Poente, azul, três da tarde

Poente, azul, três da tarde
O portão encimado por lanças
Pontiagudas, ensimesmado
Deserto
Nunca vira o portão
Passava ali todos os dias
Acima, o arco com as letras
Maiúsculas
British Cemetery
Torravam ao sol do quase-Equador

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Hamlet

“É um risco que alguém de baixa estirpe se meta entre os golpes e feras pontas abrasadas de opostos poderosos.”

Hamlet traduz para uma linguagem sofisticada o dito popular “em briga de cachorro grande, quem mete a mão acaba mordido” ou “em briga de cachorro grande, vira-lata fica calado”.

Macbeth, Ato 1, Cena 3

Como exercício, inventei de traduzir mais uma cena de Macbeth. É difícil para mim, mas o resultado é prazeroso e traz grande aprendizado sobre a obra e os personagens.

Ato 1, Cena 3.
Uma charneca perto de Forres.
(Trovão. Entram as três feiticeiras.)

Primeira feiticeira
Por onde tu tens estado, irmã?

Segunda feiticeira
Matando suínos.

Terceira feiticeira
E tu, irmã?

Primeira feiticeira
A esposa de um marinheiro trazia castanhas no colo,
E mastigava, e mastigava, e mastigava:
– “Dê-me”, eu disse:
“Não são para ti, bruxa” gritou a gorda sarnenta.
O marido dela está indo para Alepo, Tigre é seu navio:
Em uma peneira eu navegarei para lá, (1)
E como um rato sem rabo,
Eu vou roer, eu vou roer, e eu vou roer.

Segunda feiticeira
Eu te darei um vento.

Primeira feiticeira
Que gentileza.

Terceira feiticeira
E eu te darei outro.

Primeira feiticeira
Eu mesma tenho outros;
E por muitos portos eles sopram,
De todos os cantos conhecidos
No mapa do marinheiro.
Eu o secarei como uma palha:
Ele não dormirá dia e noite
Suas pálpebras sempre abertas;
Se tornará um homem condenado:
Fatigado sete noites nove vezes nove
Ele enfraquecerá, sobe, desce, sobe:
Embora o barco não se perca,
A tempestade será inclemente.
Olhem o que eu tenho.

Segunda feiticeira
Mostra, mostra.

Primeira feiticeira
Tenho aqui o polegar de um piloto,
Que naufragou quando ia para casa.

(Som de tambor)

Terceira feiticeira
Um tambor, um tambor!
Macbeth chega.

Todas
As irmãs videntes de mãos dadas,
Viajantes do mar e da terra,
Então irão sobre, sobre:
Três vezes para vós, e três vezes para nós,
E três vezes de novo, para completar nove:
– Paz! – o feitiço foi lançado.

(Entram Macbeth e Banquo. Soldados a alguma distância.)

Macbeth
Um dia tão detestável e tão justo ainda não tinha visto.

Banquo
Quanto falta para Forres? Quem são aquelas
Tão secas e tão selvagens em suas vestes,
Que não parecem habitantes da terra,
E ainda assim estão sobre ela? Estão vivas? Ou são algo
Que pode nos intrigar? Vocês parecem me compreender,
Pois seus dedos rachados cobrem
Seus lábios finos: – poderiam ser mulheres,
Mas suas barbas me proíbem julgar
Que o são.

Macbeth
Falem se conseguem; o que são vocês?

Primeira feiticeira
Salve ambos. Salve, Macbeth, thane de Glamis!

Segunda feiticeira
Salve ambos. Salve, Macbeth, thane de Cawdor!

Terceira feiticeira
Salve todos, Macbeth, que será rei no futuro!

Banquo
Bom senhor, por que parece temer
Coisas que soam tão belas? Em nome da verdade,
São vocês sobrenaturais, ou aquilo que de fato
A aparência nos mostra? Meu nobre companheiro
Vocês agradaram com essa dádiva, e grandes previsões
De nobreza e de real esperança
Que ele parece extremamente fascinado: para mim, não falaram:
Se vocês podem olhar nas sementes do tempo,
E dizer qual grão vingará e qual não,
Falem, então, para mim, que não imploro nem temo
seus favores tampouco seu ódio.

Primeira feiticeira
Salve!

Segunda feiticeira
Salve!

Terceira feiticeira
Salve!

Primeira feiticeira
Menor que Macbeth, e maior.

Segunda feiticeira
Não tão feliz, e muito mais feliz.

Terceira feiticeira
Tu farás reis, mas não serás nada:
Então, salve ambos, Macbeth e Banquo.

Primeira feiticeira
Banquo e Macbeth, salve!

Macbeth

Fiquem, falantes imperfeitas, contem-me mais:
Pela morte de Sinel, sei que sou o thane de Glamis; (2)
Mas como de Cawdor? O thane de Cawdor vive, (3)
Um próspero cavalheiro; e ser rei
Está fora da possibilidade de crença
Não mais que ser Cawdor. Digam de onde
Tiraram esse estranho conhecimento? Ou por que
Nesta insípida charneca interromperam nosso caminho
Com tais bem-aventuranças proféticas? Falem, eu ordeno.

(As feiticeiras desaparecem.)

Banquo
A terra tem bolhas, como a água tem,
E estas são delas: como desapareceram?

Macbeth
No ar; e aquilo que parecia corpóreo misturou-se
Como a respiração ao vento. Elas deviam ter ficado!

Banquo
Tais coisas estiveram aqui e falamos com elas?
Ou comemos raízes maléficas
Que deixam prisioneira a razão?

Macbeth
Teus filhos serão reis.

Banquo
Tu serás rei.

Macbeth
E thane de Cawdor também, não foi isso?

Banquo
Com o mesmo tom e as mesmas palavras.
Quem vem lá?

(Entram Ross e Angus.)

Ross
O rei recebeu com felicidade, Macbeth,
As notícias do teu sucesso: e quando ele soube
Da tua ventura pessoal na luta contra os rebeldes,
A admiração e gratidão dele combateram
Acerca de qual deveria ser tua, qual deveria ser dele; emudecido,
Em vista de tudo que aconteceu naquele dia,
Ele soube de ti nas difíceis posições norueguesas,
Sem temor daquilo que tu fizeste, (4)
Estranhas imagens da morte. Tão espesso quanto granizo
Veio mensagem após mensagem; e cada uma confirmou
Teu empenho na imensa defesa do reino dele,
E submeteste a todos perante o rei.

Angus
Nós fomos enviados
Para te dar os agradecimentos de sua real majestade;
Somente para te agradecer no lugar dele,
Não para te pagar.

Ross
E para cúmulo de uma honra imensa,
Ele me ordenou, da parte dele, chamar-te thane de Cawdor:
O mais valoroso thane, salve, adiciona mais um
Título aos teus.

Banquo
(À parte.) Como é possível que o demônio fale a verdade?

Macbeth
O thane de Cawdor vive: por que você me veste
Com roupas de empréstimo?

Angus
Aquele que foi o thane ainda vive;
Mas sob severo julgamento confirmou que tal vida
Serve-lhe somente para perdê-la. Se ele estava aliado
Com aqueles da Noruega, ou alinhou-se aos rebeldes
Com secreta ajuda e vantagem, ou com ambos
Trabalhou para a derrocada de seu país, eu não sei.
Todavia traições capitais, confessadas e provadas,
Caíram sobre ele.

Macbeth

(À parte.) Glamis, e thane de Cawdor!
O melhor está por vir. (Para Ross e Angus.)
Meus agradecimentos pelo incômodo.
(Para Banquo, à parte.) Tu agora esperas que teus filhos se tornem reis,
Visto que aquelas que me deram o thane de Cawdor
Não prometeram menos para eles?

Banquo
(À parte para Macbeth) Aquilo, caro senhor,
Pode ainda inspirá-lo para a coroa,
Além de thane de Cawdor. Mas é estranho:
Frequentemente, para nos levar à destruição
Os instrumentos das trevas nos falam verdades;
Convencem-nos com honestas ninharias, para nos afundar
Em severas consequências.
Primos, uma palavra, eu peço.

