Meu método Albertine (workout in progress)

(Esta postagem vem, gradativamente, sofrendo acréscimos e correções. Quem sabe vira um livrinho fininho.)

1.

Albertine é uma das personagens mais fascinantes da obra “Em busca do tempo perdido” (À la recherche du temps perdu), de Marcel Proust. O leitor sofre, juntamente com Albertine, toda a opressão do ciúme exacerbado do protagonista.

2.

Nós só conhecemos de Albertine aquilo que a mente obcecada e conturbada do protagonista nos conta. Na minha opinião, Albertine amava verdadeiramente o protagonista e, em geral, ela não mentia. As mentiras que, ocasionalmente, o protagonista descobria eram recursos de Albertine para escapar do ciúme doentio dele.

3.

Por conta de notícias em blogs e em jornais, como por exemplo a Folha de São Paulo, descobri o livro O método Albertine, de Anne Carson. O livrinho, bem fininho, foi editado por uma nova editora, a Jabuticaba. Encomendei, recebi e li o livro. Gostei do livro com ressalvas. Gostei da forma como a autora dividiu seus pensamentos e opiniões sobre Albertine e sobre a obra, forma esta que copio aqui, estes tópicos numerados. Gostei das relações que Anne Carson sugere entre os personagens, entre a obra de Proust e outras obras. Entretanto, é tudo muito ligeiro, muito superficial, talvez até não revisado pela autora.

4.

No tópico 10, Anne Carson anota que “Albertine não chama jamais o narrador pelo nome no livro.” Ela também se refere ao trecho em que o protagonista sugere para si um nome igual ao do autor. Anne Carson está errada. Albertine chama o protagonista pelo nome. Vejamos.

Uma das curiosidades de Em busca do tempo perdido é que o protagonista não tem nome, ninguém o chama pelo nome, até certo trecho do quinto volume. O protagonista conta como gostava de observar Albertine adormecida e o modo como ela acordava:

“Logo que recuperava a palavra, dizia: ‘Meu” ou ‘Meu querido’, seguidos um ou outro do meu nome de batismo, o que, atribuindo ao narrador o mesmo nome que ao autor deste livro, daria: ‘Meu Marcel’ ou ‘Meu querido Marcel’.”

E no original:

“Elle retrouvait la parolle, elle disait : ‘Mon’ ou ‘Mon chéri’, suivis l’un ou l’autre de mon nom de baptême, ce qui, en donnat au narrateur le même prénom qu’à l’auteur de ce livre, êut fait : ‘Mon Marcel’, ‘Mon chéri Marcel’.”

E alguns parágrafos adiante, o protagonista recebe um bilhete de Albertine:

“Meu querido, meu caro Marcel, chegarei menos depressa do que este rápido, de cuja bicicleta gostaria de me utilizar para me ver depressa junto de você. Como pode pensar que eu possa ficar zangada e que alguma coisa possa me entreter mais do que estar com você? Será gostoso sairmos juntos, seria ainda mais gostoso nunca sairmos senão juntos. Que ideias são essas suas? Esse Marcel! Toda sua, Albertine.”

No original:

“Mon chéri et cher Marcel, j’arrive moins vite que ce cycliste dont je voudrais bien prendre la bécane pour être plus tôt près de vous. Comment pouvez-vous croire que je puisse être fachée et que quelque chose puisse m’amuser autant que d’être avec vous ? Ce sera gentil de sortir tous les deux, ce serait encore plus gentil de ne jamais sortir que tous les deux. Quelles idées vous faites-vous donc ? Quel Marcel ! Quel Marcel ! Toute à vous, ton Albertine.”

5.

Portanto, é incorreto afirmar que Albertine não chama o protagonista pelo nome.

6.

De certo modo, parece me dar prazer encontrar erros no livro de Anne Carson. Não sou um especialista em Proust, no entanto, mesmo em uma leitura superficial, encontram-se erros crassos no livrinho de Carson. Parece que a autora escreveu de memória, sem consultar a obra de Proust. Mas, como, se vez em quando ela cita a página de onde retirou uma citação? Contudo, de que serve citar a página se Carson não indica a edição?

