o sul, deram a volta no Lago Ontário e entraram nos Estados Unidos. Ela não se lembra de nada do primeiro ano, mas parece que foi um ano perigoso e violento para os dois. O irmão dela morre de tétano e ela fica sozinha. Não se explora essa época da vida de Kirsten, que seria muito interessante para os leitores.

De volta ao Ano Vinte, fugindo do profeta doidão, a Sinfonia se afasta daquela cidade viajando por horas e horas. Mas descobrem que uma menina de St. Deborah, Eleanor, 12 anos, havia fugido com eles, escondida em um dos veículos. Ela era noiva do profeta e iria se casar com ele. Ela diz que Charlie e Jeremy fugiram para o Museu da Civilização, um museu que dizem ficar no aeroporto de Severn City. O profeta veio de lá do aeroporto. De noite, Dieter e Sayid, que estavam de vigia afastados do acampamento, desaparecem. Foram capturados pelo profeta maluco e bando. Mais tarde, some mais uma pessoa, Sidney, a clarinetista.

Kirsten e August saem em busca de suprimentos na sede de um campo de golfe e quando retornam a Sinfonia partiu e não há sinal dos veículos. Eles continuam em direção ao aeroporto. A Sinfonia fugiu por outro caminho porque a clarinetista conseguiu escapar do profeta e avisou que haveria emboscada.

Kirsten e August encontram dois caras do bando do profeta conduzindo Sayid. Dieter morreu e Sayid está preso e maltratado. Kirsten e August matam os caras do bando. Dieter, Sayid e a clarinetista foram pegos para serem trocados pela menina de 12 anos noiva do profeta. Kirsten, August e Sayid continuam para o aeroporto mas são alcançados pelo bando do profeta. O profeta vai matar Kirsten, mas um menino do bando mata o profeta primeiro. August mata com flechas outros dois. O menino se mata.

Kirsten e companheiros chegam ao aeroporto onde vivem 320 pessoas no Ano Vinte. Encontram Charlie e Jeremy. Kirsten e Charlie recordam quando, anos antes, entraram em um quarto de criança empoeirado, vazio, e havia um jogo de chá de bonecas arrumado e sem poeira e uma cadeirinha de balanço que se movia lentamente. Fantasmas. A Sinfonia passou cinco semanas no aeroporto e partiu para o sul. Clark pensa que o mundo começa a despertar, de novo, com sinfonias, jornais, eletricidade e, quem sabe, barcos.

A filha perdida, Elena Ferrante

A filha perdida, Elena Ferrante, 2006, tradução de Marcello Lino, 176 páginas.

Uma releitura e gostei mais do que da primeira vez. Fiz a releitura por causa do filme. Falavam que era um bom filme e tal. Assisti e achei ruim, incongruente. A ambientação do filme na Grécia, todos falando inglês, todos estrangeiros, torna tudo falso, artificial, inautêntico. Talvez seja um bom filme para quem não leu o livro. Quem leu o livro sente que as situações são artificiais. Aquela trama só faz sentido com: uma famiglia napolitana perigosa, ameaçadora; uma mulher, professora universitária, que escapou daquele meio e agora mora em Florença. É o contraste entre a cultura e a violência inculta de periferia. No filme, todos são estrangeiros ali na Grécia, não há motivo para tensões, não há motivo para o clima de medo que a famiglia impõe.

Reler é fundamental. Temos pouco tempo de vida, nós, humanos. Por que perder tempo relendo se ainda nem lemos tudo o que queremos? Bom, não vai dar tempo mesmo de ler tudo o que queremos. Reler um bom livro, reler um clássico, não é perda de tempo de leitura. É redescobrir, é repensar, é aprender.

O resumo bem resumido da história é: Leda, professora universitária de origem napolitana mas que vive em Florença, filhas adultas que foram morar com o pai, vai passar férias de verão em uma praia e estabelece uma forte ligação com uma famiglia napolitana ameaçadora, especialmente com Nina, uma jovem mãe. Leda interfere na vida de Nina com consequências para muitos personagens.

Concordo com boa parte do que escrevi quando da primeira leitura. Como disse, agora gostei mais, gostei do livro todo e recomendo a leitura. Não gostei de Leda. De início, estabeleci uma simpatia por ela, mas gradativamente fui sentindo que ela é uma pessoa desagradável e que, apesar de refletir, meditar, rever sua vida, ela comete erros infantis e não sabe explicá-los. Leda também parece não saber se afastar da famiglia: Leda é como o inseto (uma mariposa?) que entra no quarto dela no primeiro dia das férias, atraído pela luz. No caso, a luz dos napolitanos é incendiária, explosiva.