Macbeth
(À parte) Duas verdades foram previstas,
Como feliz prólogo para o expansivo ato
Do tema imperial.
Eu agradeço a vocês, cavalheiros.
(À parte) Este sobrenatural convite
Não pode ser mau; não pode ser bom: se mau,
Por que me teriam dado a prova do sucesso,
Iniciando pela verdade? Eu sou thane de Cawdor:
Se bom, porque produziriam tal sugestão
Cuja terrível imagem faz arrepiar meu cabelo,
E faz meu coração se chocar com as costelas
Contra o costume natural? Os temores presentes
São menores que as horríveis fantasias:
Meu pensamento, no qual o assassinato ainda é fantástico,
Sacode minha solitária condição de homem, cuja função
É sufocada no pressentimento; e nada é
Tampouco não é.

Banquo

Olhem, como nosso companheiro está fascinado.

Macbeth
(À parte) Se o acaso me quer rei, o acaso
Deve me coroar,
Sem meu movimento.

Banquo
Novas honrarias caem sobre ele
Como estranhas armaduras, não apegadas ao modelo
Mas com a ajuda do costume.

Macbeth
(À parte) Aconteça o que acontecer,
O tempo e a hora passam até pelo mais difícil dia.

Banquo
Honorável Macbeth, permanecemos a seu dispor.

Macbeth
Perdoem-me: meu tolo cérebro estava tomado
Com coisas esquecidas. Gentis cavalheiros, seus préstimos
Estão registrados e a cada dia eu voltarei
A página para lê-los. Vamos ao rei.
(Para Banquo) Medite sobre os acontecimentos e, mais tarde,
Havendo sopesado-os, conversaremos
Com nossos corações abertos um para o outro.

Banquo
Com muito prazer.

Macbeth
Até lá então. Vamos, amigos.

————-

(1) Peneiras faziam parte da cozinha de uma feiticeira. Um texto de 1591, Newes from Scotland, relata que duzentas feiticeiras de uma vez atravessaram o mar em suas peneiras.

(2) Sinel foi o pai de Macbeth do qual ele herdou o título de thane de Glamis.

(3) Deve ser erro de continuidade visto que Macbeth deveria saber sobre a traição de Cawdor.

(4) As estranhas imagens da morte são os corpos que restaram nos campos de batalhas.

Anotações Macbeth

Anotações Macbeth

Macbeth, William Shakespeare, 1606, tradução e introdução de Bárbara Heliodora, Editora Nova Fronteira, 134 páginas.

A tradução

Já havia lido Macbeth mais de uma vez em traduções que não lembro quem fez. Encontrei esse volume com tradução de Barbara Heliodora e decidi ler mais uma vez. Sim, a tradução dela é boa, e Heliodora é admirada entre os tradutores brasileiros. Todavia, ainda não encontrei a tradução do jeito que prefiro: traduzir Shakespeare diretamente, quase literalmente, sem lutar com a métrica e a rima. Meu desejo é conhecer a frase inteira, do jeito que o autor pensou, se for possível. No caso de Heliodora e de quase toda tradução do autor, para se acomodar a uma ou a outra, o tradutor transforma a oração. Veja-se apenas um exemplo, quando a Segunda Feiticeira responde à pergunta da Primeira (quando nos encontraremos de novo?):

Shakespeare escreveu:
When the hurlyburly’s done,
When the battle’s lost and won.

Eu traduzi de forma direta:
Quando a confusão estiver terminada,
Quando a batalha estiver perdida e ganha.

Barbara Heliodora traduziu:
Só com a bulha arrefecida,
Ganhar a luta perdida.

Heliodora optou por bulha porque a palavra se parece com hurlyburly em som e sentido. Optou por luta perdida para rimar. Entretanto, essa opção faz perder significado. No primeiro verso, bulha não tem o significado claro e imediato de confusão. No segundo verso, perdeu-se a intenção do autor. Shakespeare fala em batalha perdida e ganha porque a batalha é perdida por um lado e é ganha pelo lado oponente. Ganhar a luta perdida não me dá essa ideia.

Portanto, a tradução de Heliodora é boa e tem boas rimas, mas perde em significado e em aderência à ideia original.

A introdução feita pela tradutora é muito boa e adiciona elementos à comprensão da obra. Entretanto, esta edição da Nova Fronteira peca pela ausência de notas explicativas. Há muitos contextos e citações que necessitavam ser explicados ao leitor atual. Deve haver edições melhores de Macbeth em português.

A história

Evidentemente, Macbeth é um clássico e todo clássico deveria ser lido um dia. Talvez quem nunca tomou conhecimento sobre a obra tenha ao menos uma vaga noção de um rei, algumas bruxas, algum sangue, alguma batalha. Macbeth é uma história sobre ambição desmedida, sobre insanidade, violência e crueldade. O personagem Macbeth é o valente general do rei Duncan e se destaca nas batalhas recentes. Sua ambição é despertada por feiticeiras que o saúdam como futuro rei. Ao hospedar Duncan, Macbeth ainda tem dúvidas sobre o ato, porém, pressionado pela esposa, comete o regicídio. Daí em diante, Macbeth afunda em sangue. Parece buscar na quantidade de crimes uma forma de anestesiar o primeiro assassinato. Lady Macbeth, de início tão segura e determinada, é tomada pelo peso do crime, a visão e o cheiro do sangue a perseguem, e ela tira a própria vida. Depois de cometer diversos assassinatos para se manter no poder, Macbeth é derrotado pelas forças inglesas que apoiam o herdeiro legítimo do trono, o filho mais velho do rei Duncan.

O livro é excelente. As dúvidas iniciais de Macbeth acerca do crime, sua gradual transformação em sanguinário e sem limites, as visões e aparições que ambos, ele e sua esposa, presenciam, todo o sobrenatural da peça, tudo isso é marcante. As cenas em que as feiticeiras aparecem estão entre as melhores. Percebo nelas, além da maldade e da falsidade, uma alegria malévola e até infantil. É relevante observar que momentos cruciais da história, e da peça teatral, não são mostrados, ou seja, são apenas subentendidos e referidos depois pelos personagens: assim, o assassinato de Duncan por Macbeth, o momento em que Lady Macbeth vai ao quarto do rei assassinado deixar as adagas, o suicídio de Lady Macbeth. Observe-se, também, que é o fantasma de Banquo que assombra Macbeth, não o do rei Duncan. Na peça, não se esclarece a forma como Banquo dará origem a uma casa real, algo que foi previsto pelas feiticeiras, visto que Macbeth é derrotado e sucedido pelo herdeiro legítimo de Duncan.

Uma obra inesquecível, sombria, sanguinária e valiosa.

Resumo e anotações

Ato 1

Cena 1

Na charneca, apresentação das bruxas.

Cena 2

Duncan, rei da Escócia, no acampamento, recebe notícias das batalhas contra a Irlanda e a Noruega. A coragem dos generais Banquo e Macbeth, este chamado de noivo de Belona. Belona é a deusa da guerra na mitologia romana. Duncan ordena a morte do traidor, o Thane de Cawdor, e determina que Macbeth fique com o título. Thane é um título de nobreza semelhante a conde ou barão.

Cena 3

As bruxas na charneca, com Macbeth e Banquo. Banquo: “Quem são essas, tão secas e tão loucas no vestir, que não parecem habitar a terra?” As bruxas prevêem que Macbeth será Thane de Cawdor e rei, e que Banquo será pai de reis. Banquo: “Mas, falamos de algo que aqui esteve, ou comemos raízes que enlouquecem fazendo o cérebro seu prisioneiro?” Rosse e Angus informam que Macbeth agora é Cawdor. Banquo tem ótimas falas: “Muita vez, para levar-nos para o mal, as armas do negror dizem verdades; ganham-nos com tolices, para trair-nos em questões mais profundas”. Macbeth: “A tentação do sobrenatural não pode nem ser má e nem ser boa”. Macbeth está assustado: “se o fado me quer rei, me coroe sem que eu me mova”.

Cena 4

No palácio Forres, Duncan e seu filho Malcolm. Cawdor foi executado: “Em sua vida, nada lhe foi tão bem quanto o deixá-la”. Macbeth é primo do rei Duncan. Malcolm é feito Príncipe de Cumberland. Combina-se que todos irão a Inverness, o castelo de Macbeth. Ele: “Apaga, estrela, para que a luz não veja os meus negros desígnios”.

