Nova tradução de Hamlet

A Folha de São Paulo fala em uma nova tradução de Hamlet por Geraldo Carneiro. Este diz que “todas as escolhas foram em direção ao melhor entendimento”. Só consultando a obra para saber se é boa a tradução. O tradutor diz, ainda, que gostaria de uma futura edição bilíngue. Isto é essencial para Shakespeare, penso, e que cada edição contenha muitas notas. A tradução de Lawrence Flores Pereira me pareceu muito boa e as notas muito interessantes e elucidativas.

Fiquei pensando que não se deveria “atualizar” a linguagem de Shakespeare visto que alguns dos temas tratados são próprios da época. Daí, a linguagem pomposa se relaciona bem com as questões. Ficaria estranho falar de pureza e virgindade (Ofélia) e do absurdo desejo sexual em uma mulher mais velha (Gertrudes) em linguagem atual.

Sonho com Isabel

O sonho com Isabel. Foi um sonho dentro de outro sonho, muito estranho. Eu não era bem eu e Isabel não era bem Isabel, mas semelhantes. Outras vidas, outros universos, até melhores do que esse aqui.

Ele aportava em uma baía luminosa com muitos veleiros, água azul do mar, dia de sol. A cidade subia pelas colinas em volta da baía. Como era sonho, ele viu a baía lá de baixo, na chegada, no cais de madeira do porto, e quase ao mesmo tempo, percebia a baía vista de cima, os veleiros ancorados. Ele subiu as ladeiras da cidade correndo. Uma cidade como Granada, que não é perto do mar mas tem colinas, uma cidade como São Francisco, e menos como Olinda, que não tem uma baía. Uma cidade antiga, como as cidades portuguesas. Subia uma ladeira correndo sem sentir cansaço nem o peso do corpo, leve, leve. Uma moça subia pedalando e desistiu no meio da ladeira, desceu da bicicleta e empurrou, e ele seguiu correndo leve. Paralelepípedos. No topo de uma ladeira, escadarias como em Granada continuavam a subida. Ele subia ansioso, levava um pequeno pacote, um presente simples para ela.

A casa dela era lá em cima, em cima, uma rua quase plana, e paralela à baía lá em baixo. A casa dela era na esquina, ela morava no andar de cima de uma casa antiga, um apartamento pequeno; para chegar no primeiro pavimento havia uma escada externa com guarda-corpo de ferro trabalhado, tudo antigo. Ele notou que estava tudo fechado em cima, olhou na esquina, foi para lá e para cá, dobrou a esquina de novo e, quando voltou à rua principal, ela subia a escada, já ia pelo meio. Ela usava uma blusa vermelha colada, os peitos pequenos que ele conhecia bem, uma saia curta de jeans. Os cabelos estavam diferentes, não lisos, não os de sempre, e ele nem achou estranho, estavam ondulados. Ela sorriu, subia com uma amiga, acenou para que ele subisse, ele pulou degraus e foi entrando no apartamento com ela e a amiga, que ele não conhecia.

Ela abriu as janelas, o piso era de madeira escura, como o das casas de Olinda e Ouro Preto. Ele chegava de viagem, como um marinheiro, mas ele nunca fora marinheiro na vida, tampouco velejava na vida, sabia nada de barcos, sonho é assim. Falaram da viagem, ele entregou o presente, algo que trouxera de longe, não ficava claro o que era, um artesanato de uma ilha distante, um livro, quem sabe. Nada valioso, somente mostrar que a mantivera no pensamento. A amiga dela fez um comentário, dirigindo-se a ela, foi como “ele ganhou pontos com você”. E ela disse desse modo “ele não precisa ganhar pontos, ele já tem todos os pontos necessários”.

Daí, ela começou a cuidar da casa, arrumar alguns objetos, frutas, compras, não se sabe, e colocou roupas na máquina de lavar; os móveis e equipamentos estavam todos mais ou menos no cômodo principal, e havia ainda um quarto ou dois. A máquina ficava perto de uma prateleira de madeira antiga. Com um canivete suíço, ele gravou algumas palavras na parte de baixo da madeira antiga, sem que ela visse, em um momento no qual ela foi ao quarto. A frase, quem sabe o que diria, talvez “eu estive aqui”, ou algo mais romântico, algo de saudade.

Eles se despediram sem beijos, nada grandioso, um roçar de rostos, nariz. Ele foi para a casa dele, não era longe, ela ficou cuidando das coisas da casa. Então, ele acordou na casa dele e percebeu que fora um sonho. Mas, ele sabia, era verdade, ela existia e morava ali perto na casa do sonho e eles moravam naquela cidade do sonho. Ele telefonou para ela e contou o sonho, ela gostou do sonho dele, e ele contou que, absurdo, no sonho, havia gravado palavras na madeira antiga que havia por trás da máquina de lavar roupa, ora ele nunca faria isso acordado, riscar uma madeira. Ao telefone ainda, ela foi até a máquina de lavar, puxou-a para a frente e encontrou ali atrás as palavras que ele em sonho rabiscara.