Acerca do título original, “La figlia oscura” seria melhor traduzido por algo como “a filha estranha” ou “a filha obscura” mesmo. Refletiria melhor a situação ambígua que se cria entre Leda e Nina.

Recomendo fortemente o livro, há muito material ali para reflexão, as situações podem ser vistas, discutidas, analisadas sobre diversos aspectos, isso faz um livro essencial. No resumo a seguir, com spoiler, evidentemente, apresento de vez em quando minhas observações.

Resumo:

O livro começa com Leda ferida, sem forças, batendo o carro, quando voltava das férias de verão.

Leda, professora universitária, 48 anos, moradora de Florença, as filhas adultas foram morar com o pai no Canadá. Ela se sente mais leve, melhor humor, corpo mais magro e com uma força suave, livre e sem culpa. Leda tira algumas semanas de férias na costa jônica, onde alugou um pequeno apartamento. Essa escolha já parece um pouco estranha, visto que ela poderia ter escolhido o Adriático, o Tirreno, mas ela foi diretinha para perto de onde ela tinha fugido: a parte mais pobre e violenta da Itália. O nome da personagem, Leda, pode nos dizer algo dos sentimentos dela: a Leda mitológica foi fecundada por Zeus travestido de cisne. A Leda do livro, na juventude, sentia que o peso das filhas cabia somente ela, enquanto o marido exercitava sua potência intelectual e produtiva.

Lá ela é recebida pelo velho Giovanni, 69 anos. Não é o tipo de apartamento que eu alugaria para férias na praia: Leda dirige vinte minutos de carro para chegar a uma praia que a agrade. Na praia há um bar e o jovem Gino é o salva-vidas. Leda lê e curte a praia, mas sua tranquilidade é interrompida por uma grande família napolitana. A jovem mãe Nina, sua filha Elena, Tonino, o marido bem mais velho, Rosaria, a irmã do marido, 42 anos, grávida, o marido de Rosaria, um velho mal-encarado de 60 anos. Em algum momento, Gino avisa a Leda que eles são “pessoas más”.

Nina parecia serena na vida e na sua relação com a filha, uma relação amorosa e perfeita. O oposto do que acontecia com Leda e as filhas. No sábado com a praia cheia de gente, Nina parece encenar o papel da mãe jovem e bela, parece falsa para Leda. O marido de Nina, 40 anos, tem um barrigão cortado ao meio por uma cicatriz. Uma lancha da famiglia penetra na área proibida onde há crianças e velhos. Os napolitanos fazem o que querem. Acontece uma festinha da famiglia na praia e eles pedem que as pessoas troquem de lugar para ficarem juntos. Leda se recusa a mudar de lugar. Rosaria leva um pedaço de bolo para Leda. Esta pensa que foi uma bobagem se recusar a mudar, uma implicância de quem se acha melhor do que os outros.

Na volta para o carro, uma pinha bate com toda a força nas costas de Leda, caída ou atirada. Sábado à noite, a cidade cheia de turistas, Leda prefere comer um salgado e uma cerveja no bar. Giovanni se chega e simula intimidade com ela. Leda acha até divertido, ele é um velho enxuto. Noite mal dormida e ela vai à praia no domingo. Por que vai a mesma praia onde se sentiu ameaçada? São milhares de praias na costa. Naquele domingo, Nina se perde de Elena, todos procuram a menina na praia, Leda a encontra e a devolve à mãe. Todavia, Leda colocou a boneca da menina e a levou para casa. Ato infantil, sem sentido. A menina está inconsolável sem a boneca.

Leda lembra de uma boneca que tinha e que deu à filha mais velha, a qual não valorizou o presente. Leda quer punir a filha por meio da menina? Leda quer punir Nina por ter uma relação estranha com a filha? Chove na tarde do domingo, ela janta com Gino em um restaurante e obtém mais informações sobre a perigosa famiglia. Segunda-feira de chuva, Leda vai a uma loja de brinquedos e compra roupinhas para a boneca. Encontra Nina e a filha na loja, a menina faz malcriações, Leda analisa os comportamentos de Nina, a menina e Rosaria. Revela que abandonou as filhas pequenas por três anos, algo que nunca fez para estranhos. É como se quisesse influenciar Nina, mostrar o exemplo, o caminho.

Leda medita sobre as filhas, caminha na praia. Recorda do casal meio hippie que conheceu na juventude com o marido. Aquele casal se apaixonou e ambos abandonaram suas famílias e filhos, Leda ficou extasiada (apaixonada?) por Brenda. “Preciso ir embora”, é o que Leda sentia na época. Na praia, entre os pinheiros, vê Nina com Gino. Quando Leda voltou para as filhas depois de três anos de abandono, os dias voltaram a ser pesados.

