Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet, 2015

Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet, 2015, 408 páginas, tradução de Rosa Freire d’Aguiar, Companhia das Letras.

Não gostei do tom adotado pelo autor, nem da pretensa sabedoria dele, citações em demasia, semiologia, linguística, filosofia. Tudo raso demais. Irreal demais. O título em francês é A sétima função da linguagem. Livro quase inútil.

Resumo: A sétima função da linguagem consiste em uma técnica, ou fórmula mágica, que possibilita convencer os outros com facilidade, ou algo semelhante. Jakobson a descobriu e passou para Barthes. Mitterrand a obteve. Giscard d’Estaing e outros também a querem. Barthes é atropelado para roubarem a sétima função. A confusão toda deriva desse enredo tolo. Substitua “sétima função” por “projeto de arma nuclear”, substitua a xaropada filosófica e semiológica por funções matemáticas e físicas, noções mal explicadas de física nuclear e se saberá o que esse livro tenta ser: um enredozinho de detetive e perseguições misturado com lambidas de falsa erudição. E convenhamos, esse pessoal de semiologia, linguística e afins é de uma baboseira e sexo dos anjos sem tamanho.

Segue a estrutura do livro.

Primeira parte. Paris.

1. Roland Barthes sai de almoço com Mitterrand, caminha distraído e é atropelado.

2. Semiologia.

3. Atropelamento.

4. Roland Barthes e a semiologia.

5. Delegado Bayard no hospital, Barthes passa bem.

6. Delegado pensa.

7. Bayard na aula de Foucault, conversa com Foucault.

8. Bayard consulta livros sobre Barthes.

9. Bayard procura professor de semiologia em Vincennes.

10. Aula de semiologia, James Bond, professor Simon Herzog.

11. Bayard conversa com Simon.

12. Simon convertido em auxiliar de Bayard, visitam o apartamento de Barthes.

13. No Café de Flore.

14. Na sauna gay, Foucault e Hamed.

15. Hamed costuma passear com Barthes e ser recebido no apartamento.

16. No hospital, Barthes no chão, piora em seu estado.

17. Hamed pelas ruas.

18. Entrevista de Bayard e Simon com Deleuze.

19. Estresse de Simon.

20. Com o presidente Giscard d’Estaing.

21. Hamed em uma festa.

22. Mitterrand na tevê.

23. Últimos pensamentos de Barthes.

24. Notícia da morte de Barthes na tevê.

25. Simon lê sobre a morte de Barthes no jornal.

26. Sepultamento em Urt.

27. Preparação da campanha de Mitterrand.

28. Apartamento de Hamed é revirado.

29. Assassinato de Saïd, por engano.

30. Perseguição a Simon e assassinato de Hamed.

31. Perseguição ao homem com as notas de Barthes.

32. Jackobson, as seis funções da linguagem.

33. Clube Logos.

34. Análise da arma apreendida.

35. Conversa de Giscard com dois búlgaros.

36. Conversa de Andropov com Kristoff.

37. Carta de Tatko para Julenka.

38. Um documento para Althusser guardar.

39. Jantar de pensadores metidos a besta.

40. Simon segue o policial e conhece a russa Anastasia.

41. Clube Logos.

42. Bayard entrevista Todorov.

43. Althusser e o documento secreto.

44. Clube Logos, debate e corte de dedos.

45. O autor fala.

46. Barthes em jantar com Mitterrand antes do atropelamento.

Segunda parte. Bolonha.

47. Em Bolonha, Umberto Eco, Clube Logos, Bianca, e o atentado na estação central.

Terceira parte. Ithaca.

48. Althusser mata Hélene, sua esposa (isso aconteceu de verdade).

49. Giscard, Ornano, Poniatowski.

50. Slimane, amigo de Hamed, faz pesquisa no Beaubourg.

51. Althusser no hospital psiquiátrico.

52. Kristeva, Sollers e o búlgaro no Jardim de Luxemburgo.

53. Slimane com Foucault em Ithaca.

54. Sollers e Kristeva.

55. Bayard faz relatório.

56. Mitterrand enraivecido, campanha para presidência.

57. No avião, Simon, Bayard, Slimane, Foucault.

58. Programação do colóquio.

59. Kristeva e piquenique no campus.

60. Filosofia franco-alemã x anglo-americana.

61. Almoço self-service.

62. Continentais x analíticos.

63. Morris Zapp, vida, literatura, linguagem.

64. Filosofia francesa x norte-americana.

65. Foucault drogado e bêbado em boate gay.

66. Foucault só diz bobagem.

67. Simon e a lésbica judia Judith.

68. Foucault, Slimane e Kristeva no café da manhã.

69. Desconstruir o discurso.

70. Conferência de Searle.

71. Fiat lux.

72. Simon, Searle, minotauro e sexo na biblioteca.

73. Bobagens de Guattari.

74. Simon segue Cordélia, a moça da biblioteca.

75. Conferência de Derrida.

76. Derrida.

77. Festa e sexo na fraternidade e no cemitério, morre Derrida.

78. Enterro de Derrida, Anastasia avisa de reunião do Clube Logos.

79. Searle se mata.

Quarta parte. Veneza.