Cena 5

Em Inverness. Lady Macbeth lê a carta do marido e pensa: “Temo-te a natureza: sobra-lhe o leite da bondade humana para tomar o atalho. Sonhas alto, não te falta ambição, porém privada do mal que há nela! (…) Vem para que eu jorre brio em teus ouvidos.” Ela está mais decidida ao crime que o marido, “Vinde espíritos das ideias mortais, tirai-me o sexo”, para que ela possa atuar como homem e exercer a “vil crueldade”. Clama aos “espíritos mortíferos” para tornar seu “leite em fel”. Macbeth chega na frente da comitiva do rei e ela diz a ele: “Teu rosto é um livro aonde os homens podem ler suspeições”. Macbeth angustiado.

Cena 6

Em Inverness, o rei Duncan é recebido por Lady Macbeth.

Cena 7

Macbeth tem dúvidas: “Não vou levar avante esse negócio”. Lady Macbeth: “Estava bêbada a ambição que vestias? E dormiu?”. E ele: “Paz, eu peço”. Ela mais forte e mais decidida. Macbeth: “Estou pronto”.

Ato 2

Cena 1

Em Inverness, Banquo e Macbeth no pátio do castelo, Banquo sonhou com as bruxas. Macbeth: “Estar do meu lado quando calhar lhe trará honra”. Banquo mostra reservas em relação a Macbeth: “Desde que não a perca por querer aumentá-la”. Macbeth fica só e tem a visão de um punhal, “uma adaga da mente”.

Cena 2

Lady Macbeth receia que o atentado falhe: “A tentativa pode perder-nos, não o ato em si”. Duncan se parece com o pai dela, Lady Macbeth não conseguiria matá-lo. Macbeth: “Fiz o feito. (…) É uma triste visão”. “Tolice”, responde ela. “Não pense tanto nisso (…) Não se pode pensar dessa maneira nesses feitos, assim ficamos loucos”. Macbeth ouviu uma voz: “Macbeth matou o sono e não mais dormirá”. Ele ainda está com os punhais ensanguentados. Lady Macbeth lhe diz que volte, leve os punhais e besunte os guardas com sangue – haviam sido embebedados e drogados por ela. Macbeth: “Não posso mais”. Ela vai: “Os que dormem e os mortos são só quadros. Só crianças temem um diabo pintado”. Macbeth: “O vasto oceano não consegue lavar o sangue destas mãos (…) Antes, estas mãos conseguiriam avermelhar a imensidão do mar”. Batem e batem nas portas do castelo. Macbeth: “Acordem Duncan com o seu bater. Quem dera o conseguissem”.

Cena 3

Lenox e Macduff chegam para acordar o rei. Vai Macduff ao quarto de Duncan. Macbeth e Lenox, “a noite foi inquieta”, “a noite foi terrível”. Macduff retorna e Lenox e Macbeth correm para ver o feito. Macduff: “Alarme, alarme, homicídio e traição. (…) Deixai o sono, imitação da morte, e olhai a própria morte.” Lady Macbeth, Banquo, Donalbain, Malcolm, Macbeth: “Se eu morresse uma hora antes do havido, minha vida seria abençoada.” Macbeth matou os assassinos, os guardas, em um ímpeto de fúria. Banquo: “Lutarei contra a falsidade oculta da maldosa traição.” Donalbain e Malcolm, filhos de Duncan, percebem o perigo: “Mostrar dor que não se sente é tarefa que o falso cumpre bem.” “Onde estamos há punhais nos sorrisos.” “A fatal flecha ainda não pousou e o mais seguro é evitar o alvo.” Sem “adeuses delicados”, eles partem.

Cena 4

Fora do castelo, Rosse e um velho, o dia está negro, foram horas terríveis. Velho: “É anormal como o ato perpetrado. Na terça-feira, um falcão altaneiro foi trucidado por uma coruja.” Macduff: “Os cavalos de Duncan fugiram, os filhos do rei são suspeitos pois fugiram. Macbeth foi para a coroação em Scone, Rosse vai para lá, Macduff para Fife.

Ato 3

Cena 1

Forres, palácio. Banquo, Macbeth e Lady Macbeth conversam, haverá uma ceia à noite. Banquo vai cavalgar com o filho. Macbeth: “Nossos primos sangrentos, nos informam, fugiram para Inglaterra e Irlanda sem confessar o cruel parricídio.” “Um cetro (!) estéril tenho em minha mão”, diz Macbeth, visto que as bruxas profetizaram que Banquo seria pai de reis. Macbeth contrato dois assassinos: “Cada alento de Banquo torna-se um golpe em minha própria vida.”

Cena 2

Sala do castelo, Lady Macbeth: “Não há ganhos, tudo é perda se o desejo se alcança sem prazer.” Macbeth: “Duncan está na tumba, dormindo após a febre desta vida.” Ele diz que o casal está “escondendo o que somos” e que “escorpiões entopem minha mente”. “Só o mal pode fazer crescer o mal.”

Cena 3

Um caminho que leva ao castelo, surge um terceiro assassino (falha de roteiro?), matam Banquo e Fleance foge.

Cena 4

Um banquete no castelo. O casal Macbeth e nobres. Um assassino vem falar com o rei. “Há sange no teu rosto”, “só de Banquo”, “melhor em você que dentro dele”. O fantasma de Banquo se senta na cadeira de Macbeth: “Não podes me acusar, nem sacudas para mim o teu cabelo ensanguentado.” A aparição do fantasma é “mais estranha que o próprio assassinato”. “Podem tais coisas existir e sombrear-nos, qual nuvem de verão, sem ser com espanto?” “Ele quer sangue: sangue pede sangue.” “Estou tão fundo em sangue que, se paro, a travessia e a volta são iguais.” Todavia, a angústia faz com que Macbeth diga que “ainda somos novatos em tais feitos.”

Cena 5

Na charneca. Hécate irada porque não foi chamada a participar dos feitiços. Diz que Macbeth “é um filho tão sem jeito que só tem ódio” e recomenda “aumentar-lhe a confusão”. “Confiar demais é o inimigo dos mortais”. O espírito está me esperando, e sai.

Cena 6

Escócia. Lenox faz ironia acerca dos assassinatos. Macduff está desgraçado porque não atendeu ao convite de Macbeth para jantar. “Que volte a ser abençoada nossa pátria que sofre sob mão maldita.”

Ato 4

Cena 1

Uma caverna escura com um caldeirão fervendo. As feiticeiras conjuram feitiços: “fígado de mau judeu (…) Nariz de turco e bandido”. Entram Hécate e outras três bruxas e logo saem. Macbeth chega. “Queres que falemos nós ou nossos mestres?”. “Eles.” Macbeth não precisa fazer perguntas, as aparições já sabem as perguntas, é só ouvir as respostas. Um: cuidado com Macduff, dois: ninguém parido de mulher pode ferir Macbeth, três: jamais será vencido enquanto a floresta de Birnam não se mover. Haverá uma linhagem de reis com origem em Banquo. Macduff foge para a Inglaterra.

Cena 2

Castelo de Macduff. Lady Macduff com Ross, depois com o filho. “Quem jura e mente é traidor.” “Juradores e mentirosos são tolos porque há bastantes juradores e mentirosos para ganhar dos honestos e enforcá-los.” Assassinos a mando de Macbeth matam Lady Macduff e filhos.

Cena 3

Na Inglaterra, Malcolm recebe Macduff: “Os anjos brilham apesar de Lúcifer.” Macduff: “Nem na tropa que habita o inferno pode haver demônio pior que Macbeth.” Malcolm não confia em Macduff e se denigre, diz que é pior que Macbeth. Macduff cita a sua luxúria. E Macduff: “Sempre há damas dispostas (…) todas as que aos grandes se querem dar quando buscadas.” E ainda: “Triste nação cujo cetro de sangue está com um tirano sem direito a ele.” Malcolm acredita em Macduff e conta que irá atacar com Siward e dez mil soldados. O rei da Inglaterra sofre do Mal e cura doenças e chagas. Ross comunica a Macduff a morte da mulher e dos filhos. “Até a longa noite acaba em dia.”

Ato 5

Cena 1

Dunsinane. Médico, dama e Lady Macbeth que alucina, sangue nas mãos, “Mas quem haveria de pensar que o velho tivesse tanto sangue?”, sente cheiro de sangue.

Cena 2

Campo aberto. Lenox e outros passam para o lado de Malcolm.