Depois de conhecer o casal hippie, houve um congresso de literatura inglesa, e Leda foi atraída pelo professor Hardy, que elogiara o artigo de Leda em uma palestra. O artigo de Leda chegou ao professor por meio de Brenda. É como se Brenda apontasse um caminho possível. Leda deixa o marido e as filhas sem dó, vai cuidar da própria vida.

No apartamento, Giovanni a visita e cozinha peixe para os dois; vinho e conversa calma de “discursos batidos”. Leda quer ser – e se considera – muito diferente das “pessoas comuns”. Dia de feira, encontra com Nina (transferência: Nina é Leda, Nina é a filha de Leda, Nina é alguém que Leda pode “salvar”, a Leda jovem). Nina está cansada de tudo, mas naquela famiglia ou fica ou morre. Nina beija a boca de Leda, levemente. Em casa, Leda faz um parto na boneca, extrai água suja e uma minhoca.

Na praia, observa que Nina está cada dia mais tensa (é o efeito de Leda sobre ela). Leda e Gino (!) esperam migalhas de Nina, ocupada com o marido e a filha. Leda se sente ameaçada pelos jovens arruaceiros da famiglia. Ela deve ser motivo de conversas, repulsa e estranhamentos. Atos obscuros geram mais atos obscuros. Obscuro: estranho, nebuloso. A escolha da palavra “oscura” não é à toa. Afinal, o grande poeta florentino, Dante, assim começa sua Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarrita.”

Baile na praça, Leda dança com Giovanni e com Gino. Depois, Giovanni posta-se orgulhosamente ao lado da famiglia. Gino pede para usar o apartamento de Leda em encontros com Nina, foi Nina que mandou pedir. Leda quer falar diretamente com Nina. Leda pensa sobre atender pedidos das filhas e sobre Nina e o pedido. O fio entre ela e Nina. Leda ajudaria na “válvula de escape” de Nina, o caso com Gino, Leda seria a figura de potência que daria a “permissão para fugir” ou mesmo a ajuda necessária. Com que direito Leda se meteu na vida de Nina?

Nina vai ao apartamento de Leda: “não aguento mais”, “não sei como sou por dentro”, “quero fugir”. Sexo com Gino vai ser apenas um sucedâneo da fuga. Neste ponto, Nina está mais semelhante à Leda jovem, insatisfeita, agoniada. Leda devolve a boneca. Por quê devolve? Por que roubou? “Você lê tudo e sabe tudo e não sabe por que pegou a boneca?” “Sou uma mãe desnaturada”, diz Leda. Nina enfia o alfinete pelas costas de Leda, saindo na barriga. Aqui emerge a Nina autêntica, a que está entranhada na famiglia. Pega as chaves e a boneca e vai embora – levou as chaves do apartamento, importante, vai se divertir no resto do verão, arriscando o pescocinho. Leda se prepara para ir embora, as filhas telefonam, ela diz que está bem. Depois de sua partida vai acontecer o acidente de automóvel do primeiro capítulo. Fim.

Nação crioula, José Eduardo Agualusa

Nação crioula, José Eduardo Agualusa, 1998, 160 páginas.

Fradique Mendes é um personagem criado por Eça de Queiroz e mais um grupo de escritores. “Poeta fictício, é um personagem excêntrico e irreverente, culto, viajado, aventureiro”. Fradique viajou por inúmeras partes do globo, envolveu-se em batalhas que não eram suas, conheceu os grandes da época, Victor Hugo, Garibaldi, Bakunin.

Agualusa pega o personagem de Eça e segue o mesmo tom, o que resultou em uma novela epistolar leve, aventurosa. Todavia, o tema principal – a escravidão – me parece pesado demais para o tom que Agualusa adotou. Nesta novela, nada é pungente, nada é doloroso mesmo quando deveria ser doloroso, porque com Fradique as situações parecem apenas uma listagem de aventuras.

Não sei se Agualusa leu ou se inspirou no péssimo livro “A escrava Isaura”, mas há diversos pontos de contato entre a história de Isaura e a de Ana Olímpia (uma quase não-escrava educada e refinada que volta a ser escravizada, o aprisionamento e isolamento dela, a estada e o baile em Recife).

Talvez, pelo nome do livro e pelo tema, eu esperasse mais e fiquei decepcionado. Como não conhecia o personagem Fradique Mendes e sua vida fantástica, não esperava uma história que margeia o fantástico.