80. Pensamentos finais de Searle.

81. Sollers e Kristeva em Veneza.

82. Frota indo para Lepanto.

83. Simon e Bayard encontram Sollers.

84. Cervantes na frota para Lepanto.

85. Festa do Clube Logos, atentado contra Simon.

86. Frota para Lepanto.

87. Basílica San Zanipolo, a pele de Marcantonio Bragadin.

88. Motim na frota de Lepanto.

89. Carta de Kristeva para Tatko.

90. Batalha, Cervantes, o maneta de Lepanto.

91. La Fenice, disputa do Clube Logos, Simon ganha de um político e chega a tribuno.

92. Clube Logos, Sollers desafiou Protágoras, Umberto Eco, e perdeu os colhões.

93. Simon sequestrado para Murano, vingança do político, mão amputada.

Quinta parte. Paris.

94. Debate Giscard e Mitterrand, este usa a sétima função da linguagem, que funciona.

95. Comemoração da vitória de Mitterrand, explica-se como ele obteve a sétima função.

96. Jogo Borg x Lendl, Slimane domina a sétima função e conversa com Simon.

Epílogo. Nápoles.

97. Simon escapa da morte quando cai um pedaço de mármore em Nápoles.

98. Simon reencontra Bianca, de Bolonha, sequestro do político a mando de Simon.

99. À borda de um vulcão, a vingança de Simon, morte do político.

Treze

Isso de sexta-feira 13 começou que quando um cara chamado Jota mandou um olheiro ir na frente ajeitar a ceia num pé-de-escada. Jota era o arranca-toco, o come-brasa, o treme-terra, o tranca-ruas, o rompe-racha da região. Já o olheiro era um dos doze bate-paus do bando de Jota, também conhecidos como cacundeiros, capangas, valentões, asseclas, uzome, guarda-costas.

O olheiro chegou no restaurante, viu que era limpeza, e pediu para reservar uma mesa. Mesa para quantos? perguntou o maître Barra Bás. Mesa para 26, respondeu o recadeiro-olheiro. O maître se assustou-se, tanta gente? Não, disse o Quim Recadeiro, a gente somos só treze, mas é que é dangeroso ficar de costas para a porta, sabe traição e tal, e a gente queremos todo mundo se assentar de um lado somente da távola retangular. Daí que teve a ceia, mas em antes o Duanô Tira-retrato perpetuou a imagem dos treze assim tudo coladinho na parede.

Aporém que adepois da ceia, a bagunça degringolou, teve traição, teve morte, teve corda, teve decapitação, teve capiau da testa peluda, e ficou essa maldição, esse medo da quantidade de treze, mano velho.

As bacantes, Eurípides

As bacantes, Eurípides, 405 antes da Era Comum.

Dá para ler em poucas horas, mas é bom uma segunda leitura. É necessário saber que o teatro grego não mostra diversos acontecimentos, em especial mortes, batalhas, eventos fabulosos, que são apenas narrados por algum personagem, em geral um mensageiro. Não é diferente aqui em As bacantes.

A peça conta da vingança de Dioniso contra a família de Sêmele, sua mãe. A tebana Sêmele estava grávida de Zeus e pediu para ver o deus em sua forma divina. Zeus se apresentou como raio e Sêmele morreu. Zeus retirou a criança do ventre da mãe e a colocou dentro de sua coxa até que estivesse pronta para nascer.

A família de Sêmele, seu pai Cadmo e sua irmã Agave, no entanto, diziam que Sêmele não estaria grávida de um deus e sim de um mortal e por isso fora castigada com o tal raio. Dioniso vai para Tebas e anuncia a vingança contra Cadmo, Agave e Penteu. Este, filho de Agave e rei de Tebas, havia proibido o culto ao deus do vinho.

Em Tebas, Dioniso faz com que todas as mulheres da cidade alucinem e participem dos cultos dionisíacos, as bacanais, no monte Citéron. As bacantes, então, se dedicam a orgias, danças e magia. Penteu ordena a prisão de Dioniso, que está disfarçado de mortal. O deus, acorrentado, provoca terremoto e incêndios em Tebas. Liberta-se e convence Penteu a se vestir de mulher para assistir as bacanais. Penteu está também obnubilado, veste-se de mulher e é conduzido ao Citéron onde é degolado por Agave, sua mãe, e esquartejado pelas bacantes. Agave, alucinada, pensava ter morto um filhote de leão.

Em Tebas, Dioniso devolve a razão à Agave e ela vê o crime que cometera. Agave é condenada ao exílio. Cadmo é transformado em dragão e condenado ao exílio. A vingança está completa e os cultos báquicos são restabelecidos.

Há muito assunto que se pode debater nessa peça, muitas nuances. O nascimento de Dioniso, a intervenção do deus para ser aceito e cultuado, a loucura ou alucinação provocada pelo deus (e pelo vinho), a liberdade provocada pelo culto ao deus especialmente entre as mulheres, a contraposição entre a razão e o dionisíaco. Percebo que a peça, ao mesmo tempo que advoga a aceitação de Dioniso como deus e a “legalidade” das bacanais, mostra que a “alucinação” provocada pelo deus do vinho pode conduzir a ações funestas. Vale a pena ler uma vez e mais de uma.

Observação: o deus Dioniso tem muitas denominações, Baco, Báquio, Brômio; inclusive a expressão “Evoé” deriva de Évio, outro epíteto de Dioniso, e era um grito de júbilo das Bacantes; era a saudação ao deus em seu culto e suas festas.

Júlio César, William Shakespeare, 1599

Júlio César, William Shakespeare, 1599.

Dá para ler em poucas horas esta peça do Bardo. O principal personagem não é César, mas Brutus. Mostra a conspiração contra César, por conta de suas ambições de se tornar rei ou tirano. César é assassinado por Brutus, Cássio e outros. Os assassinos não fogem e Brutus faz um discurso breve à multidão explicando o ato, a multidão o apoia. Marco Antônio faz um discurso em seguida e convence a multidão da crueldade e da conspiração de Brutus e seu grupo. Otávio, filho adotivo de César, e Marco Antônio combatem as tropas de Cássio e Brutus. Estes se suicidam e Otávio e Marco Antônio se preparam para dividir o poder.