Cena 3

Dunsinane. A notícia de que são dez mil homens a força inglesa. Sobre a doença de Lady Macbeth, o médico diz que “males escritos no cérebro (…) nisso o doente tem de curar-se a si mesmo.”

Cena 4

Campo aberto com vista para a floresta. O exército e os nobres, Malcolm, Siward, Macduff, Lenox, Ross. Os soldados cortam galhos e usam como camuflagem.

Cena 5

Dunsinane. Macbeth: “Estou farto de horrores: o pavor, íntimo do meu pensar, já nem assusta.” “A vida é só uma sombra. Um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o idiota, todo som e fúria sem querer dizer nada.” Avisam a Macbeth que “a floresta avança.”

Cena 6

Na planície, o exército de Malcolm avança com Siward à frente.

Cena 7

Outra parte do campo. Macbeth mata o jovem Siward e sai. Entra Macduff, o castelo se rendeu.

Cena 8

No campo. Macduff e Macbeth: “Minha alma está farta do peso do teu sangue. (…) Vivo de encantos.” Macduff: “Fui arrancado fora do tempo ao ventre de minha mãe.” Macbeth: “Maldito aquele que primeiro gritar Basta!” Macbeth é morto por Macduff.

Cena 9

Dentro do castelo. Malcolm, Siward, Macduff e outros. “A rainha que por suas próprias mãos deixou a vida.” São todos convidados para a coroação.

Anotações Gênesis – releitura em 2019

Anotações Gênesis – releitura em 2019

Prólogo

A pergunta inicial: “Deus existe?” comporta três respostas. Há os crentes e os não crentes. Aqueles que crêem deveriam fazer a segunda pergunta, fundamental: “Qual Deus existe?”. Muitos crentes não concordariam com tal pergunta porque decidiram – ou decidiram por eles até antes do nascimento – que o deus específico deles é aquele que existe, aquele que é o mandachuva, o deus da família, o deus da infância. Se o crente for de mente mais aberta, pensará sobre a segunda pergunta: qual deus? o deus judaico, o cristão, o católico, o protestante, o muçulmano, os deuses hindus, os gregos, o budista… Existe deus no budismo? Diz que não. Continuemos. Depois de decidir qual deus existe, é necessário, imagino, que o crente se dedique a conhecer os ensinamentos relacionados com o deus que escolheu. O que quer dele esse deus? Entretanto, tal aspecto chega a ser acessório. Um deus quer tudo para si. Quer dedicação absoluta. Ora, existindo um deus, é a ele que o crente deve se dedicar por inteiro, deve dedicar a vida. Nada mais importaria para aquele que crê a não ser o encontro com o deus escolhido, o caminho para o deus de sua predileção. Ora, aquele deus deu a vida ao crente e, possivelmente, o aguarda no pós-vida. Então, chegamos ao ponto essencial quando se olha para a multidão de crentes: vê-se que ninguém acredita verdadeiramente em um deus. Todos têm preocupações maiores do que se dedicar integralmente ao deus favorito, do que se preparar para o encontro com o deus que escolheu. Tudo é mais importante do que o deus escolhido: o almoço, o na morado, o carro, a faculdade, a novela, o conforto, a saúde, a falta de saúde, a pobreza, a falta de comida, o lanche, o aniversário de não sei quem, assim por diante.

O Gênesis como eu o leio

Li o Gênesis algumas vezes e cada vez é um livro diferente. Sabemos disso, é comum. O Gênesis, acredita-se, foi escrito por volta do século IX antes de Cristo e compõe uma mitologia. Mitologia: conjunto dos mitos de determinado povo. Relatos fantásticos protagonizados por seres que encarnam forças divinas ou forças da natureza. Lendas, fábulas que tentam explicar aspectos gerais da condição humana. Narrativas dos tempos heróicos, às vezes com um fundo de verdade. O Gênesis compõe uma mitologia judaica. Os deuses que atuam no Gênesis não são os deuses cristãos, apesar de que estes derivaram daqueles. A mitologia judaica não é monoteísta, como se afirma. Tampouco o é a mitologia cristã. O Gênesis mostra que a mitologia judaica admite um deus e sua corte, composta de anjos, prepostos ou mensageiros. Anjos são seres aparentemente imortais e dotados de alguns poderes, portanto são deuses ou semideuses. Politeísmo.

O Gênesis é um livro fundamental, divertido, misterioso, filosófico, indispensável. O objetivo geral do livro é comprovar, documentar, atestar que aquela terra – mais ou menos situada entre o rio Jordão, o Mar Morto e o Mar Vermelho – pertence ao povo de Israel porque somente àquele povo aquela terra foi prometida. O povo de Israel é o povo escolhido. Não há outro povo escolhido. Não há outra religião verdadeira. É isso que o deus de Israel diz. O mais, o depois, é distorção. Acessoriamente ao objetivo geral, o Gênesis esboça uma explicação para a criação de tudo. Uma explicação filosófica e simbólica. Dentro dessa concepção, cabe de stacar que o homem e a mulher obtêm a capacidade de reconhecer o bem e o mal. Todavia, o deus do Gênesis afasta homem e mulher da possibilidade de se tornarem imortais, visto que o conhecimento do bem e do mal somado à imortalidade os tornaria, também, deuses. Este é um dos fatos mais assustadores e impactantes do Gênesis: em todos os acordos, alianças e promessas feitas pelo deus do livro, esse deus nunca prometeu a imortalidade. O deus do Gênesis nunca prometeu que homem e mulher irão, algum dia, habitar com ele por toda a eternidade.

Anotações e comentários durante a leitura do Gênesis

A melhor tradução que conheço do Gênesis e da Bíblia é aquela intitulada Bíblia de Jerusalém; esta é uma tradução feita a partir do hebraico e do grego, como excelentes notas explicativas e introduções a cada um dos livros.

No Gênesis, em hebraico, o nome de Deus aparece como Yhwh, o famoso tetragrama. O hebraico do Gênesis não apresentava as vogais, apenas as consoantes. Assim, não é possível saber qual a pronúncia correta do tetragrama. A forma considerada mais adequada é Yahweh ou Iahweh. Todavia, os israelitas e os judeus atuais não pronunciam este nome, o nome de Deus. Sempre que encontram Yhwh, Yahweh, ou Iahweh na leitura, substituem-no por “Adonai”, que significa “Senhor”. O tetragrama, por sua vez, pode significar “o Ser”, ou “Eu sou aquele que é”, entre outros significados.

“No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das águas.” Isso é poético e belo. Deus criou primeiramente a luz, depois os luzeiros no firmamento. Deus criou o conceito, luz, depois os objetos, os corpos celestes. Deus disse: “Façamos o homem”. No Gênesis, quando Deus fala consigo mesmo, ele usa o plural. Um dos nomes de Deus, Elohim, é plural em hebraico.

Iahweh Elohim criou homem e mulher e os animais e as plantas. No Éden, o jardim no qual Deus passeava, todos se alimentavam de vegetais. Sangue e carne somente após a saída do Éden. Os nomes de Deus são muitos. Iahweh Elohim colocou duas árvores no centro do Éden: a árvore do conhecimento do bem e do mal e a árvore da vida. Ele “fez cair um torpor sobre o homem”, retirou-lhe a costela e criou a mulher. A mulher pegou o fruto do conhecimento do bem e do mal e o comeu. O homem e a mulher, além de conhecerem o bem e o mal, se tornaram juízes. Todavia, somente Deus pode ser juiz e definir o que é o bem e o mal. Iahweh Elohim costurou túnicas para o homem e a mulher e falou consigo mesmo: eles já têm o conhecimento do bem e do mal, devem sair do Éden pois se comerem do fruto da árvore da vida se tornarão imortais e serão como Deus.

Adão e Eva tiveram dois filhos. Abel, pastor, Caim, agricultor. Abel era o favorito de Deus. “Acaso sou o vigia de meu irmão?”, respondeu Caim quando Iahweh perguntou por Abel. Iahweh tem o conhecimento do passado e do futuro, não precisava peguntar. Nada acontece sem a permissão de Deus. O mal vem de Deus visto que não existe o oposto de Deus. Iahweh colocou um sinal sobre Caim para que este não fosse assassinado. Portanto, Caim recebeu um prêmio pela morte do irmão. Caim tornou-se construtor de cidades e sua descendência foi violenta como ele e até mais do que ele. Eva teve um terceiro filho, Set. A humanidade não descende de Abel, tampouco de Caim, e sim de Set, porque a descendência de Set chegará até Noé. Somente a família de Noé será preservada quando Iahweh decide resetar a criação.