Minha edição de À la recherche du temps perdu é volume único, com duas mil e quatrocentas páginas, em francês, da Gallimard.

7.

A tradutora do livro de Carson, Vilma Arêas erra ao citar o nome da obra de Proust. Ela a chama de La recherche etc. Você sabe que o título é À la recherche etc.

8.

Anne Carson deve ter feito uma grande confusão. Observe que, dias antes de ir embora da casa de Marcel, em uma dada noite, Albertine abre a janela de seu quarto. Ora, o protagonista temia “as correntes de ar” e havia proibido que se abrissem janelas à noite.

“De repente, no silêncio da noite, fui surpreendido por um ruído aparentemente insignificante, mas que me encheu de terror, o ruído da janela de Albertine, que se abria violentamente.”

“Tout à coup, dans le silence de la nuit, je fus frappé par un bruit en apparence insignifiant, mais qui me remplit de terreur, le bruit de la fenêtre d’Albertine qui s’ouvrait violemment.”

“(…) o ruído tinha sido violento, quase malcriado, como se ela tivesse procedido com a maior cólera e dizendo: ‘Esta vida me abafa, tanto pior, preciso de ar!’ ”

“(…) ce bruit avait été violent, presque mal élevé, comme si elle avait ouvert rouge de colère et disant : ‘Cette vie m’étouffe, tant pis, il me faut de l’air !’ ”

O protagonista passa a noite preocupado e teme que Albertine tenha ido embora. Entretanto, logo ao acordar pergunta à criada por Albertine e recebe a resposta de que ela está no quarto. “Respirei, minha agitação cessou, Albertine estava em casa, era-me quase indiferente que estivesse.”

Dias depois, Albertine vai embora, sem fugir pela janela. Apenas prepara as malas e sai antes de Marcel acordar. Deixa um bilhete com Françoise, a criada.

Anne Carson reconstruiu a história em sua mente e fez a confusão. No tópico 45, Carson anota que “Albertine finalmente foge, desaparecendo na noite e deixando a janela aberta.”

Ora, como se viu, Albertine sai de casa pela manhã e não deixa janela aberta. Anne Carson reescreveu a narração proustiana e parece acreditar na sua própria versão. No apêndice 17, Carson diz que Albertine está “sempre correndo para algum lugar de bicicleta, de trem, de carro, num cavalo, ou se atirando pela janela”. Observe que a confusão de Carson surge novamente pois Albertine não se atirou pela janela.

9.

Carson faz várias citações sem apontar o volume entre os sete da obra onde se pode encontrá-las.

10.

Meu A prisioneira, em português, foi traduzido por Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar.

11.

Encontrei em um site sobre prenomes franceses. O site se chamava Ton Prénom.

“Albertine est un prénom strictement féminin. Forme diminutive et féminine du prénom d’origine germanique Albert. Le prénom fut popularisé notamment par l’héroïne de plusieurs romans de Marcel Proust, Albertine. On la retrouve dans la suite romanesque À la recherche du temps perdu. Par ailleurs, Albertine est le surnom de la Bibliothèque royale de Belgique située à Bruxelles. Albertine est présent dans la culture française. Le prénom Alberte est une variante de Albertine, et Albertin est son équivalent masculin. Albertine est également un patronyme: 34 personnes le portent en nom de famille. D’après nos estimations, 8.335 Albertine nées en France vivent encore aujourd’hui – elles ont 84,7 ans d’age moyen – Albertine fait partie des prénoms très démodés.”

12.

Encontrei o poema The Albertine Workout, de Anne Carson, na London Review of Books, volume 36, número 11, 5 de junho de 2014. Lá estão os 59 tópicos da edição brasileira. Não há os apêndices.