Harold Bloom diz que o personagem Júlio César, de Shakespeare, é de difícil compreensão: grandioso, arrogante, epiléptico, supersticioso. Para Bloom, Bruto é o grande personagem da peça e também é multiforme: ama César e, no entanto, para defender a República, conspira contra ele.

Essa peça é multifacetada e os personagens não são planos – apesar de ser uma peça mais simples e direta – WS se baseou em Plutarco que escreveu A vida de César e A vida de Bruto. Vale a pena ler.

O ovo da serpente, essa expressão tão famosa que muitos relacionam com o filme de Bergman, está na peça de WS: Bruto diz que César “é o ovo da serpente: ao ser chocado, há de tornar-se peçonhento, e é preciso matá-lo ainda na casca.”

Quando César está sendo apunhalado pelos conspiradores, ainda tenta resistir, mas quando vê Bruto desiste. A frase famosa de César, na peça, está em latim: “Et tu, Brute?”, que significa “E tu, Bruto?” ou “Até tu, Bruto?”. Todavia, Suetônio conta que a elite romana falava grego e César teria exclamado, em grego: “Kai su teknon?”, “Também tu, filho?”. Plutarco não atribui nenhuma frase final a César, mas diz que ele tentava resistir aos conspiradores e aos golpes, mas ao ver Bruto desiste e tomba aos pés da estátua de Pompeu. Este foi assassinado no Egito quando fugia de César.

A peça:

Ato 1 cena 1:

Tribunos Flávio e Marulo ordenam a retirada de atavios das estátuas de Júlio César.

Ato 1 cena 2:

O vidente: “Teme os idos de março”. As Lupercais, Antônio tenta coroar César. Cássio tenta convencer Bruto a conspirar, Cássio tem algo de Iago, “César agora é um deus”, “que há no nome César”, esta frase relaciona-se com Romeu e Julieta, quando Julieta pergunta que há no nome Montéquio.

Ato 1 cena 3:

Conspiração, prodígios, sinais.

Ato 2 cena 1:

Casa de Bruto, César é o ovo da serpente, dúvidas de Bruto, é contra matar Antônio também.

Ato 2 cena 2:

Casa de César, sonho com sangue e augúrios, César indeciso, interpretação benéfica para o sonho, César vai ao senado com Antônio, Bruto e outros.

Ato 2 cena 3:

Carta para César tomar cuidado.

Ato 2 cena 4:

Pórcia preocupada com Bruto.

Ato 3 cena 1:

César em “seu senado”, César é imutável, não é injusto. Morte de César, “estamos livres”. Servo de Antônio, Antônio comparece: por quê? Quem mais será assassinado? Antônio pede para falar e Bruto concede, Cássio discorda.

Ato 3 cena 2:

Discursos na praça, Bruto fala, multidão volúvel, Antônio entra com o corpo de César e faz belo discurso, ironia, Antônio tem algo de Iago.

Ato 3 cena 3:

A fúria cega da multidão, morte do poeta Cina.

Ato 4 cena 1:

Antônio e Otávio dividem o mundo, e Lépido, o mais fraco. Essa reunião aconteceu em Bolonha.

Ato 4 cena 2:

Preparação para batalha, reencontro de Cássio e Bruto.

Ato 4 cena 3:

Questões sobre suborno, extorsão, dinheiro para as tropas, fazem as pazes sem motivo, Pórcia está morta, estratégias para a batalha em Filipos, na Macedônia, reflexões de Bruto, surge o fantasma de César.

Ato 5 cena 1:

Discórdia entre Otávio e Antônio, reunião entre generais, Cássio, Bruto, Otávio, Antônio, troca de ofensas, Cássio e Bruto se despedem.

Ato 5 cena 2:

Bruto ordena o ataque a Otávio.

Ato 5 cena 3:

Cássio cercado por Otávio, engana-se e pensa que Titínio foi pego, Cássio se mata, Titínio volta e se mata, Bruto ordena a continuação da batalha.

Ato 5 cena 4:

Batalha, Antônio e Lucílio.

Ato 5 cena 5:

Bruto se mata, Otávio recebe os companheiros de Bruto, homenagens a Bruto, fim.

Os 120 dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem, Marquês de Sade, 1789

Os 120 dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem, Marquês de Sade, 1789, primeira publicação em 1904, Penguin Companhia, tradução de Rosa Freire d’Aguiar, posfácio de Eliane Robert Moraes, 500 páginas.

O manuscrito original tem 12 metros de comprimento e 11 centímetros de largura. A história desse manuscrito daria um livro tal a quantidade de peripécias pelas quais passou. Foi deixado por Sade na Bastilha, encontrado após a destruição da prisão, vendido diversas vezes ao longo dos anos, por fim colocado a leilão em 2017 e “apreendido” pela França que o declarou tesouro nacional.

Livro curioso e nojento, de início, mas que vai se tornando violento e sanguinário, quase impossível de ler. Todas as perversões e crimes são apresentados ao longo do volume: coprofilia, pedofilia, necrofilia, zoofilia, sequestros, torturas, amputações, flagelações, incestos, abortos, assassinatos. Observe-se que é um livro incompleto, pois Sade escreveu a longa introdução e a primeira parte. Para as três partes seguintes, o volume apresenta as anotações feitas por Sade para desenvolvê-las posteriormente, o que nunca aconteceu.