Um misterioso trecho do Gênesis. Em certa época, os “filhos de Deus” viram que as filhas dos homens eram belas e se uniram a elas. Quem eram os “filhos de Deus”? Anjos caídos? Da união dos “filhos de Deus” com as filhas do homens surgiram os nefilim. Nefilim significa “aqueles que caíram”. Esses eram gigantes e rudes.

Iahweh viu que a maldade do homem era grande sobre a terra e que era continuamente mal todo o desígnio do coração do homem. Iahweh arrependeu-se de ter feito a humanidade. Apesar disso, como Iahweh sempre tem seus favoritos, decidiu recomeçar preservando Noé. Com quinhentos anos, Noé havia gerado três filhos: Sem, Cam e Jafé. Quando Noé tinha seiscentos anos, Iahweh ordenou a construção de uma arca que deveria ter três andares e dimensões específicas. Iahweh: “Chegou o fim de toda carne”. Só que não chegou visto que a arca preservou muita carne de homens e de animais.

Iahweh estabeleceu uma aliança com Noé. A primeira aliança com aquele povo. Depois de todos embarcados, o próprio Iahweh Elohim fechou a porta da arca por fora, bem fechada para não entrar água. E abriu as comportas do céu. A arca não tinha janelas e o cheiro lá dentro deve ter sido insuportável.

Choveu durante quarenta dias e quarenta noites. A enchente durou cento e cinquenta dias. Quando a arca encalhou no Ararat, ainda não se via qualquer pico acima das águas. Demorou mais três meses para aparecerem os picos das montanhas. Da entrada na arca até a terra voltar a ficar seca levou um ano e dois meses. Iahweh prometeu: “Não amaldiçoarei nunca mais a terra, porque os desígnios do coração do homem são maus.” Ou seja, Iahweh desistiu. E começou uma nova ordem mundial. Iahweh estabeleceu o arco-íris como símbolo da aliança com Noé e seus descendentes.

Noé plantou uvas e fez vinho. Depois, encheu a cara, bebadaço, e ficou nu dormindo em sua tenda. Cam, o filho mais jovem, viu o pai nu e por conta dessa bobagem foi amaldiçoado. Sua tribo e seus descendentes ficaram subordinados a tribo do filho mais velho, Sem. Na descendência de Sem, haverá Abraão.

Os homens se unem para construir “uma cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus”. Iahweh desceu para ver a construção – como se ele precisasse descer para ver algo – e não gostou da ousadia. E Iahweh falou consigo: “Confundamos a linguagem deles”. Os homens não mais se entendiam, cessaram a construção da torre e se dispersaram. Aquele lugar ficou conhecido como torre de Babel, porque a palavra bll, em hebraico, significa confundir.

No começo de sua história, Abraão e Sara se chamavam Abrão e Sarai. Abrão descendia de Sem, filho de Noé. Sarai era estéril. Iahweh disse para Abrão que partisse de onde habitava para uma “terra que te mostrarei”. Abrão foi e se fixou na terra indicada. Todavia, aquela terra foi atingida por seca e fome e Abrão foi para o Egito. Sarai era bela e Abrão temia ser morto para que ficassem com ela. Então passou a dizer que Sarai era sua irmã. O Faraó encantou-se com a beleza de Sarai e a tomou como esposa. Abrão se deu bem na corte do Faraó, como irmão de Sarai, e ficou rico. Entretanto, Iahweh não gostou da situação e “feriu Faraó com grandes pragas”. O Faraó é que fora ludibriado e, no entanto, ele é que foi castigado. Nenhum castigo para Abrão e Sarai, os ludibriadores. Faraó puto mandou Abrão e Sarai irem embora do Egito levando suas riquezas, ainda foi bonzinho o Faraó.

Na terra escolhida por Iahweh, Abrão e seu sobrinho Ló eram muito ricos, mas resolveram se separar porque dava briga entre os pastores de cada um. Ló escolheu a melhor região, perto do rio Jordão, e Abrão ficou com Canaã. Curiosamente, o Gênesis dá um spoiler neste ponto da narrativa avisando que, na terra de Ló, Sodoma e Gomorra seriam destruídas por Iahweh.

O episódio da batalha dos nove reis. Evidentemente, aqueles eram reis de pequeno território, reis de uma só cidade. Nas batalhas entre esses nove reis da região, Sodoma e Gomorra foram saqueadas e Ló capturado. Abrão reuniu trezentos e dezoito homens, perseguiu os reis atacantes, derrotou-os e recuperou Ló e seus bens. Depois da vitória, um acontecimento intrigante: Melquisedec, rei de Salém, vai ao encontro de Abrão levando pão e vinho. Essa Salém pode ser Jerusalém. Diz-se que aquele Melquisedec, haja vista o pão e o vinho, pode ser uma primeira encarnação do Filho de Deus. Melquisedec era rei-sacerdote de El’Elyon, o Deus Altíssimo.

“Um torpor caiu sobre Abrão”. Novamente o torpor divino. Paralisia do sono. Iahweh anuncia uma aliança com Abrão: promete-lhe todo o território entre o rio do Egito e o rio Eufrates. Tal promessa nunca foi cumprida, como sabemos.

O conto da aia. Sarai disse a Abrão: “Iahweh não permitiu que eu desse à luz. Toma, pois, a minha serva. Talvez, por ela, eu venha a ter filhos!” A serva era a egípcia Agar. O direito mesopotâmico permitia que filhos das servas e do marido se tornassem filhos legais da esposa. Abrão possuiu Agar que ficou grávida. Agar passou a desprezar Sarai que a maltratou muito. Agar fugiu e, junto a uma fonte no deserto, o anjo de Iahweh falou com ela. Quem era esse anjo de Iahweh? Qual a composição da corte celeste? Nessa mitologia, anjos provavelmente são imortais e detêm poderes, portanto são deuses ou semideuses. Muita vez, os anjos são mensageiros como Hermes e Mercúrio. O anjo: “Iahweh ouviu tua aflição: volta, sê submissa, eu multiplicarei a tua descendência”. O filho de Agar e Abrão irá se chamar Ismael, que significa “Deus ouviu”, e seus descendentes são os árabes. Quando falava com o anjo, Agar nomeou Iahweh como El Roí, que significa “Deus de visão’. Quando Ismael nasceu, Abrão contava oitenta e seis anos.

Quando Abrão estava com noventa e nove anos, Iahweh se apresentou novamente: “Eu sou El Shaddai”, que significa o “Deus da estepe”. Iahweh falou novamente em aliança com Abrão. Ordenou a mudança do nome de Abrão para Abraão (pai de uma multidão) e do nome de Sarai para Sara. O sinal da nova aliança será a circuncisão. (Mais tarde, muito mais tarde, Paulo ensinará que a circuncisão é uma bobagem. Todavia, Paulo faz essa concessão por conta própria. Jamais Iahweh retirou a circuncisão como sinal da aliança.) Iahweh promete um filho a Abraão. Este pergunta: “Acaso nascerá um filho a um homem de cem anos, e Sara que tem noventa anos dará ainda à luz?”. Ia hweh confirma e diz que a criança se chamará Isaac, que significa “Deus sorriu” ou ainda “Deus foi favorável”.

Iahweh apareceu a Abraão na forma de três homens, possivelmente o próprio Iahweh e dois anjos acompanhantes, e foram recebidos com comida e bebida. “Voltarei no próximo ano e tua mulher terá um filho”. Sara riu pois “deixara de ter o que as mulheres têm” e se perguntou “terei ainda prazer?”. A resposta: “Existe algo difícil para Iahweh?”

