The Lolita Workout

115. No capítulo 25, Humbert muito ansioso, pouco antes de ir buscar Dolores no Acampamento Q. Acredito que Nabokov, de forma figurada e sutil, descreve a explosão da tensão sexual de Humbert. HH estaciona o carro próximo a um hidrante que considera tenebroso, vermelho e prata, debaixo de chuva forte. HH telefona para o Acampamento Q e, depois de falar com a coordenadora, recebe de volta todas as moedas que havia depositado, uma enxurrada como a de uma máquina caça-níqueis. Por fim, mais calmo, a chuva passou, HH faz compras e observa que a cidadezinha está como coberta de prata e vidro.

116. “(…) obscure motives of envy and dislike, (…)”. Um bom título para um livro.

117. “Oh, let me be mawkish for the nonce! I am so tired of being cynical.”

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O cambista e sua mulher – Quentin Metsys – 1514

O cambista e sua mulher – Quentin Metsys – 1514 – Museu do Louvre

Bela pintura, na qual se destaca, para mim, o espelho convexo na mesa.

Como diz o Guia do Louvre:
“Uma inscrição latina retirada do Levítico figurava no século XVII na moldura deste quadro: “Que a balança seja justa e os pesos sejam iguais”, indicando a intenção moralizadora da cena. É igualmente sublinhada pelo olhar pensativo da mulher que levantou os olhos do livro de orações e parece meditar sobre os bens deste mundo observando os gestos do marido. Esta obra foi sem dúvida inspirada num quadro perdido de Jan van Eyck. Uma referência confirmada pelo espelho convexo do primeiro plano que nos remete ao célebre Retrato do Casal Arnolfini, de Eyck, que está em Londres na National Gallery”

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Grana, desejo, Bovary

O principal problema das gentes é a insuficiência de grana, o dinheiro nunca é suficiente para tudo que precisamos, tudo que desejamos, muitas vezes não é suficiente nem para o essencial. Depois da grana vem o desejo, principalmente sexual, que nos atormenta por grande parte da vida. O amor não é uma questão, um problema, o amor é uma ilusão. Na base, ou no fundo do que se convenciona chamar de amor está o desejo, o egoísmo. A literatura, geralmente, ignora o problema da grana e se concentra no desejo. Em Madame Bovary, Flaubert une as duas pontas e Emma se suicida no momento em que está mais ferrada de dívidas.

Lendo Lygia 2

Esse livro de Lygia, As horas nuas, está sendo tedioso para mim porque é feito todo de pensamentos, nada acontece, tudo já aconteceu, a história não anda para a frente. Em cada capítulo, alguém está pensando sobre fatos do presente e do passado. Rosa, meio bêbada, pensa sobre sua vida, o gato pensa sobre suas vidas passadas como gente (duas coisas detestáveis: gato pensando e vidas passadas), a psiquiatra de Rosa passa uns dois capítulos pensando sobre pacientes e sobre um misterioso e talvez inexistente vizinho. O livro não pega.

Lendo Lygia

As horas nuas, Lygia Fagundes Telles, 1989. Anotações durante a leitura.

“Entro no quarto escuro, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio, desabo em cima dessa coisa, ah! meu pai. A mania de Dionísia largar as trouxas de roupa suja no meio do caminho. Está bem, querida, roupa que eu sujei e que você vai lavar, reconheço, você trabalha muito, não existe devoção igual mas agora dá licença? eu queria ficar assim quietinha com a minha garrafa, ô! delícia beber sem testemunhas, algodoada no chão feito o astronauta no espaço, a nave desligada, tudo desligado. Invisível. O que já é uma proeza num planeta habitado por gente visível demais, gente tão solicitante, olha meu cabelo! olha o meu sapato! olha aqui o meu rabo! E pode acontecer que às vezes a gente não tem vontade de ver rabo nenhum.”

Lendo As horas nuas, de Lygia Fagundes Telles. Um excelente primeiro parágrafo, um primeiro capítulo mediano, Rosa Ambrósio, uma atriz, fala de sua vida de forma confusa, entrecortada, mas o livro não conseguiu me prender, de início. O capítulo seguinte traz dois pontos que detesto: um gato pensando e vidas passadas. O mesmo gato que narra em primeira pessoa relembra uma vida que teve em Roma, algo assim. Será que vai melhorar? Tedioso. O terceiro capítulo é bom, volta Rosa, ela comenta sobre a porcaria que é o Brasil, era 1989, continua a mesma merda, desanimador. O quarto, volta o gato a observar os acontecimentos, merda, hum, vai ser esse esquema: um capítulo com Rosa, um com o gato, saco.

Frida Meyer, de Vivaldo Coaracy, na Revista BBM

Frida Meyer, de Vivaldo Coaracy, na Revista BBM. “Cahia a tarde, grisalha e triste. Vinha de longe, vago, um prenuncio de chuva, no ar frio daquella primavera precoce. (…) Frida estendia o olhar dos olhos ainda congestionados do pranto, sobre a paizagem tristonha. Tomava-a um acabrunhamento completo, todo o seu ser, alma e corpo, como um trapo, e via na atonia cinzenta do dia o reflexo do seu proprio estado de espirito, o marasmo em que sentia esboroar-se-lhe a vida.”

“Nesses quatro anos de convivência constante [Frida] apenas percebera, sem jamais ouvir-lhe um queixume, que a mãe encarava a existência como se fosse uma punição, castigo em que estivesse a purgar um pecado antigo.”

A autora do artigo comenta: “Não parece haver espaço, nesse universo, para soluções folhetinescas, nas quais o dinheiro advém da sorte grande ou de herança providencial.”

E é justamente esse tipo de solução, a grana que surge fora do universo impactante do trabalho, que muito me incomoda em muitos romances. Exemplo evidente, Lolita, Nabokov, no qual Humbert recebe uma herança de um tio na América. Isto, uma herança, uma grana surgida do nada, facilita tudo, facilita a trama do romance.

Juntos ao acaso

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Leo foi ao sebo e cavocou e permitiu que os livros caíssem em suas mãos. Aleatoriamente, pegou um Calvino e uma Lygia. Fotografou os amontoados de livros. Horas depois, em casa, pegou uma das fotografias, parecia ser uma prateleira de biografias, um grosso volume com James Joyce na lombada. Eram biografias e um fino livro vermelho quase escondido pelo Joyce, o surpreendente título, Hitler por ele mesmo. Anota na cabeça para voltar na loja e manusear o livrinho vermelho.