A forma do romance é recorrente na literatura: pessoas que se reúnem para ouvir a contação de histórias, como acontece em diversos outros livros: As mil e uma noites, o Decameron, os Contos de Canterbury, os Serões de Dona Benta e as Histórias de Tia Nastácia. No caso de Sade, ouvir histórias e repetir alguns dos eventos narrados.

O parco enredo conta a reunião de quatro ricos libertinos que contratam quatro cafetinas para narrar aventuras sexuais, ou paixões, como eles as denominam. Cada uma das cafetinas deve narrar cento e cinquenta paixões em cada mês, cinco por noite, totalizando seiscentas formas de perversão e cento e vinte dias.

Na introdução, o autor apresenta os quatro criminosos, o pacto entre eles e os preparativos para a temporada de quatro meses de perversões. Melhor chamar os quatro de criminosos do que de libertinos, pois para satisfazer seus desejos, os quatro não hesitam ante qualquer tipo de crime, seja sequestro, roubo, assassinato.

O castelo Silling na Floresta Negra, Suíça, será o palco das orgias. Os criminosos cuidam para que o castelo fique isolado do mundo durante os quatro meses.

Participam as quatro “esposas” dos libertinos, as quatro cafetinas narradoras, oito meninas e oito meninos virgens de 12 a 15 anos que foram sequestrados, quatro velhas criadas, oito fodedores, assim denominados (jovens escolhidos pela beleza e tamanho dos membros, 25 a 30 cm de comprimento) e há, ainda seis criadas na cozinha. O castelo é inexpugnável, ninguém entra, ninguém sai.

Os quatro libertinos são o duque de Blangis, o bispo, irmão do duque, o banqueiro Durcet e o ex-magistrado De Curval. Os quatro fazem um acordo de casamento, onde as filhas de uns casam com os outros, mas as quatro moças ficam disponíveis para todos. O duque casa com Constance, filha de Durcet. O bispo fica “casado” com Aline, sua filha. Durcet casa com Adelaide, filha de Curval. Curval casa com Julie, filha do duque. Todas as filhas já eram objeto de abusos pelos pais desde a infância. As mães dessas meninas foram assassinadas pelos quatro libertinos há muito tempo.

Na introdução, conta-se que os quatro amigos promovem quatro ou cinco orgias por semana: uma festa de sodomia, uma com moças e esposas de boa família, uma com criaturas vis, uma com virgens de sete a quinze anos, uma com quatro mocinhas de boa família sequestradas.

O duque, 50 anos, tem um membro de 30 cm de comprimento, possui ereção quase contínua, dezoito orgasmos por dia na juventude, sete orgasmos por dia na maturidade, fez uma aposta, certa vez, e foi sodomizado 55 vezes em um dia.

O bispo, 45 anos, desfalece no orgasmo, membro de 15 cm de comprimento.

Curval, 60 anos, permanentemente sujo e fedorento, tem dificuldades de ereção, goza três vezes por semana, o ânus é um buraco enorme, sempre sujo, membro de 20 cm de comprimento.

Durcet, 53 anos, tem um membro de 10 centímetros de comprimento.

As quatro cafetinas narradoras: Madame Duclos, 48 anos. Madame Champville, 50 anos, tríbade, clítoris de 7 cm quando inchado, desmaia quando goza, virgem atrás. Martaine, 52 anos, sodomita. Desgranges, 56 anos, podia ser penetrada a seco por trás, não tem uma mama e um olho, tríbade.

Observe-se que Sade tem a obsessão das quantidades, dos números, das medidas, além das perversões e crimes. Os meses previstos para as orgias, de novembro a fevereiro, somam 120 dias. Todavia, os criminosos permanecem no castelo mais 20 dias, portanto a obra poderia se chamar 120 mais 20 dias de Sodoma, ou 140 dias de Sodoma. Nos 120 primeiros dias, cada cafetina conta 600 perversões, 150 por mês. Ao final do livro, o autor faz a contabilidade. Foram para o castelo 46 pessoas, 16 voltarão para a França, 30 foram supliciadas e assassinadas. Retornarão os 4 amigos, 4 fodedores, as 4 cafetinas, 3 cozinheiras e apenas uma das esposas, Julie.

No final da introdução, o marquês revisa os nomes dos personagens e seus atributos e idades. São tantos personagens que esse ponto do livro se torna útil para consulta.

Como dito, o livro se divide em quatro partes, uma para cada cafetina e narradora. A primeira parte, narrada por Madame Duclos, trata das “paixões simples”. A segunda parte, Madame Champville, trata das “paixões duplas”. A terceira parte, Madame Martaine, as “paixões criminosas”. A quarta parte, Madame Desgranges, as “paixões assassinas”.

A cada dia, além do serão em que ouvem as histórias, os amigos se divertem em orgias e banquetes e punições aos meninos, meninas e esposas. Há um calendário de festas e deflorações e “casamentos” entre os meninos e as meninas. Os sábados eram os dias de castigos por faltas cometidas e anotadas durante a semana.

Observe-se que, apesar da pretensão do autor, não existem 600 paixões distintas, ou perversões. O que há são 600 histórias em que perversões, por exemplo coprofilia, são apresentadas com variações na forma de aplicação. As perversões foram organizadas de forma a aumentar gradativamente o nível de violência. Segue-se um desfile de sexo, sujeira e violência: pedofilia, estupros, coprofilia, inclusive comer e se lambuzar com cocô, xixi, sêmen, vômito, fetos e menstruação, zoofilia, incestos, deflorações anais e vaginais, necrofilia, abortos, blasfêmias com igrejas e crucifixos, flagelações, espancamentos, chicoteamentos, amputações e extirpações de órgãos, língua, olhos, orelhas, narizes, dedos, seios, pênis, testículos, fraturas diversas, torturas, queimaduras com metais, brasas, óleo e água fervente. Inúmeros modos de produzir dor, de matar e torturar com o máximo de dor e horror.