Curiosamente, tem-se o comentário de William Flesch, Brandeis University, Waltham, Massachusetts. Ele escreveu:

“May one correct a poem? Anne Carson writes: ‘Albertine does not call the narrator by his name anywhere in the novel. Nor does anyone else. The narrator hints that his first name might be the same first name as that of the author of the novel, i.e. Marcel’ (LRB, 5 June). But eighty pages after dropping that hint, he – and she – are more definite. The narrator receives a note from Albertine in which she calls him ‘Mon chéri et cher Marcel’, and which concludes: ‘Quelles idées vous faites-vous donc? Quel Marcel! Quel Marcel! Toute à vous, ton Albertine.’”

Em resumo, o senhor Flesch se pergunta se alguém pode corrigir um poema e emenda mostrando que a senhora Carson errou.

13.

Albertine muda de aparência ao longo da obra.

14.

Comparações. Lost in translation. O que se perdeu?

No tópico 51, Anne Carson fala sobre o curioso episódio do telegrama da morta. O protagonista estava em Veneza com a mãe, muito tempo depois da morte de Albertine, quando recebe um telegrama de Albertine. Na verdade, o telegrama era de Gilberte, uma namoradinha da juventude. A pessoa do correio que transcreveu o telegrama aparentemente enganou-se com a grafia do nome de Gilberte. Anne Carson, intencionalmente ou não, nos dá uma versão resumida do telegrama. Para ela, o telegrama dizia:

“Você me julga morta mas estou viva e querendo ver você! Afetuosamente, Albertine.”

Em inglês:

“You think me dead but I’m alive and long to see you! affectionately Albertine.”

No volume Albertine disparue, Proust escreveu:

“(…) jetant un coup d’oeil sur ce libellé rempli de mots mal transmis, je pus lire néanmoins : ‘Mon ami, vous me croyez morte, pardonnez-moi, je suis très vivante, je voudrais vous voir, vous parler mariage, quand revenez-vous ? Tendrement, Albertine.’”

Na tradução em português, temos:

“Meu caro, você me supunha morta. Perdoe, estou vivíssima. Queria vê-lo, falar-lhe de casamento. Quando volta? Carinhosamente, Albertine.”

Vê-se que a versão Carson não contém o pedido de desculpas nem a frase sobre o casamento.

15.

Por que o protagonista não foi ao enterro de Albertine? Ou, se foi, por que não nos conta nada sobre o enterro?

16.

“Antes que Albertine obedecesse e me deixasse tirar-lhe os sapatos, eu lhe entreabria a camisa. Os dois seiozinhos, implantados alto, eram tão redondos que davam a impressão menos de fazer parte integrante do corpo do que de ter amadurecido ali como dois frutos; o ventre (…) fechava-se na junção das coxas por duas valvas de uma curva tão desmaiada, tão repousante, tão claustral como a do horizonte quando o sol desapareceu. Ela tirava os sapatos e deitava-se a meu lado.”

“Avant qu’Albertine m’eût obéi et m’eût laissé enlever ses souliers, j’entr’ouvrais sa chemise. Les deux petits seins haut remontés étaient si ronds qu’ils avaient moins l’air de faire partie intégrante de son corps que d’y avoir mûri comme deux fruits ; et son ventre (…) se refermait à la jonction des cuisses, par deux valves d’une courbe aussi assoupie, aussi reposante, aussi claustrale que celle de l’horizon quand le soleil a disparu. Elle ôtait ses souliers, se couchait près de moi.”

Um dos momentos que julgo mais erótico no relacionamento entre Albertine e o protagonista. Ficavam deitados juntos. Albertine nua ou seminua. Albertine ia levantar, vestir o peignoir, Marcel lhe pedia para não o vestir ainda. Instantes “inocentes na aparência”, diz Marcel.

Valva, no Houaiss: “estrutura anatômica que permite o escoamento de um líquido em um único sentido”, ou ainda e melhor “segmento ou cada um dos segmentos resultantes da abertura de um fruto maduro”.

