A origem do mundo – Jorge Edwards (1996)

A origem do mundo – Jorge Edwards (1996) – Editora Cosac Naify – 160 páginas

Jorge Edwards, chileno, nasceu em 1931, estudou Direito, tornou-se diplomata e escritor. Admirador da obra de Machado de Assis, Edwards escreveu, em 1996, este A origem do mundo, em que trata do mesmo tema abordado por Machado no Dom Casmurro: o ciúme doentio do marido que suspeita da traição da esposa com o melhor amigo. O livro de Edwards fundamenta-se, assim, em dois pilares: por um lado, a temática machadiana, por outro, o famosíssimo quadro de Gustave Courbet, A origem do mundo.

No livro de Edwards, a história começa quando o médico Patricio Illanes, setenta e poucos anos, e sua esposa Silvia, cinquenta e poucos, visitam o Museu d’Orsay e, em frente ao quadro de Courbet, o médico vê semelhanças entre a mulher nua da tela e a sua Silvia. Pouco depois, Patricio acompanha de perto os últimos dias da vida do amigo do casal, Felipe Díaz, de sessenta anos. O jornalista e escritor Felipe se suicida, após uma vida de boemia e de muitas mulheres conquistadas. A imensa dor de Silvia pela morte de Felipe e outros indícios do passado fazem com que o médico passe a investigar se houvera, algum dia, um caso entre Silvia e Felipe.

Ao revirar a gaveta onde Felipe guardava fotos de suas amantes, vestidas ou nuas, Patrício encontra uma fotografia três por quatro de Silvia junto a uma foto de uma mulher na mesma pose da modelo na tela de Courbet. Evidentemente, tanto o quadro famoso quanto a fotografia não mostram o rosto da modelo, mas Patricio reconhece ali características do corpo de Silvia. Patricio inicia, então, uma jornada caótica e, até certo ponto, humilhante e ridícula, em busca da verdade sobre a traição de Silvia. Entretanto, diferentemente da obra de Machado, o livro de Edwards não tem o desfecho amargo e melancólico. O final do livro é vibrante e mostra, como diz o médico a certa altura, que a paixão não deixa de estar presente no ser humano, não importa a idade.

Gostei muito do livro e o li duas vezes seguidas. A construção das frases e da história é tão meticulosa que, após a primeira leitura, percebi que precisava reler para usufruir melhor do estilo do autor. Observe-se, ainda, que a história é narrada a partir de diversas vozes. Não há capítulos, mas há partes diferentes da narração. Por vezes, quem conta a história é Patricio, outras vezes a história é narrada na terceira pessoa e, por fim, é Silvia quem nos conta o desfecho do romance. Um outro aspecto que pode recomendar a releitura é uma pequena revelação sobre Silvia, que surge ao final, e pode levar a entender melhor alguns aspectos na busca de Patricio. Esse recurso de estilo é bastante usado na literatura e no cinema, e faz com que o leitor/espectador reveja a obra com outros olhos.

Excelente livro, vale a pena.

Trechos:

“Tudo começou na segunda ou terça-feira da semana passada, na frente do quadro. Começou como uma ocorrência repentina, como uma pergunta. Não passou de uma brincadeira, mas depois da noite da última segunda-feira, depois que encontraram o cadáver, essa brincadeira, da qual não tinha me esquecido, veio a adquirir matizes mais inquietantes, menos leves. Matizes mais escuros, digamos assim.”

“Até essa manhã, apesar de seus frequentes excessos, Felipe tinha sido o eterno vencedor, o homem que nunca se queixava neste mundo de queixumes, o sujeito mais alheio à depressão que eu tinha conhecido na minha vida (…)”

“O que mais me deixa fodido – disse Felipe – é que a minha decadência coincide com a decadência de tudo, das cidades que amamos, das culturas que admiramos. Quando derrubaram o Muro de Berlim, há tão poucos anos, eu pulava numa perna só, rindo dos fanáticos, dos policiais, dos hipócritas e sem-vergonhas de todo tipo que tinham tornado a nossa vida impossível, e agora, ao contrário, depois daquela euforia momentânea, me sinto derrotado, deprimido. Fodido!”

“Eu acho, francamente, que você está apaixonada por ele! − Eu? Quem está apaixonado por ele é você. Já te disse isso várias vezes!”

“(…) enquanto a francesinha recém-chegada da Catalunha, aprendiz de vendedora e hispanohablante, transformada em Fúria, em Górgona, nua, com os pelos púbicos crespos, o insultava, o insultaria com os recursos mais obscenos de sua língua, batia na cabeça de todos que conseguia com o salto do sapato, diria que fosse à merda, à puta merda de onde tinha saído, o velho imundo, impotente, miserável!”

“(…) a filósofa, habitante do melhor dos mundos possíveis, a mexicano-japonesa de cintura de vespa e seios como maçãzinhas, já tinha se transformado em pura irrealidade, em enteléquia, em fumaça. Teria existido algum dia, cabia perguntar, a filósofa mexicano-japonesa?”

“(…) era um lamento inédito, diferente, profundo: saía das entranhas de uma mulher que ele acreditava conhecer de dentro para fora, e que na realidade não conhecia, ou que começara a conhecer só agora, tarde e irremediavelmente. Ficava confirmado, então, ungido e sacramentado, que Silvia e Felipe tinham sido amantes?”

“Benedicto Morgado, cambaleante, com cara de sátiro idiotizado, propunha, o débil mental, que fôssemos para a cama os quatro juntos, e tive a intuição repentina de que Elvireta, da sua altura de mulher sólida, bem plantada, de voz rouca, dada a dizer palavrões, me olhava com olhos libidinosos.”