Então, ele acordou do sonho e se viu na vida real, essa aqui sem graça e cinza, sem veleiros, sem baía, sem blusa vermelha, presentes, madeira, nada.

Fanfic, Braulio Tavares

Fanfic, Braulio Tavares.

Coleção de contos de Braulio Tavares, parcialmente inspirados nos autores favoritos dele. Não apenas uma homenagem ou extensão de histórias alheias, mas contos bastante criativos e, muita vez, com muito humor. A qualidade dos contos independe da filiação a algum autor, todavia é divertido tentar identificar a possível homenagem. Lido em um dia de sábado. 

Finegão Zuera: escrito no modo Joyce, aparece o Trupizupe, um alter ego de BT.

O homem que perdeu seu reflexo: a história de Ladislau, que desafiou um poderoso e foi sendo gradativamente apagado da história. Modo 1984.

Haxan: meio distopia futurista, meio Rubem Fonseca e Bradbury, mistura tecnologia e miséria (em sentido amplo).

Sete Ovnis: puro Braulio Tavares, como ele costuma fazer no blog.

Fenda no espaço tempo: Seu Claudionor, ótimo, e os caras que aparecem por engano lá pelas brenhas do interior. Vôte.

Concerto noturno: tom de pesadelo, soturno e ameaçador, algo de Poe e Lovecraft.

A estética eliminacionista: idéia curiosa que me fez pensar em certo tipo de arte contemporânea.

The ghost in the machine: um dos melhores. As diversas civilizações interplanetárias e a dificuldade de convivência pacífica. A saudação terrestre é excelente: “amigos leais, bravos inimigos, paz no futuro, glória no passado”. O fantasma feito de memórias perdidas. Asimov. As notas ao texto compõem quase um conto à parte. Pensei em um livro no qual as notas ocupem tanto espaço quanto o próprio enredo.

Universos tangenciais: recursivo; o personagem cai de um sonho para outro e outro.

A arca: um exercício de aliterações. Pareceu-me que Anna matou Alan, mas havia apagado o fato da memória.

A demanda do bosque sombrio: algo como um Dom Quixote e o sertão nordestino.

A propósito da difração quântica nas regiões periféricas da consciência: de início, parece ficção científica, mas resulta na capacidade de não ver a situação miserável de um país/cidade.

Um só seu filho: um papa tem um encontro místico na última noite de vida.

A república do recurso infinito: misto de pesadelo kafkiano com erros da Matrix.

No labirinto: um dia comum de trabalho para um tradutor-escritor.

O vale da maldição: muito bom. Tem algo de Planeta dos Macacos e de Piquenique à beira da estrada. O perigo do conhecimento parcial juntamente com a descrença nas lendas.

Gronk: intercâmbio escolar entre diferentes civilizações planetárias.

Aquele de nós: aquele que escreve o faz porque teve permissão “do alto”, “dos criadores do jogo”, para revelar ínfimas partes do mistério.

O polvo: a forma da água em diapasão mais cruel e divertido.

A ilha ao meio: estranho. Lembrou-me algo de Comando Sul. Uma ilha artificialmente cortada ao meio gera universos incomunicáveis.

Frankenstadt: tem algo de jogador número um, Blade Runner, o personagem busca respostas e busca também “os criadores”. Mary Shelley.

O molusco e o transatlântico: “se eu estivesse aqui sozinho, começaria a pensar que era minha mente que estava criando o Universo, que girava devagar em volta daquela nave imóvel no vácuo”. Algo de Clarke. Um dos melhores. Um pesquisador brasileiro na estação espacial é levado para testes em uma nave alienígena. Definitivamente.

Hamlet

“É um risco que alguém de baixa estirpe se meta entre os golpes e feras pontas abrasadas de opostos poderosos.”

Hamlet traduz para uma linguagem sofisticada o dito popular “em briga de cachorro grande, quem mete a mão acaba mordido” ou “em briga de cachorro grande, vira-lata fica calado”.

Macbeth, Ato 1, Cena 3

Como exercício, inventei de traduzir mais uma cena de Macbeth. É difícil para mim, mas o resultado é prazeroso e traz grande aprendizado sobre a obra e os personagens.

Ato 1, Cena 3.
Uma charneca perto de Forres.
(Trovão. Entram as três feiticeiras.)

Primeira feiticeira
Por onde tu tens estado, irmã?