Valve, na Larousse: “Chacun des éléments qui s’écartent ou se séparent lors de la déhiscence d’une anthère ou d’un fruit, à la maturité d’une inflorescence, etc. Structure anatomique qui ne permet l’écoulement d’un liquide que dans une direction unique.”

17.

A primeira vez em que Albertine é mencionada na obra de Proust acontece no volume 2, pela boca de Gilberte, quando se fala da família Bontemps. Gilberte se refere a ela como “a famosa Albertine” que tem “um ar muito engraçado”.

“– C’est l’oncle d’une petite qui venait à mon cours, dans une classe bien au-dessous de moi, la fameuse ‘Albertine’. Elle sera sûrement très ‘fast’ mais en attendant elle a une drôle de touche.”

Penso que seria o momento de colecionar os adjetivos utilizados para designar, desenhar, Albertine. Famosa, fameuse, o primeiro deles. Não entendo suficientemente o motivo de Gilberte chamar Albertine de “fast”, rápida, em inglês.

18.

Gilberte é loura, Albertine tem cabelos pretos.

19.

Proust e Virgílio têm em comum o fato de não terem conseguido revisar suas obras.

“Prima di morire, Virgilio raccomandò ai suoi compagni di studio Plozio Tucca e Vario Rufo di distruggere il manoscritto dell’Eneide, perché, per quanto l’avesse terminata, non aveva fatto in tempo a rivederla.” Está na Wikipedia.

Até onde sei, Proust teve pressa em terminar sua obra, estava doente e vivia trancado em seu quarto. Certamente, não teve tempo de revisar. Um exemplo evidente disso é que, em dado momento, o narrador diz que Gilberte teve muitos filhos. Em outro momento, perto do final do último volume, diz-se que Gilberte teve apenas uma filha.

20.

Workout, de acordo com o Oxford Dictionary, significa “a session of vigorous physical exercise or training”.

21.

No tópico 22, a senhora Carson afirma que “Albertine não tem família”. Está incorreto. Albertine não tem o pai e a mãe, mas vive com a tia, a senhora Bontemps, que é casada com o diretor de gabinete do Ministério das Obras Públicas.

22.

Anne Carson me irrita com suas imprecisões.

23.

Certamente, eu devo cometer imprecisões aqui, também.

24.

A primeira vez em que aparece o nome de Albertine: página 409 da minha edição de À la recherche du temps perdu, da Gallimard, em um único tomo de 2401 páginas e sem uma única nota. Pé duro.

25.

Segundo adjetivo utilizado para delimitar Albertine. A tia diz que ela é atrevida. Em francês, “effrontée”.

De acordo com o Dictionnaire Larousse: “qui manifeste un état d’esprit empreint d’impudence et d’insolence”.

Houaiss, impudência: descaramento, impudor, cinismo, desfaçatez. Insolência: atrevimento, ousadia, impertinência.

26.

Em Le mithe de Sisyphe, edição da Gallimard, páginas 137 e 138, Albert Camus enumera alguns romancistas filósofos, “romanciers philosophes”: “Balzac, Sade, Melville, Sthendal, Dostoiévski, Proust, Malraux, Kafka, pour n’en citer que quelques-uns.”

Encontrei esse trecho por acaso, abri o livro de Camus em uma página qualquer e bati a vista no nome de Proust, justamente nos dias em que me ocupava do workout.

No mesmo livro, no apêndice, página 171, diz Camus: “Tout l’art de Kafka est d’obliger le lecteur à relire.”

O mesmo serve para Proust.

27.

Passei na loja de livros usados. É uma imensa mistura de livros desordenados. A parte anterior da loja, livros pelo chão, nas estantes, deve existir uma ordem na mente do proprietário. Nos fundos da loja, por quê?, estantes com livros ordenados alfabeticamente. Fui até a letra P de Proust. Pensava em A prisioneira. A prateleira do P era a mais inferior. Abaixei, percorri com os olhos a prateleira, livros amontoados também no chão. Na prateleira, Jean Santeuil, de Proust, nada mais. Ia levantar quando vi, no topo da pilha de livros do chão, A prisioneira. Uma edição de Portugal. Não comprei. A tradução chamava Albertine de Albertina e Andrée de Andreia. Na parte superior da capa, um desenho de Albertine recostada em uma cama, uma pose semelhante à Olympia de Manet. Por trás do leito, o protagonista observando a cena. Uma Albertine meio gorda. As letras no corpo do livro estavam mal impressas, como uma visão míope.