Não é fácil de ler.

Relevante destacar que os quatro criminosos são profundamente misóginos, preferem o sexo anal passivo e ativo, e adoram a sujeira e todas as variações de sexo com excrementos. Também gostam de dor e se deixam espancar e chicotear.

Não era o objetivo do autor, mas o leitor se pode perguntar qual o motivo que faz com que as vítimas se submetam, sendo em maior número e percebendo que a violência somente aumenta. Unidas, as esposas, os meninos e as meninas, alguns fodedores e criadas, conseguiriam facilmente assassinar seus opressores.

Há muita fantasia, membros e características impossíveis de existir, ações impraticáveis como manter uma pessoa viva em torturas extremas, atos sexuais fisicamente impossíveis de acontecer.

O final da leitura proporciona ódio extremo aos quatro criminosos e tristeza pelo massacre das vítimas, meninas, meninos e as esposas. Algumas delas, que são melhor elaboradas como personagens, nos afetam mais quando torturadas, seviciadas e assassinadas cruelmente.

Trechos:

Sem dúvida, se a coisa suja é o que agrada no ato da lubricidade, quanto mais suja, mais agradará, e com toda a certeza é mais suja no objeto viciado do que no objeto intacto ou perfeito. Quanto a isso não há o que discutir. Aliás, a beleza é a coisa simples, a feiura é a coisa extraordinária, e todas as imaginações inflamadas sempre preferem na lubricidade, sem dúvida, a coisa extraordinária à coisa simples.”

“[…] se as regras impostas foram infringidas foi porque nada segura a libertinagem e porque o verdadeiro modo de ampliar e multiplicar os desejos é querer lhes impor limites.”

Na página 158, dois amigos se atiram sobre uma das mais feias e velhas criadas do castelo, Fanchon, sessenta e nove anos, o autor a chama de cadáver antecipado, o que faz pensar em Fernando Pessoa, cadáver adiado que procria.

Afirmo que é preciso que haja infelizes no mundo, que a natureza os quer, exige, e que é ir contra suas leis pretender reconstruir o equilíbrio se ela desejou a desordem.”

O universo não subsistiria por sequer um instante se a semelhança entre todos os seres fosse perfeita; é dessa dessemelhança que nasce a ordem que tudo conserva e conduz. Portanto, é preciso evitar perturbá-la.”

A devoção é uma verdadeira doença da alma; por mais que se faça, a gente não se corrige. Fácil de se entranhar na alma dos infelizes, porque os consola, oferece-lhes quimeras para consolá-los de seus males, é bem mais difícil extirpá-la dessas almas do que de outras.”

O alienista, Machado de Assis, 1882.

Notas esparsas sobre O alienista, Machado de Assis.

Originalmente, foi publicado como um dos contos do volume Papéis avulsos, em 1882. Atualmente, é publicado por vezes na forma de livro. No volume 50 contos de Machado de Assis, da Companhia das Letras, tem 44 páginas. O conto é dividido em 13 capítulos:

1. De como Itaguaí ganhou uma casa de orates

2. Torrente de loucos

3. Deus sabe o que faz!

4. Uma teoria nova

5. O terror

6. A rebelião

7. O inesperado

8. As angústias do boticário

9. Dois lindos casos

10. A restauração

11. O assombro de Itaguaí

12. O final do § 4º

13. Plus ultra!

Casa de orates significa “casa de doidos, de loucos”. Vem do provençal arat, “louco”, do Latim auratus, “pessoa bafejada por uma aura”, ou seja, um sopro maligno que era origem de loucura ou epilepsia.

Curiosidade 1: Em Vulgo Grace, 1991, Margaret Atwood criou um personagem curioso, um médico que planeja abrir um sanatório para tratar os loucos e estudá-los. O Dr. Simon tem uma tendência a ver loucura em todos:

Minha previsão é que ele termine como residente do manicômio particular que eu ainda sonho em fundar; embora eu tenha que controlar minha propensão a ver cada nova pessoa que conheço como um futuro paciente pagante.

Observe-se o nome, Simon e Simão, e as tendências semelhantes nos dois personagens. O conto O alienista foi publicado em inglês em 1963, com o nome de The psychiatrist. Não penso em plágio, acredito que Atwood pode ter lido o conto de Machado e aquela ideia ficou escondida em um cantinho do cérebro, aflorando depois, modificada e parecida.

Curiosidade 2: Coincidência das janelas verdes entre Machado e Eça. No conto O alienista, Machado situa na Rua Nova da cidade de Itaguaí a Casa Verde e explica:

A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí.”

Em Lisboa, existe a Rua das Janelas Verdes e é lá que Eça situa o Ramalhete no magnífico romance Os Maias:

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o Bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.”

Os Maias foi publicado em 1888. Um acaso que une as obras dos dois grandes escritores.

O enredo do conto é sumamente conhecido mesmo por quem não o leu. O médico Simão Bacamarte funda uma casa para abrigar, estudar e curar os loucos da cidade e termina por nela colocar quase toda a população da cidade de Itaguaí, estado do Rio de Janeiro. Ao final, o médico libera todos os loucos e interna-se na casa para estudar a própria loucura.