Segunda feiticeira
Matando suínos.

Terceira feiticeira
E tu, irmã?

Primeira feiticeira
A esposa de um marinheiro trazia castanhas no colo,
E mastigava, e mastigava, e mastigava:
– “Dê-me”, eu disse:
“Não são para ti, bruxa” gritou a gorda sarnenta.
O marido dela está indo para Alepo, Tigre é seu navio:
Em uma peneira eu navegarei para lá, (1)
E como um rato sem rabo,
Eu vou roer, eu vou roer, e eu vou roer.

Segunda feiticeira
Eu te darei um vento.

Primeira feiticeira
Que gentileza.

Terceira feiticeira
E eu te darei outro.

Primeira feiticeira
Eu mesma tenho outros;
E por muitos portos eles sopram,
De todos os cantos conhecidos
No mapa do marinheiro.
Eu o secarei como uma palha:
Ele não dormirá dia e noite
Suas pálpebras sempre abertas;
Se tornará um homem condenado:
Fatigado sete noites nove vezes nove
Ele enfraquecerá, sobe, desce, sobe:
Embora o barco não se perca,
A tempestade será inclemente.
Olhem o que eu tenho.

Segunda feiticeira
Mostra, mostra.

Primeira feiticeira
Tenho aqui o polegar de um piloto,
Que naufragou quando ia para casa.

(Som de tambor)

Terceira feiticeira
Um tambor, um tambor!
Macbeth chega.

Todas
As irmãs videntes de mãos dadas,
Viajantes do mar e da terra,
Então irão sobre, sobre:
Três vezes para vós, e três vezes para nós,
E três vezes de novo, para completar nove:
– Paz! – o feitiço foi lançado.

(Entram Macbeth e Banquo. Soldados a alguma distância.)

Macbeth
Um dia tão detestável e tão justo ainda não tinha visto.

Banquo
Quanto falta para Forres? Quem são aquelas
Tão secas e tão selvagens em suas vestes,
Que não parecem habitantes da terra,
E ainda assim estão sobre ela? Estão vivas? Ou são algo
Que pode nos intrigar? Vocês parecem me compreender,
Pois seus dedos rachados cobrem
Seus lábios finos: – poderiam ser mulheres,
Mas suas barbas me proíbem julgar
Que o são.

Macbeth
Falem se conseguem; o que são vocês?

Primeira feiticeira
Salve ambos. Salve, Macbeth, thane de Glamis!

Segunda feiticeira
Salve ambos. Salve, Macbeth, thane de Cawdor!

Terceira feiticeira
Salve todos, Macbeth, que será rei no futuro!

Banquo
Bom senhor, por que parece temer
Coisas que soam tão belas? Em nome da verdade,
São vocês sobrenaturais, ou aquilo que de fato
A aparência nos mostra? Meu nobre companheiro
Vocês agradaram com essa dádiva, e grandes previsões
De nobreza e de real esperança
Que ele parece extremamente fascinado: para mim, não falaram:
Se vocês podem olhar nas sementes do tempo,
E dizer qual grão vingará e qual não,
Falem, então, para mim, que não imploro nem temo
seus favores tampouco seu ódio.

Primeira feiticeira
Salve!

Segunda feiticeira
Salve!

Terceira feiticeira
Salve!

Primeira feiticeira
Menor que Macbeth, e maior.

Segunda feiticeira
Não tão feliz, e muito mais feliz.

Terceira feiticeira
Tu farás reis, mas não serás nada:
Então, salve ambos, Macbeth e Banquo.

Primeira feiticeira
Banquo e Macbeth, salve!

Macbeth

Fiquem, falantes imperfeitas, contem-me mais:
Pela morte de Sinel, sei que sou o thane de Glamis; (2)
Mas como de Cawdor? O thane de Cawdor vive, (3)
Um próspero cavalheiro; e ser rei
Está fora da possibilidade de crença
Não mais que ser Cawdor. Digam de onde
Tiraram esse estranho conhecimento? Ou por que
Nesta insípida charneca interromperam nosso caminho
Com tais bem-aventuranças proféticas? Falem, eu ordeno.

(As feiticeiras desaparecem.)

Banquo
A terra tem bolhas, como a água tem,
E estas são delas: como desapareceram?

Macbeth
No ar; e aquilo que parecia corpóreo misturou-se
Como a respiração ao vento. Elas deviam ter ficado!

Banquo
Tais coisas estiveram aqui e falamos com elas?
Ou comemos raízes maléficas
Que deixam prisioneira a razão?

Macbeth
Teus filhos serão reis.

Banquo
Tu serás rei.

Macbeth
E thane de Cawdor também, não foi isso?

Banquo
Com o mesmo tom e as mesmas palavras.
Quem vem lá?

