Os amigos dos amigos, Henry James

Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino.

Os amigos dos amigos, Henry James, 1896. Este foi o conto do qual mais gostei porque o fantástico aqui é prosaico, dispensa adereços e fogos de artifício, além disso escrito com a maestria de James.

Uma moça está viajando, longe de seu país. Ela visita um museu e, em uma das salas, há um homem sentado. Ela não presta atenção nele, mas logo tem a surpresa: é o pai dela que está ali. Ela corre na direção dele, perguntando o que houve, e o pai desaparece. Horas depois, ela recebe a comunicação de que o pai morreu naquela manhã. Um rapaz está na universidade, longe de sua cidade natal. Certo dia, volta para o alojamento e vê sua mãe esperando por ele na porta do quarto. A mãe sorri para ele e abre os braços. Quando o jovem vai abraçá-la, ela desaparece. Na manhã seguinte, o rapaz recebe a notícia da morte da mãe.

Aquela moça e este rapaz, alguns anos depois, têm vários amigos em comum e que conhecem as experiências de ambos. Os amigos tentam por diversas vezes realizar um encontro entre os dois e nunca conseguem. Os acontecimentos conspiram para que eles nunca se conheçam. Ambos mostram-se dispostos ao encontro mas o tempo passa e não chegam a se conhecer. Outra semelhança entre eles é que ambos evitavam ser fotografados, detestavam fotografias e, assim, não podiam se conhecer nem mesmo por imagens.

Enfim, ele estava para casar, a noiva era uma amiga de longa data que conhecia a ambos e que já havia tentado reuni-los. A noiva pediu, como presente de noivado, que fosse marcado um encontro na casa dela para romper o “feitiço”. O encontro foi marcado. A mulher tentou recusar, disse que, depois de tanto tempo, sentia um “medo extraordinário” desse encontro. A noiva não aceitou desculpas e ficou tudo acertado para o final de semana.

Todavia, a noiva principiou a ficar com ciúme do encontro que ela própria marcara: e se eles, os dois “videntes” fôssem destinados um ao outro? E se eles se apaixonassem? Sendo assim, a noiva fez confundir os horários de modo que a mulher e o noivo estivessem na casa da noiva em horários diferentes e não se encontrassem. No dia seguinte, arrependida do artifício, a noiva foi até a casa da mulher para se desculpar e contar a artimanha. Em vão: a mulher havia morrido durante a noite. A noiva foi à casa do noivo comunicar a morte da mulher. Impossível, diz o noivo, porque na mesma noite ela esteve aqui para me visitar. A mulher não bateu na porta, apenas entrou na sala, o homem compreendeu quem ela era, ela fez sinal de silêncio e eles apenas ficaram se olhando por muito tempo.

Pouco tempo depois, o noivado termina: a noiva percebe aquilo que o homem busca esconder. “Você a vê – você a vê, você a vê todas as noites!”, diz a ex-noiva, “Você a ama como nunca amou e, paixão por paixão, ela devolve com inteira reciprocidade!”. A moça nunca casou, o homem nunca casou. Poucos anos depois, ele teve uma morte súbita, sem que se soubesse a causa, “foi uma resposta a um chamado irresistível”.