O conto se passa na cidade de Itaguaí: “Itaguaí é o meu universo” e “a Casa Verde é agora uma espécie de mundo”, na qual o alienista exerceria o “governo espiritual”. Este tema do espaço físico continua a se fazer presente no conto: “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

O autor faz referência à linguagem bíblica, inclusive com exageros típicos daquela compilação: cinquenta janelas de lado e sete dias de festas públicas na inauguração; um doido declama sua genealogia, que passa por Davi, ao modo das genealogias bíblicas.

O alienista é versado na cultura árabe e o autor utiliza-se de numerosas palavras derivadas do árabe como algibebe (mascate), albarda (sela de palha), almotacé (fiscal de pesos e medidas), almude (unidade de medida, 700 ml), além de citar o Corão e Averróis.

Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre médico escrutava um texto de Averróis; os olhos dele, empanados pela cogitação, subiam do livro ao teto e baixavam do teto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais.” Ora, pode haver aí uma brincadeira com a ciência do alienista ser antiga ou antiquada visto que Averróis pertence ao passado distante (1126 – 1198).

Falsificações. O alienista coloca uma inscrição do Corão no frontispício da Casa Verde, mas a atribui ao papa Benedito VIII. As notícias falsas: um dos vereadores “desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses.E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema.”

Os olhos, fixação de Machado: “os olhos, que era sua feição mais insinuante,negros, grandes, lavados de uma luz úmida, como os da aurora.”

Desde o início, alguns suspeitam da sanidade do médico: “Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?” sentenciava um vereador, indignado com a proposta, até parecendo “em si mesma sintoma de demência”. “A Casa Verde é um cárcere privado”, “monomania do próprio médico”, “o vereador fez esta reflexão: – Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?

O alienista é inabalável, “frio como um diagnóstico”, e “impassível como um deus de pedra”.

Quatro quintos da população estavam encerrados no sanatório, “tudo era loucura”, e assim, o alienista conclui que o normal é o desequilíbrio e que o patológico é o equilíbrio ininterrupto.

O barbeiro Porfírio, ensinado pelos acontecimentos, tendo “provado tudo”, como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde”.

O boticário Crispim Soares comparado com o asno de Buridan, que morre de fome e sede por não conseguir escolher entre a comida e a água.

“ – Mas deveras estariam eles doidos e foram curados por mim, – ou o que pareceu cura não foi mais do que o perfeito desequilíbrio do cérebro?

O alienista possuía o “perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.”

Morreu dezessete meses depois de se recolher à Casa Verde e “nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí.”

Recomendo, para quem quiser conhecer mais dos deliciosos contos de Machado, os seguintes:

– O imortal: ficção científica de Machado de Assis sobre um homem que adquire a imortalidade em Pernambuco no século XVI.

– As academias de Sião: onde Machado questiona por que há almas masculinas em corpos femininos e almas femininas em corpos masculinos.

– Missa do Galo: um dos contos mais eróticos da literatura brasileira, embora nada aconteça e nada seja dito.

– Pai contra mãe: um conto sobre o horror da escravidão.

– A segunda vida: um homem narra a um padre suas lembranças de uma primeira vida e o que fez com sua segunda vida.

– Singular ocorrência: sobre uma prostituta que deixa “essa vida” ao casar com o homem amado, mas acontece uma singular ocorrência.

– A causa secreta: um homem exercita seu sadismo queimando ratos (o termo sadismo não é usado por Machado, mas já estava dicionarizado, em francês, em 1834, apenas vinte anos após a morte de Sade).

Beira-mar

Conversa à beira-mar. A grandiosidade de Jorge Amado, o Nobel de Literatura é como o Oscar, uma bobagem, ninguém recorda quem ganhou o Oscar no ano passado e retrasado e assim por diante, bem como o Nobel, ninguém recorda, um ou outro marcante fica na memória, marcante pela justiça, Saramago, ou pelo despropósito, aquele cantorzinho fanho, Jorge Amado não ganhou Nobel porque há preconceito contra o escritor que vende muito, mesmo que seja excelente escritor, caso de Amado. Vê só quem ganha Nobel hoje em dia, ninguém nunca ouviu falar, deve ter vendido uns dez livrinhos em seu país. Amado não ganhou, também, porque somos periféricos e o Nobel pertence ao hemisfério lá de cima, especialmente europeus e estadunidenses. Amado vendia, vende muito, e as histórias são ricas, os coronéis do interior nas suas lutas sangrentas de poder, a perda gradativa desse mesmo poder, misturado com a sensualidade e a comida, e não só isso, claro. Olha como aquele cachorro gosta da água do mar, e aquela criança correndo para as ondas e os pais confiantes lá em cima no guarda-sol, que perigo, vamos desviar desses dois jogando na praia, é proibido jogar na praia, mas o povo ignora proibições. Os filmes, o problema da maior parte dos filmes feitos hoje é a falta de um bom roteiro, tem tanto livro bom que podia virar filme, mas os roteiros são os mesmos, são esquemáticos, as mesma histórias, a gente adivinha o que vai acontecer, ou são roteiros sem pé nem cabeça, mil tiros, perseguição de veículos, a pé, brigas, e os diálogos, corra, vá, fuja, por aqui. Ainda bem que a gente pode escolher filmes nos cardápios, imagina quem só tem a tevê aberta, a tevê aberta vai morrer, vai não, vai ficar cada vez pior, exclusivamente para os mais pobres e para as salas de espera, os hotéis mais pobrezinhos do interior dispõem de pelo menos um canal de notícias e um canal de filmes, tevê aberta é o lixo, lembra quando a gente ligava e ficava procurando o que ver e não havia nada. Que biquíni minúsculo, corajosa. Não estou vendo os guarda-vidas, só as bandeiras de perigo, colocaram as bandeiras e foram para casa ou vagabundar. Há preconceito contra Paulo Coelho, veja só, o povo aceita ler Harry Potter, Stephen King, mas mete o cacete em Paulo Coelho. O Nobel, não que Paulo merecesse ganhar, mas o Nobel só vai para desconhecido, cadê que Philip Roth ganhou, cadê Ian McEwan, se o cara vender livros não presta para os empoados nórdicos. Jorge Amado adorava um Bataclan, e quando ele fez Tieta mudar o nome do Nid d’Amour para Refúgios dos Lordes, e era lá no tal Refúgio que as grandes negociatas dos políticos aconteciam, como deve ser até hoje, esses escroques fazem seus negócios sujos nos bordéis. E quando aquele Coronel Jesuíno matou a mulher e o dentista e não queria ir a julgamento, e foi, e foi condenado, Amado mostrou que, mesmo devagar, as coisas mudam. É, mas hoje parece que o mundo está girando ao contrário, a ciência e os fatos desacreditados, a gente está indo para o Medievo, é, vamos entrar no mar, a água está delícia, vem.

