O livro do juízo final, Connie Willis, 1992

O livro do juízo final, Connie Willis, 1992, 576 páginas, tradução de Braulio Tavares.

Encontrei uma breve citação deste livro no blog de Braulio Tavares, então fui lê-lo. Apesar de tratar de um tema que gosto, viagens no tempo, quase detestei o livro. Conta-se a história de uma jovem historiadora que viaja no tempo, algo comum na época futura em que ela vive. A historiadora tem interesse na Idade Média e vai viajar para um determinado ano antes da Peste Negra dizimar boa parte da população da Europa. Por um erro no momento de ser enviada ao passado, a jovem cai exatamente no ano em que a Peste chegou à Inglaterra. Ela é abrigada por uma família em um vilarejo e se apega em especial às crianças. Essa é a parte melhor do livro. Na origem, no tempo em que ela foi enviada, demoram a perceber que houve um erro, há uma epidemia de gripe acontecendo e a história se arrasta. Cenas repetidas e personagens insossos. Mesmo na parte da Idade Média, a história não empolga. Para mim, perda de tempo. Nota 1 de cinco.

Tudo o que nunca contei, Celeste Ng, 2014

Tudo o que nunca contei, Celeste Ng, 2014, 304 páginas, Intrínseca, tradução de Júlia Sobral Campos.

Este é o que chamo de livro redondinho. Como em Elena Ferrante, a autora quer contar a história e fazer com que saibamos de quase todos os acontecimentos. E essa moça, Celeste Ng, fez os cursos de escrita direitinho, ou seja, ela sabe usar os recursos (ou truques) literários para prender e interessar o leitor. Veja-se que o romance começa por declarar que Lydia, uma menina de quinze ou dezesseis anos está morta, enquanto a família e a polícia começam a procurar por ela. Daí em diante, entre idas e vindas temporais, a autora nos conta como tudo que cerca aquela família culminou com a morte da menina. Há, vez ou outra, um excesso de sentimentalismo, mas não compromete. Não ficam pontas soltas ou personagens desperdiçados. Nota três de cinco.

Vulgo Grace, Margaret Atwood, 1996

Vulgo Grace, Margaret Atwood, 1996, 512 páginas, Rocco, tradução de Geni Hirata.

Margaret Atwood escreveu essa ficção com base em um crime real acontecido no Canadá no século XIX. Uma menina de dezesseis anos, empregada de um pequeno sítio, e o caseiro mataram a governanta e o patrão. Fugiram para os Estados Unidos e foram  presos dias depois. Ele foi condenado à morte e enforcado. Para ela, o advogado conseguiu reduzir a pena para prisão perpétua com base na pouca idade da moça. A história de Atwood é boa e prende o leitor mas tem muitas pontas soltas. A história parece que vai deslanchar com o médico psiquiatra Simon, ou com o mascate Jeremias, mas ali só há becos sem saída. Acerca do psiquiatra Simon, achei muito curioso que o personagem tem como objetivo criar um instituto onde os loucos sejam tratados mais humanamente, contudo em seus pensamentos iniciais, Simon começa a acreditar que todos ao seu redor são um pouco loucos. O nome Simon e esse detalhe me fazem pensar que Atwood poderia ter conhecido a obra de Machado de Assis, O alienista, e seu famoso personagem Simão Bacamarte. Acerca de Grace, gostamos dela, sentimos muita pena dela, mas não conseguimos saber quem ela é realmente. Enfim, é um livro interessante, não me agradou de todo, não dá respostas ou certezas suficientes ao leitor. Infelizmente, prefiro livros redondinhos. Nota três de cinco.

Pureza, Jonathan Franzen, 2016

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Pureza, Jonathan Franzen, 2016, 616 páginas, Companhia das Letras, tradução de Jorio Dauster.

Pureza é o livro mais fraco dentre aqueles que li de Franzen. Extenso, seiscentas páginas, contudo irregular, tedioso. Franzen escreve bem e gostei muito dos anteriores, Liberdade e Correções. Franzen continua escrevendo bem, mas a história não pega, se arrasta, é lenta e confusa. A gente até percebe que o autor tenta juntar as pontas soltas, juntar as diversas histórias, mas a tentativa caminha tão devagar que dá impaciência, e não é bem sucedida.

O romance é composto por sete partes, sete longos capítulos. A primeira parte nos apresenta Pip Tyler, o personagem mais simpático do livro. Pip mora em San Francisco, tem um empreguinho bosta, é pobre, têm dívidas e uma mãe desequilibrada e paranóica. A segunda parte abandona Pip, volta no tempo e conta a história do jovem Andreas Wolf, na Alemanha Oriental. A terceira parte apresenta Leila, uma jornalista que trabalha com Tom Aberant em um jornal investigativo na cidade de Denver. A história de Leila e de suas reportagens é desperdiçada e não se liga a quase nada do restante do livro. Pip Tyler reaparece aqui como estagiária do jornal. A quarta parte volta um pouco no tempo e mostra Pip trabalhando para Andreas Wolf em um lugar remoto no interior da Bolívia. Wolf é uma caricatura de Julian Assange e, como tal, se dedica a vazar informações secretas na internet. A quinta parte volta no tempo e é narrada na primeira pessoa por Tom Aberant e mostra o longo relacionamento dele com Anabel, uma mulher completamente desequilibrada. A sexta parte mostra um encontro decisivo em Aberant e Wolf na Bolívia. A sétima parte, mais curta, é um epílogo no qual Pip, enfim, assume as rédeas da sua vida.