Abraão e os três homens foram para Sodoma. Abraão ficou fora com Iahweh e os dois homens entraram na cidade. Iahweh: “O grito contra Sodoma e Gomorra é grande. Desci para ver se eles fizeram tudo o que indica o grito.” Iahweh era excessivamente teatral naquela época: não precisava descer para ver, etc, etc, como se sabe. Abraão negocia com Iahweh: se houver cinquenta justos, ainda assim vai destruir a cidade? Iahweh: não destruirei se houver os cinquenta. Daí, Abraão vai baixando: e quarenta e cinco? e trinta? e vinte? e dez? Iahweh, eterna paciência: “Não destruirei por causa dos dez”. Abraão não teve ousadia de baixar de dez. Contudo, nem dez havia e já viu.

Os dois anjos entraram na cidade e foram recebidos na casa de Ló, o sobrinho de Abraão. Os homens da cidade foram à casa de Ló: “Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos”. O vício praticado naquela região era abominável para os israelitas, todavia muito difundido. Ló ofereceu suas duas filhas virgens em troca do respeito aos visitantes, mas a oferta não foi aceita. Os dois visitantes, então, cegaram todos que estavam na porta de Ló. Eram anjos exterminadores. “Iahweh nos enviou para exterminá-los, foge com os teus”. Os futuros genros de Ló acharam que era piada e não fugiram. Os anjos conduziram Ló e sua família para fora da cidade. Ló ; pediu para ficar na cidade de Segor, cujo nome significa “pouca coisa”.

Iahweh, então, jogou suas bombas atômicas. “Quando o sol se erguia sobre a terra e Ló entrava em Segor, Iahweh fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra, destruiu essas cidades e toda a planície e todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo”. Além de Sodoma e Gomorra, foram destruídas Adama e Seboim. A mulher de Ló foi transformada em sal porque desobedeceu à ordem dos anjos de não olhar para trás. De longe, Abraão viu “como a fumaça de uma fornalha”. Esta história sobre as bombas atômicas de Iahweh sobre as cidades pode ter relação com o grande sismo que causou o afundamento daquela região, dando origem ao Mar Morto. Especula-se que, há cerca de dezoito mil anos, um evento sísmico fez afundar a região e o Mar Mediterrâneo ocupou a área. Com o passar do tempo, a ligação com o Mediterrâneo se fechou e aquele lago tornou-se cada vez mais salgado. O Mar Morto, situado a uma profundidade de 430 metros abaixo do nível do mar, tem uma concentração de sal na água dez vezes superior ao Mediterrâneo.

Ló deixou Segor por medo da destruição e foi para as montanhas. As filhas de Ló embebedaram o pai com vinho durante duas noites e ambas ficaram grávidas do pai. O filho da mais velha se chamou Moab (“saído do pai”) e o da mais nova se chamou Ben-ami (“filho de um parente”).

Voltamos ao tempo da velhice de Abraão. Iahweh visitou Sara e fez por ela como prometera, e Sara concebeu e deu à luz. Note-se que foi Iahweh, e não Abraão, que visitou Sara. Como em outras mitologias, os deuses costumam engravidar as humanas e, mais tarde, no cristianismo, novamente um deus fará uma virgem conceber. Deu-se à criança o nome de Isaac, “Deus sorriu”, “Deus foi favorável”. Abraão estava com cem anos. Sara pediu e Abraão expulsou Agar e Ismael. Deu-lhes apenas pão e um odre de água. No deserto, Agar chorava, estava sem água e não queria ver o menino morrer. O anjo de Deus apareceu para Agar e lhe disse que “Deus ouviu” novamente e que faria uma grande descendência a partir de Isma el, e Agar encontrou água para o menino.

Deus disse a Abraão que fosse à terra de Moriá (lugar hoje desconhecido) e lá sacrificasse Isaac. A viagem durou três dias. Abraão foi para o local do sacrifício com Isaac e levou lenha, fogo e o cutelo. Isaac perguntou: “Onde está o cordeiro para o holocausto?” Holocausto é o sacrifício em que a vítima é queimada. Abraão: “Filho, é Deus quem proverá o cordeiro para o holocausto”. Observe-se que, aparentemente, a fé de Abraão não se abalou ante as determinações insondáveis de Iahweh. Aquele que crê – o que não é o meu caso – deveria se concentrar na frase de Abraão: “Deus proverá”. Abraão amarrou Isaac sobre a lenha e pegou o cutelo. O anjo de Iahweh o chamou: “Abraão, não faças mal ao menino, agora sei que temes a Deus, tu não me recusaste teu único filho”. Cristãos podem ver nessa passagem a anunciação do sacríficio de Jesus, o único filho. Diz o anjo de Iahweh (que fala como se fosse o próprio Iahweh): “Juro por mim mesmo, palavra de Iahweh, eu te darei posteridade numerosa, a tua posteridade conquistará as cidades dos seus inimigos, por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra”. Esta promessa de Iahweh ainda não se cumpriu, visto que os israelitas estão confinados até hoje em um cantinho de terra na Palestina e etc.

Sara viveu cento e vinte e sete anos. Abraão comprou um campo com uma gruta em Canaã e lá enterrou Sara. Abraão enviou um servo à terra de seus parentes para buscar uma esposa para Isaac, não queria uma mulher entre os cananeus. Observa-se que Abraão e seus descendentes brigam com todos os outros povos, e os desprezam, apesar de vez ou outra fazerem uma aliança casual com algum desses povos. O servo viajou e ficou fora da cidade de Abraão, perto do poço. A moça que me der de beber e aos meus camelos, será a escolhida, pensou ele. Veio Rebeca e serviu água ao viajante. Ela era neta do irmão de Abraão, Nacor, e irmã de Labão. “A jovem era muito bela, era virgem, nenhum homem dela se aproximara”. O servo foi recebido na casa dos parentes de Abraão e explicou sua missão, deu presentes, joias de ouro e prata. À partida do servo, “chamemos a jovem e peçamos-lhe seu parecer. (…) Queres partir com este homem?” “Quero” foi a resposta de Rebeca. Isaac a tomou e ela se tornou sua mulher e ele a amou.

Abraão deixou todos os seus bens para Isaac. Para os filhos das concubinas, apenas presentes, e os enviou para longe de Isaac, para o leste. Abraão morreu aos cento e setenta e cinco anos. Isaac e Ismael o enterraram no mesmo local de Sara. Ismael deu origem aos povos árabes e morreu com cento e trinta e sete anos.

Os filisteus alimentavam inimizade pelos israelitas e fecharam os poços nas terras de Abraão. Isaac reabriu esses poços. “A água é nossa”. (A guerra do futuro distante, ou não tão distante, será pela água). Abimelec, filisteu, fez aliança com Isaac.

Isaac casou aos quarenta anos, contudo Rebeca era estéril. Pelo jeito, havia uma epidemia de mulheres estéreis entre os parentes de Abraão. Iahweh ouviu o pedido de Isaac e Rebeca apareceu grávida. Sempre a mulher era a estéril, nunca o homem. Os homens eram a potência. Ora, a esterilidade poderia ser de Abraão e de Isaac, e as gravidezes de suas mulheres advirem de outros homens. Na gravidez de Rebeca, “as crianças lutavam dentro dela”. Iahweh esclareceu: “há duas nações em teu seio”. No parto, o primeiro menino era ruivo: Esaú. O segundo segurava o calcanhar do irmão. Jacó, Ya’aqob, porque “aqeb” é calcanhar, e também porque “aqab” é enganar e Jacó vai enganar Esaú. E também, ainda, porque Ya’aqob-El significa “que Deus proteja”. Este nome, Ya’aqob vai dar origem a Tiago, Jacob, Jacques, Iago, James.

Esaú se tornou caçador enquanto Jacó ficava mais em casa. Isaac preferia Esaú e Rebeca preferia Jacó. Esaú cedeu a primogenitura a Jacó em troca de um cozido de lentilhas e pão. Esaú tomou mulheres heteias por esposas e desagradou a ambos os pais. Jacó e Rebeca enganam Isaac quando este, velho e cego, pretendia dar a bênção a Esaú. Jacó recebeu a bênção que seria para Esaú. Este passou a odiar o irmão e disse que o mataria após a morte de Isaac. Rebeca, então, enviou Jacó para morar com o tio, Labão. O livro dá, logo a seguir, outra motivação para a partida de Jacó: conta-se que Rebeca temia que Jacó casasse com uma mulher heteia, ou mesmo cananeia.