Felicidade demais, Alice Munro

Alice Munro, Felicidade demais. Releitura. A maior parte dos contos é muito boa, vale a pena conhecer o universo, sempre melancólico, de Munro. Personagens sem nome que narram suas histórias retrospectivamente, eventos marcantes da infância ou da juventude com o olhar da maturidade.

Dimensões. Doree casa aos dezesseis com Lloyd, bem mais velho, e tem três filhos em sequência. Lloyd é controlador, ciumento, possessivo, paranoico. Mata as três crianças após uma discussão com Doree. Inimputável, louco. Diz ver as crianças vivas em outra dimensão. Doree continua ligada ao louco. O final do conto ensaia uma libertação para ela.

Ficção. Joyce e Jon tem uma vida mediana e agradável. Ele a deixa por sua ajudante, Edie. Anos depois, Joyce está casada novamente, Jon está na terceira esposa, e Joyce conhece uma jovem escritora que está lançando seu primeiro livro de contos. Joyce se reconhece em um dos contos e percebe que a escritora é filha de Edie.

Wenlock Edge. O título do conto é um poema que a personagem lê nua. Uma moça que vai para a universidade e conhece uma moça despanaviada, Nina, que entra em sua vida e na de seu primo Ernie e some no mundo.

Buracos-profundos. Um menino cai em um buraco durante um piquenique com os pais e quebra as pernas. Na juventude, o rapaz desaparece da casa da família, abandona planos e faculdade, some no mundo. Décadas mais tarde é encontrado pela irmã e pela mãe: é um tolo que se acha iluminado desde a queda, quer ajudar os outros e vive na miséria, e tem um discurso ingênuo e irritante, jogou a vida fora.

Radicais livres. A mulher acabou de perder o marido, infarto fulminante, oitenta anos. Um homicida e assaltante invade a casa dela, ela está nervosa, mas consegue conversar com o rapaz.

Rosto. Já aposentado, homem que nasceu com uma mancha em um lado do rosto revê sua vida e a amizade de infância com Nancy, menina que morava em uma casinha no mesmo terreno da casa dele.

Algumas mulheres. Bruce voltou da Segunda Guerra, tem leucemia e está nas últimas. Uma adolescente trabalha na casa da mãe dele, onde ele está com a esposa, durante o verão e acompanha uma disputa surda entre a quiropata Roxanne e a esposa de Bruce.

Brincadeira de criança. Mulher recorda acontecimento fatídico em acampamento de verão durante a infância: Marlene e Charlene reencontram Verna, uma criança especial da qual Marlene não gostava.

Madeira. Conto fraquinho onde Roy adora cortar árvores para fazer lenha e sua esposa Lea está vivendo uma fase de depressão. Lea surge, no final, ativa e diferente sem explicação e sem motivo.

Felicidade demais. Conto confuso no início, mistura épocas e cidades, o leitor fica desnorteado. Depois fica mais cronológico e se dá a entender. História real de uma matemática do século XIX. Tudo muito corrido, seria mais adequado um livro do que um conto.

Sem mais

Sade: “Afirmo que é preciso que haja infelizes no mundo, que a natureza os quer, exige, e que é ir contra suas leis pretender reconstruir o equilíbrio se ela desejou a desordem.”

Ela chegou um dia em meu estúdio, sem avisar, de forma inconveniente, como uma tempestade, eu me preparava para sair, final da tarde, ela tocou a campainha, fui até o balcão, não entendi a presença dela ali, apertei o botão que abre a porta lá de baixo. Enquanto ela subia a escada helicoidal de pedra, antiga, medieval talvez, tudo é medievo na Rua dos Poços, abri a porta e continuei a cuidar dos preparativos, short, camiseta, cabelo, tênis, e ouvia o salto alto dela nos degraus de pedra, escada estreita e incômoda, perigosa até. Ela entrou no estúdio, eu saí do banheiro, o que houve, querida, eu não suporto mais, eu quero ficar aqui, mas o que aconteceu, nada de especial, mas, espera, senta um pouco, quero sentar, nada de especial, esgotei, esgotada, querida, eu estou de saída, vou jogar vôlei com o pessoal, não posso demorar aqui, espera, um minuto, eu não aguento mais a minha vida, marido, filha, obrigação, eu quero viver aqui com você, eu quero fugir, eu quero uma vida, minha vida de volta, respirei fundo, querida, olha, vou ser bem claro, você não pode ficar aqui, morar comigo ou algo assim, eu não quero viver com você, estou feliz sozinho, adoro viver só, minha vida está perfeita, você é uma excelente companhia eventual; descanse um pouco aqui na minha casa, eu vou para o vôlei, não permito que você interrompa meus planos; a chave está na porta, tranque o estúdio quando você for embora, coloque a chave na caixa de correio.