Resumo:

1868: Fradique chega a Luanda e se hospeda na casa do rico Arcênio. Ouve os casos da cidade e conhece as figuras mais importantes do lugar. “A acreditar no que tenho ouvido não existe nesta cidade um único homem honesto, esposa fiel, donzela recatada.” Gabriela Santamarinha, uma velha escravocrata rica fofoqueira e perversa conhecida como Boca Maldita. Ana Olímpia, ex-escrava que casou aos 14 anos com seu proprietário, o velho Victorino, e foi excepcionalmente educada.

1872: Doente no interior de Angola onde fazia explorações, Fradique conhece o padre Nicolau dos Anjos, milagreiro, preto e anão. Ana Olímpia está viúva e administra a riqueza do falecido marido; e a imagem que o autor nos dá é semelhante àquele que aqui nos acostumamos ver no personagem Painho de Chico Anysio: “Ana Olímpia recebe os seus convidados sentada numa alta cadeira de vime e rodeada pelas suas molecas, que a aliviam do calor sacudindo leves leques de sândalo, e em tudo a servem rápidas e graciosas.” De Paris, Fradique escreve para Ana e sugere que houve sexo entre eles: “Quando me perguntaste, respirando exausta o mesmo ar que eu – e agora? – não soube o que responder”.

1873: Eles decidem não decidir: não assumir o romance tampouco modificar suas vidas.

1876: Em Lisboa, Fradique recebe a notícia de que Ana Olímpia voltou a ser escravizada porque um tal Jesuíno, o irmão de Victorino, chegou a Luanda e tomou posse das riquezas do irmão – e como Ana não possuía carta de alforria… Jesuíno cede a escrava Ana para Gabriela Santamarinha que a isola em um calabouço, acorrentada e maltratada. Fradique em Luanda: o velho Arcênio quer matar Jesuíno, mas é assassinado à traição. E, como convém a um personagem-vapor como Fradique, tudo se resolve em uma noite quando ele está dormindo. Arcênio filho invade a casa de Jesuíno, duelam e o mata; depois invade a casa de Santamarinha e liberta Ana Olímpia. Resta a Fradique receber e abraçar uma Ana Olímpia muda e traumatizada. Todos fogem em um navio negreiro, o Nação Crioula, para Pernambuco. Mas não é um navio negreiro do mal: nele seguem apenas trinta escravos – quando o costume era apinhar mais de quatrocentos – e os escravizados podem subir de quando em quando para respirar o ar marinho. Eles desembarcam no Porto das Galinhas, onde os escravos são vendidos e seguem para Olinda.

1877: a vida em Olinda, um baile em Recife. Fradique vai para a Bahia e, mesmo em dúvida, compra uma fazenda. Lá vai morar com Ana e aí contam-se casos dos negros escravizados. Fradique e Ana libertam todos os escravos da fazenda e os contratam, oferecendo ainda saúde e educação. Há um negro muito velho, Cornélio, que não quer ser contratado e vai embora para a África. A fazenda é visitada por José do Patrocínio e Luiz Gama. Depois, Fradique recebe ameaças de poderosos da região. Mesmo assim, como um bom irresponsável, ele deixa Ana na fazenda e vai para o Rio, para reuniões abolicionistas. Na barca de Niterói, sofre uma frustrada tentativa de assassinato. Fradique embarca para Lisboa levando documentos que visam escandalizar a Europa acerca da escravidão no Brasil. No navio, percebe que sua mala foi roubada e deixaram uma outra contendo a cabeça do negro Cornélio – coitado, não tinha nada a ver com a história e Agualusa o matou cruelmente. Mesmo assim, sem documentos importantes nem nada, Fradique viaja. Meses depois, curtindo a vida em Portugal com Eça e amigos, lembra de avisar a Ana Olímpia que tenha cuidado com a vida! Em Lisboa, ainda na pândega, Fradique salva um homem de ser atropelado e o homem era o matador da barca que ainda estava atrás dele. O matador desiste de matá-lo e tomam umas cervejas. Fradique vai para Paris curtir a vida e convida Ana para ir também. Ela o encontra em Paris.

1878: Sem explicação de motivo, Ana volta ao Brasil, ele fica em Paris e, meses depois, Fradique é comunicado de que ela está grávida. Ele vai para o Brasil e a filha deles nasce na Bahia.

1888: Novamente em Paris fazendo sabe-se lá o quê sem Ana, ele morre no inverno de pleurisia.