Como se vê acima, muitos personagens e tramas, tudo resultando em uma história descabida, confusa, inverossímil. As personagens são tediosas, antipáticas, esquizofrênicas. Que prazer um autor encontra em criar personagens tão enfadonhos e maçantes? A mãe de Pip, insuportável e louca. Wolf, maluco e egocêntrico. Aberant, lerdo, maré-me-leva-maré-me-traz. Vixe. Leila, personagem completamente desperdiçado, inclusive abandonado pelo autor na história. Pip, a personagem mais interessante e que dá o título ao livro, quase não aparece, tem apenas o primeiro capítulo para chamar de seu.

Quase uma perda de tempo, nota dois em uma escala de um a cinco.

Uma vida pequena, Hanya Yanagihara, 2015

Uma vida pequena, Hanya Yanagihara, 2015, 784 páginas, Record, tradução de Roberto Muggiati.

Um excelente livro. A história de quatro amigos desde quando se conhecem na faculdade até um pouco mais do que a maturidade. O livro conta um pouco de cada um dos quatro, mas se concentra mesmo na história da vida de Jude St. Francis. A infância e a juventude de Jude foram terríveis, abusado sexualmente em um mosteiro e em um orfanato. A história é bem escrita, sem melodrama, e prende o leitor, eu devorei as setecentas e tantas páginas.

Como falha, penso que o extremo sucesso profissional dos quatro é irreal, todos, em algum momento, se tornam ricos e viajados, possuem diversos imóveis em diferentes países. Irreal. Não é uma vida pequena, embora toda vida seja pequena. Outra falha é uma certa repetição das situações em que Jude não aceita qualquer tipo de auxílio com suas dificuldades, como foi também apontado por Taize Odelli em seu blog. Não gostei, também, de certas mortes em acidente de automóvel. É muito fácil, penso, matar um personagem em acidente de automóvel. Franzen fez isso em um de seus livros e não gostei também.

Eu gostaria, ainda, que a autora tivesse explorado mais o personagem JB, fascinante e controverso, mas que fica à margem da história de Jude. JB e Jude são os melhores personagens, enquanto Willem e Malcolm são aguados. Vale muito a pena ler este livro.

A falsificação de Vênus, Michael Gruber, 2008

A falsificação de Vênus, Michael Gruber, 2008, 365 páginas, tradução de Beatriz Horta.

Encontrei esse livro em uma pilha de livros usados, promoção a dez reais. A capa, um pouco confusa, misturava Velázquez e um dos quadros dele, mas, mesmo assim, me fez pegar o volume. Gostei bastante do livro e da história, intrigante, mas não gostei do final. De início, a história conta de um talentoso pintor de Nova York que se mal sustenta com pequenos trabalhos de ilustração para revistas. O pintor recebe uma encomenda para refazer um teto de um palácio em Veneza. Ao mesmo tempo, o pintor tem visões, ou momentos de ausência, em que se vê como Velázquez, pintando e vivendo na corte espanhola do século xvii. Em outros momentos, o pintor pobre acorda e se vê como um pintor famoso e rico em Nova York. A história também trata com bastante verossimilhança da falsificação de quadros. É um enredo interessante e prende o leitor. Entretanto, o final indefinido, a falta de clareza sobre “o que é a verdade” estraga o prazer da leitura, na minha opinião.

Elena Ferrante

Elena Ferrante. 1) A amiga genial, 331 páginas. 2) História do novo sobrenome, 470 páginas. 3) História de quem foge e de quem fica, 416 páginas. 4) História da menina perdida, 480 páginas. Tradução: Maurício Santana Dias.

Deixei para falar de Elena Ferrante quando terminasse de ler a tetralogia napolitana. Muito já se escreveu sobre esses livros de Ferrante, vou ser breve, então. Leia logo, vale a pena. O leitor não consegue parar de ler depois que começa. No quarto volume, a própria Ferrante define o que faz com que seus livros sejam tão deliciosos: ela tem o prazer de narrar. Nada de subterfúgios, técnicas pós-modernas, malabarismos. Ferrante conta uma bela história do começo ao fim, de forma direta e apaixonante. A história da amizade e de certo ódio mútuo entre duas amigas, da infância até a velhice. É uma história de fôlego, observe a quantidade de páginas total e por volume. De todo modo, penso que no quarto volume a autora acelera a história. Mesmo assim, excelente leitura, muitos momentos de prazer literário que Ferrante nos oferece. Leia, leia, é muito bom.