Os despossuídos, Ursula K. Le Guin, primeiro parágrafo

Havia um muro. Não parecia importante. Foi construído em pedra bruta e grosseiramente cimentado. Um adulto podia olhar por cima dele e até uma criança podia subir nele. No ponto em que interceptava a estrada, em vez de ter um portão, o muro declinava até tornar-se mera figura geométrica, uma linha, uma ideia de limite. Mas essa ideia era real, era importante. Por sete gerações não houve nada mais importante no mundo do que o muro.

Tradução: Danilo Lima de Aguiar.

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Os mímicos, V. S. Naipaul, primeiro parágrafo

Quando vim pela primeira vez a Londres, pouco depois do fim da guerra, passados alguns dias de minha chegada me vi numa pensão, ou “hotel particular”, como era chamada, perto de Kensington High Street. O dono da pensão chamava-se Sr. Shylock. Ele não morava lá, mas o sótão era reservado para ele; e Lieni, a zeladora maltesa, disse-me que de vez em quando ele passava a noite ali com uma jovem. “Essas moças inglesas!”, exclamou ela. Lieni morava no porão com seu filho ilegítimo. Uma aventura ocorrida no início do pós-guerra. No espaço estreito entre o sótão e o porão, entre o prazer e a penitência, moravam os pensionistas.
Tradução: Paulo Henriques Britto.

On cats, Doris Lessing, 2008

On cats, Doris Lessing, 2008, em inglês, 245 páginas.

Não sou fã de gatos, prefiro cães, acho gatos uns animaizinhos egoístas e cruéis. Contudo, encontrei a bela resenha deste livro, em português, feita pelo inacreditável comedor de livros Aguinaldo Médici Severino, interessei-me e peguei a edição em inglês, para exercitar um pouco meu fraquíssimo domínio daquele idioma. Também me interessei pelo livro porque minha filha tem gatos e os adora. Gostei muito do livrinho de Doris Lessing e comprei a edição em português para minha filha.

Doris Lessing ama os gatos em geral. No livro, ela conta de suas experiências com gatos, desde os tempos em que vivia em uma fazenda na África até os anos mais recentes antes de publicar o livro. Há muitas historinhas sobre gatos que ela criou ou conheceu. Lessing é uma exímia observadora do comportamento dos seus bichanos e com ela aprendi muito sobre os sentimentos que eles demonstram. No livro, passamos a conviver com a Grey Cat, a Black Cat, o Rufus e El Magnifico, entre outros gatinhos. O livro prende o leitor e vale a pena a leitura.

Veja a resenha de Aguinaldo Médici, muito mais completa e esclarecedora que a minha, clique aqui.

Carne viva, Paulo Francis, 2007

Carne viva, Paulo Francis, 2007, 262 páginas.

Conta-se na orelha do livro que Paulo Francis (1930-1997) deixou em uma gaveta este romance terminado, até que, dez anos após a morte dele, a sua mulher releu o livro e decidiu publicar. Na minha opinião, é possível que o autor não tenha revisado o romance e que os editores e revisores também não o fizeram. Há trechos incompreensíveis que poderiam ter sido suprimidos e há muitas falhas de revisão. Dois exemplos: (1) Escreveu-se “Jeu de Pomme”, incorretamente, para o nome do museu Jeu de Paume. (2) Diz-se que o Davi, de Michelangelo, é obra de Leonardo.
Falhas mais gerais do romance são (1) a ausência de definição mais exata de uma cronologia, visto que o romance vai aleatoriamente para a década de 1960, às vezes 1990, às vezes 1978, 80, etc, e o leitor se perde. (2) O uso indiscriminado e, por vezes desnecessário de frases e palavras francesas, inclusive no meio de uma discussão acalorada, que soa, dessa forma, artificial. (3) Tudo, no romance, é rápido, raso, artificial e superficial, como se o autor estivesse com pressa de terminar a história, sem se aprofundar em personagens e enredo. (4) Inverossimilhança do personagem Beau, que se mete no maio de 1968, na França, junto ao Cohn-Bendit, depois se mete de dentro com o Baader-Meinhof, pfff.
O romance, por tratar de histórias de uma camada elitíssima da sociedade brasileira, os muito muito ricos, parece fazer referência à obra de Proust, sem a grandiosidade, o detalhamento e a profundidade de Proust.
Fora todos esses defeitos, até vale a pena uma leiturinha, o cara escrevia direitinho, apesar da preguiça para fazer algo melhor. Dá para uma leitura despretensiosa de final de semana