28.

Perdido na tradução. Aconteceu uma certa confusão quando Vilma Arêas traduziu Carson que traduziu, ou transcriou o poema de Mallarmé.

É uma ciranda esquisita. Carson traduziu modificando do francês para o inglês e Arêas traduziu aquilo que Carson escrevera. Ficou bastante diferente do original.

29.

Perdido na tradução.

No tópico 58, Anne Carson colocou a poesia de Mallarmé, em francês. São os versos que o protagonista declarava querer gravar na proa do iate que compraria para Albertine. Carson não cita que a poesia está no livro Albertine disparue.

Un cygne d’autrefois se souvient que c’est lui
Magnifique mais qui sans espoir se délivre
Pour n’avoir pas chanté la région où vivre
Quand du stérile hiver a resplendi l’ennui

(Mallarmé, ‘Le vierge, le vivace et le bel aujourd’hui’)

Não há referência, todavia parece que a própria Carson traduziu:

a swan of olden times remembers
that it is he:
the one
magnificent but
without hope setting himself free
for he failed to sing
of a region for living
when barren winter
burned all around him with ennui

A tradutora de Carson, Arêas, seguiu a mesma linha:

Um cisne de outrora recorda
que é ele:
aquele
magnífico mas
sem esperança de libertar-se
pois falhara ao não cantar
uma região onde viver
quando o inverno estéril
queimasse tudo a seu redor com ennui

Contudo, veja-se a tradução de Carlos Drummond de Andrade, tradutor de Albertine disparue para o português:

Um cisne de outro tempo e que se reconhece
Magnificente e sem alento se desprende
Por não haver cantado a terra de refúgio
Quando o infecundo inverno em tédio resplandece

Eu me arrisco a fazer uma tradução mais literal:

Um cisne de outrora se recorda que é magnífico
Porém se liberta sem esperança
Porque não cantou a região onde vive
Quando resplandeceu o tédio do inverno estéril

A discussão, aqui, é estéril? Penso que, minimamente, alguém, o editor, a tradutora, deveria apontar que Carson não traduziu e sim recriou o poema de Mallarmé.

Observe-se que o próprio sentido do poema foi modificado pois, em Carson, o cisne não se liberta e o inverno queima tudo ao seu redor. Em Mallarmé, o dono do poema, o cisne se liberta sem esperança, não cantou a região onde habita e o inverno resplandece em tédio.

30.

Adjetivos para Albertine:
– famosa / fameuse
– atrevida / effrontée
– esquiva / fuyante
– prudente / prudente
– astuciosa / fourbe

31.

Não resisti e voltei à loja de livros usados. Fui até a pequena pilha de livros que estava junto à prateleira da letra P e encontrei o volume 5 de Proust, A prisioneira, em edição de Portugal. Perguntei o preço, vinte reais, comprei. A tradução é de Mário Quintana, ou ao menos é o que consta no volume. É terrível que os nomes dos personagens tenham sido traduzidos. Albertina, Andreia e, absurdamente, Françoise virou Francisca.

32.

Albertine não era uma prisioneira no exato sentido da palavra. Ela morava na casa do protagonista e podia sair quando quisesse. Saía todos os dias para passear com a amiga Andrée. O motorista a levava onde ela quisesse. A prisão seria representada, primordialmente, pela vigilância cerrada que Albertine enfrentava. O protagonista vigiava, ou mandava vigiar, todos os passos dela.

33.

O protagonista se sente, também, prisioneiro, escravizado à Paris, pois o ciúme não permite que se liberte de Albertine, não permite que viaje para Veneza, não permite que dê a liberdade à moça.