Beijei a cabecinha dela, estava sentada, atônita ou apenas cansada, na minha poltrona de leitura, e desci a escada. Soltei a bicicleta do cadeado e pedalei para o vôlei.

Atletinha

Sala de espera de exame. É meio feriado, deixei a menina em casa com marido, o inútil queria sair para encontrar os amigos, caldinho, foi uma discussão homérica aquilina no quarto para a menina não ouvir, mas é claro que ouviu, a gente não fala baixo quando discute. Eu expliquei para o inútil que eu já havia avisado a ele sobre o exame, e expliquei também que aquele feriado era parcial, a maior parte das pessoas úteis do país estava trabalhando normalmente, e que eu mesma ia para o exame em jejum, fome du, e depois ia para o trabalho, e ele sabia de tudo isso e não ia mesmo sair com a coisa dos amigos dele porque não havia ninguém para ficar com a menina, a escola sem aula, e pronto e saí e não me despedi de ninguém.

Deve fazer ao mal ao resultado dos exames esse estresse todo, alguma taxa vai dar errado.

Sala de espera de exame e eu percebo que eu detesto todo mundo ali, não sei de onde vem essa minha capacidade de odiar todos os seres humanos. Sei, sei, você é metida a coisa de psicóloga e vai mencionar que, de fato, eu odeio a mim mesma. Ora, vá tomar no papeiro. Todo mundo é assim, todo mundo é falso, todo mundo odeia todo mundo, todo mundo me critica, todo mundo critica você assim que você sai, assim que você entra nos cantos, assim que você posta uma foto da tua carantonha curtindo uma praia, e todo mundo pensando que coragem a tua de tirar foto dessa tua carantonha feíssima para se exibir.

Na minha sala de espera, onde detesto todo mundo, detesto mais, detesto com especial vigor, algumas pessoas. A mulher, sei lá, cinquenta anos, corpo bom ainda, vestido ajeitadinho, cabelo espichado em algum tipo de química e pintado de castanho, detesto cabelo artificial, e o que mais detestei nessa doida é que veio com a filha, dezesseis anos, sem necessidade, esses exames que fazem aqui não precisa coisa de acompanhante, e a coisa da filha, shortinho jeans, blusinha, veio encangada com o namoradinho, ora que droga é essa, tem lá necessidade dessa procissão, dessa comitiva, para vir fazer um exame, e o casalzinho nefasto fica arrulhando, acho que a doida da mãe não quis deixar os dois a sós no apartamento para que eles não fizessem, tolinha, eles já fazem há muito tempo. Ou sei lá o que a doida quis para trazer os dois idiotazinhos.

Todavia, eu pude concentrar o meu ódio em uma moça, eu focalizei, eu direcionei, eu espero que ela tenha sentido alguma vibração do meu detestamento. Havia cadeira sobrando na primeira sala, mas a coisinha ficou em pé, como se fosse a princesinha que não podia por a bundinha na cadeirinha. Depois, a roupa, completamente descabida para ir fazer exame: um shortinho de lycra preto curtíssimo, daqueles para fazer exercício, uma blusinha branca de algodão, eu sou a atletinha, a roupa dizia, eu sou saúde, mim saúde, vocês doença, ela tem vergonha de fazer exame, exame é coisa de doente. Por baixo da blusinha de algodão, sutiã preto, feio, era grande, não era um sutiã gostosinho, delicadinho, sensual, era largo, provavelmente para sustentar os peitinhos quando ela pulasse na ginástica, tão saudável a coisinha. Um metro e sessenta. De início, loura, mas logo vi, falsa, cabelo castanho escuro mal pintado de louro, o louro indo embora, o castanho renascendo, predominando. Sandálias havaianas. Ora, cadê o tênis, se estava com roupinha de ginástica, aí, sandalinha havaiana pretinha sujando o pezinho branquinho de poeira. Pé ia chegar em casa marrom de sujo.

Depois que passaram o gado, a gente, para outra sala, a lourinha atletinha decidiu sentar e sentou na cadeira mais afastada possível de nós, os outros, os doentes, ela não, ela saudável, exame de rotina, os outros, gordos, velhos, doentes, derrubados, davam nojinho nela. Na pontinha da cadeira para não encostar as coxas nuas no plástico contaminado do assento. Na cadeira mais afastada e olhando para o lado oposto do rebanho. Concentrei meu ódio, minha raiva do marido, da filha, do emprego, naquela cabecinha loura-falsa, naquela pele branca, pernas brancas torneadinhas, detestei cada centímetro da mocinha. Fiquei concentrada para ouvir o nome dela quando chamassem, para odiar melhor, odiar pelo nome, pessoalmente, mas algo me distraiu, ah foi a doida com os pombinhos, e não captei o nome da atletinha, fiquei frustrada.

Me furaram de novo, me deram papéis, fui para o trabalho e não produzi quase nada no dia, meu fígado derramava a bile verde no mundo, esverdeava o céu e as nuvens, tons diferentes, estava bonito.