Sob a pele, Michel Faber, 2000

Sob a pele, Michel Faber, 2000, em português, 315 páginas, tradução Léa Viveiros.

Mais ou menos. Gostei e não gostei, mais gostei do que não gostei. De um a cinco, dois e meio, classificações não servem para nada.

É difícil falar desse livro sem fazer revelações, então cuidado se for prosseguir na leitura.

O autor vai revelando o enredo aos pouquinhos, a história é um misto de ficção científica com não-sei-quê-lá.

Enredo.
Um grupo de seres alienígenas, quadrúpedes inteligentes e com um rabo que auxilia na postura e movimentos, instala-se em uma fazenda na Escócia, a partir de onde caçam seres humanos, fazem a engorda, o abate, a seleção da carne, embalagem e, por fim, a remessa para a distribuidora, uma grande empresa que domina o negócio. A caça é feita por uma única pessoa, uma fêmea alienígena que sofreu um monte de cirurgias para ficar parecida com os humanos. É a história dolorosa dessa fêmea que se acompanha mais de perto.

A história é interessante, o livro prende o leitor, mas tem muitas falhas. É divertido aprender gradativamente sobre esse mundo alienígena que o autor imaginou e que descreve sem muitos detalhes, um mundo distópico onde a maior parte das pessoas vive me subterrâneos, compra-se água e oxigênio, a carne humana para consumo é caríssima, a maior parte da população é ferrada, o mundo deles é feio e sujo. O autor não define onde seria esse mundo, é possível até que fosse um mundo subterrâneo aqui mesmo no planeta Terra. As falhas do livro são muitas e incomodam. A moça caça um humano por dia, em média, para não chamar a atenção, entretanto, na Escócia, em uma região de vilas e cidadezinhas, o desaparecimento de um humano por dia já seria excessivo. Um humano por dia é uma produção muito pequena para uma indústria de carnes. O autor também passa por cima do processo aparentemente natural, ou seja, predadores inteligentes não estariam na fase de caçar, e sim na fase de fazer a criação para o consumo. O livro aponta que isso viria a acontecer, mas não faz sentido que não tenha sido assim desde que eles começaram o processo na fazenda. A empresa esconde dos consumidores que os humanos são inteligentes, falam e tem uma cultura própria, assim fica mais fácil consumi-los. Entretanto, um alien da Elite visita a fazenda, vê os humanos no processo de engorda, não percebe que eles tiveram as línguas extirpadas, um dos humanos tenta se comunicar escrevendo na areia, ele não percebe que aquilo é uma forma de comunicação, peraí, qualquer ser inteligente veria isso. Há muitas outras pequenas falhas que tor nam a leitura incômoda.

Por fim, se o livro tenta, subrepticiamente ou explicitamente, fazer com que a gente veja como sofrem os animais que comemos, para mim isso é inútil. Primeiro, não gosto de libelos ou manifestos em forma de romance. O romance não é o meio para defender causas, isso é corromper o romance. Segundamente, continuo carnívoro sem piedade nenhuma dos animais que como, venho de uma elite de predadores, predo plantas e animais e ovos e mais, não importa se as plantas et cetera sentem dor.

Apesar das falhas, um livro bom para ler, pensar, conversar sobre.

Três frases tolas

Havia um muro pintado no trajeto que ele fazia diariamente para o trabalho. Ele evitava ler as três frases pintadas no muro, odiava aquelas frases. Passava de bicicleta e desviava o olhar do muro. Às vezes, distraído, lia as frases, ficava puto por ter lido as tolices, mais uma vez.