“Sem dúvida, Albertine era muito mais prisioneira do que eu.”

“Certes, Albertine était bien plus prisonnière que moi.”

Convertida em cativa, Albertine perdera o brilho e a beleza.

“(…) porque, encerrada em minha casa, dócil e só, já não era nem mesmo o que em Balbec, quando eu conseguia encontrá-la, ela era na praia, aquela criatura esquiva, prudente e astuciosa (…)”

“(…) parce qu’enfermée chez moi, docile et seule, elle n’était même plus ce qu’à Balbec, quand j’avais pu la trouver, elle était sur la plage, cet être fuyant, prudent et fourbe (…)”

34.

Albertine possuía “longos olhos azuis”.

35.

Albertine, “como um cão ou um gato, não fazia cerimônia para entrar quando encontrava uma porta aberta”.

36.

O protagonista flutua entre sentimentos todo o tempo. Sentimentos flutuantes. Sentimentos inconstantes. Na página 7, amava Albertine. Na página 8, tinha a “sensação nítida de não amar”.

Páginas da minha edição portuguesa de A prisioneira.

37.

No Larousse, fuyant: qui s’éloigne rapidement. No Michaelis, fugidio, que se afasta rapidamente, que corre. Do mesmo modo, fourbe: qui trompe avec une adresse perfide, sournoise; imposteur; qui dénote l’hypocrisie, la perfidie, la fausseté. Fourbe: trapaceiro, ardiloso, falso, hipócrita.

38.

Devemos imaginar uma Albertine pérfida, fugidia, impostora, falsa, ardilosa, hipócrita?

(A continuar).

Tentativas de fazer algo da vida – Hendrik Groen (2014)

Comprei esse livro por indicação de Aguinaldo Médici, do blog Livros que eu li, e adorei o romance.

Sem pieguice, o narrador conta o seu cotidiano em um asilo de velhos em Amsterdã. O narrador tem 83 anos e, no primeiro dia do ano, decide começar um diário. O livro descreve a rabugice dos velhos no asilo, a preocupação constante com o frio e o calor e a comida, e a formação de um pequeno grupo de velhos “diferentes” na rabugice geral, que decidem, juntamente com o narrador, fazer algo interessante no tempo de vida que lhes resta.

Esse grupo forma um clube, o Tovemantomo, Tô-velho-mas-não-tô-morto, e periodicamente um dos membros do clube é responsável por providenciar algum tipo de passeio. Aulas de culinária, pintura, tai chi, e assim por diante, tudo regado a café e bons vinhos e boa companhia. O clube logo passa a ser admirado, invejado e odiado pelos outros velhos. O livro não edulcora a velhice e descreve muitos dos problemas ligados ao envelhecimento, a dificuldade de locomoção, a fraqueza geral, a aproximação da demência, a amputação em diabéticos, a morte, entretanto tudo com uma visão mordaz, bem-humorada, sensível.

O narrador é um leitor assíduo de jornais e não está alheio à evidência de que há velhices e velhices. Enquanto ele não consegue andar mais de quinhentos metros sem se cansar, o jornal publica uma reportagem sobre o homem mais velho a subir o Everest, um senhor de 80 anos.

Excelente livro, especialmente para quem não acredita que vai envelhecer, ou seja, todos que estamos antes da velhice, aqueles que imaginamos que nosso corpo vai ser para sempre o mesmo, pois a gente sabe que vai envelhecer, mas a gente não acredita.

As cidades invisíveis – Italo Calvino

Último parágrafo:

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”

A prisioneira – Marcel Proust (1923)

A prisioneira – Marcel Proust (1923). Tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Souza de Alencar.