(Entram Ross e Angus.)

Ross
O rei recebeu com felicidade, Macbeth,
As notícias do teu sucesso: e quando ele soube
Da tua ventura pessoal na luta contra os rebeldes,
A admiração e gratidão dele combateram
Acerca de qual deveria ser tua, qual deveria ser dele; emudecido,
Em vista de tudo que aconteceu naquele dia,
Ele soube de ti nas difíceis posições norueguesas,
Sem temor daquilo que tu fizeste, (4)
Estranhas imagens da morte. Tão espesso quanto granizo
Veio mensagem após mensagem; e cada uma confirmou
Teu empenho na imensa defesa do reino dele,
E submeteste a todos perante o rei.

Angus
Nós fomos enviados
Para te dar os agradecimentos de sua real majestade;
Somente para te agradecer no lugar dele,
Não para te pagar.

Ross
E para cúmulo de uma honra imensa,
Ele me ordenou, da parte dele, chamar-te thane de Cawdor:
O mais valoroso thane, salve, adiciona mais um
Título aos teus.

Banquo
(À parte.) Como é possível que o demônio fale a verdade?

Macbeth
O thane de Cawdor vive: por que você me veste
Com roupas de empréstimo?

Angus
Aquele que foi o thane ainda vive;
Mas sob severo julgamento confirmou que tal vida
Serve-lhe somente para perdê-la. Se ele estava aliado
Com aqueles da Noruega, ou alinhou-se aos rebeldes
Com secreta ajuda e vantagem, ou com ambos
Trabalhou para a derrocada de seu país, eu não sei.
Todavia traições capitais, confessadas e provadas,
Caíram sobre ele.

Macbeth

(À parte.) Glamis, e thane de Cawdor!
O melhor está por vir. (Para Ross e Angus.)
Meus agradecimentos pelo incômodo.
(Para Banquo, à parte.) Tu agora esperas que teus filhos se tornem reis,
Visto que aquelas que me deram o thane de Cawdor
Não prometeram menos para eles?

Banquo
(À parte para Macbeth) Aquilo, caro senhor,
Pode ainda inspirá-lo para a coroa,
Além de thane de Cawdor. Mas é estranho:
Frequentemente, para nos levar à destruição
Os instrumentos das trevas nos falam verdades;
Convencem-nos com honestas ninharias, para nos afundar
Em severas consequências.
Primos, uma palavra, eu peço.

Macbeth
(À parte) Duas verdades foram previstas,
Como feliz prólogo para o expansivo ato
Do tema imperial.
Eu agradeço a vocês, cavalheiros.
(À parte) Este sobrenatural convite
Não pode ser mau; não pode ser bom: se mau,
Por que me teriam dado a prova do sucesso,
Iniciando pela verdade? Eu sou thane de Cawdor:
Se bom, porque produziriam tal sugestão
Cuja terrível imagem faz arrepiar meu cabelo,
E faz meu coração se chocar com as costelas
Contra o costume natural? Os temores presentes
São menores que as horríveis fantasias:
Meu pensamento, no qual o assassinato ainda é fantástico,
Sacode minha solitária condição de homem, cuja função
É sufocada no pressentimento; e nada é
Tampouco não é.

Banquo

Olhem, como nosso companheiro está fascinado.

Macbeth
(À parte) Se o acaso me quer rei, o acaso
Deve me coroar,
Sem meu movimento.

Banquo
Novas honrarias caem sobre ele
Como estranhas armaduras, não apegadas ao modelo
Mas com a ajuda do costume.

Macbeth
(À parte) Aconteça o que acontecer,
O tempo e a hora passam até pelo mais difícil dia.

Banquo
Honorável Macbeth, permanecemos a seu dispor.

Macbeth
Perdoem-me: meu tolo cérebro estava tomado
Com coisas esquecidas. Gentis cavalheiros, seus préstimos
Estão registrados e a cada dia eu voltarei
A página para lê-los. Vamos ao rei.
(Para Banquo) Medite sobre os acontecimentos e, mais tarde,
Havendo sopesado-os, conversaremos
Com nossos corações abertos um para o outro.

Banquo
Com muito prazer.

Macbeth
Até lá então. Vamos, amigos.

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(1) Peneiras faziam parte da cozinha de uma feiticeira. Um texto de 1591, Newes from Scotland, relata que duzentas feiticeiras de uma vez atravessaram o mar em suas peneiras.

(2) Sinel foi o pai de Macbeth do qual ele herdou o título de thane de Glamis.

(3) Deve ser erro de continuidade visto que Macbeth deveria saber sobre a traição de Cawdor.

(4) As estranhas imagens da morte são os corpos que restaram nos campos de batalhas.