Curioso o personagem Rebeca que, por duas vezes, se interroga sobre o sentido da vida. Durante a complicada gravidez, “se é assim, para que viver?”, ela diz. E decepcionada com os casamentos de Esaú com heteias, e preocupada que Jacó faça o mesmo, diz: “Estou aborrecida com a vida. Se ele casar com uma delas, que me importa a vida?” Tendências suicidas de Rebeca.

Isaac envia Jacó para a casa de Labão, tio dele, irmão de Rebeca. “Escolhe uma mulher de lá, entre as filhas de Labão”, nem heteia nem cananeia. Esaú, o desafiador, viu isso e tomou uma mulher de Canaã, filha de Ismael, meio-irmão de Isaac.

O sonho de Jacó no caminho para a casa de Labão. Deitou a cabeça sobre uma pedra e sonhou com uma escada pela qual muitos anjos de Deus subiam e desciam. O judaísmo é também um politeísmo como tantas outras religiões. Iahweh falou com Jacó e repetiu as promessas de sempre, descendência numerosa, “te guardarei e te reconduzirei a esta terra”, etc. Iahweh, no Gênesis, nunca prometeu a imortalidade, ou que os mortos habitarão com ele. Partes da promessa de Iahweh nunca se cumpriram. “Todos os clãs da terra serão abençoados por ti e por tua descendência.” Ora, os clãs da terra continuam inimigos entre si e nem mesmo são todos da descendência, física ou espiritual, dos patriarca s. Jacó acordou e disse: “Este lugar é uma casa de Deus (bêt El) e a porta do céu”, e deu ao lugar o nome de Betel. Então Jacó negociou com Iahweh: “Iahweh será o meu Deus se (…)” e impõs a Iahweh um monte de condições.

Jacó continuou a viagem e chegou junto ao poço no campo perto das terras de Labão e Raquel, que era pastora, vinha trazendo o rebanho. Eles deram água ao rebanho, Jacó deu um beijo em Raquel e foram para a casa de Labão. Qual o tipo de beijo não é dito, mas soa estranho um beijo em uma época em que as mulheres eram extremamente resguardadas. Labão: “Qual o teu salário?” Ora, “os olhos de Lia eram ternos, mas Raquel tinha um belo porte e um belo rosto”. Raquel era a mais nova. “Eu te servirei sete anos por Raquel.”

O poeta português Luís Vaz de Camões escreveu um belo poema sobre essa passagem.

Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

E a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,

Passava, contentando-se com vê-la;

Porém o pai, usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos

Lhe fora assim negada a sua pastora,

Como se não a tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,

Dizendo: – Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida!

Jacó serviu “durante sete anos, que lhe pareceram alguns dias, de tal modo ele a amava”. Depois dos sete anos, houve um banquete de núpcias e Labão entregou Lia a Jacó. O costume era que a noiva estaria velada. Jacó uniu-se a ela e “chegou a manhã e eis que era Lia!” Labão: “Não é uso casar a mais nova antes da mais velha”. “Te darei Raquel como prêmio por mais sete anos”. Depois da semana de núpcias, Labão entregou Raquel a Jacó e ele “amou mais Raquel que Lia e serviu outros sete anos.”

Os filhos de Jacó foram doze. Lia era fecunda e Raquel estéril, houve disputa entre elas e ambas usaram também as servas para gerar filhos. A epidemia de esterilidade continuava.

Iahweh viu que Lia era odiada e a fez fecunda. Lia teve os seguintes filhos: Ruben (ele viu minha aflição), Simeão (ele ouviu), Levi (ele se unirá a mim), Judá (eu darei glória). Raquel disse: “Faz-me filhos ou eu morro.” Jacó: “Acaso estou no lugar de Deus que te recusou a maternidade?” Raquel: “Toma minha serva Bala, por ela eu também terei filhos.” Bala teve Dã (ele me fez justiça) e Neftali (eu lutei). Lia entregou sua serva Zelfa a Jacó e esta teve Gad (boa sorte), Aser (minha felicidade), Issacar (salário), Zabulon (ele me honrará) e Dina, uma menina. Enfim, Iahweh tornou Raquel fecunda e ela deu à luz a José (ele acrescenta).

Jacó fez crescer seus rebanhos, Labão se enfurecia contra ele, Jacó partiu com seus bens e esposas. Raquel roubou os terafim (ídolos domésticos) da casa do pai. Os romanos costumavam, também, ter em casa tais pequenas imagens dos antepassados e de deuses. Labão perseguiu Jacó e se encontraram no Monte Galaad. “Você levou minhas filhas, fugiu, não beijei meus netos, insensato! Por que roubou os terafim?” Jacó afirmaou que não houve roubo e mandou Labão procurar em todo o acampamento. Raquel sentou em cima dos terafim. Jacó: “Qual é o meu crime? Qual é a minha falta? Vinte anos contigo, reclamações, calor, frio, animais extraviados, dez vezes mudaste meu salário.” Jacó e L abão fizeram um pacto e colocaram um marco na fronteira entre Aram e Israel. Por isso o monte se chamou Galaad ou Galed, monte do testemunho.

A comitiva de Jacó se aproximou das terras de Esaú. Este devia ser um chefe ou rei local pois foi ao encontro de Jacó com quatrocentos homens (lembro que Abraão para libertar Ló usou trezentos e dezoito homens). Jacó teve medo e dividiu seus bens e rebanhos em duas partes para evitar perder tudo. Também enviou presentes na direção de Esaú: duzentas cabras, vinte bodes, duzentas ovelhas, vinte cordeiros, trinta camelas, vinte vacas, dez touros, e mais.

Antes do encontro com Esaú, uma noite, Jacó estava só no acampamento: a misteriosa luta de Jacó. Um homem lutou com ele durante toda a noite. Perto da aurora, esse alguém disse: “Deixa-me ir, já rompeu o dia.” “Não te deixarei ir se não me abençoares.” O homem: “Qual teu nome? (…) Não te chamarás mais Jacó e sim Israel porque foste forte contra Deus e contra os homens, tu prevaleceste.” “Revela-me o teu nome”, disse Jacó. “Por que perguntas o meu nome?” Israel: ele foi forte contra Deus ou ainda que Deus se mostre forte. Jacó estabeleceu uma obrigação de Deus para com ele. Ele chamou Fanuel àquele lugar, “a face de Deus”. “Eu vi Deus f ace a face e sobrevivi.” Episódio misterioso e fantástico, talvez alguma lição da qual não podemos mais compreender o sentido. Há que se pensar, também, que Jacó pode ter lutado com um demônio, com o Inimigo. Não é certo que lutou com Deus.

Jacó encontrou Esaú e demonstrou respeito pelo irmão. Esaú recebeu bem a corte de Jacó e não queria aceitar o presente, mas Jacó insistiu. Jacó não confiava em Esaú e as comitivas tomaram caminhos diferentes. Jacó comprou terra por cem moedas de prata em Siquém e lá se estabeleceu. Siquém, filho de Hemor, “tomou Dina, dormiu com ela e lhe fez violência”. Todavia, Siquém amou a jovem e os clãs fizeram um pacto: circuncisão do clã de Hemor e casamento de Dina. Porém, Simeão e Levi invadiram a cidade, mataram todos, recuperaram Dina e roubaram tudo. Jacó: “Vós me arruinastes, eles vão nos perseguir.” Os irmãos: “Acaso se trata a noss a irmã como uma prostituta?” Deus disse a Jacó que fosse para Betel. Jacó ordenou que lançassem fora todos os deuses estrangeiros; “eles levantaram acampamento e um terror divino se abateu sobre as cidades da região, e os filhos de Jacó não foram perseguidos.” Gostei desse “terror divino”. O clã foi para Betel porque ali “eles se revelaram a Jacó”. Está assim, no plural, em hebraico, talvez por se referir a Deus e os anjos. Deus veio da direção de Aram – outra curiosa anotação – e repetiu que Jacó passava a se chamar Israel. Deus disse: “Sou El-Shaddai” e fez aquela mesmo aliança de sempre com Jacó, a terra, a posteridade, “e se retirou”.

Em uma viagem sem época definida, Raquel deu à luz outro filho e morreu do parto. Ela o chamou Benoni (filho da minha dor), mas Jacó mudou o nome da criança para Benjamim (filho de bons presságios, filho da boa sorte).

Ruben dormiu com a concubina do pai, Bala, serva de Raquel; para ver a zona que era aquilo.