Eu havia lido À la recherche du temps perdu em francês e foi difícil, eu perdi muito do texto. Há pouco, comecei a reler em português, e escolhi o volume 5, A prisioneira, para recomeçar. As falhas de compreensão do texto em francês deveram-se, em grande parte, penso, ao fato de que meu volume único da obra, da Gallimard, é um volume seco, apenas o texto, nem uma única nota explicativa. Com isso, é difícil ou impossível compreender referências que faz o autor e expressões que não tem tradução direta. Como já citei em outro texto, há dois exemplos característicos. O Barão de Charlus, homossexual em segredo, refere-se a outros homens que “têm esse vício”, como “une tante”, “uma tia” em tradução direta, mas que significa “bicha”, “veado”. Em outro momento, Albertine, a prisioneira do título, em um momento de impaciência, escandaliza o personagem principal, ao dizer que, em vez de dinheiro, preferia a liberdade de “faire casser le pot”, uma expressão vulgar que significa “dar o cu”. Sem essa compreensão crua, não se compreende bem a agressividade da frase de Albertine. Dessa forma, estou aproveitando para fazer a nova leitura de Proust, em português, e cotejar algumas partes, alguns momentos importantes, com o texto em francês.

Alguém já disse, e concordo, que se pode começar a ler Em busca do tempo perdido por qualquer um dos sete volumes. Por exemplo, neste A prisioneira há referência a diversos acontecimentos dos volumes anteriores, mas nada que impossibilite a compreensão deste livro específico. Os livros se inter-relacionam mas são quase independentes e, de todo modo, a referência a um acontecimento, passado ou futuro, aumenta o interesse de ler ou reler o trecho. Acontecimentos futuros, sim, pois em cada volume, Proust refere coisas que ainda vão acontecer.

A prisioneira deriva diretamente do parágrafo final do volume anterior, Sodoma e Gomorra, no qual o personagem anuncia à mãe que vai se casar com Albertine.

É curioso observar que, nos quatro livros anteriores, o personagem não tem nome. A história é em primeira pessoa e ninguém diz o nome do personagem. Entretanto, no quinto volume, o autor fala, quase em tom de brincadeira, algo assim: “imagine que o nome do personagem seja Marcel como o nome do autor”. E depois, mais umas duas vezes, Albertine diz Marcel, ao se referir ao personagem.

Então, Marcel anunciou que casaria com Albertine, mas não é o que acontece. De fato, Marcel queria manter Albertine junto a si, em sua casa de Paris, disponível, e, ao mesmo tempo, afastar Albertine do “vício” que ele julga, sem certeza, que ela tem.

“Vício”, na obra de Proust, é o homossexualismo.

Não é possível resumir todos os entrelaçamentos que existem em uma obra tão densa como essa, a todo momento a gente percebe uma curiosidade, um outro nível de relações.

Veja-se que Proust era, aparentemente, homossexual, ou bissexual, entretanto o personagem Marcel é heterossexual e, inclusive, em outro volume, rejeita um convite do Barão de Charlus. Na obra, o homossexualismo é chamado frequentemente de “vício”, e a discussão do tema e dos relacionamentos homossexuais ocupa grande parte da obra, entretanto, na maior parte das vezes, de forma encapsulada, discreta. O próprio Barão de Charlus é ridicularizado na descrição de Proust e ridiculariza outros homossexuais da sociedade da época. No entanto, Charlus apresenta um interesse expressivo em apontar mais participantes do vício. Diz ele que entre cada dez homens, apenas três ou quatro gostam de mulheres.

Grande parte dos sete volumes é dedicada a discutir o ciúme e o amor. Não um ciúme comum, mas um ciúme obsessivo. Swann foi extremamente ciumento em relação à Odette, Marcel foi ciumento em relação à Gilberte, uma namoradinha da juventude, o Barão de Charlus tem ciúmes do violinista Morel, com quem mantém um caso, e, neste quinto volume, o ciúme obsessivo de Marcel por Albertine é preponderante.