1900: Ana Olímpia, de Luanda, escreve uma carta para Eça em que reconta – com pouca variação e poucos detalhes a mais – a história dela e de Fradique. Victorino, o falecido, dizia de Fradique: “Aquilo não é um homem, é uma invenção literária”, o que, evidentemente, é a pura verdade. Ao final, Ana, depois de voltar para Luanda, casou-se com Arcênio filho, aquele que sempre a amara e que a libertara do cativeiro enquanto Fradique dormia. Uma grande piada essa novela.

Rimas da vida e da morte, Amós Oz

Rimas da vida e da morte, Amós Oz, 2007, tradução de Paulo Geiger, 118 páginas.

Li faz tempo “A caixa-preta”, do mesmo autor, e gostei muito. Este “Rimas” não está no mesmo patamar. Deixa-se ler e não é ruim. Mas é aborrecido e não sai do canto. Parece que o próprio autor estava em crise sem saber o que escrever e inventou este texto. Nele há um escritor que observa as pessoas de seu entorno e cria biografias e histórias em torno delas. A novela não resulta, não atinge qualquer objetivo. A melhor parte é encontro sexual entre o escritor e a personagem Ruchale, real ou imaginário. De todo modo, vale a pena, há bons trechos e boas reflexões.

Resumo:

Um escritor vai dar uma palestra em um centro comunitário, chega antes, vai a um café. Ele antevê as perguntas repetidas de sempre que se fazem aos escritores naquele tipo de encontro. O escritor imagina nomes e histórias para a garçonete e alguns clientes.

Na palestra, cita-se o livro “Rimas da vida e da morte” de um poeta israelense quase esquecido – livro e poeta inventados, como fazia Borges. O escritor lança um olhar cruel sobre a plateia e imagina as vidas medíocres e miseráveis de alguns dos espectadores. As vidas inventadas do pessoal do café e do pessoal da palestra vão sendo elaboradas pelo escritor ao longo do livro, de forma incompleta e sem um objetivo específico – como se o autor, ou o escritor, estivessem mostrando como se criam personagens e histórias.

Alguns trechos do livro do escritor são lidos durante a palestra por Ruchale, uma leitora “profissional”. Ao final da palestra, o escritor tenta seduzir Ruchale em uma pequena caminhada pela vizinhança, mas desiste. Ruchale mora só em um apartamento quase em frente ao centro comunitário.

O escritor descreve então como volta ao prédio de Ruchale, mais tarde, e vai ao apartamento dela. Ruchale tem uma coleção de quase duzentas caixas de fósforos de hotéis de diversos países, hotéis e países em que nunca esteve. Isto me fez recordar “O Museu da Inocência” de Orhan Pamuk. A melhor parte do livro surge quando o autor-escritor narra o medo de Ruchale (peitos quase inexistentes), medo do escritor, de falhar, de murchar. Entre subidas e descidas, o escritor consegue fazer Ruchale gozar com a boca, mas murcha de vez e vai embora.

O escritor caminha pelas ruas e medita sobre os personagens, a razão de escrever, por que escrever, para quê descrever as coisas – a crise do autor-escritor. Ele continua a tecer hábitos, características, detalhes dos personagens, mas isso não resulta, nem atrai muito interesse. O homem desempregado que cuida da mãe doente e dorme na mesma cama que ela. O jovem que se julga poeta e que esperava a ajuda e o olhar do escritor. O escritor tem ânsia de vômito ao imaginar o homem cuidando da mãe doente.

O autor-escritor descreve como Ruchale passou a noite só e melancólica – outra situação possível. O escritor se deita para dormir, são quatro horas da manhã. Descobre no jornal que o poeta do livro “Rimas” morreu no dia anterior aos 97 anos. Fim.

Trechos:

“E às vezes ele publicava um curto epigrama sobre mortos já esquecidos por todos e só raramente lembrados por seus filhos e netos, e mesmo essa lembrança não era mais do que uma sombra passageira, pois com a morte da última pessoa que se lembra dele o morto morrerá uma segunda morte, uma derradeira morte, como se não tivesse vivido.”

“[…] até que seus dedos saíram à procura dos seios dela por cima do tecido da camisola e ela tomou e encerrou na palma da mão os dedos tateantes e os afastou desse peito pequeno que só a envergonha sempre toda a vida. E como que lhe dando uma compensação imediata por esse afastamento, com a mão conduziu-lhe os dedos e os pousou em seu ventre.”

“Ele, por seu lado, tinha medo – como sempre – do próprio desejo, capaz de murchar de repente sem aviso prévio, como já lhe acontecera algumas vezes, e como ele iria encarar isso? O que ela iria pensar de si mesma? E dele?”