Isaac viveu cento e oitenta anos. Jacó-Israel permaneceu em Canaã. Raquel, a esposa favorita, teve dois filhos: José e Benjamim. Começa a história de José, que pode ter acontecido por volta do ano 1800 aC.

Encontramos José com dezessete anos. Israel amava mais a José e este era odiado pelos irmãos. Israel fez uma “túnica adornada” para ele. Os sonhos de José mostravam os irmãos e o pai prostrados ante ele. Certo dia, José foi enviado aos irmãos que estavam com o rebanho em Dotain. “Vamos matá-lo”. Ruben não concordou, pediu que o jogassem em uma cisterna; ele pretendia voltar para salvá-lo. Uma caravana de ismaelitas vinha de Galaad e ia para o Egito. Judá propõe vender José à caravana, vinte siclos de prata. Ruben voltou, viu que José fora vendido, rasgou suas vestes. Os irmãos enviaram à Israel a túnica de José despedaçada e com sangue. Ele rasgou suas vestes, fi cou de luto e “recusou toda consolação”. Primeira menção ao Xeol, Gênesis, 37,35: “É em luto que descerei ao Xeol para junto do meu filho.” O Xeol é o mundo dos mortos, a região dos mortos: todos os mortos, sem distinção, bons ou maus, vão para o Xeol. Assemelha-se ao Hades grego. José foi vendido a Putifar, eunuco do Faraó e comandante dos guardas.

O livro faz um intervalo para a história de Judá. Judá se separou dos irmãos, aliou-se aos cananeus, casou com a filha de Sué e teve três filhos: Her, Onã e Sela. Her casou com Tamar e morreu pouco depois. Judá ordenou que Onã se unisse com Tamar para dar descendência ao irmão. Onã, “cada vez que se unia à mulher de seu irmão, derramava por terra para não dar posteridade ao irmão”. Iahweh não gostou do procedimento de Onã e o fez morrer. Judá enviou Tamar de volta para a casa do pai para aguardar que Sela crescesse. Todavia, Judá não quis enviar Sela. Judá ficou viúvo e subiu à cidade de Tamar. Ela soube da vinda do sogro, retirou o luto, se cobriu como prostituta e ficou na entrada da cidade. Judá viu a prostituta e disse “Deixa-me ir contigo”. Iahweh aparentemente não se incomodou com o fato de Judá usar prostitutas. Tamar respondeu: “Quanto me darás para ir contigo?” “Te enviarei um cabrito do rebanho.” “Sim, mas me dê um penhor até que me envie o cabrito.” “Que penhor queres?” “Quero teu selo, cordão e cajado.” Posteriormente, Jacó mandou que se levasse o cabrito, mas não encontraram aquela hieródula, a “prostituta sagrada”. Disseram que ali nunca houvera prostituta. A “prostituta sagrada” ficava na entrada dos templos. Às vezes, era obrigação de toda mulher servir algum dia como “prostituta sagrada” nos templos. Bom, três meses depois, Tamar apareceu grávida. Judá soube e ordenou que ela fosse queimada viva . “Estou grávida do homem a quem pertecem estes objetos.” Judá percebeu seu erro e disse: “Ela é mais justa do que eu, porque não lhe enviei meu flho Sela”. Tamar teve dois filhos de Judá: Farés e Zara.

Continua a história de José. Este se tornou o mordomo de Putifar que confiava integralmente nele. A mulher de Putifar quis dormir com José, que se recusou. Ela o denunciou com uma mentira e ele foi para a prisão. Lá, ele se tornou homem de confiaça do chefe. O copeiro e o padeiro do Faraó caíram em desgraça e foram para a prisão. Ambos tiveram sonhos e José os interpretou: “É Deus quem dá a interpretação.” O copeiro seria reabilitado e o padeiro seria enforcado. O copeiro voltou ao serviço e esqueceu de José. Dois anos depois, o Faraó teve sonhos e os seus assessores não conseguiam interpretá-los. O copeiro lembrou de José, que foi chamado. O Faraó sonhou com sete vacas gordas e sete vacas magras, e com sete espigas saudáveis e sete espigas raquíticas. “É Deus quem dará ao Faraó uma resposta favorável.” Os dois sonhos eram um mesmo aviso: haveria sete anos de abundância e sete anos de fome. Devia-se armazenar comida para os sete anos de escassez. José, aos trinta anos, tornou-se preposto, vizir, do Faraó. Este fez José casar com Asenet, filha do sacerdote Putifar, de Heliópolis. José teve dois filhos: Manassés (ele me fez esquecer – a família de meu pai) e Efraim (ele me tornou fecundo – na terra da minha infelicidade). Veio a escassez e a fome se alastrou por toda a terra e os povos iam ao Egito comprar alimentos.

Os dez filhos de Israel foram ao Egito para também comprar mantimentos. José os reconheceu mas não foi reconhecido; acusou-os de espiões, prendeu-os, ficou com Simeão e mandou que voltassem para a terra deles e só retornassem ao Egito trazendo o irmão mais novo. Nas sacas de trigo, José mandou colocar o dinheiro que os irmãos haviam pago pelo alimento. Israel-Jacó não quis que levassem Benjamim ao Egito. Contudo, os alimentos escassearam novamente e os irmãos tiveram que voltar ao Egito com Benjamim, desta vez. Israel: “Quanto a mim, que eu perca meus filhos, se os devo perder.” José os recebeu em sua casa e comeu com eles, sem se revelar. Mandou colocar a taça de prata que usava para adivinhações na saca de Benjamim. Os irmãos partiram, mas José ordenou que os seguissem e prendessem pelo roubo da taça. Todos voltaram à presença de José. Este disse que ficaria com Benjamim como escravo. Discurso emocionado de Judá, que afirmou a morte de Jacó caso Benjamim não voltasse. José se revelou aos irmãos. Segundo José, Deus o enviou antes, vendido, ao Egito, para no futuro salvar a vida dos seus na grande fome. José e o Faraó chamaram toda a tribo de Jacó para morar no Egito. Israel partiu com tudo o que possuía e todos os parentes. Em Bersabeia, a última teofania do Gênesis: “Jacó, desce ao Egito, eu farei de ti uma grande nação.” José os recebeu em Gessen, lado oriental do Nilo. Os israelitas tornaram-se administradores dos rebanhos do Faraó. Jacó disse ao Faraó que “os anos de minha peregrinação sobre a terra foram breves e infelizes.”

Um pequeno trecho descreve a política agrária de José, na qual todos os cidadãos venderam suas terras ao Faraó e tornaram-se servos.

Jacó pediu para ser enterrado junto com os pais. Ele viveu cento e quarenta e sete anos. Perto da morte, adotou Efraim e Manassés, filhos de José. Abençoou primeiro o mais novo, Efraim, e esta tribo se tornará a mais importante do reino do Norte, Israel. Jacó faz previsões sobre as doze tribos, em especial a primazia da tribo de Judá, e sobre Efraim e Manassés. Morto, Jacó foi embalsamado e um grande cortejo com carros, cocheiros e oficiais do Faraó o conduziu para o enterro junto aos seus pais. Voltaram todos ao Egito, José perdoou os irmãos e viveu cento e dez anos. José: “Deus vos visitará e vos fará subir deste pais para a terra que prometeu.” Pediu ainda que, quando fossem embora do Egito, levassem os se us ossos. José foi embalsamado e posto em um sarcófago.

Estes são os nomes de Deus que ocorrem no Gênesis, salvo engano: Iahweh, Elohim (Deus), El’Elyon (Deus Altíssimo), El Roí (Deus de visão), El Shaddai (Deus da estepe).

Camus e o problema verdadeiramente sério

Albert Camus e o problema filosófico verdadeiramente sério, o suicídio. A OMS disse que são oitocentos mil suicídios por ano, um suicídio a cada quarenta segundos. O problema do suicídio são dois: dói e é sujo, em geral. O medo da dor faz muita gente evitá-lo. A sujeira – muito próxima da indignidade do corpo – também é limitadora. A sujeira das tripas e do sangue que se espalha, exemplo. Se o suicídio fosse limpo e indolor, como deveria ser, a fila dos oitocentos mil aumentaria muitíssimo. E sim, o suicídio deveria ser limpo, clínico, indolor, pois ninguém deveria ser obrigado a ficar aqui.