1 – “Onde há música, não pode haver coisa má”: esse nunca assistiu Laranja Mecânica.

2 – “Às vezes, a música é o melhor conselho que se pode ouvir”: e às vezes não.

3 – “A maior limitação ainda é o preconceito”: esse não sabe nada de limitações, devia ver um aleijado andar nas calçadas do Recife, que não prestam nem para os bípedes, para entender o que é limitação.

Rendezvous with Rama, Arthur Clarke, 1973

Rendezvous with Rama, Arthur Clarke, 1973, em inglês, 256 páginas.
Não gostei do livro. Leria novamente porque gosto de ficção científica. Não gostei porque o enredo tem muitas falhas, o livro é esquemático, parece aqueles livros escritos com facilidade, com uma mão nas costas, escrito preguiçosamente. Não me importa que o livro tenha ganho dois, três prêmios de ficção científica, não é bom mesmo assim.
Se você não quer conhecer excessivamente a história, não leia a seguir.
Decidi ler este livro porque um objeto estranho adentrou o sistema solar, por estes dias, foi batizado de Oumuamua, muita gente interessada em questões do espaço recordaram ou citaram o livro de Clarke, fui ler.
Enredo: o ano é 2131 e uma nave espacial gigantesca de formato cilíndrico, 50 km de comprimento por 20 km de diâmetro, entra no sistema solar. Os United Planets enviam uma nave espacial, Endeavour, para pousar no cilindro e explorá-lo como for possível enquanto ele não sair do sistema solar.
Falhas:
– estrutura esquemática do romance: um capítulo mostra as peripécias da Endeavour em Rama, o próximo mostra tediosas reuniões de um conselho de embaixadores de planetas que discutem a questão Rama.
– ações sem motivação: a nave Rama parece despertar quando se aproxima do sol, pensa-se que ela vai entrar em órbita, ou que ela está se preparando para o despertar de seus possíveis habitantes, a nave é tomada por biots, seres mistos entre orgânicos e robôs. Pouco depois, todos os seres são destruídos para futura reciclagem, a nave entra hibernação novamente, atravessa a coroa solar e vai embora. Ora, se o objetivo da nave, declarado pelo autor, era se abastecer de energia e aumentar a velocidade em direção a um objetivo longínquo, para quê toda aquela atividade anterior? Para nada.
– falta de visão de futuro: Ray Bradbury, que não é um gênio nem nada, previu em seus livros coisas como jogos virtuais em rede, pessoas viciadas em interações virtuais, quartos e salas completamente dedicados ao divertimento televirtual, televisivo. Clarke, neste livro, parece não exercitar a imaginação. Há mapas de papel e cópias são distribuídas, as comunicações por rádio são caras, os astronautas não possuem equipamentos para se mover no vácuo por longo tempo e resolvem tudo dentro de Rama a pé, as baterias dos equipamentos que possuem duram pouco.
– machismo: Bradbury descrevia a sociedade que habitava Marte com mulheres donas de casa, homens que trabalhavam para sustentar o lar, e negros que eram discriminados, ou seja ele não conseguiu se libertar da visão de mundo de sua época, neste aspecto. Clarke também não conseguiu extrapolar pelo menos um pouco a sociedade de 1973. Há duas mulheres entre a tripulação da nave, uma delas, a médica, dá para o comandante da nave. Este, como é permitido em 2131, é casado com uma mulher na Terra e outra em Marte. Elas cuidam dos filhos em seus planetas. Para facilitar, nas mensagens que envia para elas, ele evita dizer o nome de cada uma, assim ele pode enviar a mesma mensagem repetida. Não há mulheres no tal conselho dos planetas.
Por fim, a esse respeito, penso que um livro qualquer pode contar uma história essencialmente masculina, o personagem pode ter uma visão masculina ou machista, ora é um personagem!, entretanto, quando se trata de uma ficção científica ambientada no futuro, o autor deveria se esforçar para projetar-imaginar evoluções-revoluções sociais e científicas, e não apenas ficar no rame-rame preguiçoso. Decepcionante este livro de Clarke.