Marcel não sabe se ama ou se é indiferente a Albertine, mas tem ciúme extremo dela, dos pensamentos dela, do passado dela. Ele usufrui dos “prazeres carnais” que Albertine lhe concede, embora não se saiba exatamente que prazeres seriam esses, a linguagem é eufêmica. Para afastar Albertine do vício de “mulheres que gostam de mulheres”, vive com ela em Paris e a vigia constantemente. Albertine faz passeios, levada pelo motorista, o qual é subornado por Marcel para contar todos os detalhes dos passeios. O personagem cascavilha e investiga a vida da coitada da Albertine. O personagem pensa elaborar alguma forma de se separar de Albertine e, ao mesmo tempo, evitar que ela possa ter encontros com antigas amigas e outros homens.

Albertine sofre demais, é dócil e obediente, mas isso não é suficiente para Marcel. E, na minha opinião, Albertine ama Marcel. Não dá para ter certeza disso, pois só conhecemos a história do ponto de vista extremado do autor. De todo modo, tive muita pena de Albertine, todo o tempo, e detestei o egoísmo, o egocentrismo, a preguiça, o descaso, a covardia, a falta de ânimo, o ciúme louco do personagem principal.

Leia Proust. Depois que você se acostuma com os enormes parágrafos, repletos de uma frase dentro da outra e dentro da outra, que devem ser desenroladas pelo leitor, torna-se uma leitura fascinante.

Marcel

Em um blog, alguém escreveu que Proust, a Recherche pode ser lida a partir de qualquer volume. Curiosamente, tive essa mesma impressão. Os sete volumes se inter-relacionam, mas não dependem exclusivamente uns dos outros. Em um volume qualquer, há referências a fatos relatados nos volumes anteriores, mas isso não impede a compreensão da história.

Cabe notar que a primeira leitura que fiz da Recherche foi mais dificultosa porque a edição da Gallimard era seca, sem qualquer nota. Não dá, Proust precisa de notas para um entendimento mínimo. Exemplos: saber que a expressão “une tante”, em francês, significa “bicha”, “veado”, em português; saber que a expressão “faire casser le pot” ou apenas “casser le pot”, dita por Albertine, significa “dar o cu”, em português.

Livros lidos 2017

Até agora 😉

12) A prisioneira – Marcel Proust (1923)

11) O compromisso – Herta Müller (1997)

10) História de quem foge e de quem fica – Elena Ferrante (2013)

9) História do novo sobrenome – Elena Ferrante (2011)

8) Carne viva – Paulo Francis (2007)

7) A amiga genial – Elena Ferrante (2011)

6) Reunião de poesia – Adélia Prado (2013)

5) Vozes de Tchernóbil – a história oral do desastre nuclear – Svetlana Aleksiévitch (2016)

4) Amor insensato – Junichiro Tanizaki (1924)

3 ) O moleque Ricardo – José Lins do Rego (1935)

2) Fico besta quando me entendem – Entrevistas com Hilda Hilst (2007)

1) Cartas a Murilo Miranda (1934-1945) – Mário de Andrade (1981)

Cabeça – Adélia Prado

Adélia Prado

Cabeça

Quando eu sofria dos nervos,
não passava debaixo de fio elétrico,
tinha medo de chuva, de relâmpio,
nojo de certos bichos que eu não falo
pra não ter de lavar minha boca com cinza.
Qualquer casca de fruta eu apanhava.
Hoje, que sarei, tenho uma vida e tanto:
já seguro nos fios com a chave desligada
e lembrei de arrumar pra mim esta capa de plástico,
dia e noite eu não tiro, até durmo com ela.
Caso chova, tenho trabalho nenhum.
Casca, mesmo sendo de banana ou manga,
eu não intervo, quem quiser que se cuide.
Abastam as placas de ATENÇÃO! que eu escrevo
e ponho perto. Um bispo, quando tem zelo
apostólico, é uma coisa charmosa.
Não canso de explicar isso pro pastor
da minha diocese, mas ele não entende
e fica falando: ‘minha filha, minha filha’,
ele pensa que é Woman’s Lib, pensa
que a fé tá lá em cima e cá em baixo
é mau gosto só. É ruim, é ruim,
ninguém entende. Gritava até parar
quando eu sofria dos nervos.